Ricardo Ribeiro - Amanhã

 


Estas noites sempre iguais duras de mastigar

Entre dentes e punhais no vazio que por vezes me dás

Noite o teu tempo é canto passageiro

Fome de caminheiro peça sem tabuleiro.

 

Amanhã vivo mais cedo

Amanhã lembro quem és

Mais cedo que os nós que demos à vida

No amanhã que amanhece a teus pés.

 

Em noites frias de chuva na mão

Atiras para a vala o meu coração

Tempo de glória d’um amor livre

Que conta uma história de quem sobrevive.

 

Na tua noite lisa e suave deitada rosa

Num denso enclave descansa-me na tua brisa

No amanhã que amanhece a teus pés.


      O fadista Ricardo Ribeiro disse que o seu novo álbum, "A Alma Só Está Bem Onde não Cabe", a editar na próxima sexta-feira, é como "parte de uma canção" de si mesmo, vem da vontade de estar desperto para o mundo.


Aron Wiesenfeld, American, born 1972 - The Tree

 


      Aron Wiesenfeld’s The Tree shows a solitary tree rising from an open, cloudy landscape, rendered with delicate realism and dreamlike stillness. A school girl climb there to help some nestless birds. The branches are cut and bare. "Mercy on our uniform."


Casimiro de Brito - Nem imaginas



Nem imaginas o que desejo que tu sejas

sem nunca deixares de ser uma mulher:

uma cobra, uma deusa, uma raposa

um anjo, uma cama de areia, uma melodia, uma

escultura de mármore,

plantas subaquáticas, uma mártir, uma longa

gota de água ou sal ou mel ou aura, uma Vénus,

uma pura cortesã de Pompeia, uma musa coberta

de peles, uma fera, uma fada, uma feiticeira,

uma menina, um vulcão, um arco-íris, um jardim,

sei lá que mais – poderás ser tudo isto

e mais, e mais. E deixares que em ti me derrame,

que em ti me complete. A luz da tua pele

cega-me.


   A tela é de Frank Weston Benson, Summer Day.


The Tremeloes - Silence Is Golden, 1967



Oh, don't it hurt deep inside

To see someone do something to her

Oh, don't it pain to see someone cry

How especially if that someone is her.

 

Silence is golden, but my eyes still see

Silence is golden, golden, but my eyes still see.

 

Talking is cheap people follow like sheep

Even though there is no where to go

How could she tell he deceived her so well

Pity she'll be the last one to know.

 

How many times will she fall for his lines

Should I tell her or should I be cool

And if I tried I know she'd say I lied

Mind your business don't hurt her you fool.


      The lyrics are hauntingly truthful to many people who have experienced a situation like the one described in this song, the rhymes are amazing and the words easy to sing along to, and to recall because of its pace, the high pitch tones of the voices are fantastic, and the unison of the singers is wonderful. No doubt that this song rates as a true timeless classic.


Friedrich Eduard Meyerheim - Good Morning, Dear Father

 

      It beautifully captures a tender domestic moment inside a modest 19th-century German home. A mother holds her baby by the window while another child eagerly greets their father outside, bathed in soft morning light. The warm tones and intimate details emphasize family love, simplicity, and the quiet dignity of everyday life-hallmarks of Meyerheim's genre painting style.


Fernando Beltrán - Batota para perder

 


Minha mãe ensinou-me a fazer batota


Batota para perder


Ganhar era tão fácil que eu chorava de noite

e não conseguia adormecer


Ela acalmava-me com a mão dela na minha

contando-me histórias que depois aconteceram


A culpa foi minha,


ela perguntava se eu as queria reais ou inventadas

e eu dizia sempre, que lhe tivessem

acontecido a a ela


E aí quase sem querer

uma noite minha mãe inventou a realidade.


(Trad. A. M.)


      Fernando Beltrán constrói um poema sobre a aceitação da derrota como parte inevitável da experiência humana. O eu lírico observa as pequenas armadilhas do quotidiano — expectativas, ilusões e desejos — que nos conduzem a fracassos necessários para crescer. A linguagem é simples, mas carregada de ironia e lucidez, sugerindo que perder também pode ser uma forma de liberdade. 


Serigosa - Eu não sou tua criada



Hey, Mé kié, Tracatá.

Anda cá, José se queres a tua roupa lavada

Ai, paga a uma lavadeira, paga a uma lavadeira.

Qu′eu não sou tua criada!


Qu'eu não sou tua criada, qu′eu criada não sou tua

Ai, José se me não queres põe o chapéu, vai prá rua.

Hey e vai pra e vai pra rua

Hey, Mé kie, Díselo.

 

A tua roupa lavada qu'é aquilo que te cabe

Eu não quero ser ajudada! Ái, o tempo é de igualdade.

 

Eu não, eu não sou tua, eu não tua criada

Eu não, eu não sou tua, eu não tua criada.

 

Eu hei d'ir ao São João! Ai eu hei d′ir ao São João

Ai o me marido na queri! Ai o me marido na queri!

 

Deixai o la abalari! Ai deixai o lá abalari!

Ai eu farei o keu quiseri! Ai eu farei o keu quiseri!

 

O qu′eu quiseri

Eu não sou tua criada nem princesa encantada, 

já são tempos de igualdade

O teu mundo de vantagem já está fora de validade

Atrás de ti não vou, só caminho lado a lado

Sem script nem fantasia eu sou dona do meu fado

Não me visto pr'agradar, nem me calo p'ra evitar

Tenho voz, tenho corpo, tenho cabeça pra pensar

Fica tu em casa que eu vou trabalhar

Vou pra rua erguer sonhos que nao nasci para enfeitar

O género não é regra, nem sentença a cumprir

Nao há preto nem há branco, há mil formas de existir

A minha liberdade é raiz que não se arranca

E o amor, senão for libre não me serve nem o qu′eu quiseri.


Marie Spartali Stillman ( British, 1844-1927 ) - The Enchanted Garden, 1889

 


      The work draws on a story from The Decameron by Giovanni Boccaccio. In the tale, the nobleman Ansaldo attempts to win the married Madonna Dianora by fulfilling her seemingly impossible demand: to create a blooming garden in the middle of winter.

      Stillman’s watercolour depicts the dramatic moment when the miracle appears to have been achieved. Framed by architectural arches that reveal a frozen, snow-covered landscape outside, the enclosed garden bursts with flowers, blossoms, and fruit trees in full bloom. Dianora and her attendants, still wrapped in heavy winter cloaks, gaze in astonishment at the impossible scene. While the women react with wonder, Dianora herself appears downcast, troubled by the promise she believes she must now keep. The narrative ultimately resolves happily, when her husband learns the truth and Ansaldo releases her from the vow.


Yvette Centeno

 



O Capitão Ahab

Entre as profundas ondas da terra e do mar

da infância pequena protegida,

ovelha num rebanho que um pastor com o seu cão

ia guiando

até aos grandes sonhos que a vida permitia

afinal eram apenas sonhos, ilusões de uma realidade

fingida embora desejada, a pesca da baleia inacessível

apesar de tantas vezes arpoada, sempre a perder  um

sangue indescritível, que o cosmos reconstituía

se refazia no fulgôr de um vulcão, erguido longe

no mar  e devolvia as forças ao velho capitão

insistente, indomável à proa do seu barco

que um dia só ele afundaria.

 

      No livro, Ishmael narra a busca obsessiva de Ahab, capitão do navio baleeiro Pequod, por Moby Dick, a gigante baleia branca que, na viagem anterior do navio, arrancara parte da perna do capitão. 

      A raiva de Ahab é interpretada como uma revolta profunda contra as limitações humanas e contra a própria existência, manifestada no desejo de destruir a natureza (representada pela baleia). Essa obsessão conduz à perdição de todos, incluindo Ahab.


Peder Severin Krøyer - Roses Marie Krøyer sitting on a deckchair in the garden at Mrs. Bendsen's house - 1893



      The painting captures a serene summer moment. Marie Krøyer sits relaxed in a deckchair surrounded by blooming white roses. Dressed in a light and elegant dress, she blends gently with the luminous garden atmosphere. Soft sunlight and loose brushwork create a sense of warmth and intimacy. The composition reflects the calm beauty of everyday life, emphasizing light, colour, and the tranquil charm of a Danish seaside garden during the Skagen painters’ era.


Cristian Aliaga - Os versinhos



Os versinhos,

estes frascos sem tinta

onde pomos o melhor da memória.

Muros de iluminação, amargas torres,

palavras somente?


Mas a quem encomendar a história,

senão a estas nuvens pequenas

de espuma?


Heis-de ficar cegos

de tanto cerrar os olhos.


(Trad. A.M.)


Big Hill - Chris Brain (Ft. Natalie Wildgoose)



      Brain describes the tune as "a simple, gently undulating song inspired by a long-held longing to climb one of the hills in the Yorkshire Dales, a view I’d admired through the window on countless journeys, always promising myself I’d walk it one day." When he finally made the ascent, the experience was just as quietly revelatory as anticipated: "a steady breeze seemed to carry me up the slope, and a cool river below offered relief after the descent.” The song features guest vocals from Natalie Wildgoose, who Brain notes “shares a deep connection to the Yorkshire Dales and spends much of her time there."


Sound of Falling (2024) dir. Mascha Schilinski



      Set within a rural landscape shaped by memory and silence, the film follows several women whose lives intersect across different periods of time. Their experiences echo one another through fragments of family history, personal trauma, and unspoken emotions, gradually forming a layered portrait of how the past reverberates across generations.


Giuseppe Ungaretti - Em repouso

 



Quem me acompanhará pelos campos:

o sol semeia diamantes,

gotas de água sobre a dócil erva,

e fico tranquilo na inclinação do universo sereno.


Dilatam-se as montanhas em sorvos de sombra lilás

e com o céu vagueiam,

em cima na frágil abóbada quebra-se o encanto

 

e, em mim, me precipito e num ninho meu me apago.


  Tradução de Luís Pignatelli


Emily Dickinson

 


O coração tem muitas portas.

Só tenho de abrir.

Cada doce "adiante" que me empurra para

entrar sem a dor da rejeição

recorda-me que

em algum lugar

existe superioridade.


  Tradução de Ana Fernandes


Amy Winehouse - All my lovin'



      If you cover a song, always do it differently, and by Christ, this is different!  Amy was genuine. Not a fake. Her singing style is inspired by the great jazz, soul and gospel singers. I always agree with those who confess The Beatles created perfect songs. Right! But Amy and Joe Cooker turned two of them even better.


Jean-Luc Godard - Prénom Carmen, 1983



      Na conferencia de imprensa do Festival de Veneza de 1983, do qual Prénom Carmen recebeu o Leão de Ouro de melhor filme, Godard afirmou que estava "interessado em ver as coisas, não antes de elas existirem, mas antes que se lhes dê um nome". Na mesma entrevista, disse ainda: "Acho que, no cinema, não pode haver senão histórias de amor". Godard costumava despistar os jornalistas, mas, dessa vez, foi franco e exato, dando-lhes a melhor explicação possível da simplicidade de Prénom Carmen, uma história de amor que, partindo de um grande mito feminino já conhecido de todos, busca, paradoxalmente, retroceder ao que existe antes do nome, antes da linguagem, antes do conhecimento. 

      Nomear, como se sabe desde os tempos bíblicos, é dominar, designar, classificar. Inversamente, não dizer o nome, ou regredir ao pré-nome, é negar da história de Carmen aquilo que todos já conhecem, é arrancá-la da ordem simbólica em que foi enquadrada pela tradição. É "contar" a sua história ao invés de somente representá-la.


Georgina Ramírez - Outubro

 


Nunca houve tanto vazio

nas nossas vidas

como neste tempo

da tua falta

Temos sido deserto e sede

mas na tua margem

sempre amparo

e água fresca

Umas costas

foste-nos sempre

e sem ti

somos apenas

bocados de família

espaços em branco

cheios de silêncio.


   Tradução de A.M. e a tela é de Alex Russell Flint.


George Tooker - Waiting room, 1957



      It portrays a tense, surreal interior filled with silent, isolated figures. People sit stiffly on wooden benches along bare walls, avoiding eye contact and appearing emotionally disconnected. The muted palette and rigid symmetry create an atmosphere of anxiety and confinement. Though the scene resembles an ordinary public waiting area, the unnatural stillness makes it unsettling. Tooker, associated with Magic Realism, uses precise detail and distorted perspective to suggest alienation and the impersonal nature of modern life, turning a familiar setting into a haunting psychological space.


Nena - "Portas do Sol" ao vivo no Campo Pequeno, 4 de Outubro de 2025



Não me dás um sinal vou p'la marginal a olhar p'ro rio

Ouço a rádio a dar e está a tocar o que nos uniu

Passo pelo Chiado, história em todo lado, o que tremeu

Um dia meu amado agora passado no Rossio.


  Quer tu esqueças ou guardes

  mais cedo ou mais tarde vais-te lembrar

  Que fomos como Lisboa e se isto não soa bem, então não sei

  O que mais irá, o que mais virá.


Vimos esta paisagem como uma miragem, mas não foi

Ali no miradouro das portas do Sol um nós surgiu

Canto agora em Lisboa e mesmo que minta, diz se aí

Que esta frase que digo de coração partido é p'ra ti.


E tu estás cá ou estás fora um antes no agora em postal

Diz não gostes de alguém que sonha p'ra além de Portugal.


      A canção transforma Lisboa num símbolo vivo de um relacionamento passado. A jovem cantora utiliza lugares marcantes da cidade, como o Chiado, o Rossio e o miradouro das Portas do Sol, não apenas como cenários, mas como pontos carregados de lembranças e emoções. Ao cantar “Que fomos como Lisboa”, Nena sugere que o relacionamento, assim como a cidade, é feito de camadas de história, nostalgia e uma beleza que resiste ao tempo, mesmo depois do fim do amor.


Carl von Bergen - Girls rescuing a doll in a stream

 


      The painting portrays a gentle childhood moment set in nature. Two young girls lean over a shallow stream, carefully retrieving a fallen doll from the water. Their body language shows urgency mixed with tenderness. Soft natural light and earthy tones create a calm rural atmosphere, while the flowing water adds movement. The scene captures innocence, friendship, and the small dramas of childhood.


Gloria Bosch - A despedida



Se te despedires, fá-lo de mansinho,

nada de brusquidão.

Não me digas: 'Vamos estar um tempo sem nos ver'.

O que é o tempo?, responder-te-ia.

Uma ponte entre o adeus e o reencontro?

Se te despedires, que o teu adeus me conforte,

que seja o bálsamo de minhas feridas,

que os teus lábios me digam: 'até depois',

'fazes já parte da minha vida',

que eu possa sentir que em todo o momento

nossas mãos se buscarão na sala de espera

e falaremos de amores, de como passa o tempo,

de quão interessante te acho.


António Lobo Antunes, no dia da sua morte



      "A loucura é qualquer coisa que existe em todos nós, é mais um receio que uma realidade. No fundo, o que é enlouquecer? É sair de uma determinada norma, não é? É preciso muita coragem para se ser realmente louco."

in, O Jornal, 1992

  Morreste-me.


Mafalda Veiga - A Fonte



 

Vai à fonte que a alegria nunca pára de jorrar

E não passa nenhum dia sem que eu te veja pintar


Essa cor que tens nos lábios, essa cor que tem o céu

Vem ensinar aos teus braços o caminho para os meus


São duzentas primaveras mais outono, inverno e verão

Nunca estar longe da vista faz-nos bem ao coração


Vai à fonte que a alegria é promessa para cumprir

Se chegares com olhar triste hás-de sair a sorrir


Se pintares o mundo inteiro num bocadinho de mar

Se inventares em porcelana uma maneira de amar


Essa fonte há-de contar-te os mistérios de onde eu vim

E quando molhares os lábios, hás-de lembrar-te de mim.


      Para sempre "Quando molhares os lábios, hás-de lembrar-te de mim." Muito belo.


Aleksander Augustynowicz (Polish painter, 1865-1944) - Portrait of the artist's daughter - Ola Kozlowska



      Most of his paintings are made from watercolour and are themed on landscapes, Polish folklore and his daughters; his artworks are currently exhibited in numerous museums around Poland and in private ownership. After the start of World War II he moved to Warsaw, where he was killed during the Warsaw Uprising. This one describes Ola looking for beauty.


Begoña Abad - O Meu avô nunca saiu

 


O meu avô nunca saiu da sua terra.

A terra tinha quatro casas,

quatro ruas, quatro caminhos,

quatro moradores, quatro cães.

Não havia nem bispos, nem ministros,

nem putas, nem altos cargos,

não havia empresas, nem bancos, nem igreja havia.

Na verdade não saiu nunca do seu moinho.

E já é acaso que por esse lugar,

remoto e esquecido,

acertasse a vida a passar.

Falava pouco o meu avô mas sabia muito,

tendo aprendido tudo a ver a mó,

implacável, a girar eternamente,

esmagando o grão, até o fazer em farinha.


(Trad. A.M.)


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