Duo Medieval (Uli Kontu-Korhonen and Anneliina Rif) perfoms the medieval round "Sumer is icumen in".



 


      "Sumer is icumen in" is the incipit of a medieval English round or rota of the mid-13th century; it is also known variously as the Summer Canon and the Cuckoo Song.

      The line translates approximately to "Summer has come" or "Summer has arrived". The song is written in the Wessex dialect of Middle English. Although the composer's identity is unknown today, it may have been W. de Wycombe or a monk at Reading Abbey, John of Fornsete [Wikidata]. The manuscript in which it is preserved was copied between 1261 and 1264.

                 in, Wikipedia


Martin Sijbesma, Dutch, born 1968 - Ytsje reading a map



      This is so beautiful. Sunlight shines gently and lands on her chest, map and the car hood. She is framed by the open door. This soft, natural light falls across her face and hands, highlighting delicate features and creating gentle contrasts with the muted background. The composition feels intimate and calm, with subdued earth tones lending warmth and restraint. Sijbesma’s brushwork balances realism and atmosphere, emphasizing mood over detail. The painting suggests themes of curiosity, journey, and introspection within an everyday scene.


Golgona Anghel - Olhe, preciso de dinheiro

 


Olhe, preciso de dinheiro.

Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio.

Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões.

Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.

A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas.

Já não tenho paciência.

Com esta idade, já viu o que é.

Sujeitar-se a todos os labregos.

Já tentei noutros bancos, sim.

Pedi também aos meus pais, é verdade;

disse-lhes que era para me casar.

Não, não tenho casa, nem automóvel.

Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo.

O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado.

É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal,

mas anda a mil.

E adiantado, não pode pagar nada como entrada?

Entrada, não sei.

Só se for o coração.


Coletivo Capela - Ó minha Rosinha



Ó minha Rosinha eu hei-de te amar

De dia ao sol, de noite ao luar.

De noite ao luar, de noite ao luar,

Ó minha Rosinha eu hei-de te amar.


Ó minha Rosinha eu hei-de ir, hei-de ir

Jurar a verdade que eu não sei mentir

Que eu não sei mentir, que eu não sei mentir

Ó minha Rosinha eu hei-de ir, hei-de ir.


Ó minha Rosinha bailaste, bailei

Bailaste no adro que eu bem te mirei 

Que eu bem te mirei, que eu bem te mirei

Ó minha Rosinha bailaste, bailei.


Ai! Oh ai - ó ai ó la rai!

Ai! Oh ai - ó ai ó la rai!


      A melodia "Ó minha Rosinha" tem as suas raízes no folclore português, especificamente na região do Minho. É uma canção tradicional popular, frequentemente interpretada por ranchos folclóricos da região de Viana do Castelo. É considerada uma "moda de baile", com uma melodia típica que passa de geração em geração.


Alexander Litovchenko - Charon, 1861



      In the Greek mythology, Charon was the son of Erebus and Nyx (Night), whose duty it was to ferry over the Rivers Styx and Acheron those souls of the deceased who had received the rites of burial. In payment he received the coin that was placed in the mouth of the corpse.


António Gedeão - Poema das Coisas Belas

 


"As coisas belas,

as que deixam cicatrizes na memória dos homens,

por que motivo serão belas?

E belas, para quê?


Põe-se o sol porque o seu movimento é relativo.

Derrama cores porque os meus olhos vêem.

Mas por que será belo o pôr do Sol?

E belo, para quê?


Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,

mas só são coisas quando coisas percebidas,

por que direi das coisas que são belas?

E belas, para quê?


Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas

sem precisarem de ser coisas percebidas,

para quem serão belas essas coisas?

E belas, para quê"


      Com linguagem sensível, o eu lírico convida o leitor a olhar o mundo com mais atenção e gratidão. Através dessa contemplação, revela-se que a verdadeira beleza não está no extraordinário, mas no que é comum e autêntico. São belas para quê? Para através do mistério podermos compreender a possibilidade de Deus existir.


Joe Cocker & Jennifer Warnes - Up Where We Belong



Who knows what tomorrow brings

in a world few hearts survive?

All I know is the way I feel

when it's real, I keep it alive.

The road is long,

there are mountains in our way

but we climb a step every day.


Love lift us up where we belong,

where the eagles cry on a mountain high

Love lift us up where we belong

far from the world below

up where the clear winds blow.


Some hang on to used to be

live their lives looking behind

All we have is here and now

all our lives, out there to find.

The road is long

there are mountains in our way

but we climb a step every day.


Time goes by no time to cry

life's you and I alive today.


      Joe put everything into every performance. What an amazing talent he was. Our generation was blessed with talent and class. Speechless.


Maria do Rosário Pedreira - Nada me pertenceu

 


Nada me pertenceu - nem o vestido indecente

que pedi emprestado para te oferecer os seios, nem

os seios, que eram já teus muito antes do vestido.


O sorriso que devassou brevemente o meu rosto não

me pertenceu; porque ninguém o viu antes de ti,

nem o espelho se convenceu a devolver-mo.


Todas as coisas que a casa guardou quando partiste não

me pertenceram; porque, ao tocar-lhe nos dias mais

cinzentos, sinto que é pelo calor dos teus dedos que ainda

gritam; e mesmo a cama onde só o teu corpo era bem-vindo

nunca chegou a ser inteiramente minha, pois, de contrário,

encontraria nela o meu lugar, e não o teu vazio.


Tu não me pertenceste - e, se uma vez acreditei que

acontecias dentro do meu corpo, das outras vi-te abraçar a

solidão com tanto ardor que concluí ser a memória quem

te mantinha vivo. O meu coração, contudo, sempre


te pertenceu - e a mão desesperada que o procura não

sente bater longe do teu peito. E mesmo os poemas todos

que escrevi não me pertenceram, porque essa vida

que pulsava no papel levaste-a tu contigo na hora

em que te foste - e a que tenho agora é mais

branca e vazia do que a morte, não é vida nem nada


que eu queira alguma vez que me pertença.


     A tela é de Cinta Vidal.


Eugénio de Andrade

 


Há um lugar na mesa onde a luz

abdicou do seu ofício.

Já foi do sol

e do trigo esse lugar - agora

por mais que escutes, não voltarás

a ouvir a voz de quem,

há muitos anos, era a delicadeza

da terra a falar: "Não sujes

a toalha"; "Não comes a maçã?"

Também já não há quem se debruce

na janela para sentir

o corpo atravessado pela manhã.

Talvez só um ou outro verso

consiga juntar no seu ritmo

luz, voz, maçã.


Andrea Kowch - Will the sunflower turn to us, 1986



      Andrea Kowch has been described as "a powerful voice emerging, demonstrating a highly sensitive consciousness that informs a culturally-laced symbolism." Born in Detroit, Michigan in 1986, her paintings and works on paper are rich in mood, allegory, and precision of medium, reflecting a wealth of influences from Northern Renaissance and American art to the rural landscapes and vernacular architecture of her native Michigan.

      In the painting three bees are seduced by the coffee fragrance: one died, the sunflowers died and the barn is also too old. The lady knows that "the time takes its tools on us all." 


Roma Antiga



      A história de Roma, iniciou-se em 753 a.C. como um pequeno povoado no rio Tibre, evoluiu de uma monarquia para uma república expansiva e, finalmente, para um vasto Império que dominou o Mediterrâneo, antes de cair em 476 d.C. Fundada segundo a lenda por Rômulo e Remo, a cidade tornou-se o berço da civilização ocidental, influenciando o direito, a política e a cultura europeia.

Ferdinand Georg Waldmüller - Belauschte Liebesleute, 1858



      A obra retrata um jovem casal que se abraça e se beija junto a uma porta. A jovem usa um lenço vermelho na cabeça e uma saia azul-escura, enquanto o homem veste uma camisa clara e calças escuras. Uma mulher mais velha espia pela porta, aparentemente surpresa com a intimidade do casal. A cena tem um ar rural e rústico, com vista para a vegetação além da porta. A pintura é caracterizada por detalhes realistas e uma luz natural e quente. A pintura está exposta no Museu Georg Schäfer em Schweinfurt, Alemanha.

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Yvette Centeno – Restaurante



Leva-me outra vez para a mesma mesa

onde fico de costas para a janela

onde o tempo me esquece

onde nada me toca

o teu gesto protege

o teu corpo separa

a água que me dás

interrompe a memória.


Só à porta da rua

o tempo reaparece.


Diogo Vaz Pinto - Guardei o recibo

 


Guardei o recibo, que não serve para nada.

Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6,35

- pediste uma água mineral, um café

e uma sandes de ovo (em que não tocaste);

pagámos caro por estarmos ali os dois,

na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira

só para dizer uma palavra. Tudo

processado por computador, IVA incluído.

Uma operação que teve início precisamente

às 04.55 da madrugada. Agora

temos muito tempo para nos contentarmos

por já não termos que disputar as contas,

tu pagas os teus cafés, e eu sem ti

passo bem sem café.

 

      A pulp poetry moderna, da qual Leonard Cohen aconselhava há alguns anos atrás na canção Field Commander Cohen: "Leave it all and like a man, come back to nothing special, such as waiting rooms and ticket lines, silver bullet suicides, and messianic ocean tides, and racial roller-coaster rides and other forms of boredom advertised as poetry." Se a poesia de cordel criar beleza, mesmo por pouco tempo, que viva até morrer.


Coletivo Capela - Cantiga do Linho



De onde vens Maria

Ó meu amorzinho?

Venho da ribeira

De ver o meu linho.


Veste Maria, ó ai!

Saia de linho, ó ai!

Que lindo pano, ó ai!

Todo branquinho.


Se ele está maduro

Tirem-lhe a baganha

Leva-o ao rio

Depois à montanha.


Onde vais Maria

Por esse caminho?

Vou para a montanha

Apanhar o linho.


      O Coletivo Capela é um grupo familiar, cujo nome, deve a José Manuel Rodrigues Capela (1938-2017), o ancião da família Capela que nasceu na Galafura do Douro.


Peter Ilsted (Danish, 1861 – 1933) - In the garden door, 1913



      Quando se encontram obras que não conhecemos deste pintou ficamos sempre admirados. Cada quadro tem um mistério que nos perdura dentro durante muito tempo. Peter Vilhelm Ilsted foi um pintor dinamarquês importante, que depois da sua irmã ter casado com Vilhelm Hammershøi, Ilsted foi muito influenciado pelo estilo artístico deste último. Ele é sobretudo conhecido pelos seus interiores belos.


Cecília Meireles - Viagem

 


Meus olhos eram mesmo água,

— te juro —

mexendo um brilho vidrado,

verde-claro, verde-escuro.


Fiz barquinhos de brinquedo,

— te juro —

fui botando todos eles

naquele rio tão puro.


Veio vindo a ventania,

— te juro —

as águas mudam seu brilho,

quando o tempo anda inseguro.


Quando as águas escurecem,

— te juro —

todos os barcos se perdem,

entre o passado e o futuro.


São dois rios os meus olhos,

— te juro —

noite e dia correm, correm,

mas não acho o que procuro.


      O poema apresenta uma reflexão lírica sobre o percurso interior e espiritual do ser humano. A viagem sugerida não é apenas física, mas simbólica, marcada pela busca de sentido, pela solidão e pela transitoriedade da vida. Com linguagem musical, delicada e introspetiva, o eu lírico percorre paisagens que refletem estados da alma. O tempo surge como elemento fluido, e a existência revela-se efémera.


Southern Raised - Grandpa (Tell Me About The Good Old Days)



Grandpa, tell me 'bout the good old days

Sometimes it feels like this world's gone crazy

Grandpa, take me back to yesterday

When the line between right and wrong

Didn't seem so hazy.


Did lovers really fall in love to stay

And stand beside each other, come what may?

Was a promise really something people kept

Not just something they would say and then forget

Did families really bow their heads to pray?

Did daddies really never go away?

Whoa, whoa, grandpa, tell me 'bout the good old days.


Grandpa, everything is changing fast

We call it progress, but I just don't know

And grandpa, let's wander back into the past

Then paint me the picture

of long ago.


      Do we acept modern times as sinful and put all virtues in the past? Dylan has sung "the times were a-changing", sometimes for good, other times for evil. Let's fight for the quality of our families. Nice song.


Ana Paula Inácio - deixa o tempo fazer o resto

 


deixa o tempo fazer o resto

fechar janelas

aplacar os barcos

recolher os víveres

semear a sorte

acender o fogo

esperar a ceia


abre as portas: lê a luz

a sombra, a arte do passarinheiro


com três paus

fazes uma canoa

com quatro tens um verso,

deixa o tempo fazer o resto.


Charles Sillem Lidderdale - Forbidden fruit



      The painting shows us a young ragged girl in a quiet inner moment, delicately holding a doll looking to an unripe apple. What does she hold behind in her right hand? Her contemplative gaze and gentle posture suggest inner conflict between innocence and desire. The painting captures a moment of introspection, blending beauty, symbolism, and restrained emotion within a refined narrative scene.


Carl Larsson - Kersti's Birthday, 1909

 


      The present painting records the thirteenth birthday celebration of Larsson's daughter Kersti, who is seated at the right-hand side of the picture. The party took place in Larsson's garden and Karin, the Artist's wife, has dressed Kertsi and all of the other girls in the 'Sundborn' dress, which she had designed specifically for the Children's Day celebrations in the neighbouring town of Falun. The day is recorded in an entry of Carl's diary and in a letter from Karin to her mother which reads, "I am sitting here and sewing as much as I can do to be able to get the girls ready for the parade on 'Children's Day'"

      In the painting, there is a sense of the pride that Carl Larsson held for his wife's work and the home that she had created and which also served as a basis for the majority of the artist's work. Larsson's decision to paint his child and her friends, is coupled with his need to communicate his message that, " A home is not a lifeless object, but a living entity and like everything that is alive, it must obey the law of life; it must keep changing from moment to moment"


Coral de Ruada - Foliada da Rabeda

 


A lúa vai polo aire, o sol pela carretera

meu cariño polo teu el suspira na noite enteira.


Se vas a Allariz polo Cumial 

verás Taboadela no fondo do val

No fondo do val, do val da Rabeda 

Que non hai no mundo 

que non hai no mundo terriña como ela.


Tres cousas hai en Ourense, que as envidia o mundo enteiro:

rexos homes, ledas mozas e bom viño do Ribeiro.


Na túa porta meniña, meninhã na túa porta

na túa porta meniña calquera carro da a volta.


David Teniers the Younger - The Gallant Drinker



      It captures a lively tavern scene filled with warmth and earthy humour. A finely dressed gentleman raises his glass with theatrical flourish, his flushed face and relaxed posture suggesting cheerful intoxication. Rich browns and golden highlights create an intimate atmosphere, while carefully rendered fabrics and tankards display Teniers’ technical finesse. The painting blends genre realism with subtle satire, celebrating convivial pleasure while gently mocking excess and fleeting indulgence in seventeenth-century Flemish society.


Matilde Rosa Araújo



Cortei uma rosa da roseira verde

no meu rosal

e, olhando a ausência da rosa, no tronco cheio de espinhos,

entendi um segredo muito lindo

e triste.

Queres que to conte, minha Irmã?


    in, O Livro da Tila



Maria Sousa - chegas de novo a casa

 


chegas de novo a casa

e guardas do tempo a fuga

marcas outra vez os dias

para abrir feridas


como se viesse dos pássaros a acusação

de não saberes medir esquecimentos


respiras até à dor para não sentires mais nada.

 

      Poema retirado do livro Exercícios para endurecimento de lágrimas, que nos descreve a inabilidade humana de lidar com a solidão.


Ana Salomé - A partir de agora

 


A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.

Todo o poema que não revolucione, fora.

Todo o poema que não ensine, fora.

Todo o poema que não salve vidas, fora.

Todo o poema que não se sobreviva, fora.

Vou deixar um anúncio no jornal:

Procura-se poeta. Trespasso-me.


    in, Criatura 4, da autora do blogue Pátio Alfacinha


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