Lu rusciu te lu mare - Cantistoria



'Na sira ieu passai te le padule,

e 'ntisi le ranocchiule cantare,

e 'ntisi le ranocchiule cantare.

A una a una ieu le sintia cantare,

ca me pariane lu rusciu te lu mare,

ca me pariane lu rusciu te lu mare.


Lu rusciu te lu mare è mutu forte,

la fija te lu re se tae alla morte,

la fija te lu re se tae alla morte.

Iddhra se tae alla morte e ieu alla vita,

la fija te lu re sta se marita,

la fija te lu re sta se marita.


Iddhra sta se marita e ieu me nzuru,

la fija te lu re me tae nu fiuru,

la fija te lu re me tae nu fiuru.

Iddhra me tae nu fiuru e ieu na palma,

la fija te lu re se 'ndeae alla Spagna,

la fija te lu re se 'ndeae alla Spagna.


Iddhra se 'ndeae alla Spagna e ieu 'n Turchia,

la fija te lu re la zita mia,

la fija te lu re la zita mia.

E vola vola vola palomba vola,

e vola vola vola palomba mia,

ca ieu lu core meu, ca ieu lu core meu,

ca ieu lu core meu te l'aggiu dare.


Graça Pires - Na periferia da manhã



Na periferia da manhã, levemente adiada,

improviso uma ilha.

Tão nua como páginas em branco.

E concedo-me o direito de esperar Ulisses.

A minha fronte marcada com palavras sem destino.



Isabel Bono - O futuro acabará por chegar

 


desperdiçávamos o tempo

a ordenar num álbum as fotos do Verão

para as olhar um dia com saudade


juntávamos berlindes, pedras

livros, cartas, poemas


adiávamos assim a felicidade, a vida


ainda não sei porquê

nem sei para quando.


   Trad. A.M.


      O poema exprime a inevitabilidade do tempo e a tensão entre espera e medo. O futuro surge como algo certo, quase ameaçador, independentemente da nossa vontade. A voz poética revela fragilidade perante o desconhecido, mas também aceitação: chegará, queira-se ou não. Assim, o poema reflete sobre a condição humana, suspensa entre esperança, ansiedade e resignação, num mundo sempre incerto e transitório para todos.


George Goodwin Kilburne - A seated girl, holding a tennis racquet



      The painting portrays a poised, elegantly dressed young woman seated in quiet contemplation. She cradles a tennis racquet, its presence suggesting leisure, refinement, and the fashionable sporting culture of Victorian society. Warm, nuanced tones and meticulous brushwork create an atmosphere of intimacy, capturing both youthful charm and the restrained elegance of a cultivated, upper-class domestic moment suspended in serene, timeless stillness and quiet anticipation.


Ubuntu Voices – Ancestral Breath | Sacred African Choir



      "Ancestral Breath" is a sacred choral piece inspired by African tradition, shared presence and the quiet strength of communal voice. Ubuntu Voices explore harmony, rhythm and breath as one. Voices rooted in memory. Sound shaped by stillness. This form of music is created using AI - assisted vocal production and artistic composition.


José Corredor-Matheos - Mark Rothko sabe ver

 


Mark Rothko sabe ver

as coisas como elas são:

um resplendor sem corpo,

cor viva no limite

das sombras.

Pega no pincel e deixa-o

incendiar o vermelho,

pintar o ar de azul,

crescer o verde e

sossegar o ocre,

fundir no branco

as cores todas

ou então negá-las

no negro.

Pintura evanescente,

puro espírito,

espelho do vazio.

onde eu me reconheço.

Ter consciência clara

de que nada se sustenta

no nada

torna mais deslumbrante

esta beleza.


 Trad. A.M.


  Original:


Mark Rothko sabe ver

las cosas como son:

un resplandor sin cuerpo,

vivo color al borde

de las sombras.

Coge el pincel y deja

que arda el rojo,

pinte de azul el aire,

crezca el verde y el ocre

se remanse,

que funda el blanco todos

los colores

o que el negro los niegue.

Pintura evanescente,

puro espíritu,

espejo del vacío,

donde me reconozco.

Tener conciencia clara

de que nada en la nada

se sostiene

hace más deslumbrante

esta belleza.


      Markus Yakovlevich Rothkowitz was a Latvian-born American abstract painter. He is best known for his colour field paintings that depicted irregular and painterly rectangular regions of colour, which he produced from 1949 to 1970.    

               from Wiki


Ana Salomé - Ode ao castigo

 


Só mais uma menina entre outras

E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz

Como um erro ortográfico do coração.


Castigo.

Entre nós o alto muro do recreio

E a obrigação de permanecer só.


In a Bad Mood by Nicolaas van der Waay



      It captures an intimate domestic moment charged with emotion. A young woman, likely a mother, sits with her child, her posture and expression conveying irritation, fatigue, or quiet frustration. The scene feels deeply human—an honest glimpse of everyday life, where affection and exasperation coexist in the same fleeting moment.


Isabel Nogueira

 

        

Tirou do bolso o canivete que a mãe lhe oferecera aos seis anos.

Acto naturalmente impróprio, a respeito do qual seria desnecessário ajuizar.

Abriu-o, passou ao de leve os dedos pela lâmina, e descascou a maçã.


Os olhos nunca saíam do barco. Nem do mar.

A prática fazia-o retirar a casca à fruta sem necessidade de olhar.

Era tudo uma questão de hábito e de motricidade fina.


      Neste excerto, a caracterização indireta revela uma personagem experiente, disciplinada e concentrada. O canivete, oferecido pela mãe, sugere valor afetivo e memória duradoura. O narrador comenta ironicamente a impropriedade do gesto, mas normaliza-o pela naturalidade com que ocorre. Enquanto descasca a maçã sem olhar, evidencia destreza manual, adquirida pela prática. A atenção fixa no barco e no mar sublinha vigilância, expectativa e possível tensão interior.


Eugénia Melo e Castro - Vira virou



Vou voltar na Primavera e era tudo o que eu queria

levo terra nova daqui,

quero ver o passaredo pelos portos de Lisboa

voa, voa e eu chego já.


Ai, se alguém segura o leme desta nave incandescente

que incendeia a minha vida que era viajante lenta,

tão faminta de alegria, hoje é porto de partida.


Ah, vira virou, meu coração navegador

Ah, gira girou nesta galera.


      Eugénia de Melo e Castro e o disco, já antigo, Terra de Mel de 1982, numa parceria com o compositor gaúcho Kleiton Ramil. "Ele apareceu na minha casa levado pela minha mãe - a minha casa era um lugar de artistas, atores, músicos, escritores, pintores -, onde ele ficou cerca de um mês. Compôs "Vira virou" na minha cozinha, em casa". No Brasil, Kleiton teria uma bem sucedida carreira em dupla com o irmão Kledir, autor da canção reflexiva e faixa título, Terra de Mel.


Virginie Damon Breton - The Fisherman's wife coming from bathing her children, 1881



      The painting presents a monumental seaside mother striding from the surf, one child in her arms and others close behind. Her figure is strong, dignified, and statuesque, echoing classical ideals while remaining firmly rooted in everyday labour. Wind, sea, and sky envelop the scene in cool light. The painting celebrates maternal resilience, working-class nobility, and the quiet heroism of coastal life.


Joaquín Giannuzi - O quadro de referência / El marco de referencia

 


O amante menciona a luz curvada

do seu ventre desnudo:

denuncia a vida alheia como um naufrágio

e subordina o mundo

à referência da amada adormecida.

O amante constrói

o seu território sanguíneo

em torno dessa pulsação dourada:

apanhado

no poder desconhecido

que emana de uma coisa perfeitamente feita.


Tradução de A.M.


  Original:


El amante menciona la luz curvada

de su vientre desnudo:

denuncia la vida ajena como un naufragio

y subordina el mundo

a la referencia de la amada dormida.

El amante construye

su territorio sanguíneo

en torno a esa pulsación dorada:

atrapado

en el poder desconocido

que emana de una cosa perfectamente hecha.


    A pintura é de Magritte, Os Amantes.


      O poema explora a fragilidade da percepção humana diante do real. Os versos sugerem que toda a observação depende de um enquadramento, histórico, mental e sensorial, que limita e organiza a experiência. Assim, o mundo não surge como verdade absoluta, mas como construção provisória. A linguagem, precisa e reflexiva, revela a tensão entre objeto e consciência, mostrando que conhecer implica sempre interpretar, selecionar e, inevitavelmente, distorcer aquilo que julgamos compreender na sua parcial condição humana.

      Interpretação I.A.


Les quatre cents coups , 1959 - Dir. François Truffaut



      O título do filme refere-se a uma expressão popular, em francês (faire les quatre-cent coups), equivalente em português, a "fazer o diabo a quatro", ou seja, provocar desordem, cometer contravenções ou mesmo delitos. O filme narra a história de Antoine Doinel, um jovem parisiense de 14 anos, que se rebela contra o autoritarismo da escola e o desprezo da sua mãe e do padrasto. Rejeitado, Antoine passa a faltar às aulas para frequentar cinemas ou brincar com os amigos, principalmente René. Com o passar do tempo, o rapaz vivenciará algumas descobertas e cometerá pequenos delitos, em busca de atenção, até ser aprisionado num reformatório, levado pelos próprios pais.


Ana Pérez Cañamares - Quando o sol / Cuando el sol

 


Quando o sol já só se adivinha

pelo seu reflexo nos pássaros

que voam fora do teu alcance


é hora de fechar os ouvidos

aos gritos que te oprimem

e escutar os ecos que chegam

de longe a sussurrar-te:


defende as tuas asas.


 Tradução A.M.


  Original:


Cuando el sol ya sólo se adivina

en su reflejo sobre los pájaros

que vuelan fuera de tu alcance


es la hora de cerrar los oídos

a los gritos que te apremian

y escuchar los ecos que vienen

de lejos para susurrarte:


defiende tus alas.


      No poema, Ana Pérez Cañamares transforma o fim do dia em fim da vida, numa revelação íntima. O aproximar da noite prevê a morte e permanece a necessidade de manter a fé.


Fanny Brate - Among the spring blossoms



      Among the Spring Blossoms by Fanny Brate describes a woman gathered beneath flowering trees, immersed in the freshness of spring. Soft sunlight filters through pale blossoms, casting a gentle glow across her face and clothing. Brate captures a moment of lost innocence, natural companionship, and seasonal renewal.


Rosalía - Sexo, Violencia y Llantas

 


Quién pudiera vivir entre los dos

Primero amaré el mundo y luego amaré a Dios

Quién pudiera vivir entre los dos

Primero amaré el mundo y luego amaré a Dios.


Quién pudiera venir de esta tierra

Y entrar en el cielo y volver a la tierra

Que entre la tierra, la tierra y el cielo

Nunca había el suelo.


En el primero

Sexo, violencia y llantas

Deportes de sangre, monedas en gargantas.


En el segundo

Destellos, palomas y santas

La gracia y el fruto y el beso de la balanza.


Quién pudiera vivir entre los dos

Primero amaré el mundo y luego amaré a Dios.


      "Sexo, Violencia y Llantas" é a faixa de abertura do álbum "Lux" de Rosalía, que apresenta de forma clara o principal conflito do disco: a tensão entre o desejo pelos prazeres e dores do mundo físico e a busca por uma dimensão espiritual mais elevada.

      Logo no início, o verso "Quién pudiera vivir entre los dos / Primero amaré el mundo y luego amaré a Dios" ("Quem pudesse viver entre os dois / Primeiro amarei o mundo e depois amarei a Deus") deixa evidente essa dualidade. Rosalía sugere que a experiência terrena é um passo necessário antes da busca pelo divino, estabelecendo uma ordem de prioridades que parte do concreto para o espiritual.

      A letra constrói dois universos opostos. O primeiro, representado por "sexo, violencia y llantas (pneus?)" e "deportes de sangre, monedas en gargantas" ("desportos sangrentos, moedas nas gargantas”), retrata um cotidiano intenso, industrial, materialista e até brutal, dominado pelo desejo, pelo risco e pelo dinheiro. O segundo universo, com "destellos, palomas y santas" ("clarões, pombas e santas"), traz imagens de pureza e espiritualidade.

      O trecho "la gracia y el fruto y el beso de la balanza" ("a graça, o fruto e o beijo da balança") sugere equilíbrio e recompensa espiritual, reforçando o tema do álbum de buscar harmonia entre extremos. O contexto do álbum, que mistura espiritualidade e orquestra sinfónica, amplia essa busca por transcendência. 


Rosalía & Carminho - Memória





Ainda te lembras de mim?

Ainda sabes de onde eu vim?

Quem sou esta que aqui estou?

Diz-me no meu olhar triste

Que alguma memória existe

E ainda sabes quem sou


Diz-me se ainda tropeço

Se me alegro se agradeço

Ou se ainda sei cantar

Recorda-me por favor

Alguma coisa o que for

que eu não consigo Lembrar


Vem comigo p'la cidade

Diz-me com sinceridade

Se tu te lembras de mim

Onde cresci e amei

Com quem vivi e me dei

Ou se a algo eu pus fim


Será que tu me conheces

Que o tempo passa e não esqueces

Quem eu fui e sou em fim

Oh meu doce coração

Diz-me se sabes ou não

Ainda te lembras de mim?

 

Siempre que me acuerdo de algo

Siempre lo recuerdo un poco diferente

Y sea como sea ese recuerdo

Siempre es verdad en mi mente

Y si mi alma se derrama

Y la falta de pasado es el olvido

Cuando muera solo pido

No olvidar lo que he vivido.


      Só um "r" separa "carminho" de "caminho". Tudo na Arte de Carminho é caminho. Por isso, neste deslumbrante "Memória" que ela e Rosalía interpretam, as duas vozes provêm do mesmo lugar, da mesma procura. Aquilo não é um dueto. É um monólogo a duas vozes. É connosco que elas falam. É a nós que nos interpelam e convidam-nos a, também nós, deixarmos de ser escravos do Tempo. Carminho propõe-nos a maior liberdade… que é a de ser… a de inteiramente ser!


Evert Jan Boks (Dutch painter) - Going into the world, 1913



      It captures a young woman on the threshold of change. Seated at a railway station, elegantly dressed in black, she clutches a parasol and handbag while luggage waits nearby. Her expression blends anticipation, uncertainty, and quiet resolve. Around her, bustling figures and a watchful admirer hint at a world in motion. Boks renders the scene with warm realism, transforming an ordinary departure into a poignant meditation on independence, transition, and possibility.


The Great Dictator (1940) dir. Charlie Chaplin

 


      Set in the fictional state of Tomainia, the film follows two parallel figures: a tyrannical dictator, Adenoid Hynkel, and a humble Jewish barber who is mistaken for him. Through this duality, the story unfolds as a satire of totalitarian power and blind obedience.


Julia Gutiérrez - Das formas disponíveis

 


Das formas possíveis

de chegar a uma ilha deserta

destaco duas: por erro ou por amor.


Nenhuma tem a ver com o transporte

nem a ilha tem de ser um bocado de terra.


 (Tradução A.M.)

  Original:


De las formas disponibles

de llegar a una isla desierta

destaco dos: por amor o por error.


Ninguna tiene que ver con el transporte

ni la isla tiene que ser un trozo de tierra.


Mairéad Ní Mhaoinigh - Méabh Ní Bheaglaioch



      This song is the finale of a specially commissioned one-off documentary called ‘Ceol na nGael’, which marks 50 years of RTÉ Raidió na Gaeltachta, and the remarkable role it played in preserving and showcasing Irish music tradition for future generations.  National treasure Mairéad Ní Mhaoinigh explores the role the station has played in shaping her own career as a musician – and that of many other musicians of her generation and beyond. 


Robert Walker Macbeth - The Cider Orchard, 1890



      The painting captures a tranquil rural scene in late autumn. A group of labourers gathers in an orchard, pressing apples into cider, surrounded by soft golden light and muted earth tones. Macbeth’s impressionistic style conveys atmosphere and quiet industry, reflecting Victorian ideals of pastoral life, community, and seasonal rhythms.


Maria do Rosário Pedreira - Bárbaros



Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam

nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem

o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,

com um ramo quebrado, puseram-se a riscar o contorno

do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.

A água fascinava-os, como aos cavalos que traziam

alados e sem crinas para chegarem mais cedo.


Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado. Beberam

ás mulheres que haveriam de ter. e adormeceram

mais longe do céu.


Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.


De manhã, a planície estava ainda mais plana.


      O poema reflete sobre a fragilidade das relações humanas e a incapacidade de comunicação autêntica. Os "bárbaros" simbolizam a indiferença emocional e a violência subtil presente no quotidiano. A linguagem contida intensifica o sentimento de distanciamento e desencanto. Há uma crítica à superficialidade dos afetos e à erosão da empatia. O tom melancólico revela uma consciência aguda da solidão contemporânea, onde o outro surge como ameaça ou ausência, mais do que como possibilidade de encontro verdadeiro.


Arquivo do blogue