Bárbara Bandeira - Onde Vais (feat. Carminho)



  Onde vais

  Que se eu fico daqui tu não sais

  Vai acabar sempre por doer mais

  E já nem isso eu posso mudar.


Não sei quanto tempo demora a esquecer a solidão

Que tu deixaste à minha porta ao levares o meu coração

Escondes o que queres dizer só pelo medo de me ver sofrer

Mas não dá.


Nada nos une só nos mantém e tudo muda

Nós mudámos também

Talvez o amor seja assim

Mas tudo o que eu quis para mim já não há. Ref:


Diz-me se vais ou não vais

Nem sei se ligo ou deixo passar

Espero que seja o tempo a curar

Que já nem isso eu posso mudar

Acorda-me quando acabar.


O tempo que passou por mim

Fez calar a minha voz

Foi contigo que aprendi

O que é amar alguém a sós

Sonhos que desperdicei

As canções que eu não cantei por ficar.


Nada nos une só nos mantém e tudo muda

Nós mudámos também

Talvez o amor seja assim

Mas tudo o que eu quis para mim já não há. Ref:


Diz-me se vais ou não vais

Nem sei se ligo ou deixo passar

Espero que seja o tempo a curar

Que já nem isso eu posso mudar

Acorda-me quando acabar.


Mas se esta canção foi feita p’ra ti

Talvez isso mude o que ainda não vivi.


Então diz-me se vais ou não vais

Nem sei se ligo ou deixo passar

E espero que seja o tempo a curar

Que já nem isso eu posso mudar.


Acorda-me quando acabar.


      Quando o coração cai dentro da alma e, ali, a matéria e o espírito geram um tempo de Amor maior. Muito belo!


Robert Zünd - Clearance in an Oak Forest, 1882



      It presents a majestic woodland bathed in natural light. Towering oak trees dominate the composition, their intricate branches and foliage rendered with remarkable precision. Sunlight filters through the dense canopy, illuminating the richly detailed undergrowth and creating a striking contrast between shadow and brightness. The absence of human activity (only quiet children and adults) enhances the forest’s peaceful, almost timeless character. Zünd combines Realist observation with Romantic grandeur, transforming an ordinary Swiss landscape into an immersive celebration of nature.


Juan Bello Sánchez - Uma escuridão / Una oscuridad

 


Cai sobre nós

como faria um homem faminto

sobre um prato de sopa quente,

uma noite de inverno.

Tudo se move para onde tem de ser,

mudança nenhuma

é demasiado profunda.


Devíamos prestar mais atenção,

ser mais cuidadosos,

o tempo dobra-se sobre si mesmo

e o que aconteceu,

algo de que julgávamos

que estávamos livres,

podia estar à beira de acontecer de novo,

pela primeira vez.


  Tradução de A.M.


  Original:


Cae sobre nosotros

como lo haría un hombre hambriento

sobre un plato de sopa caliente,

una noche de invierno.

Todo se mueve hacia donde tiene que moverse,

ningún cambio

es un cambio demasiado profundo.


Deberíamos prestar más atención,

deberíamos ser más cuidadosos,

el tiempo se pliega sobre sí mismo

y lo que ocurrió,

algo de lo que creíamos

que nos habíamos librado,

podría estar a punto de ocurrir de nuevo,

por primera vez.


      O poema apresenta a escuridão como metáfora de um recomeço não esperado na vida humana. A noite (velhice?) surge de forma quase física, avançando sobre «nós» com força inevitável. O movimento das coisas parece obedecer a uma ordem prévia, enquanto o tempo se dobra. O poema transmite, assim, uma inquietação discreta: aquilo que julgávamos ultrapassado pode regressar inesperadamente. A linguagem simples e quotidiana reforça o carácter filosófico da reflexão sobre memória, tempo e destino.


Bohemian Rhapsody



      "Sunset in Verbania. We were rehearsing 'Bohemian Rhapsody' by The Queen and suddenly, the streetlights came on... perfectly in time with the music. It was just a rehearsal, but for a moment, it felt like the whole city was magically playing with us." God blessed those feet!


Charles Burton Barber (British painter, 1845–1894) - Only a shower, 1884



      The painting presents a charming domestic scene interrupted by a sudden summer rain. A young girl and her faithful dogs appear indoors, seeking shelter. Barber’s characteristic tenderness towards children and animals is evident in their expressive poses and affectionate companionship. The fleeting shower contrasts with the peaceful setting, transforming an ordinary moment into a gentle, picturesque narrative.


Álamo Oliveira - Lua de ganga

 


quando te via

na ganga azul do teu fato

embandeirava-me de ternura

e propunha despir-te como

se lua fosses ou nada


tocava

com a ponta dos dedos

o poema do teu corpo


era azul mas eu morria de medo


      O poema transforma o desejo amoroso numa imagem simultaneamente quotidiana e poética. A ganga azul do vestuário aproxima a pessoa amada da lua, criando uma associação entre intimidade, beleza e idealização. O eu poético revela ternura e vontade de aproximação, mas também hesitação e receio. O corpo é metaforicamente apresentado como um «poema», sugerindo que amar implica descobrir e interpretar o outro. O contraste entre o azul e o medo confere ao poema uma delicada tensão emocional.


Legiana Collective - El Fandanguito



Señores que son es este, señores el fandanguito

La primera vez que lo oigo y válgame Dios que bonito

Señores que son es este, señores el fandanguito

Hiza la vela, hiza la vela, hiza la vela, 

Golpe de mar, golpe de mar, barquito de vela

Dile a mi bien para donde me lleva

Si para España o para otra tierra

Por navegar, por navegar mar para fuera.


No Me oyeras decir que yo me pesaré molto

No dudes que si acierto ya no puedo vivir

Entonces oirás decir murió el rey de los amores

Me va a enterrar ya no llores

Entonces Oirás decir murió el rey de los amores

Me van a enterrar no llores que voy a descansar

No dejes nunca de regar sobre mi tumba mis flores.


       El Fandanguito is a traditional Son Jarocho from Tlacotalpan, Veracruz, Mexico. It took me a while to realize that they were not Mexicans, but the whole spirit it was. This is very strange, apart from the lyrics, there is nothing from 'el Fandanguito'. Many reasons to mirror beauty.

Charles Edward Perugini - The Ramparts, Walmer Castle; Portraits of the Countess Granville, and the Ladies Victoria and Mary Leveson-Gower, 1891





      The painting presents an elegant Victorian scene. Set against the historic architecture of Walmer Castle (only in the title), the painting combines aristocratic portraiture with a picturesque outdoor setting. The figures are dressed in fashionable, refined clothing, their graceful poses conveying both intimacy and social distinction. Perugini’s delicate handling of colour, light and texture creates a serene atmosphere, while the hidden castle walls provide a dignified historical backdrop to the composition.


Casa na Chuva - Eugénio de Andrade

 


A chuva, outra vez sobre as oliveiras.

Não sei por que voltou esta tarde

se minha mãe já se foi embora,

já não vem à varanda para a ver cair,

já não levanta os olhos da costura

para perguntar: Ouves?

Oiço, mãe, é outra vez a chuva,

a chuva sobre o teu rosto.


    in, Escrita da Terra, 1974


      O poema expressa a intimidade e a solidão do poeta, que encontra refúgio na casa materna durante um tempo de chuva. A lembrança da mãe a costurar e a ouvir a chuva é bela e triste. A minha mãe que-Deus-tem também sentia a chuva, assim.

 


Eternamente Exausto - Vinicius de Moraes | Júlia Sonati

 


      A conclusão central do poema "Ausência" de Vinícius de Moraes é um profundo paradoxo sobre a natureza do amor: a verdadeira posse não reside na presença física ou na união carnal, mas sim na capacidade de idealização e na aceitação da ausência. O eu lírico, sentindo-se "eternamente exausto" e incapaz de oferecer um amor convencional sem contaminá-lo com as suas mágoas passadas, opta pela renúncia. Ele eleva o sentimento a um plano estético e espiritual, onde a pessoa amada se torna uma fonte de "fé" e inspiração que ameniza sua existência marcada.


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada

Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.

Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


      No desfecho, a solidão não é vista como uma derrota, mas como uma condição necessária para uma forma superior de união. Ao abrir mão da realidade compartilhada e aceitar que a amada viverá outros amores, o poeta absorve a essência dela através do universo — o mar, os céus e as estrelas. Essa abstração permite que ele a "possua mais do que ninguém", pois transforma a voz ausente na voz presente e eternamente serenizada da sua própria alma, garantindo que o amor sobreviva e se eternize precisamente porque não foi consumado.

      José Meireles


Marianne von Werefkin - Man with Flock of Sheep



      Marianne von Werefkin’s Man with Flock of Sheep presents a solitary shepherd guiding his animals through a rural landscape. Painted in an expressive, simplified manner, the scene relies on strong contours, vivid contrasts and stylised forms rather than naturalistic detail. The sheep form a rhythmic group across the landscape, while the human figure appears integrated with his surroundings. Darker tones and dramatic shapes lend the composition a contemplative, slightly melancholic atmosphere. The work reflects Werefkin’s interest in transforming everyday rural life through Expressionist intensity and symbolism.


Manuel Moya / Violeta C. Rangel - Poética final

 


Se não sentes que teus pés

levantam o pó de todos caminhos,

se não sabes que te afundas e contigo vai o mundo,

se não mordes, se não escutas

o rasgar das térmitas,

se te escondes, se vais atrás

do aplauso dos palermas,

se ao passar essas portas

baixas a cabeça ou pedes caramelos ou desculpas,

se já no matadouro te resignas

e não te cagas cem mil vezes nos seus mortos,

 

para que porra escreves,

a quem queres servir,

a quem pretendes enganar?

 

  Tradução de A.M.


  Original:


Si no sientes que tus pies

levantan el polvo de todos los caminos,

si no sabes que te hundes y contigo el mundo,

si no muerdes, si no escuchas

el rasgar de las termitas,

si te escondes, si corres al aplauso de los gilis,

si al pasar por esas puertas

agachas la cabeza o pides caramelos o disculpas,

si ya en el matadero te resignas

y no te cagas cien mil veces en sus muertos,

 

para qué coño escribes,

a quién quieres servir,

a quién pretendes enganar?


      «Poética final», de Manuel Moya, através da heterónima Violeta C. Rangel, apresenta uma reflexão sobre o próprio ato de escrever e sobre os limites da poesia. O poema assume um tom de balanço e despedida, sugerindo que a palavra poética nasce da experiência, mas também da consciência da sua insuficiência. O título reforça essa dimensão conclusiva: escrever torna-se uma forma de enfrentar o tempo, a perda e o inevitável fim.


Alex Amen - Peaches




If you don't want my lovin’ honey stay away from me

If you don't want my peaches honey don't you shake my tree

Shake my tree let my peaches be

If you don't want my lovin’ stay away from me.


Wake up in the early morning and my heart is full of pain

Wake up in the early morning honey babe I call your name

Call your name I call your name

Laying in morning listening to the rain.


Think of all the times together think on words that you once said

How you sang into my heart and whispered dreams into my head

But you blocked me out, shut me down, closed the door

I walk the floor

Can't call your phone

Left me alone

It's all wrong

Your love is gone.


Someday when the sun is rising you'll wake up, I'll be gone

You'll look up through your big brass window and think about how you was wrong

You was wrong, you was wrong

You said you'd be mine forever and you was wrong

If you don't want my lovin’ honey stay away from me

If you don't want my peaches honey don't you shake my tree

Shake my tree let my peaches be

If you don't want my lovin’ stay away from me.


      Alex Amen is a twenty-five-year-old artist and songwriter from Texas.


Charles Edward Perugini (Italian-born English painter, 1839-1918) - Choosing a nosegay



      The painting presents an elegant young woman selecting flowers from a richly arranged nosegay. Dressed in a refined white gown, she bends attentively towards the blossoms, her delicate posture conveying grace and quiet concentration. Perugini surrounds her with luxuriant flowers, creating a harmonious dialogue between feminine beauty and nature. The carefully rendered details and serene mood reflect the Victorian fascination with elegance, refinement and domestic beauty.


Adam Zagajewski - Os meus mestres

 


Os meus mestres não são infalíveis.

Não se trata de Goethe, que só conseguia

adormecer quando ao longe

gemiam os vulcões, nem de Horácio,

que escrevia na língua dos deuses

e dos sacerdotes. Os meus mestres

pedem-me conselhos. Vestindo macios

sobretudos deitados velozmente

por cima dos sonhos, ao romper dia, quando o vento

fresco interroga os pássaros, os meus

mestres falam por sussurros.

Consigo ouvir a sua voz trêmula.


      O poema apresenta os mestres não como figuras perfeitas e distantes, mas como presenças frágeis, humanas e silenciosas. Em contraste com Goethe e Horácio, símbolos da grandeza literária, os verdadeiros mestres do sujeito poético pedem-lhe conselhos e comunicam através de sussurros. A imagem dos sobretudos sobre os sonhos e do vento que interroga os pássaros cria uma atmosfera de delicadeza e mistério. A sua voz trémula sugere que a sabedoria nasce também da dúvida, da vulnerabilidade e da escuta atenta.


A Cor que Ficou — Canção Oficial do livro "A Última Cor do Mundo" de Maria Clara Lopes de Almeida

 


Quando o dia amanheceu o mundo deixou de ter cor

As montanhas perderam o verde, nem o vento trouxe flor

Dizem que existe uma pena azul guardada no coração da mata

À espera que alguém descubra a última cor que ainda canta.


Longe e onde a água ainda canta e a floresta

Nunca deixou de sonhar.


Há uma cor que ninguém levou dorme no coração da mata

Enquanto houver quem saiba amar a vida há-de voltar

Se escutares o vento chamar talvez encontres o caminho

Porque a última cor do mundo ainda vive bem devagar.


Entre árvores muito antigas onde o tempo sabe esperar

Viviam mãos sem violência e olhos capazes de escutar

Nem o ouro nem as fronteiras lhes ensinaram ambição

Só o nome das águas claras e a voz do coração.


Depois veio o silêncio, a aldeia adormeceu

Mas uma pena azul continuou a pintar o céu.

Há uma cor que nunca morreu, nem quando o mundo escureceu

Viaja escondida na luz de um olhar que ainda sabe ver


E quando tudo parecia perdido

Foi Irapuã quem guardou a última cor do mundo.


      A canção é da autoria de R. Grant de Vasconcelos, inspirada no livro "A Última Cor do Mundo", de Maria Clara Lopes de Almeida.


Menci Clement Crnčić




      Menci Clement Crnčić (1865-1930) was a Croatian painter, printmaker, teacher and museum director. He is among the founders of modern Croatian painting, contributing greatly to its development. He promoted landscape painting, mainly seascapes, using light, colour, and soft strokes in an impressionist style. He was the founder of modern Croatian graphic art and played an important role in teaching several generations of Croatian painters. Here, we can see two examples of his art.

 

Ana Martins Marques - As casas pertencem aos vizinhos

 


As casas pertencem aos vizinhos

os países aos estrangeiros

os filhos são das mulheres

que não quiseram filhos

as viagens são daqueles

que nunca deixaram a sua aldeia

como as fotografias por direito pertencem

aos que não saíram na fotografia


— é dos solitários, o amor.


      O poema constrói-se a partir de associações paradoxais sobre a ideia de pertença. As casas, os países, os filhos, as viagens e as fotografias parecem pertencer precisamente a quem deles está afastado. Esta inversão cria uma reflexão sobre o desejo, a ausência e a distância entre possuir e experimentar. A repetição da estrutura sintática dá ritmo e reforça o efeito de estranheza. No verso final, a solidão surge como condição paradoxal do amor, revelando que aquilo que se deseja pode pertencer sobretudo a quem dele está privado. A pintura é de Edvard Munch, Two Human Beings (The Lonely Ones).


Brian May - Love Of My Life



Love of my life, you've hurt me,

You've broken my heart and now you leave me.

Love of my life can't you see,

Bring it back, bring it back,

Don't take it away from me

because you don't know what it means to me.


Love of my life, don't leave me,

You've taken my love, you now desert me,

Love of my life, can't you see?

Bring it back, bring it back,

Don't take it away from me

because you don't know what it means to me.


You will remember

When this is blown over

And everything's all by the way

When I grow older

I will be there at your side

to remind you how I still love you, I still love you.

 

      According to John Reid, Freddie Mercury wrote "Love of My Life" about David Minns. Minns was a man that Freddie was having an affair with behind Mary Austin's back between 1975 and 1978.


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