Nena - "Portas do Sol" ao vivo no Campo Pequeno, 4 de Outubro de 2025



Não me dás um sinal vou p'la marginal a olhar p'ro rio

Ouço a rádio a dar e está a tocar o que nos uniu

Passo pelo Chiado, história em todo lado, o que tremeu

Um dia meu amado agora passado no Rossio.


  Quer tu esqueças ou guardes

  mais cedo ou mais tarde vais-te lembrar

  Que fomos como Lisboa e se isto não soa bem, então não sei

  O que mais irá, o que mais virá.


Vimos esta paisagem como uma miragem, mas não foi

Ali no miradouro das portas do Sol um nós surgiu

Canto agora em Lisboa e mesmo que minta, diz se aí

Que esta frase que digo de coração partido é p'ra ti.


E tu estás cá ou estás fora um antes no agora em postal

Diz não gostes de alguém que sonha p'ra além de Portugal.


      A canção transforma Lisboa num símbolo vivo de um relacionamento passado. A jovem cantora utiliza lugares marcantes da cidade, como o Chiado, o Rossio e o miradouro das Portas do Sol, não apenas como cenários, mas como pontos carregados de lembranças e emoções. Ao cantar “Que fomos como Lisboa”, Nena sugere que o relacionamento, assim como a cidade, é feito de camadas de história, nostalgia e uma beleza que resiste ao tempo, mesmo depois do fim do amor.


Carl von Bergen - Girls rescuing a doll in a stream

 


      The painting portrays a gentle childhood moment set in nature. Two young girls lean over a shallow stream, carefully retrieving a fallen doll from the water. Their body language shows urgency mixed with tenderness. Soft natural light and earthy tones create a calm rural atmosphere, while the flowing water adds movement. The scene captures innocence, friendship, and the small dramas of childhood.


Gloria Bosch - A despedida



Se te despedires, fá-lo de mansinho,

nada de brusquidão.

Não me digas: 'Vamos estar um tempo sem nos ver'.

O que é o tempo?, responder-te-ia.

Uma ponte entre o adeus e o reencontro?

Se te despedires, que o teu adeus me conforte,

que seja o bálsamo de minhas feridas,

que os teus lábios me digam: 'até depois',

'fazes já parte da minha vida',

que eu possa sentir que em todo o momento

nossas mãos se buscarão na sala de espera

e falaremos de amores, de como passa o tempo,

de quão interessante te acho.


António Lobo Antunes, no dia da sua morte



      "A loucura é qualquer coisa que existe em todos nós, é mais um receio que uma realidade. No fundo, o que é enlouquecer? É sair de uma determinada norma, não é? É preciso muita coragem para se ser realmente louco."

in, O Jornal, 1992

  Morreste-me.


Mafalda Veiga - A Fonte



 

Vai à fonte que a alegria nunca pára de jorrar

E não passa nenhum dia sem que eu te veja pintar


Essa cor que tens nos lábios, essa cor que tem o céu

Vem ensinar aos teus braços o caminho para os meus


São duzentas primaveras mais outono, inverno e verão

Nunca estar longe da vista faz-nos bem ao coração


Vai à fonte que a alegria é promessa para cumprir

Se chegares com olhar triste hás-de sair a sorrir


Se pintares o mundo inteiro num bocadinho de mar

Se inventares em porcelana uma maneira de amar


Essa fonte há-de contar-te os mistérios de onde eu vim

E quando molhares os lábios, hás-de lembrar-te de mim.


      Para sempre "Quando molhares os lábios, hás-de lembrar-te de mim." Muito belo.


Aleksander Augustynowicz (Polish painter, 1865-1944) - Portrait of the artist's daughter - Ola Kozlowska



      Most of his paintings are made from watercolour and are themed on landscapes, Polish folklore and his daughters; his artworks are currently exhibited in numerous museums around Poland and in private ownership. After the start of World War II he moved to Warsaw, where he was killed during the Warsaw Uprising. This one describes Ola looking for beauty.


Begoña Abad - O Meu avô nunca saiu

 


O meu avô nunca saiu da sua terra.

A terra tinha quatro casas,

quatro ruas, quatro caminhos,

quatro moradores, quatro cães.

Não havia nem bispos, nem ministros,

nem putas, nem altos cargos,

não havia empresas, nem bancos, nem igreja havia.

Na verdade não saiu nunca do seu moinho.

E já é acaso que por esse lugar,

remoto e esquecido,

acertasse a vida a passar.

Falava pouco o meu avô mas sabia muito,

tendo aprendido tudo a ver a mó,

implacável, a girar eternamente,

esmagando o grão, até o fazer em farinha.


(Trad. A.M.)


Begoña Abad - Conservar o fogo



Conservar o fogo

desde que foi inventado.

Nisso consiste, cada dia,

este encargo de viver.


Carolina - A Mulher que Já Foi Tua



 

Mudou-se para a nossa rua, a mulher que já foi tua

e perde o tempo à janela,

Se passas ela sorri, mas não olha mais pra ti

por me ver olhar p'ra ela.

 

Sabe quando entras e sais, de onde vens, para onde vais

pois é esse o seu desejo,

Que tudo faz p'ra te ver... e eu, tudo tento fazer

só p'ra ela ver que eu vejo.

 

Há dias tive dó, porque assim que se viu só

foi para dentro a chorar,

E eu tive pena daquela que perde o tempo à janela

só para te ver passar.

 

Mudou-se p'rá a nossa rua, a mulher que já foi tua

p'ra que junto dela passes,

Não fez tudo o que devia, pois muito mais eu faria

se por outra me trocasses.


      Carolina nasceu em Hamburgo (Alemanha) a 12 de Abril de 1984 e veio para Portugal com apenas 5 meses, mais propriamente para Trás-os-Montes na localidade de Aveleda, onde teve muito cedo o seu primeiro encontro com o Fado. Que voz tão fresca, num poema bem construído e com músicos excelentes. Comparando as cantadeiras, o original da Amália não é tão belo. Obrigado.


Sophie Gengembre Anderson - The Song of the Lark

 



"Bring the dews the birds shake off,

Waking in the hedges,—-

Those too, perfumed for a proof,

From the lilies' edges:

(...)

Bring them calm and white in;

Whence to form a mirror pure,

For Love's self-delighting.


Bring a grey cloud from the east,

Where the lark is singing;

Something of the song at least,

Unlost in the bringing:

That shall be a morning chair,

Poet-dream may sit in,

When it leans out on the air,

Unrhymed and unwritten."


- Elizabeth Barrett Browning, The House of Clouds (excerpt)


Gina Saraceni - Devolveu ao mar



Devolveu

ao mar as pedras,


guardadas anos e anos

em frascos de marmelada.


No lugar delas

foi o vazio

o que ficou.


Tal como um abandono,

ainda dura.


(Trad. A.M.)


José Luis Hidalgo - Chega-te

 


Chega-te. Mais, mais,

até tocar nos meus sonhos.

Não, ainda não...

Mais ainda, e mais, sem medo,

como a água do mar

ao seu fundo de lodo,

como se chega a Deus

o azul todo do céu.

Como eu me chego a ti

quando te digo: amo-te.


Trad. A.M.


Filipa Torres - Cachos d'ouro




Esta noite meu amor acordei de um sonho bonito

Eu rodava na tua mão, a luz era um fio infinito.


Ao beber deste momento deslumbrei-me contigo

Culpei os teus cachos d’ ouro como se fossem castigo.


Esta noite meu amor acordei de um sonho lindo

Enlaçava um cacho teu, ai no meu dedo mindinho.


Um, um, um...


Enlaçaste os braços(?) de uma vez em mim como um cordão

Quero saber se também é d’ ouro esse teu coração.


      Esta jovem tem voz fresca, bucólica e introspetiva como raramente se ouve. O poema não é "conversa de café" é poesia com um bater feminino que procura a beleza e o mistério. São videos e canções assim, que nos dão esperança perante o panorama pobre que a música portuguesa atravessa. Obrigado. 


José Luis Hidalgo - Só tu e eu sabemos

 


Só tu e eu sabemos a verdade deste mundo

que roubamos à morte dia a dia,

que erguemos do nada só com palavras

fumo

cinza de um beijo esquecido na tua fronte.

Só tu e eu sabemos

fábulas como flautas

silêncios como formigas mais ou menos sonoras

e isso que se edifica lentamente em teus olhos

por trás da vitrina ou cristal de uma lágrima

esse beijo ou pulsar

esse sorriso ou chama

de ter a vida à flor dos lábios.


  Trad. A.M. e tela de Feuerbach, Paolo und Francesca.


Alberto Soares - Apodrecer

 


Apodrecer é simples: basta

ceder do coração apenas

a parte mais sombria.


Guardar o resto para inúteis

coisas que não acontecem.


Lavrador Estrangeiro - Gaiteiros de Bravães feat Catrapana (AEPB)



É nómada digital tem escritório no quintal, teletrabalha no Minho

Fala estrangeiro de fora, coitada da Dona Aurora que não entende o vizinho

Gorro e flanela vestida, óculos e barba comprida, calça que não tapa a meia

Mata-se a tratar da horta, mas não sai da cepa torta. É a comédia da aldeia.


Tudo anda a murmurar que o viram fotografar a bosta dos animais

Não sei quantos .com ele deve passar fome. Arrobas não são quintais

A rir-se do lavrador de rato e computador enquanto apanha limões

Sobre o muro empoleirada, qual treinador de bancada, dá Aurora as instruções.


  Arranca as ervas do chão

  Pega assim na roçadeira

  Leva o carrinho de mão

  Puxa a corda do motor

  Cava o galeiro em linha

  Neste baile o mandador

  É a chata da vizinha.


De todas as redondezas vêm ver estas proezas do lavrador estrangeiro

A tentar usar sachola sem saber vergar a mola é um circo no terreiro

A Aurora a dar ao braço vai mandando no compasso deste baile no quintal

Dança ela e as vizinhas mais o estrangeiro lingrinhas o baile neo rural.


O estrangeiro empreendedor trata a horta com primor

Já parece lavrador tudo graças à vizinha.


      "Catrapana é um projeto do Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca que teve origem no Plano Nacional das Artes. Catrapana é um grupo de percussão, dinamizado e coordenado por Rafael Freitas dos Gaiteiros de Bravães, um apaixonado pelas diversas expressões culturais locais, constituído por alunos do 2.º ciclo do ensino básico que procura tornar a arte mais acessível, pela expressão da música popular, aos jovens alunos, na comunidade educativa, através da participação, fruição e criação cultural."


L’Été (Summer, 1968) dir. Marcel Hanoun



      Set during a quiet, suspended stretch of summer, the film follows a young woman wandering through sparse landscapes and fragmented encounters, her inner thoughts gradually overtaking external action. Narrative becomes secondary to sensation, as moments feel unfinished, drifting between reality, memory, and introspection. The story unfolds more like a diary than a conventional plot, reflecting emotional uncertainty and solitude.



      Beneath its apparent simplicity lies a reflection on time, alienation, and the fragile boundary between presence and absence. The summer setting becomes symbolic, a fleeting interval where identity feels unstable and choices remain unresolved. The film invites viewers to inhabit uncertainty rather than seek resolution.


José Cereijo - Nunca

 


Nunca dormi nos teus braços,

nunca acordei de manhã a ver o armário, a janela, os livros,

ou escutei o ruído dos canos, os passos solitários na rua,

e pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real

tu também devias ser.

Não soube a que sabiam os teus lábios, ou o teu riso,

não te vi a despir,

não soube nem saberei nunca como os teus olhos, no amor,

incendiavam a noite.

Essa falta, bem sei, é uma mutilação sem remédio,

um triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.

É também, a seu modo, forma e prova de amor,

de lúcido humilhado amor,

de devastado e verdadeiro amor,

que eu ofereço à tua lembrança.


      Eu tive um caso, assim, com a Domingas Assunção Galamba Ascenção. Vivia no Laranjeiro e um dia passei em frente da sua casa. Parei e continuei. Tal como Dante nunca entre nós houve nada, mas em mim houve quase tudo. Hoje, a memória continua terna.


Carolina Adormecida - Gaiteiros de Bravães



À varanda, a Carolina

Espreita o vale que a viu crescer

Pode ser a mesma colina

Mas não é o mesmo viver

Medram casas, mingam* pessoas

Estão sem fumo as chaminés

Moram em Franças e Lisboas

Outras Carolinas e Zés.


Diz que no seu tempo é que era

Era a Era da alegria

Não lembra a fome que tivera

Nem o trabalho que a feria

Corre o rio do esquecimento

Jaz a velha barca no fundo

Vai vendendo o seu pensamento

A quem a desliga do mundo.


Vai crescendo o mato na eira

Já ninguém a chama ao portão

Trocou o banco da lareira

Pelo sofá da televisão

Arde a mata e o arvoredo

Já não chora a carpideira

Passa o dia a passar o dedo

No ecrã que traz na algibeira.


No terreiro já cresce a erva

No carreiro só passa o cão

No sofá, a Deusa Minerva

Dorme de algoritmo na mão

Vai gostando de quem lhe mente

Assistindo ao que está a dar

Vai culpando quem é diferente

Evocando São Salazar.


Vai crescendo o mato na eira...


Dorme dorme Carolina que o Messias logo vem

Foi lavar botas cardadas à ribeirinha de além.


Acorda Carolina! A liberdade não espera!

Toca o corno, corre o entrudo, sem ti não há primavera!


      "Em Bravães, freguesia do concelho de Ponte da Barca, a história continua a escrever-se com o som do sino, o cheiro do alecrim e a vontade firme de manter vivas as tradições. A romaria de São Gregório, a bênção dos instrumentos musicais, as gaitas de foles e os ensaios improvisados no átrio da antiga escola fazem parte de um calendário afetivo onde fé, cultura e comunidade se cruzam. Entre os que sempre cá estiveram e os que escolheram ficar, há um lugar que se renova sem se esquecer de quem é."


Heinrich August Georg Schiøtt - To kvinder og en hund på en skovsti med udsigt mod havet en sommerdag, 1878



It portrays two women strolling along a shaded forest path overlooking the sea on a bright summer day. Dappled sunlight filters through lush foliage, illuminating their light dresses and the attentive dog at their side. Beyond the trees, the calm blue water glimmers under an open sky. The scene conveys tranquillity, leisure, and a gentle harmony between figures and nature. The man on the row boat seems waiting for someone. 


Eloy Sánchez Rosillo - O segredo

 


Não vá a alegria assustar-se

ou teimar em ir-se embora,

escondo-a do mundo e não digo a ninguém

que me entrou em casa depois de muito tempo.

Falo com ela e muitas vezes

vê-la de novo tão próxima

dá-me para chorar e rio.

Depois deixo-a sozinha e saio

à rua muito sério.

Sem dizer a ninguém que a tenho em casa.

E espero que lá esteja, quando eu voltar.


Chulada da Ponte Velha - Por Aquela Serra Acima



Por aquela serra acima vinte e quatro cegos vão

Ora cegos vão, ora cegos vão!

Cada cego tem seu moço, cada moço tem seu cão

Ora tem seu cão, ora tem seu cão!


Por aquela serra acima vai um gato reméu méu

Ora reméu méu, ora reméu méu!

Que lhe cortaram um ramo para a pruma do chapéu

Ora do chapéu, ora do chapéu!


Por aquela quelha abaixo vai a roda do amolador

Ora amolador, ora amolador!

Fura pratos, mete gatos, tudo só c’um furador

Ora furador, ora furador!


Por aquela serra acima, vai o boi ao ferrador

Ora ferrador, ora ferrador!

Vai calçar uns sapatinhos, pr'a bailar com o Prior

Ora c’o Prior, ora c’o Prior!


Por aquela quelha abaixo, toca a gaita o capador

Ora capador, ora capador!

Coitadinho do porquinho da casa do regedor

Ora regedor, ora regedor!


Por aquela serra acima, cai foleca, gela ó pastor

Ora o pastor, ora o pastor

Pula o bode, espanta a cabra, nascem cabritos pr'ó calor!

Ora pr’ó calor, ora pr’ó calor!


Por aquela serra acima vinte e quatro cegos vão

Ora cegos vão, ora cegos vão!

Cada cego tem seu moço, cada moço tem seu cão

Ora tem seu cão, ora tem seu cão!


O cego dá pão ao moço, o moço dá pão ao cão!

Ora pão ao cão, ora pão ao cão!

O cão comeu a côdea e acompanha de leitão!

Ora de leitão, ora de leitão!


      "bendito" popular da Reguenga, Santo Tirso. As primeira e segunda quadras são populares, as restantes são de Napoleão Ribeiro.


Arquivo do blogue