Durante muitos anos, muita vez
me lembrei de ti, ou da tua imagem,
para ser mais exacto, pois daquilo
que em tempos amámos fica-nos só
(tal como de um livro) uma muito vaga
impressão geral e um que outro pormenor.
E muita vez também me perguntei,
procurando na névoa da lembrança
não sei se uma resposta, o que deixaste tu
em mim que seja ainda meu,
e se não foi o amor, o meu amor por ti
e não tu própria, o que me importa ainda
e o que procuro eu ainda ao recordar-te.
Se a nossa vida arde, somos nós chama
ou antes aquilo que se queima e é cinza?
Nessa desmesura que é o tempo
acham sua razão o amor e o esquecimento,
mas não a sua medida. Ao recordar-te,
compreendo-o tão bem, que pouco importa
saber ou não saber, mas tão só
sentir que foste parte de mim mesmo,
que estás dentro de mim, como os meus sonhos,
que são e não são eu, mas em mim nascem,
que já nunca de mim te apagarás,
e que, queira eu ou não queira o esquecimento,
hás-de ir vivendo sempre com a minha vida.
Que estranha sensação, essa certeza.
Tradução de A.M.
Original:
Durante muchos años, a menudo
me he acordado de ti, o de tu imagen,
para ser más exacto, pues de aquello
que amamos una vez sólo nos queda
(al igual que de un libro) una muy vaga
impresión general y alguna anécdota.
Y a menudo también me he preguntado,
buscando entre la niebla del recuerdo
no sé si una respuesta, qué dejaste
en mí que sea mío todavía
y si no fue el amor, mi amor por ti
y no tú misma, aquello que aún me importa
y lo que busco aún al recordarte.
Si arde nuestra vida, ¿somos llama
o aquello que se quema y es ceniza?
En esa desmesura que es el tiempo
encuentran su razón amor y olvido,
pero no su medida. Al recordarte,
lo comprendo tan bien, que importa poco
saber o no saber, sino tan sólo
sentir que fuiste parte de mí mismo,
que dentro de mí estás, como mis sueños,
que son y no son yo, pero en mí nacen,
que ya nunca de mí podrás borrarte
y que, quiera o no quiera yo el olvido,
has de seguir viviendo con mi vida.
Qué extraña sensación esa certeza.
O poema explora a persistência da memória amorosa perante a
erosão do tempo. O sujeito poético questiona se o que permanece é a pessoa
amada ou o próprio sentimento vivido, concluindo que ambos se fundem na
identidade. A oposição entre chama e cinza simboliza transformação e perda. Com
linguagem sóbria, meditativa e intimista, o poema revela que certas presenças
sobrevivem ao esquecimento, tornando-se parte indelével do ser.