Nikolay Petrovich Bogdanov - Belsky (1868-1945)








      Nikolay Petrovich Bogdanov-Belsky was a prominent Russian realist and impressionistic painter best known for his heartfelt depictions of peasant life and rural children's education. This is what AI can't do, human beauty.


Carlos Drummond de Andrade - Hipótese

 


E se Deus é canhoto

e criou com a mão esquerda?

Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.


in, Corpo, 1984


      O poema explora, com ironia e simplicidade, as possibilidades alternativas da existência. O poema imagina outros caminhos para a vida, sugerindo que o destino poderia ter sido diferente. Entre o desejo e a aceitação, o sujeito poético confronta-se com escolhas, acasos e limitações humanas.


Mariana Root - Canção da Erva



Vem, meu bem, cavar a terra

Vem, meu bem, mondar a erva

Vem saudar-te aqui a serra

Onde a flora vive em festa.


Erva mansa, erva agreste

Açafrão, erva bastarda

Rosmaninho, alfazema

A borragem da coragem.


Erva bruxa, erva santa

Erva doce, erva amarga

Erva príncipe ao meu lado

Olho branco aqui plantado.


Minha calêndula ligeira

Abundante erva vaqueira

Cheira Algarve, cheira estêva

Arruda, a curandeira.


A silvestre é sagrada

Protetora perfumada

Afasta o mau-olhar

No telhado pendurada.


Erva férrea, erva de ouro

Alecrim, erva-cidreira

Rica sálvia defumada

Espontânea erva de ovelha.


Mel-solstiço e pericão

Rasteja amor-hortelão

Bem-me-quer e bem-me quis

Bem-me-quer e bem-me diz


Vem meu bem cavar a terra

Vem meu bem mondar a erva

Vem saudar-te aqui a serra

Onde a flora vive em festa.


      Diz Mariana Root "Este canto é para vós, plantas do dia-a-dia, que aqui bem postas nos dão vida ao lar e à travessia: que nos afagam as mágoas, nos purificam, nos fortificam, nos encorajam, nos despertam e nos suavizam."


Paul Hermann Wagner (German, 1852–1937) - Sweet Music



      The German painting presents a charming inocent scene filled with childish intimacy. Look at their eyes! A boy appears absorbed in playing his flute, creating an atmosphere of quiet pleasure and poetry, close to nature and his sister or sweet-heart.  


José Miguel Silva - Parte poética

 


Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.

Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,

pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar

os dentes, suportar os incisivos

à face do espelho, pentear a cabeça e depois,

a poeira que caminha, o massacre dos culpados,

assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

Chegar por fim a casa para a prosa

de uma carne à jardineira, o estrondo

das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,

só por volta das duas da manhã começo a despir

o fato de macaco, a deixar as imagens correr,

simulacro do desastre.

Mas entretanto já é hora de dormir.

Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


      O poema explora, com ironia e contenção, a relação entre poesia e o "terrorismo" do dia-a-dia. O poema questiona a utilidade da escrita poética, confrontando o ideal literário com a experiência quotidiana e as suas limitações. O tom desencantado, mas subtilmente humorístico, transforma a reflexão numa espécie de autocrítica.


Tom Ribeira - Vovó, vovô



Ó meu pai minha mãe quem criou vocês vovô, vovó

talvez antes de enlaçar o nó do amor de bisavó com bisavô.

Meu irmão irmã (meu irmão irmã) conheci vocês lá atrás talvez

nessa vida o meu talismã ninguém realmente está a sós.


Água do rio e do poço é a mesma

do brilho do orvalho e da beleza

de moça de moço de nós.


Ó meu pai minha mãe, ó minha mãe meu pai

ó meu pai minha mãe quem criou vocês vovô, vovó

talvez antes de enlaçar o nó do amor

de bisavó com bisavô.


Meu irmão irmã(meu irmão) água do rio e do poço é a mesma

do brilho do orvalho e da beleza de moça de moço de nós.

Ó meu pai minha mãe(ó meu pai minha mãe )

ó minha mãe meu pai(ó meu pai)

ó meu pai minha mãe quem criou vocês vovó vovô.


      Natural de Botucatu, interior de São Paulo, Tom Ribeira é uma das mais novas promessas da música brasileira. O jovem cantor já se apresentou em teatros históricos de Paris, como La Cigale e Elysée Montmartre. Tom passou, também, por diversos estados brasileiros, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Paraíba.

        A partir do rádio do seu avô ouvia sertanejos, boleros e muito samba raiz, passando pelos seus pais, que ouviam e cantavam muito da antiga MPB, Ribeira adquiriu um vasto vocabulário musical, que utiliza para compor sua próprias canções hoje em dia.


Claude Monet - Le Parterre aux agapanthes, 1914-1917



      Claude Monet’s Le Parterre aux agapanthes, painted between 1914 and 1917, presents a luxuriant garden transformed by colour and light. Broad patches of blue agapanthus emerge among dense vegetation, while water and foliage merge into a shimmering, almost dreamlike surface. Monet abandons precise outlines, allowing brushstrokes to suggest flowers, leaves, reflections and atmosphere. The composition reflects his late fascination with his Giverny garden, where observation became increasingly abstract. Rich blues, greens and violets create a vibrant, immersive vision of nature.


José Miguel Silva - A caminho do fogão

 


Adoro essa paixão absurda que tens por Hitchcock,

o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:

outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com

que me arrancas aos diálogos com o nada, quando

me contas os teus feitos na república do frio; adoro

a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja

de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;

outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas

pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica

da música amorosa, quando dança seminu à minha

frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.


      O poema explora o quotidiano através de uma linguagem aparentemente simples, mas carregada de ironia e reflexão. O gesto doméstico sugerido pelo título ganha uma dimensão simbólica, revelando como os atos banais podem expor tensões, hábitos e contradições da existência. O poeta observa o mundo com lucidez crítica, recusando idealizações e valorizando o detalhe concreto. A contenção verbal, aliada ao humor subtil, transforma uma situação comum numa oportunidade de questionar comportamentos e relações humanas.


Milton Nascimento e Chico Buarque - O que será



O que será que me dá

Que me bole por dentro, será que me dá

Que brota à flor da pele, será que me dá

E que me sobe às faces e me faz corar

E que me salta aos olhos a me atraiçoar

E que me aperta o peito e me faz confessar

O que não tem mais jeito de dissimular

E que nem é direito ninguém recusar

E que me faz mendigo, me faz suplicar

O que não tem medida, nem nunca terá

O que não tem remédio, nem nunca terá

O que não tem receita.


O que será que será

Que dá dentro da gente e que não devia

Que desacata a gente, que é revelia

Que é feito uma aguardente que não sacia

Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar

Nem todos os unguentos vão aliviar

Nem todos os quebrantos, toda alquimia

E nem todos os santos, será que será

O que não tem descanso, nem nunca terá

O que não tem cansaço, nem nunca terá

O que não tem limite.


O que será que me dá

Que me queima por dentro, será que me dá

Que me perturba o sono, será que me dá

Que todos os tremores me vêm agitar

Que todos os ardores me vêm atiçar

Que todos os suores me vêm encharcar

Que todos os meus nervos estão a rogar

Que todos os meus órgãos estão a clamar

E uma aflição medonha me faz implorar

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem juízo.


      "O Que Será?" é uma das composições mais emblemáticas de Chico Buarque, criada em 1976 para a banda sonora do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos. Marcada pela sua forte carga metafórica e poesia intensa, a canção tornou-se um hino de resistência implícita contra a ditadura militar brasileira e uma profunda reflexão sobre o desejo, a aflição e o mistério da natureza humana."Se Deus cantasse, ele teria a voz de Milton Nascimento" é uma frase dita por Elis Regina.


Hubert Kaplan - In the Village



      The painting presents a charming rural scene filled with warmth and everyday activity. The painting depicts villagers gathered along a quiet country street, surrounded by traditional buildings and lush vegetation. Kaplan’s detailed realism captures the textures of stone, wood, clothing, and foliage with remarkable precision. The harmonious colours and carefully observed details evoke nostalgia for a simpler, close-knit village life


Alejandra Pizarnik - Os trabalhos e as noites

 


para reconhecer na sede o meu emblema

para significar o único sonho

para não me sustentar nunca outra vez no amor


fui toda oferenda

um puro errar

de loba no bosque

na noite dos corpos


para dizer a palavra inocente


      O poema apresenta a poesia como uma procura incessante pela palavra essencial, capaz de traduzir a experiência interior. A noite surge como espaço de introspeção, desejo e descoberta, onde a poeta vagueia entre o amor, a solidão e a procura de identidade. A imagem da «loba» sugere liberdade, instinto e errância. A linguagem, breve e depurada, cria uma atmosfera simultaneamente misteriosa e melancólica. Assim, escrever torna-se uma tentativa de alcançar uma palavra «inocente», pura e verdadeira.


Bea Almar, Pilar Almalé, IXEYA, Irene Mezcal, Ester Vallejo - Todo Cambia



Cambia lo superficial, cambia también lo profundo

Cambia el modo de pensar, cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años, cambia el pastor su rebaño

Y así como todo cambia que yo cambie no es extraño.

 

Cambia el más fino brillante de mano en mano su brillo

Cambia el nido el pajarillo, cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante aunque esto le cause daño

Y así como todo cambia que yo cambie no extraño.

 

Cambia, todo cambia, cambia, todo cambia,

Cambia, todo cambia, cambia, todo cambia.

 

Cambia el sol en su carrera cuando la noche subsiste

Cambia la planta y se viste de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera, cambia el cabello el anciano

Y así como todo cambia que yo cambie no es extraño.

 

Pero no cambia mi amor por más lejos que me encuentre

Ni el recuerdo ni el dolor de mi pueblo y de mi gente

Y lo que cambió ayer tendrá que cambiar mañana

Así como cambio yo en estas tierras lejanas.

 

Pero no cambia tu amor (cambia, todo cambia)

Por más lejos que te encuentres

Ni el recuerdo, ni el dolor (cambia, todo cambia)

De tu pueblo y de tu gente

Y lo que cambió ayer (cambia, todo cambia)

Tendrá que cambiar mañana

Y así como cambio yo (cambia, todo cambia)

En tu tierra tan amada.


      «Todo cambia» es una canción compuesta por el cantautor chileno Julio Numhauser, en Suecia en 1982, durante su exilio. La canción fue grabada posteriormente como cover por Mercedes Sosa en 1984, versión con la cual se popularizó la pieza. Julio Numhauser fue uno de los fundadores de la agrupación de canto nuevo Quilapayún. En 1973, tras el golpe militar de Augusto Pinochet a Salvador Allende y el comienzo de la dictadura pinochetista, Numhauser se exilia en Europa, estableciéndose en Suecia en 1975. En 1982 compuso y grabó «Todo cambia», junto al grupo Somos, dentro de un disco que no se lanzó al mercado oficialmente, pero que circuló en Chile de manera informal.

        in, Wikipedia


Henry Woods - Fruit Sellers from The Islands, Venice, 1903



      The painting presents a lively Venetian scene centred on local fruit vendors beside the city’s waterways. The figures, dressed in traditional clothing, convey the colourful character of everyday life and commerce. Baskets overflowing with fruit introduce vibrant accents, contrasting with the muted architectural and waterside surroundings. The painting celebrates Venice not through grand monuments, but through its people, markets, boats, and ordinary moments of Mediterranean life.


Escolhas

 


Ódio tem 4 letras, amor também;

Mal tem 3 letras, bem também;

Mentira tem 7 letras, verdade também;

Tudo tem 4 letras, nada também;


Forte tem 5 letras, fraco também;

Chorar tem 6 letras, sorrir também;

Vazio tem 5 letras, cheio também;

Doentio tem 7 letras, saudável também;


Negatividade tem 12 letras, positidade também;

Maldade tem 7 letras, bondade também;

Corajoso tem 8 letras, temeroso também.

A vida tem dois lados, escolha o melhor.


      As nossas escolhas diárias moldam o nosso destino, definindo o rumo entre a realização pessoal e as consequências que acumulamos ao longo do tempo.


Anavitória e Orquestra Ouro Preto - Trevo (Ao vivo no Rio de Janeiro)



Tu

É trevo de quatro folhas, é manhã de domingo à toa

Conversa rara e boa

Pedaço de sonho que faz meu querer acordar p'ra vida, ai, ai, ai


Tu

Que tem esse abraço casa, se decidir bater asa

Me leva contigo p’ra passear

Eu juro afeto e paz não vão te faltar, ai, ai, ai


Ah, eu só quero o leve da vida p’ra te levar

E o tempo para

Ah, é a sorte de levar a hora p’ra passear

Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá

Quando aqui tu tá.


Tu.

         Nossa, ficou lindo!


Henri Le Sidaner

 


      "Discreto entre os grandes nomes da pintura francesa da viragem do século XX, Henri Le Sidaner ocupa um lugar singular, na fronteira entre o impressionismo tardio, o simbolismo e o intimismo. Pintor de mesas postas em jardins, ruelas desertas e luzes crepusculares, construiu uma obra paciente e contemplativa, onde a ausência de figuras humanas deixa todo o espaço à atmosfera."

                  in, Artem Legrand


Ruy Belo - Muriel

 


Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te

e antes de chegares, já lá estavas

naquele preciso sítio combinado

onde chegavas sempre tarde

ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses

se ausente mais presente pela expectativa

por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente.

Mas sabia e sei que um dia não virás

que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste

ou até se exististe ou se eu mesmo existi

pois na dúvida tenho a única certeza

Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?


      O poema explora a complexidade dos sentimentos humanos, cruzando memória, desejo e consciência da passagem do tempo. A figura evocada no título poderá representar uma presença marcante, associada à experiência amorosa e à reflexão sobre a fragilidade das relações. O poema convida o leitor a refletir sobre a distância entre o que se vive, o que se recorda e aquilo que permanece.


Gabriela Cuicchi - Soy de la tierra



Soy un latido en la tierra, tal vez un pájaro, un alma,

tal vez un pájaro, un alma.

Soy fantasia constante, la voz, el eco y la tarde,

la voz, el eco y la tarde.

A donde grillos y estrellas se vuelven una ilusión.


Soy un ayer y un mañana, sólo un perfume en el aire,

pañuelo alegre en la zamba terron agreste es mi carne

Y un triste arrullo de urpila agita mi corazón.


Y en las alas de una nube micorazon alza vuelo

Y en la flor de una esperanza baila un malambo de fuego,

baila un malambo de fuego.

Cuando en mis párpados arden las rubias trenzas del Sol.


hachando el monte del tiempo desgajo rima y poesía

tiernas plegarias que anidan en alas algún silencio,

en alas algún silencio.

Tierra desde el sentimiento por donde va mi ilusión.


Y en las alas de una nube mi corazón alza vuelo

Y en la flor de una esperanza baila un malambo de fuego,

baila un malambo de fuego.

Cuando en mis párpados arden las rubias trenzas del Sol.


Soy un latido en la tierra, tal vez un pájaro, un alma

tal vez un pájaro, un alma.


      Voz y guitarra en una sublime sinfonía del alma, belleza en su máxima pureza. "Soy de la tierra", obra perteneciente a Horacio Banegas, gran autor santiagueño. Presenta la magia de la guitarra Ayacuchana.


Rupert Bunny - A Summer Morning



      The painting depicts women in soft, flowing fabrics spending time by the water alongside a peaceful family of swans. It shows the artist’s refined use of colour, delicate lighting and elegant composition. Soft tones create a harmonious atmosphere, while the gentle interplay of light and shadow enhances the scene’s intimacy. Bunny’s characteristic sensitivity to beauty transforms an ordinary moment into something poetic and timeless.


Helena Sacadura Cabral - O mundo do trabalho está a mudar

 


      O mundo do trabalho está a mudar. Durante muito tempo, a produtividade e os resultados estiveram no centro das organizações. Hoje, cresce a preocupação em conciliar desempenho com bem-estar, dignidade e desenvolvimento pessoal.

      Humanizar o trabalho significa reconhecer que, por detrás de cada função, existe uma pessoa com capacidades, emoções, necessidades e expectativas. Não significa diminuir a exigência, mas criar condições para que o profissional possa realizar o seu trabalho com responsabilidade, autonomia e equilíbrio.

      A expansão da inteligência artificial e da automação torna esta questão ainda mais importante. À medida que muitas tarefas são realizadas pela tecnologia, ganham valor competências essencialmente humanas, como a criatividade, a empatia, o pensamento crítico, a comunicação e a capacidade de trabalhar em equipa.

      Também as relações dentro das organizações estão a mudar. Modelos de liderança mais participativos, baseados na confiança, na autonomia e no reconhecimento, tendem a substituir formas excessivamente hierárquicas de gestão. A flexibilidade e os modelos híbridos reforçam igualmente a necessidade de encontrar um equilíbrio saudável entre vida profissional e pessoal.

                  Helena Sacadura Cabral


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