Sophia de Mello Breyner Andresen - Eis-me

 


Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face


Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio


Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente


  in, "Livro Sexto"


      A voz do poema apresenta-se numa atitude de disponibilidade, presença e procura de verdade. O título, breve e afirmativo, traduz uma declaração de existência e entrega perante o mundo. A poesia surge como forma de encontro, revelando a tensão entre a fragilidade humana e o desejo de plenitude, justiça e harmonia com o universo.


Emily Bronte - My Comforter

 



Well hast thou spoken, and yet, not taught

A feeling strange or new;

Thou hast but roused a latent thought,

A cloud-closed beam of sunshine, brought

To gleam in open view.


Deep down, concealed within my soul,

That light lies hid from men;

Yet, glows unquenched - though shadows roll,

Its gentle ray cannot control,

About the sullen den.


Was I not vexed, in these gloomy ways

To walk alone so long?

Around me, wretches uttering praise,

Or howling o'er their hopeless days,

And each with Frenzy's tongue; -


A brotherhood of misery,

Their smiles as sad as sighs;

Whose madness daily maddened me,

Distorting into agony

The bliss before my eyes!


So stood I, in Heaven's glorious sun,

And in the glare of Hell;

My spirit drank a mingled tone,

Of seraph's song, and demon's moan;

What my soul bore, my soul alone

Within itself may tell!


Like a soft air, above a sea,

Tossed by the tempest's stir;

A thaw-wind, melting quietly

The snow-drift, on some wintry lea;

No: what sweet thing resembles thee,

My thoughtful Comforter?


And yet a little longer speak,

Calm this resentful mood;

And while the savage heart grows meek,

For other token do not seek,

But let the tear upon my cheek

Evince my gratitude!


      Emily Brontë’s 1844 poem "My Comforter" explores isolation, the agony of human society, and the inner sanctuary of the creative imagination acting as a guiding voice. The speaker feels deeply isolated from ordinary people, describing humanity as a "brotherhood of misery" whose noisy faith and daily despair drive her into a state of mental torment. The AI melody is silent and hidden in beauty.


Hélène Schjerfbeck (Finnish 1862–1946) - The Convalescent, 1888



      The painting portrays a young girl recovering from illness, seated quietly in a sunlit interior. Her delicate figure, pale complexion and thoughtful expression convey vulnerability, while the blooming plant beside her suggests renewal and hope. Natural light enters through the window, illuminating the room and creating a peaceful atmosphere. Schjerfbeck combines realistic observation with subtle emotional depth, capturing the fragile transition between sickness and health.

Belén Reyes - E o que é que acontece / Y qué sucede

 


E o que é que acontece

se de repente um dia

te dás conta que é tudo mentira,

e não sabes se fazer de louca

de puta

ou suicida,

ou arrancar a alma

sentar-te

e já

meio apalermada,

ver como a vida acontece


Você aí que faria?


  Tradução de A.M.


  Original:


Y qué sucede

si de pronto un día

te das cuenta de que todo es mentira,

y no sabes si meterte a loca

a puta

o a suicida,

o arrancarte el alma

y sentarte en una silla

y ya

medio gilipollas,

ver cómo pasa la vida


¿Usted qué haría?


      O poema apresenta uma visão mais intensa e desconcertante do que uma análise inicial sugeriria. A sua reflexão parte da descoberta de que tudo pode ser mentira, conduzindo a uma crise de sentido e a uma atitude de desorientação perante a vida. A linguagem direta, irreverente e provocadora combina desespero, ironia e absurdo. A pergunta final, dirigida ao leitor, transforma a experiência individual numa interrogação universal sobre como reagir à desilusão, à perda de certezas e à dificuldade de encontrar sentido na existência. A pintura é de Steven Boone, My Fairy-Tale Life.


Laura Malétas - Finca hostal Paz del Indio



      Esta melodia é uma homenagem a um lugar, Finca La Paz del Indio, situada na Vereda La Paz, em Villagarzón, Putumayo, Colômbia, bem como a todo o povo colombiano. Ela tem um ritmo e uma melodia que nos faz sentir bem.


Extraño su bosque salvage,

Extraño su calorcito, su murmullo, sus caminos,

Quiero volver a perderme dentro, corazón alegre, manchete en la mano,

Quiero recoger tesoros, granadilla, iraca para algun techito,

Correr bajo la lluvia para llegar a casa antes que el río crezca,

Brindar mojaditos con tinto panela, tortita casera, consejos de vida.


Extraño su selva sagrada

Estraño su luz oscura, las alturas del guada

Quiero volver a acunar mis sueños en la hamaca, en la sombra del kiosko

Quiero amanecer con el gallo, su canto bendecirlo como solo horario

Mirar al Dieguito hervir con esmero chontaduros a fuego lento

Abrazar los aromas, sal, miel y paciencia, amigos y presente, regalos de vida.


Cantar esos versitos a La Paz del Indio

su calma, sus colores, secretos de vida.


Ernst Henseler - Familiengebet (Family Prayers), 1909



      It portrays an intimate moment of domestic devotion, capturing a family united in quiet prayer. The painting reflects the importance of religious faith and familial bonds in early twentieth-century life. Henseler’s careful composition emphasises the figures’ concentration, while the subdued interior creates an atmosphere of warmth, humility, and solemnity. Soft lighting and naturalistic details reinforce the scene’s emotional sincerity.


José Luís Peixoto - E o amor transformou-se

 


E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.

Era disto que falavam as mães quando davam conselhos

ás filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.

Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,

todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro

de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.


      O poema aborda a transformação do amor, que, sem desaparecer completamente, adquire uma natureza diferente e inesperada. A expressão «outra coisa com o mesmo nome» traduz a distância entre o amor idealizado e a realidade vivida. Os conselhos maternos, associados à ideia de que «o amor vem depois», ganham um significado melancólico, revelando a descoberta de uma ternura silenciosa, quase dolorosa. A pintura é de Henri Martin, The Lovers.


Johann Hermann Kretzschmer - The Broken Kite

 


      The Broken Kite painting portrays a tender rural scene in which a child’s disappointment over a broken kite is met with the care and attention of those around him. Through this simple moment, Johann Kretzschmer captures the innocence of childhood and the warmth of family life.


Antonio Hernández - O passado é a marca / El pasado es la constancia

 


O passado é a marca

do nosso assombro,

o vazio de amor que a experiência

nos deixa dentro do peito.


(Só a infância não tem memória

porque nada brilhou antes dela)


Meu passado é o saldo do nítido,

um aroma, um amor, uma lua

sem cuidado,

o velho enigma em que hei-de amanhecer.


  Tradução de A.M.


  Original:


El pasado es la constancia

de nuestro asombro,

el hueco de amor que deja

la experiencia en nuestro pecho.


(Sólo la infancia no tiene memoria

porque nada brilló antes que ella.)


Mi pasado es el saldo de lo nítido:

un aroma, un amor, una luna

sin cautela,

el viejo enigma en que amaneceré.


      No poema, o passado surge como um testemunho persistente da experiência humana, deixando sinais que o tempo não consegue apagar. A memória assume um papel central, ligando o presente a acontecimentos, sentimentos e aprendizagens anteriores. O título sugere que a identidade se constrói através das marcas deixadas pela vida.


Bárbara Bandeira - Manel




Aprendi cedo que nem todos vão

Há quem fique não para esperar,

mas para segurar o que fica quando eles partem.

Só que ninguém vive para sempre a segurar

Porque a felicidade também precisa de caminho.


Deixei os sonhos nas marés

Afoguei as lágrimas no peito

Vou esconder a dor no mar

E fazer a cama em que me deito.


Vazia como a casa que deixaste

Maldita a corrente que te levou

Vou prender a dor ao mar

P’ra saber que voltas, meu amor.


Quanto tempo o tempo tem?

Ai, o vento não traz mais que a saudade

Hoje, o meu Manel não vem

Vou beber da solidão, mas só eu sei a razão

Pra ser dele ou não ser de ninguém.


Enquanto não passa a tempestade

Eu cá me apego ao que ficou

Se voltar a ver o mar

Vou pedir que traga o meu amor.


Quanto tempo o tempo tem?

Ai, o vento não traz mais que a saudade (ah)

Hoje, o meu Manel não vem (não vem)

Vou beber da solidão, mas só eu sei a razão

Pra ser dele ou não ser de ninguém.


Oh, já não volto a ver o mar

Pois sei que não voltas, meu amor.


      Há canções que emocionam porque elas nos devolvem às nossas raízes. Este não é apenas um videoclip, nem apenas uma canção. É um abraço à terra, às pessoas, às memórias e à identidade portuguesa que tantas vezes esquecemos que carregamos. É caso para dizer que "Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." Obrigado à Bárbara e ao Buba Espinho.


Gertrude Abercrombie (American, 1909–1977) - Ivory Tower



      In the 19th century, French literary culture adopted the expression tour d'ivoire to symbolize a noble, detached space where artists and thinkers could focus on high-minded pursuits, aesthetics and philosophy away from societal pressures.

      Gertrude Abercrombie’s Ivory Tower presents a mysterious, dreamlike world characteristic of the artist’s surrealist imagination. Through simplified forms, subdued colours, and an enigmatic arrangement of objects, the painting evokes solitude, introspection, and psychological unease. The ivory tower suggests isolation, refuge, or an unreachable mental space.


Renova-te, de Cecília Meireles

 


Renasce em ti mesmo.

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica os teus braços, para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado,

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro.

Mas sempre alto.

Sempre longe.

E dentro de tudo.


      Cecília Meireles apresenta a renovação como condição essencial para viver plenamente. O poema valoriza a mudança interior, convidando o sujeito a libertar-se do passado e a acolher novas possibilidades. A repetição do verbo «renovar» reforça o carácter imperativo e transformador da mensagem. A natureza surge como referência de ciclos e renascimento, sugerindo que tudo se transforma continuamente.

Dankvart Dreyer was born in Assens, Denmark, in 1816





      Dankvart Dreyer was a Danish Romantic painter celebrated for his evocative landscapes and sensitive depictions of the Danish countryside. Influenced by the national Romantic movement, he combined careful observation with poetic atmosphere, often portraying forests, fields, villages and rural roads under changing light. Although his life was short, Dreyer produced a distinctive body of work that captures the melancholy, tranquillity and beauty of nineteenth-century rural Denmark with remarkable freshness and sincerity.


Wayside / Back in Time, originally by Gillian Welch



Standing on the corner with a nickel or a dime

There used to be a rail car to take you down the line

Too much beer and whiskey to ever be employed

And when I got to Nashville, it was too much soldier's joy

Wasted on the wayside, wasted on the way

If I don't go tomorrow, you know I'm gone today.


Back, baby, back in time

I wanna go back when you were mine

Back, baby, back in time

I wanna go back when you were mine.


Black highway all-night ride

Watching the times fall away to the side

Clear channel way down low

Is coming in loud and my mind let go.


Peaches in the summertime, apples in the fall

If I can't have you all the time, I won't have none at all

Oh, I wish I was in 'Frisco in a brand-new pair of shoes

I'm sitting here in Nashville with Norman's Nashville blues

So come all you good time rounders listening to my sound

Then drink a round to Nashville before they tear it down.


Back, baby, back in time

I wanna go back when you were mine

Back, baby, back in time

I wanna go back when you were mine.


Hard weather, driving slow

The buggies and the hats in town for the show

Oh darling, the songs they played

Are all I got left of the love we made.


      It is a folk-country song written by Gillian Welch and David Rawlings, released on Welch’s 2003 album Soul Journey. The lyrics mention drifting through life, arriving in Nashville, and encountering "soldier's joy" (a traditional old-time fiddle tune and a historical term for morphine/whiskey). The song also lacks a strict linear narrative, instead evoking strong feelings of nostalgia, longing, and bittersweet memory.


Compulsory Education, 1887, by Briton Rivière (1840-1920)



      The painting presents a humorous domestic scene centred on a reluctant schoolgirl. The child, dressed for lessons, appears reading, while a large, dignified dog seems to share his reluctance to leave the comfort of home. Rivière’s skill in depicting animals gives the composition warmth and character. 


António Cabral - Sabrosa




Canta o cuco nos campos de Sabrosa.

O ar fino vibra como um pandeiro.

O ano vai seco. Tempo é

de soltar os cães nos olhos das raparigas.


      Sabrosa é uma vila portuguesa localizada na sub-região do Douro, pertencendo ao Distrito de Vila Real. Quanto ao poema, há nele uma mistura de natureza e erotismo juvenil. 


“Trash” - Nature's Whispers: Songbook I



      Lyrics by Jessica Howard and composition by Sam Babineau.


Metaphysical Suburbs





      The concept of "metaphysical suburbs" explores how the physical, architectural, and social spaces of suburban life shape human consciousness, spirituality, identity, and our relationship with the sacred or uncanny.


Martín López-Vega - Campos da Hungria



O comboio atravessava a lenta calma

dos nevados campos da Hungria,

deixando para trás casas, vales, cemitérios,

e na minha frente uma formosa jovem ia lendo

e cantarolava uma misteriosa melodia.

Eu lia

esse poema de Gyula Juhász intitulado

"Anna örök", Eterna Ana. E foi então que se uniram

naquele comboio as minhas recordações e as minhas ânsias,

atravessando os nevados campos da Hungria.


E hoje voltou a mim aquele momento

e não sei porquê, não sei.


  Tradução de Ruy Ventura


  O poema de Gyula Juhász Anna örök, Eterna Ana, referido no poema:


Gyula Juhász: Anna örök (Eterna Ana)

Az évek jöttek, mentek, elmaradtál

Emlékeimből lassan, elhalványult

Arcképed a szívemben, elmosódott

A vállaidnak íve, elsuhant

A hangod és én nem mentem utánad

A dühöngő élet sűrűjébe.

Ma már nyugodtan emlegetem nevedet,

Ma már nem rezdülök meg pillantásodra,

Ma már tudom, hogy egy voltál a sokból,

Hogy ifjúság bolondság volt e láng,

Amit egy kósza szellő is kiolt.

Ma már nem fáj, ha eszembe jutsz,

Vagy ha látom, hogy más karján mosolyogsz.

De mégis, ne hidd, hogy egészen elfeledtelek,

Mert ha egy-egy magányos éjszakán

Felriadok a csendben, és a múltat

Idézem, te vagy ott minden emlékben,

Te vagy a fény az éjszakámban,

Te vagy a bánat a mosolyomban,

Te vagy az életemben az örök Anna.


  Traducción al español:


Los años vinieron, se fueron, te quedaste atrás

de mis recuerdos lentamente, se desvaneció

tu rostro en mi corazón, se borró

la curva de tus hombros, se esfumó

tu voz, y yo no fui tras de ti

en la espesura de la vida furiosa.

Hoy ya pronuncio tu nombre con calma,

hoy ya no me estremezco ante tu mirada,

hoy ya sé que fuiste una entre tantas,

que esta llama fue locura de juventud,

la cual apaga una brisa pasajera.

Hoy ya no me duele si te recuerdo,

o si te veo sonreír en brazos de otro.

Y sin embargo, no creas que te he olvidado del todo,

porque si en alguna noche solitaria

me despierto en el silencio, y el pasado

evoco, tú estás allí en cada recuerdo,

tú eres la luz en mi noche,

tú eres la tristeza en mi sonrisa,

tú eres en mi vida la eterna Ana.


      O primeiro poema constrói uma reflexão poética sobre a paisagem como espaço de memória, deslocação e contemplação. Os campos húngaros ultrapassam a dimensão geográfica, tornando-se cenário interior onde o sujeito lírico confronta distância, passagem do tempo e experiências vividas. A observação da natureza articula-se com uma sensação de estranheza e pertença simultâneas. 


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