Coro dos Anjos & Cantadeiras do Campo do Gerês - Baldia



      As Cantadeiras de Campo do Gerês são um grupo musical tradicional e polifónico que preserva e divulga as canções do Cancioneiro Geresiano, uma herança cultural que se mantém viva há décadas através do canto e a transmissão oral de geração em geração. O Coro dos Anjos é um coro do bairro dos Anjos (Lisboa) que trabalha a música de raiz portuguesa ancestral e dos novos tempos, abraçando criações próprias; com um forte cariz na intervenção social, ao mesmo tempo que tenta resgatar o espírito comunitário e a regeneração cultural através da música.  

      Sobre o conceito de baldio, o filósofo e professor da Universidade da Beira Interior André Barata sublinha:

      "𝘉𝘢𝘭𝘥𝘪𝘰 𝘦́ 𝘶𝘮𝘢 𝘱𝘢𝘭𝘢𝘷𝘳𝘢 𝘥𝘢𝘯𝘪𝘯𝘩𝘢. 𝘕𝘦𝘮 𝘱𝘶́𝘣𝘭𝘪𝘤𝘰 𝘯𝘦𝘮 𝘱𝘳𝘪𝘷𝘢𝘥𝘰, 𝘰 𝘣𝘢𝘭𝘥𝘪𝘰 𝘦́ 𝘴𝘰𝘣𝘳𝘦𝘷𝘪𝘷𝘦𝘯𝘵𝘦 𝘥𝘦 𝘶𝘮𝘢 𝘤𝘰𝘯𝘷𝘪𝘷𝘪𝘢𝘭𝘪𝘥𝘢𝘥𝘦 𝘱𝘳𝘦́-𝘮𝘰𝘥𝘦𝘳𝘯𝘢 𝘦 𝘪𝘯𝘴𝘱𝘪𝘳𝘢𝘤̧𝘢̃𝘰 𝘱𝘢𝘳𝘢 𝘶𝘮 𝘵𝘦𝘮𝘱𝘰 𝘦𝘮 𝘲𝘶𝘦 𝘫𝘢́ 𝘯𝘢̃𝘰 𝘴𝘢𝘣𝘦𝘮𝘰𝘴 𝘩𝘢𝘣𝘪𝘵𝘢𝘳 𝘯𝘦𝘮 𝘧𝘢𝘻𝘦𝘳 𝘭𝘶𝘨𝘢𝘳𝘦𝘴. 𝘔𝘢𝘪𝘴 𝘥𝘰 𝘲𝘶𝘦 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘪𝘵𝘰́𝘳𝘪𝘰, 𝘰 𝘣𝘢𝘭𝘥𝘪𝘰 𝘦́ 𝘳𝘦𝘭𝘢𝘤̧𝘢̃𝘰 𝘲𝘶𝘦 𝘴𝘦 𝘤𝘶𝘪𝘥𝘢 𝘦 𝘶𝘮 𝘤𝘶𝘪𝘥𝘢𝘳 𝘲𝘶𝘦 𝘳𝘦𝘴𝘪𝘴𝘵𝘦𝘯𝘢̃𝘰 𝘱𝘰𝘴𝘴𝘶𝘪𝘳, 𝘮𝘢𝘴 𝘱𝘢𝘳𝘵𝘪𝘤𝘪𝘱𝘢𝘳; 𝘯𝘢̃𝘰 𝘴𝘦 𝘢𝘱𝘳𝘰𝘱𝘳𝘪𝘢𝘳 𝘥𝘰 𝘭𝘶𝘨𝘢𝘳, 𝘮𝘢𝘴 𝘵𝘰𝘳𝘯𝘢𝘳-𝘴𝘦 𝘱𝘳𝘰́𝘱𝘳𝘪𝘰 𝘢 𝘦𝘭𝘦. 𝘜𝘮 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘪𝘵𝘰́𝘳𝘪𝘰 𝘭𝘪𝘨𝘢𝘥𝘰 𝘱𝘰𝘳 𝘨𝘦𝘯𝘵𝘦𝘴, 𝘩𝘢́𝘣𝘪𝘵𝘰𝘴, 𝘤𝘶𝘭𝘵𝘶𝘳𝘢, 𝘶𝘮𝘢 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘢-𝘤𝘰𝘮𝘶𝘯𝘪𝘥𝘢𝘥𝘦 𝘢𝘴𝘴𝘪𝘮 𝘦́ 𝘪𝘯𝘵𝘦𝘪𝘳𝘢. 𝘏𝘢𝘣𝘪𝘵𝘢𝘳 𝘵𝘦𝘮 𝘲𝘶𝘦 𝘷𝘦𝘳 𝘤𝘰𝘮 𝘩𝘢́𝘣𝘪𝘵𝘰𝘴, 𝘩𝘢́𝘣𝘪𝘵𝘰𝘴 𝘴𝘢̃𝘰 𝘤𝘰𝘮𝘱𝘰𝘳𝘵𝘢𝘮𝘦𝘯𝘵𝘰𝘴 𝘲𝘶𝘦 𝘴𝘦 𝘵𝘰𝘳𝘯𝘢𝘮 𝘨𝘦𝘴𝘵𝘰𝘴 𝘦 𝘲𝘶𝘦 𝘴𝘦 𝘧𝘰𝘳𝘮𝘢𝘮 𝘯𝘢 𝘳𝘦𝘱𝘦𝘵𝘪𝘤̧𝘢̃𝘰 𝘦 𝘲𝘶𝘦 𝘢 𝘤𝘶𝘭𝘵𝘶𝘳𝘢 𝘰𝘳𝘢𝘭 𝘨𝘶𝘢𝘳𝘥𝘢. 𝘌𝘴𝘴𝘦 𝘴𝘢𝘣𝘦𝘳 𝘤𝘰𝘮𝘶𝘮 𝘦́ 𝘥𝘰 𝘧𝘢𝘻𝘦𝘳 𝘦 𝘦́ 𝘥𝘰 𝘦𝘴𝘵𝘢𝘳. 𝘚𝘢̃𝘰 𝘤𝘢𝘯𝘤̧𝘰̃𝘦𝘴 𝘢 𝘱𝘢𝘴𝘴𝘢𝘳 𝘢 𝘣𝘢𝘭𝘥𝘪𝘢𝘨𝘦𝘮 𝘥𝘦 𝘷𝘰𝘻 𝘦𝘮 𝘷𝘰𝘻, 𝘥𝘦 𝘮𝘢̃𝘰 𝘦𝘮 𝘮𝘢̃𝘰. 𝘕𝘶𝘮 𝘱𝘢𝘪́𝘴 𝘲𝘶𝘦 𝘴𝘦 𝘥𝘦𝘴𝘱𝘰𝘷𝘰𝘢, 𝘰 𝘣𝘢𝘭𝘥𝘪𝘰 𝘳𝘦𝘢𝘣𝘳𝘦 𝘢 𝘱𝘰𝘴𝘴𝘪𝘣𝘪𝘭𝘪𝘥𝘢𝘥𝘦 𝘥𝘦𝘴𝘵𝘦 𝘣𝘰𝘮 𝘩𝘢𝘣𝘪𝘵𝘢𝘳 𝘲𝘶𝘦 𝘯𝘢̃𝘰 𝘦́ 𝘯𝘦𝘮 𝘰𝘤𝘶𝘱𝘢𝘳 𝘯𝘦𝘮 𝘤𝘰𝘯𝘲𝘶𝘪𝘴𝘵𝘢𝘳. 𝘙𝘦𝘣𝘢𝘭𝘥𝘪𝘢𝘳 𝘢𝘴 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘢𝘴, 𝘰𝘴 𝘭𝘶𝘨𝘢𝘳𝘦𝘴, 𝘢𝘴 𝘢𝘭𝘮𝘢𝘴 𝘦́ 𝘢 𝘮𝘢𝘯𝘦𝘪𝘳𝘢 𝘢𝘯𝘵𝘪𝘨𝘢 𝘥𝘦 𝘶𝘮𝘢 𝘪𝘥𝘦𝘪𝘢 𝘱𝘢𝘳𝘢 𝘰 𝘧𝘶𝘵𝘶𝘳𝘰."


Ai!

Se ao menos um dia o povo sentisse

Que a gente herda terra e a terra herda gente

Se ao menos pudesse ser assim baldia

Espalhada em rosas em dura teonia

Espalhada p’la rua, sem medo nem vão

Em cada pessoa a sentir-me chão.


Ir viver assim, baldia baldia

Se ao menos um dia, baldia baldia

Ir viver assim se ao menos um dia.


Não sou mãe de ninguém, mas sou tia de todos

Tempero o comer, ai!, com o sal dos choros

Vou venho e ocupo, semeio e faço feito

Zeladora guardo os meus nas covas do meu peito

Hei-de ser por mim, quero a vida verdadeira

Sou de todos de ninguém, da terra por inteira.


Ir viver assim, baldia baldia

Se ao menos um dia, baldia baldia

Ir viver assim se ao menos um dia.


Ir viver assim, baldia baldia

Se ao menos um dia já bem me valia


Ir viver assim, baldia baldia

A menos que um dia me seque a alegria.

Ai!


      "Baldia" vem cativar à consciência de que a terra deve pertencer a quem nela nasce, a ama e dela cuida e não a quem a conquista.


Anna Alma Tadema - Sir Lawrence Alma-Tadema's Study at Townshend House, 1884



      Anna Alma-Tadema’s painting is an exquisitely detailed watercolour depicting her father’s richly furnished study in the family’s London home. The room reflects the Victorian Aesthetic Movement, blending Dutch, Japanese, and other international influences through decorative objects, textiles, and furniture. Anna’s meticulous rendering captures textures, light, and architectural details with remarkable precision. More than a record of an interior, the painting serves as an intimate portrait of the artist’s creative environment and cultivated artistic taste.


Amalia Bautista - Nu de mulher

 


Nunca fui mais para ti do que um pedaço

de mármore, em que esculpiste o meu corpo,

um corpo de mulher branco e belo,

onde nunca viste mais do que pedra

e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.


Nunca imaginaste como eu te amava

e que estremecia quando, suave,

me moldavas os seios e os ombros,

ou me alisavas os músculos e o ventre.


Hoje estou num parque, onde sofro

os rigores do frio no Inverno

e ardo no Verão de tal modo

que nem mesmo os pardais me vêm

pousar nas mãos porque escaldam.


De tudo, porém, o que me dói mais

é baixar a cabeça e reparar na placa:

"Nu de mulher", como muitas outras.

Nem de me dar um nome te lembraste.


  Tradução de A.M.

  Original:


Para ti nunca fui más que un pedazo

de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,

un cuerpo de mujer blanco y hermoso,

en el que nunca viste más que piedra

y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.


Jamás imaginaste que te amaba

y que me estremecía cuando, dulce,

moldeabas mis senos y mis hombros,

o alisabas mis muslos y mi vientre.


Hoy estoy en un parque, donde sufro

los rigores del frío en el invierno,

y en verano me abraso de tal modo

que ni siquiera los gorriones vienen

a posarse en mis manos porque queman.


Pero, de todo, lo que más me duele

es bajar la cabeza y ver la placa:

"Desnudo de mujer", como otras muchas.

Ni de ponerme un nombre te acordaste.


      No poema, a voz poética é a de uma estátua feminina que ganha consciência e revela a sua dor. O escultor admirou apenas a beleza da obra e o mérito do seu trabalho, ignorando os sentimentos e a individualidade da figura representada. A crítica centra-se na objetificação da mulher, reduzida a um corpo anónimo. O verso final, ao lamentar a ausência de um nome, simboliza a perda de identidade e de reconhecimento humano.


Eanáir - Son Ar Chistr



Ev sistr ‘ta Laou, rak sistr zo mat, loñla

Ev sistr ‘ta Laou, rak sistr zo mat

Ev sistr ‘ta Laou, rak sistr zo mat

Ur blank, ur blank ar chopinad loñla

Ur blank, ur blank ar chopinad.


Ar sistr zo graet ‘vit bout evet, loñla

Hag ar merc’hed ‘vit bout karet.


Karomp pep hini e hini, loñla

‘Vo kuit da zen kaout jalousi.


N’oan ket c’hoazh tri mizeureujet, loñla

‘Ben ‘vezen bemdez chikanet.


Taolioù botoù, fasadigoù, loñla

Ha toull an nor ‘wechadigoù.


Met n’eo ket se ‘ra poan-spered din, loñla

Ar pezh ‘oa bet lavaret din.


Lâret ‘oa din’oan butuner, loñla

Ha lonker sistr ha merc’hetaer.


Ev sistr ‘ta Laou, rak sistr zo mat, loñla

Ur blank, ur blank ar chopinad.


  Traduction:


Bois donc du cidre, Laou, car le cidre est bon lonla

Bois donc du cidre, Laou, car le cidre est bon

Bois donc du cidre, Laou, car le cidre est bon

Un sou, un sou la chopine lonla

Un sou, un sou la chopine.


Le cidre est fait pour être bu

Et les filles pour être aimées.


Aimons chacun notre chacune

Et il n’y aura plus de jalousie.


Je n’étais pas marié depuis trois mois

Que je me faisais chicaner chaque jour.


Des coups de pieds, des gifles

Et flanqué à la porte quelquefois.


Mais ce n’est pas ce qui me chagrine le plus

C’est ce qu’on disait de moi.


On disait de moi que j’étais fumeur

Buveur de cidre et coureur de jupons.


Bois donc du cidre, Laou, car le cidre est bon

Un sou, un sou la chopine.

 

      Son Ar Chistr is a traditional Breton drinking song from Brittany, France, celebrating cider-making and communal festivity. Its title means "The Song of Cider," and the lyrics describe drinking, merriment, and rural life. Written in Breton and popularized in the twentieth century, it became widely known through folk performances and adaptations. The melody is lively, repetitive, and easy to sing along with, making it a favourite at festivals, gatherings, and folk music events across Europe and beyond today as well.


Arquivo do blogue