Colmeia - Só de uma banda



      "Só de uma banda" é uma canção cantada pelas mulheres da aldeia de Bravães em Ponte da Barca. Aprendemos algumas quadras e acrescentámos outras.


Minha mãe tinha um adufe

Não o pode tocar só

Tocará a minha tia

Tocará a minha avó.


  Só de um abanda

  Só, só, só

  Só de uma banda

  De uma banda só.


Minha mãe, minha mãezinha

Minha mãezinha do céu

Que me trouxe nove meses

Debaixo do seu mantéu.


De uma banda ralha a tia

De outra banda ralha a avó

Imagina o que seria

Se cantássemos uma só.


À procura do destino

Onde quero acabar

Se o que conta é a viagem

É na luta o meu lugar.


O meu corpo à vontade

Liberdade e intenção

Já não há corrente forte

Que impeça a revolução.


Adolphe Jean Louis Thomas - In a valley in Alsace



      It depicts a tranquil rural landscape nestled between gentle hills. A winding path leads the eye through sunlit fields toward clustered village roofs (castle?), softened by mist. Tall trees frame the valley, their foliage rendered with careful, naturalistic brushwork. The muted palette of greens, browns, and pale sky evokes calm and quiet labour. Subtle light suggests early morning, emphasizing harmony between human settlement and the enduring rhythms of the Alsatian countryside. Its mood feels reflective, timeless, and gently affectionate toward place and people.


João Melo - O que fazer diante do fim



Quando o fim assomar

à tua frente

como um monstro

de sete cabeças, catorze línguas

e milhões de braços pavorosos,


quando o fim ameaçar

levar-te na sua bocarra

escancarada e sem fundo,


quando o fim te convencer

que o outro lado do espelho

é menos assustador do que aquilo que vês,

 

– Resiste!

 

Não temos outro mundo

Para tornar mais humano.


   A pintura (detalhe)é de Hieronymous Bosch.


Colmeia - Bela



Ò bela vem à janela

Há dias que não te vi

E eu quero saber notícias

Da carta que te escrevi


Da carta que me escreveste

Dói me o meu peito lê-la

Ocupa todos os andares

Matriz de cada costela


Ò bela sai à janela

Deita o cabelo à rua

Quero levar na guitarra

Uma recordação tua

 

Podes poupar a guitarra

Uma outra serenata

Deixaste-me a roupa velha

E ainda levaste a prata

 

A porta que deixei aberta

Nela queria ver-te entrar

Sem dó, fechaste a janela

Ficou-me o peito a chorar

 

Cantei-te uma outra moda

Explanei o meu coração

Esperei-te, não vi mais nada

Brotou-me nova paixão.


      "Ò bela vem à janela" é um romance transmontano cantado por Lúcia Augusta Rodrigues e recolhido pelo etnomusicólogo Domingos Morais em 1985.


August Schiøtt (Danish, 1823–1895) - A Kitchen, 1892



      The painting describes a quiet domestic interior filled with warm, natural light. The scene captures a woman engaged in everyday tasks, surrounded by simple household objects—pots, utensils, and food ingredients—that emphasize the intimacy and realism of ordinary life. Schiøtt’s careful attention to detail and soft, harmonious colour palette convey both serenity and authenticity. The painting reflects 19th-century Danish art’s appreciation for domestic tranquillity and the subtle beauty of familiar, lived-in spaces.


Javier Salvago - Ano Novo / Año nuevo



Como as coisas não podiam

piorar - escreveu Kafka,

no seu Diário -, melhoraram.


Como gostaria, diante deste negro

e inóspito horizonte que se abre

diante de mim - como um ano mais,

ou como um ano menos -,

de poder dizer o mesmo.

                        Sinto porém

que não toquei o fundo,

que há mais miséria, mais dor, mais tédio

mais à frente, que as coisas

podem piorar.

Que o pior, como alguém disse,

ainda está para chegar.


                       31, dezembro, 1996


    Original:


Como las cosas no podían

ir a peor —escribió Kafka,

en su Diario—, mejoraron.


Cómo me gustaría, ante este negro

e inhóspito horizonte que se abre,

ante mí —como un año más,

o como un año menos—,

poder decir lo mismo.

                       Pero siento

que no he tocado fondo,

que hay más miseria, más dolor, más tedio

más adelante, que las cosas

pueden empeorar.

Que lo peor, como quien dice,

aún está por llegar.


                     31, diciembre, 1996


Max von Schmaedel - Milchmädchen und Gärtner



      It describes a quiet pastoral encounter between a young milkmaid and a gardener, set within a sunlit rural landscape. The figures are rendered with gentle realism, emphasizing everyday labour rather than idealized romance. Soft, earthy tones and careful brushwork create a calm, intimate mood. Gestures and gazes subtly suggest conversation, highlighting human connection, simplicity, and dignity within agrarian life, typical of nineteenth-century genre painting.


Do Lord



I've got a home in Gloryland that outshines the sun,

I've got a home in Gloryland that outshines the sun,

I've got a home in Gloryland that outshines the sun,

Look away beond the blue.


Do Lord, oh, do Lord, oh, do remember me,

Do Lord, oh do Lord, oh, do remember me,

Do Lord, oh, do Lord, oh, do remember me,

Look away beond the blue.


I took Jesus as my Savior, you take him too,

I took Jesus as my Savior, you take him too,

I took Jesus as my Savior, you take him too,

While he's calling you.


      "Do Lord" is a traditional African-American spiritual and gospel hymn, often featuring verses about heaven ("home in Gloryland") and requesting divine remembrance during trouble or death. Key lyrics focus on, "Do Lord, oh do Lord, oh do remember me way beyond the blue".


Are these created by AI?




      A pintura com IA introduz um novo conjunto de ferramentas para os artistas tradicionais explorarem, aumentando a sua criatividade e não substituindo o seu papel. Os artistas podem utilizar a IA para gerar ideias, executar padrões complexos ou acelerar o processo de criação. No entanto, as emoções, experiências e perspetivas únicas que os artistas trazem para o seu trabalho continuam a ser insubstituíveis. 

Billy Collins - O Aprendiz

 


O meu livro e ensinamentos poéticos,

comprado numa banca ao ar livre junto ao rio,


apresenta muitas regras

sobre o que escrever e não escrever.


Mais do que duas pessoas num poema

é uma multidão, é uma.


Falar na roupa que se tem vestida

quando se escreve, é outra.


Fugir de palavras como vórtice,

aveludado e cigarra.


Quando não souber como acabar,

ponha umas galinhas castanhas à chuva.


Nunca admita que faz correções.

E mantenha sempre o poema numa só estação.


Procuro tê-las presentes

mas, nestes últimos dias de verão,


sempre que ergo os olhos da minha página

e vejo uma mancha seca de folhas amarelas,


penso nos ventos gélidos

que em breve golpearão o meu casaco.


   in, A aranha irlandesa & outros poemas


Laboratorium Pieśni - Koło mego ogródecka [Near my garden]




Translation:


Near my garden

an apple tree was blooming


It was blooming

in white and had red apples


And who would collect them for me,

while Jasio got angry?


He got angry and I don't know why,

and was visiting me, I don't know why


And he kept coming all spring long,

he was asking my mother when I'll grow


And he kept coming all summer long,

I' was giving him a kiss for that


And he kept coming all summer long,

I was putting apples in his pocket


And he kept coming all winter long,

I was letting him under my eiderdown.


      I didn't post the lyrics in Polish 'cause they are not difficult to find on the web. I found the video very beautiful and grandma was amazing at the end when she sings and rhymes.


Franz Schams - El sermón perdido. Pareja de jóvenes reprendida por el pastor, 1883



      A tela retrata uma cena moral do século XIX. Num ambiente rural e eclesiástico, um pastor, figura de autoridade, admoesta um jovem casal apanhado em comportamento que ele considera inadequado. A composição combina realismo com um tom moralizante, mostrando gestos, olhares e atitudes que refletem culpa, severidade e arrependimento, enquanto a luz acentua o contraste entre a pureza espiritual e a fragilidade humana.


Hilda Hilst

 


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.

Trabalhas a tua riqueza, e eu trabalho o sangue.


   in, Poemas aos homens do nosso tempo


Paulo José Miranda - Exercício 41



não se chega ao sentido do outro

com números com cálculos com medidas

mas tão-somente à loucura do outro


e quantas vezes

por centímetros ela não acontece


   Still do filme 'Persona', de Ingmar Bergman


Mary Oliver - À Excepção do corpo



À excepção do corpo

de alguém que amas,

incluindo todas as suas expressões

em privado e em público,


as árvores, penso,

são as mais belas

formas sobre a Terra.


Ainda que, admitamos,

se isto fosse um concurso,

as árvores acabariam num

muitíssimo distante segundo lugar.


Joe Cocker & Jennifer Warnes - Up Where We Belong, 1992



Who knows what tomorrow brings in a world few hearts survive

All I know is the way I feel when it's real, I keep it alive

The road is long, there are mountains in our way, but we climb a step every day.


Love lift us up where we belong

where the eagles cry on a mountain high

Love lift us up where we belong

far from the world below, up where the clear winds blow.


Some hang on to used to be live their lives looking behind

All we have is here and now all our lives, out there to find

The road is long, there are mountains in our way, but we climb a step every day.


Love lift us up where we belong

where the eagles cry on a mountain high

Love lift us up where we belong

far from the world we know where the clear winds blow.


Time goes by, no time to cry, life's you and I alive today.


     Honestly no other duo could pull off this song better. "Up Where We Belong" is a power ballad about love as elevation—emotional, spiritual, and aspirational. The lyrics contrast a harsh, grounded world of fear and struggle with a higher place where love offers meaning and courage. Joe Cocker’s gritty delivery embodies lived hardship, while Jennifer Warnes’ clear tone represents hope and steadiness; together, they dramatize love as a partnership that transcends limitations.


Pierre-Auguste Renoir - Umbrellas,

 


      This painting places us in a busy Parisian street close to six principal figures who fill the foreground. A milling crowd behind them almost completely blocks out the boulevard beyond. The top quarter of the picture is mostly filled by a canopy of at least a dozen umbrellas.

      Painted in two stages, with a gap of around four years between each stage, it shows the change in Renoir’s art during the 1880s, when he was beginning to move away from Impressionism and looking instead to classical art. The group on the right, which includes a mother and her two daughters and the woman in profile in the centre, is painted in a characteristically Impressionist manner with delicate feathery touches of rich luminous tones. On the left of the composition, completed during the second stage, Renoir adopted a more linear style. The figures here, including the full-length young woman and the man standing behind her, have clearly defined outlines, precisely drawn features and a greater sense of three-dimensional form.


Eugénio de Andrade - À beira de água

 


Estive sempre sentado nesta pedra

escutando, por assim dizer, o silêncio.

Ou no lago cair um fiozinho de água.

O lago é o tanque daquela idade

em que não tinha o coração

magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,

dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,

tão feito de privação.) Estou onde

sempre estive: à beira de ser água.

Envelhecendo no rumor da bica

por onde corre apenas o silêncio.


      Neste poema, Eugénio de Andrade explora a intimidade entre o eu lírico e a natureza, usando a água como símbolo de desejo, pureza e passagem. A linguagem simples e sensorial cria uma atmosfera contemplativa, onde o corpo e o mundo se tocam. O ritmo calmo, as imagens líquidas e a contenção verbal reforçam a ideia de proximidade e silêncio, revelando uma poética do instante, da entrega e da fusão entre ser humano e paisagem, marcando erotismo discreto e musicalidade intensa.


Elthin (Czech Medieval & Renaissance Band) - Petit Vriens



      Petit Vriens is a simple dance from Domenico. It is for three people - it can be done with a man and two ladies or two men and one lady.  Petit Vriens ("Little Nothings") is one of the early renaissance dances from "De pratica seu arte tripudii" published by Guglielmo Ebreo da Pesaro in 1463. Filmed in Kratochvíle castle, Czech Republic.


Miguel Torga - Instrução Primária

 


Não saibas: imagina.

Deixa falar o mestre, e devaneia.

A velhice é que sabe, e apenas sabe

que o mar não cabe

na poça que a inocência abre na areia.


Sonha!

Inventa um alfabeto

de ilusões,

um á-bê-cê secreto

que soletras à margem das lições…


Voa pela janela

de encontro a qualquer sol que te sorria!

Asas? Não são precisas:

Vais ao colo das brisas,

Aias da fantasia.


   O poema traça a diferença entre saber e sabedoria. Salomão pediu a Deus sabedoria. A tela é do pintor Jimmy Lawlor.


Vyassa - «Poema do Senhor Bhagavad-Guitá»

 


«Quando um homem medita nos objectos

dos sentidos, desperta o seu apego;

e, do apego, eis que nasce, então, o desejo;

e, do desejo, é que provém a ira;


e, da ira, provém sempre desilusão;

e, da desilusão, a perda de memória;

e, perdida a memória, esvai-se o intelecto;

e, sem o intelecto, eis que o homem perece.


Mas, se passar p'lo meio dos objectos

dos sentidos, com todos os seus sentidos livres

d'apego e d'ódio, mente submetida,

senhor de si, há-de ganhar a serenidade.


E, na serenidade, p'ra ele, não há

mais qualquer espécie d'infortúnio ou d'entrave,

porque, com a consciência em paz imensa,

esse mantém o intelecto inabalável.»


      O «Poema do Senhor Bhagavad-Guitá», atribuído a Vyassa, apresenta um diálogo filosófico entre Krishna e Arjuna, no campo de batalha de Kurukshetra. O conflito externo simboliza a crise interior do ser humano diante do dever, do medo e do apego. Krishna ensina diferentes caminhos espirituais — ação correta, conhecimento e devoção — integrados numa ética do desapego. O poema concilia vida ativa e transcendência, afirmando que agir sem desejo pelos frutos conduz à libertação.


The Revolve Group & The Neighbourhood - Scenes were taken from 'Lolita', 1997



      Lolita é uma das obras com o inglês mais rico e preciso da literatura do século XX (o livro é do ano 1955) e, ao contrário das acusações iniciais de pornografia que teve de sofrer, é talvez — e no que a muitos diz respeito — o romance mais melancólico, elegante e lírico de quantos já foram lidos.

      A história é conhecida. Em 1947, um professor de meia-idade de origem inglesa vai lecionar literatura francesa numa pequena cidade da Nova Inglaterra e aluga um quarto na casa de uma viúva, mas só realmente decide ficar quando vê a filha, uma adolescente de doze anos por quem fica totalmente atraído. Apesar de não suportar a mãe da jovem casa-se com ela, apenas para ficar próximo da filha. A jovem, por sua vez, mostra ser bastante madura para a sua idade. Enquanto ela está num acampamento de férias, a mãe morre atropelada. Sem empecilhos, o padrasto viaja com a enteada e diz a todos que é sua filha, mas na privacidade ela comporta-se como amante. Porém, ela tem outros planos, que irão gerar factos trágicos.


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