Most of his paintings
are made from watercolour and are themed on landscapes, Polish folklore and his
daughters; his artworks are currently exhibited in numerous museums around
Poland and in private ownership. After the start of World War II he moved to
Warsaw, where he was killed during the Warsaw Uprising. This one describes Ola looking for beauty.
Aleksander Augustynowicz (Polish painter, 1865-1944) - Portrait of the artist's daughter - Ola Kozlowska
Begoña Abad - O Meu avô nunca saiu
O meu
avô nunca saiu da sua terra.
A
terra tinha quatro casas,
quatro
ruas, quatro caminhos,
quatro
moradores, quatro cães.
Não
havia nem bispos, nem ministros,
nem
putas, nem altos cargos,
não
havia empresas, nem bancos, nem igreja havia.
Na
verdade não saiu nunca do seu moinho.
E já
é acaso que por esse lugar,
remoto
e esquecido,
acertasse
a vida a passar.
Falava
pouco o meu avô mas sabia muito,
tendo
aprendido tudo a ver a mó,
implacável,
a girar eternamente,
esmagando
o grão, até o fazer em farinha.
(Trad.
A.M.)
Carolina - A Mulher que Já Foi Tua
Mudou-se
para a nossa rua, a mulher que já foi tua
e perde o tempo à janela,
Se passas ela sorri, mas não olha mais pra ti
por
me ver olhar p'ra ela.
Sabe
quando entras e sais, de onde vens, para onde vais
pois
é esse o seu desejo,
Que tudo faz p'ra te ver... e eu, tudo tento fazer
só
p'ra ela ver que eu vejo.
Há dias tive dó, porque assim que se viu só
foi
para dentro a chorar,
E eu
tive pena daquela que perde o tempo à janela
só
para te ver passar.
Mudou-se
p'rá a nossa rua, a mulher que já foi tua
p'ra
que junto dela passes,
Não
fez tudo o que devia, pois muito mais eu faria
se
por outra me trocasses.
Carolina nasceu em Hamburgo (Alemanha) a 12 de Abril de 1984
e veio para Portugal com apenas 5 meses, mais propriamente para Trás-os-Montes
na localidade de Aveleda, onde teve muito cedo o seu primeiro encontro com o Fado. Que voz tão fresca, num poema bem construído e com músicos excelentes. Comparando as cantadeiras, o original da Amália não é tão belo. Obrigado.
Sophie Gengembre Anderson - The Song of the Lark
"Bring the dews the birds shake
off,
Waking in the hedges,—-
Those too, perfumed for a proof,
From the lilies' edges:
(...)
Bring them calm and white in;
Whence to form a mirror pure,
For Love's self-delighting.
Bring a grey cloud from the east,
Where the lark is singing;
Something of the song at least,
Unlost in the bringing:
That shall be a morning chair,
Poet-dream may sit in,
When it leans out on the air,
Unrhymed and unwritten."
- Elizabeth Barrett Browning, The
House of Clouds (excerpt)
Gina Saraceni - Devolveu ao mar
Devolveu
ao
mar as pedras,
guardadas anos e anos
em
frascos de marmelada.
No
lugar delas
foi
o vazio
o
que ficou.
Tal
como um abandono,
ainda
dura.
(Trad.
A.M.)
José Luis Hidalgo - Chega-te
Chega-te.
Mais, mais,
até
tocar nos meus sonhos.
Não,
ainda não...
Mais
ainda, e mais, sem medo,
como
a água do mar
ao
seu fundo de lodo,
como
se chega a Deus
o
azul todo do céu.
Como
eu me chego a ti
quando
te digo: amo-te.
Trad.
A.M.
Filipa Torres - Cachos d'ouro
Eu rodava na tua mão, a luz era um fio infinito.
Ao beber deste momento deslumbrei-me contigo
Culpei os teus cachos d’ ouro como se fossem castigo.
Esta noite meu amor acordei de um sonho lindo
Enlaçava um cacho teu, ai no meu dedo mindinho.
Um,
um, um...
Enlaçaste os braços(?) de uma vez em mim como um cordão
Quero saber se também é d’ ouro esse teu coração.
Esta jovem tem voz fresca, bucólica e introspetiva como raramente se ouve. O poema não é "conversa de café" é poesia com um bater feminino que procura a beleza e o mistério. São videos e canções assim, que nos dão esperança perante o panorama pobre que a música portuguesa atravessa. Obrigado.
José Luis Hidalgo - Só tu e eu sabemos
Só
tu e eu sabemos a verdade deste mundo
que
roubamos à morte dia a dia,
que
erguemos do nada só com palavras
fumo
cinza de um beijo esquecido na tua fronte.
Só
tu e eu sabemos
fábulas
como flautas
silêncios
como formigas mais ou menos sonoras
e
isso que se edifica lentamente em teus olhos
por
trás da vitrina ou cristal de uma lágrima
esse
beijo ou pulsar
esse
sorriso ou chama
de
ter a vida à flor dos lábios.
Trad.
A.M. e tela de
Alberto Soares - Apodrecer
Apodrecer é simples: basta
ceder do coração apenas
a parte mais sombria.
Guardar o resto para inúteis
coisas que não acontecem.
Lavrador Estrangeiro - Gaiteiros de Bravães feat Catrapana (AEPB)
É nómada digital tem escritório no quintal, teletrabalha no Minho
Fala estrangeiro de fora, coitada da Dona Aurora que não entende o vizinho
Gorro e flanela vestida, óculos e barba comprida, calça que não tapa a meia
Mata-se a tratar da horta, mas não sai da cepa torta. É a comédia da aldeia.
Tudo anda a murmurar que o viram fotografar a bosta dos animais
Não sei quantos .com ele deve passar fome. Arrobas não são quintais
A rir-se do lavrador de rato e computador enquanto apanha limões
Sobre o muro empoleirada, qual treinador de bancada, dá Aurora as instruções.
Arranca as ervas do chão
Pega assim na roçadeira
Leva o carrinho de mão
Puxa a corda do motor
Cava o galeiro em linha
Neste baile o mandador
É a chata da vizinha.
De todas as redondezas vêm ver estas proezas do lavrador estrangeiro
A tentar usar sachola sem saber vergar a mola é um circo no terreiro
A Aurora a dar ao braço vai mandando no compasso deste baile no quintal
Dança ela e as vizinhas mais o estrangeiro lingrinhas o baile neo rural.
O estrangeiro empreendedor trata a horta com primor
Já parece lavrador tudo graças à vizinha.
"Catrapana é um projeto do Agrupamento de Escolas de Ponte da
Barca que teve origem no Plano Nacional das Artes. Catrapana é um grupo de
percussão, dinamizado e coordenado por Rafael Freitas dos Gaiteiros de Bravães,
um apaixonado pelas diversas expressões culturais locais, constituído por
alunos do 2.º ciclo do ensino básico que procura tornar a arte mais acessível,
pela expressão da música popular, aos jovens alunos, na comunidade educativa,
através da participação, fruição e criação cultural."
L’Été (Summer, 1968) dir. Marcel Hanoun
Set during a quiet, suspended stretch of summer, the film follows a young woman wandering through sparse landscapes and fragmented encounters, her inner thoughts gradually overtaking external action. Narrative becomes secondary to sensation, as moments feel unfinished, drifting between reality, memory, and introspection. The story unfolds more like a diary than a conventional plot, reflecting emotional uncertainty and solitude.
Beneath its apparent
simplicity lies a reflection on time, alienation, and the fragile boundary
between presence and absence. The summer setting becomes symbolic, a fleeting
interval where identity feels unstable and choices remain unresolved. The film
invites viewers to inhabit uncertainty rather than seek resolution.
José Cereijo - Nunca
Nunca
dormi nos teus braços,
nunca
acordei de manhã a ver o armário, a janela, os livros,
ou
escutei o ruído dos canos, os passos solitários na rua,
e
pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real
tu
também devias ser.
Não
soube a que sabiam os teus lábios, ou o teu riso,
não
te vi a despir,
não
soube nem saberei nunca como os teus olhos, no amor,
incendiavam
a noite.
Essa
falta, bem sei, é uma mutilação sem remédio,
um
triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.
É
também, a seu modo, forma e prova de amor,
de
lúcido humilhado amor,
de
devastado e verdadeiro amor,
que
eu ofereço à tua lembrança.
Eu tive um caso, assim, com a Domingas Assunção Galamba Ascenção. Vivia no Laranjeiro e um dia passei em frente da sua casa. Parei e continuei. Tal como Dante nunca entre nós houve nada, mas em mim houve quase tudo. Hoje, a memória continua terna.
Carolina Adormecida - Gaiteiros de Bravães
À
varanda, a Carolina
Espreita
o vale que a viu crescer
Pode
ser a mesma colina
Mas
não é o mesmo viver
Medram
casas, mingam* pessoas
Estão
sem fumo as chaminés
Moram
em Franças e Lisboas
Outras Carolinas e Zés.
Diz
que no seu tempo é que era
Era
a Era da alegria
Não
lembra a fome que tivera
Nem
o trabalho que a feria
Corre
o rio do esquecimento
Jaz
a velha barca no fundo
Vai
vendendo o seu pensamento
A
quem a desliga do mundo.
Vai crescendo o mato na eira
Já
ninguém a chama ao portão
Trocou
o banco da lareira
Pelo
sofá da televisão
Arde
a mata e o arvoredo
Já
não chora a carpideira
Passa
o dia a passar o dedo
No
ecrã que traz na algibeira.
No
terreiro já cresce a erva
No
carreiro só passa o cão
No
sofá, a Deusa Minerva
Dorme
de algoritmo na mão
Vai
gostando de quem lhe mente
Assistindo
ao que está a dar
Vai
culpando quem é diferente
Evocando
São Salazar.
Vai
crescendo o mato na eira...
Dorme dorme Carolina que o Messias logo vem
Foi lavar botas cardadas à ribeirinha de além.
Acorda Carolina! A liberdade não espera!
Toca o corno, corre o entrudo, sem ti não há primavera!
"Em Bravães, freguesia do concelho de Ponte da Barca, a
história continua a escrever-se com o som do sino, o cheiro do alecrim e a
vontade firme de manter vivas as tradições. A romaria de São Gregório, a bênção
dos instrumentos musicais, as gaitas de foles e os ensaios improvisados no
átrio da antiga escola fazem parte de um calendário afetivo onde fé, cultura e
comunidade se cruzam. Entre os que sempre cá estiveram e os que escolheram
ficar, há um lugar que se renova sem se esquecer de quem é."
Heinrich August Georg Schiøtt - To kvinder og en hund på en skovsti med udsigt mod havet en sommerdag, 1878
It portrays two women
strolling along a shaded forest path overlooking the sea on a bright summer
day. Dappled sunlight filters through lush foliage, illuminating their light
dresses and the attentive dog at their side. Beyond the trees, the calm blue
water glimmers under an open sky. The scene conveys tranquillity, leisure, and
a gentle harmony between figures and nature. The man on the row boat seems waiting for someone.
Eloy Sánchez Rosillo - O segredo
Não
vá a alegria assustar-se
ou
teimar em ir-se embora,
escondo-a
do mundo e não digo a ninguém
que
me entrou em casa depois de muito tempo.
Falo
com ela e muitas vezes
vê-la
de novo tão próxima
dá-me
para chorar e rio.
Depois
deixo-a sozinha e saio
à
rua muito sério.
Sem
dizer a ninguém que a tenho em casa.
E
espero que lá esteja, quando eu voltar.
Chulada da Ponte Velha - Por Aquela Serra Acima
Por
aquela serra acima vinte e quatro cegos vão
Ora
cegos vão, ora cegos vão!
Cada
cego tem seu moço, cada moço tem seu cão
Ora
tem seu cão, ora tem seu cão!
Por
aquela serra acima vai um gato reméu méu
Ora
reméu méu, ora reméu méu!
Que
lhe cortaram um ramo para a pruma do chapéu
Ora
do chapéu, ora do chapéu!
Por aquela quelha abaixo vai a roda do amolador
Ora
amolador, ora amolador!
Fura
pratos, mete gatos, tudo só c’um furador
Ora
furador, ora furador!
Por
aquela serra acima, vai o boi ao ferrador
Ora
ferrador, ora ferrador!
Vai
calçar uns sapatinhos, pr'a bailar com o Prior
Ora
c’o Prior, ora c’o Prior!
Por
aquela quelha abaixo, toca a gaita o capador
Ora
capador, ora capador!
Coitadinho
do porquinho da casa do regedor
Ora
regedor, ora regedor!
Por
aquela serra acima, cai foleca, gela ó pastor
Ora
o pastor, ora o pastor
Pula
o bode, espanta a cabra, nascem cabritos pr'ó calor!
Ora
pr’ó calor, ora pr’ó calor!
Por
aquela serra acima vinte e quatro cegos vão
Ora
cegos vão, ora cegos vão!
Cada
cego tem seu moço, cada moço tem seu cão
Ora
tem seu cão, ora tem seu cão!
O
cego dá pão ao moço, o moço dá pão ao cão!
Ora
pão ao cão, ora pão ao cão!
O
cão comeu a côdea e acompanha de leitão!
Ora
de leitão, ora de leitão!
"bendito" popular da Reguenga, Santo Tirso. As primeira e segunda quadras são populares, as restantes são de Napoleão Ribeiro.
Thomas Dessoulavy - View of the Acquoria Bridge in Tivoli
The painting captures a serene Italian landscape bathed in warm sunlight. The ancient stone bridge, arching gracefully above a rushing waterfall, anchors the composition. Lush greenery clings to rugged cliffs, while delicate brushstrokes suggest mist rising from the churning water. Tiny figures provide scale and human presence, emphasizing nature’s grandeur.
Javier Salvago - Fim de festa
Enfim
sós, vida. Terminou a festa
e
não resta ninguém que possa obrigar-nos
a
forçar sorrisos, ou a inventar incómodas
mentiras
piedosas. Todos se foram.
Vai-te
desnudando sem medo. Conheço
as
velhas rugas de tua carne triste.
Acariciei-as.
Sei o que teu rosto
oculta
por baixo da maquilhagem.
Enfim sós, vida. A casa em silêncio
e tu
e eu nus, calados e ausentes,
- juntos por rotina, mais que por desejo -
como dois amantes cansados de se verem.
A tela é da pintora checa Anastasia. O poema desmonta as mascaras quando estamos rodeados pelas circunstâncias e, o cair em si, fora delas.
Roy Orbison - Only the Lonely
This lovely man's voice
has the power to soothe my soul and everything around me. Nobody really sings
like him.
The Hour of the Star
Written by Clarice Lispector,
The Hour of the Star deals with the problems of the rural Northeast
versus the urban Southeast of Brazil, poverty and the dream of a better life,
and, of an uneducated woman's struggle to survive in a sexist society.
Javier Salvago - Outra idade
Passou-me
a idade de ser poeta
porque
tudo passa, é lei da vida;
embora
continue, por vício ou tendência,
a
falar para o papel, a poesia
não
é já a minha pátria, nem o meu território.
Só
regresso às vezes, de visita,
como
quem volta aonde foi feliz.
Javier Salvago - Como se quer a um gato
Amar
as pessoas
como
se quer a um gato,
com
seu carácter, sua independência,
sem
o querer mudar,
sem
pretender domá-lo,
deixando-o
aproximar quando quiser,
sendo
feliz
com
a sua felicidade.
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