Antonio Pérez Morte - Perdidos

 


Fomo-nos distanciando passo a passo,

sem saber quase, distraídos,

caminhamos deixando esquecida

a velha ideia de sermos nós mesmos.

E continuamos desde então, sem motivo,

a deambular em passo acelerado,

sem saber para onde ou por que lado,

cientes sim de nos trairmos,

como sempre, uma vez mais,

por cobardia!

Rebeldes de sonhos

e atitude conformista,

passeamos as relíquias do passado

pelas ruas vazias da vida,

e onde houve já uma esperança

há agora uma ferida.


  Tradução de A.M.


  Original:


Nos fuimos distanciando paso a paso,

casi sin saberlo, distraídos,

caminamos dejando en el olvido

la vieja ilusión de ser nosotros.

Y seguimos desde entonces, sin motivo,

deambulando a un ritmo acelerado,

sin saber a dónde, por qué lado,

conscientes sí, de traicionarnos,

como siempre, una vez más,

¡por cobardía!

Rebeldes de sueños

y actitud conformista

paseamos las reliquias del pasado

por las calles vacías de la vida,

y donde hubo una esperanza

hay una herida.


      O poema reflete sobre a perda da identidade e o afastamento progressivo dos próprios ideais. A caminhada simboliza uma existência sem rumo, marcada pela rotina, pela cobardia e pela incapacidade de agir em coerência com os sonhos. O contraste entre rebeldia interior e conformismo revela a contradição humana. As imagens das ruas vazias, das relíquias do passado e da ferida final traduzem a desilusão, o abandono da esperança e o desencanto perante o rumo pessoal.


In Taberna Quando Sumus - Carmina Burana | Veratus



In taberna quando sumus, non curamus quid sit humus,

sed ad ludum properamus, cui semper insudamus.

Quid agatur in taberna, ubi nummus est pincerna

hoc est opus ut queratur, sic quid loquar, audiatur.


Quidam ludunt, quidam bibunt, quidam indiscrete vivunt.

Sed in ludo qui morantur, ex his quidam denudantur,

quidam ibi vestiuntur, quidam saccis iduuntur.

Ibi nullus timet mortem, sed pro Baccho mittunt sortem:


Primo pro nummata vini ex hac bibunt libertini;

semel bibunt pro cativis, post hec bibunt ter pro vivis.


Bibit hera, bibit herus, bibit miles, bibit clerus,

bibit ille, bibit illa, bibit servus cum ancilla,

bibit velox, bibit piger, bibit albus, bibit niger,

bibit constans, bibit vagus, bibit rudis, bibit magus.


      Anonymous, 13th century, from Carmina Burana - In Taberna Quando Sumus.


Ralph Albert Blakelock was born in New York City in 1847







      This painter is best known for atmospheric, nocturnal, and moonlit landscapes featuring silhouetted, lace-like trees and Native American encampments inspired by his travels. His technique involved layering paint and then scoring, scraping, or rubbing the surface away. He struggled with severe financial hardship while raising nine children. From 1891 onward, he suffered mental breakdowns and spent decades institutionalized in psychiatric facilities in New York and New Jersey.


Cristian Aliaga - Os versinhos / Los versitos

 


Os versinhos,

estes frascos sem tinta

onde pomos o melhor da memória.

Muros de iluminação, amargas torres,

palavras somente?


Mas a quem encomendar a história,

senão a estas nuvens pequenas

de espuma?


Heis-de ficar cegos

de tanto cerrar os olhos.


  Tradução de A.M.


  Original:


Los versitos,

esos frascos sin tinta

donde ponemos lo mejor de la memoria.

¿Paredes de iluminación, torres amargas,

palabras solamente?


Pero a quién encomendar nuestra historia,

salvo a estas pequeñas nubes

de espuma.


Os quedaréis ciegos

de tanto cerrar los ojos.


      O poema reflete sobre a fragilidade da poesia e a sua capacidade de preservar a memória. Os versos são comparados a pequenos frascos sem tinta, onde guardamos o melhor das nossas recordações. Apesar de questionar o poder das palavras, o sujeito poético reconhece que só a elas podemos confiar a nossa história. As imagens de espuma e pequenas nuvens sugerem a efemeridade da existência. O final constitui um alerta contra a cegueira de quem se recusa a ver.


Chulada da Ponte Velha: Espanta Pardejos + Passarinho



Xé, ladrões

Inde p'r`ó monte

Comer saltões

Que lá tem mel

E aqui tem fel!


Agarrei o passarinho!

Agarrei o passarinho antre a treia do centeio.

Ó ladrão que te regalas!

Ó ladrão que te regalas com o passarinho alheio.


Sou ferreiro, faço ferro,

também faço vergas d' aço!

Faço orelhas a meninos

sem medida nem compasso!


Sou poeta, planto versos,

também cavo muitas letras!

Faço línguas para os bichos

pr’a que digam muitas tretas!


Apanhei a joaninha!

Apanhei a joaninha antre as folhas de um faval.

Ó ladrão que te regalas!

Ó ladrão que te regalas c'a carocha no Natal.


Acacei a formiguinha! (bis)

Acacei a formiguinha antre as pedras do terreiro.

Ó ladrão que te regalas! (bis)

Ó ladrão que te regalas c'o a trabalhinho alheio.


      A Chulada da Ponte Velha é um projeto musical português dedicado à recolha, revitalização e reinvenção das práticas musicais tradicionais do Entre Douro e Minho, com especial destaque para as chulas dos descantes.


Emil Keyser - Kinder beim Ringelreihenspiel



      A pintura representa um grupo de crianças envolvidas numa brincadeira tradicional de roda. A composição transmite alegria, espontaneidade e inocência, captando a energia própria da infância. Os movimentos coordenados, os gestos e a proximidade entre as figuras sugerem cumplicidade e espírito de grupo. A cena evoca um ambiente despreocupado, onde a brincadeira assume um papel central na socialização e na descoberta do mundo.


Ezra Pound – A Rapariga / The Girl



A árvore penetrou as minhas mãos,

A seiva ascendeu pelos meus braços,

A árvore cresceu-me no peito -

Para baixo,

Os ramos crescem fora de mim, como braços.


Árvore és tu,

Musgo és tu,

Tu és violetas com o vento acima delas.

Uma criança – tão alta – és tu,

E tudo isso é loucura para o mundo.


  Tradução de J. T. Parreira


  Original:


The tree has entered my hands,

The sap has ascended my arms,

The tree has grown in my breast-

Downward,

The branches grow out of me, like arms.


Tree you are,

Moss you are,

You are violets with wind above them.

A child – so high – you are,

And all this is folly to the world.


      O poema explora a transformação provocada pelo amor, apresentando a mulher como uma presença que altera profundamente a identidade do sujeito poético. A beleza da rapariga é a beleza da árvore. O poema exprime a dificuldade de compreender essa transformação interior, revelando a tensão entre a experiência amorosa e a consciência de si próprio.


Song For You - Björn Ehlien & Nine Antwort

 


This is a song for you

That you can listen to

Whenever you feel

The world is coming down on you boy


I know what you´ve been through

On the darkest of your days

Now you shine like a star

And I´m reaching out for you boy


Life is so short

Try to keep your head up high

One day you´ll be old

And I will roam the starry sky

Some things may change

But my love carries a light that shines for you boy

And it won´t be blown away


And when I was your age

I had the purest thoughts

But I broke like a chain

That someone pulled too hard


My grandma loved me well

On that I had no doubt

When she passed in November

I was crying all my eyes out boy


Life is so short

You get born and raised and then you die

One day you´ll be old

And wonder how the day´s gone by

Some things may change

But my love carries a light that shines for you boy

And it won´t be blown away


Life is so short

So make it your time.


      In the video notes, we can read: "‘Song for You’ is a personal gift for my foster son, who is now seven years old. One evening, as we were getting ready for bed, he asked me out of the blue, whether I’d still look after him once I’d passed away. I think I just stammered something, as I was so taken aback.

      The question really got me thinking. A few days later, whilst I was lost in thought and improvising on my guitar, this melody popped into my head and the words just poured out of me. Enjoy listening, and feel free to drop me a line if you like."


Theodore Gerard - Girl Reading a Letter



      The painting captures an intimate moment of quiet reflection. A young girl is absorbed in a letter, her attention suggesting curiosity, anticipation or perhaps concern about its message. The painting’s warm, earthy colours create a gentle, nostalgic atmosphere, while the careful rendering of the figure and surroundings adds realism and charm. The curiosity of the dog is also a mistery.


José Manuel Benítez Ariza - In memoriam

 


Agora sou eu quem está

na linha de partida;

não te aflijas, mãezinha,


com a vantagem que levas,

o tempo aí e a distância

medem-se de outra maneira;


e ao fim e ao cabo, dá no mesmo,

no nada que seremos,

quem foi antes, quem depois.


  Tradução A.M.


  Original:


Ahora soy yo quien está

en la línea de salida;

no te preocupes, mamá,


por la ventaja que llevas:

ahí el tiempo y la distancia

se miden de otra manera;


y, al fin y al cabo, da igual,

en la nada que seremos,

quién fue antes, quién detrás.


      O poema evoca a memória da mãe ausente, transformando a recordação num gesto de homenagem. Nele, a condição humana é dissolvida no tempo e o tempo dissolve a condição humana. Somos, apenas, breves. A tela é da americana Mary Cassatt.


Julia Andersson – Forever the Forest Sings



      Julia Andersson is a Swedish speaking Finn. Here, her music encapsulates the essence of nature.


Samuel McCloy - The new girl



      The New Girl is a watercolour by the Irish artist Samuel McCloy (1831–1904). The painting belongs to his body of figurative works, reflecting his interest in everyday life. A girl entering primary school for the first time. Through delicate watercolour techniques, McCloy evokes the intimate atmosphere characteristic of Victorian genre painting.


María Belén Aguirre - No dia em que meu pai / El día en que mi padre

 


No dia em que meu pai nos abandonou da primeira vez,

ela disse para mim:

- "Maria, vem cá, temos de falar".

Puxou um cadeirão,

sentou-me no colo

e fitou-me.

- "Tu, agora, és o homem da casa" – disse-me.


E eu assenti.


  Tradução de A.M.


  Original:


El día en que mi padre nos abandonó por primera vez,

ella me dijo:

"-María, venga. Tenemos que hablar".

Puso un sillón en la galería.

Me sentó sobre sus piernas.

Me miró.

"-Ahora Ud. es el hombre de la casa", me dijo.


Asentí.


      O poema explora a ausência paterna e as marcas emocionais deixadas pelo afastamento. O título sugere um momento decisivo, capaz de transformar a perceção do passado e do presente. A figura do pai assume um valor simbólico, enquanto María (crioso, não a mãe) assume o poder.


Chris Orange - Fenix

 


Campanas angelicales que ahora vienen subiendo

Mensajes dimencionales que ahora vengo conprendiendo

Campanas angelicales que ahora vienen subiendo

Espacios dimencionales que ahora vengo recorrendo.


Pinta dragon, pinta guacamayo

Pinta fenix, pinta yage

Pinta guacoya, pinta guachumita

Pinta san pedrito lleno de poder.


Ey lerey lerey reley le lerey le lerey

Ey lerey lerey reley le lerey le lerey

Ey lerey lerey reley le lerey le lerey

Ey lerey lerey reley le lerey le lerey huuux.


Ese fenix viene volando

Por los cielos con sus alas

Va despegando, levantando vuelo

Iluminando nuestro caminho.


Oh sagrado abuelo

Crece lindo guachumero arbolito

Lindo cactus espinoso lleno de luz

Estrellita de poder.


Ilumina nuestro cuerpo

Fenix dorado luminoso

Llevanos en el camino

Donde nadie este perdido.


Va fluyendo como el fuego

Como el agua, como el aire

Purificando nuestros corazones

Ay mi tierrita viene sonrriendo.


Chas ca ñaui agui chu

Cura taita killa inti

Uma sacha zairi protector

Ay tabaquito libranos del mal.


Canchaña ninchis huaca hampi

Zairi ri ri ri ri ri zairi ri sana naina zairi

Ay maru ay maru.


      Fenix is an original song written and performed by Chris Orange at an event for the Sacred Circle Collective.  


William Henry Midwood - The Parting Of Burns And His Highland Mary



      The painting depicts the poignant farewell between Scottish poet Robert Burns and Mary Campbell, the woman he passionately loved. Set against a picturesque rural landscape, the painting evokes the tenderness and sadness of two lovers facing separation. Midwood’s careful attention to the figures, costumes and natural surroundings enhances the scene’s romantic atmosphere. The work transforms a brief historical episode into a timeless reflection on love, longing and the pain of parting. 

                                                 

Ezra Pound - Antiga sabedoria, um tanto cósmica



So-shu sonhou,

E tendo sonhado que era um pássaro uma abelha e uma borboleta,

Pensou com seus botões para que procurar sentir-se como qualquer outra coisa,

Daí sua satisfação.


    Tradução de M. Faustino

      O poema explora a relação entre identidade, liberdade e felicidade. No sonho, So-shu transforma-se sucessivamente num pássaro, numa abelha e numa borboleta, assumindo diferentes formas de existência. Contudo, ao despertar, questiona a necessidade de ser diferente daquilo que realmente é. Esta reflexão sugere que a satisfação nasce da aceitação de si próprio, sem procurar incessantemente outras identidades. Com simplicidade e humor, o poema valoriza o autoconhecimento, a naturalidade e a tranquilidade interior.

Clã Colibrís - Ventre Negro



  Eu nasci de um ventre negro

  Eu vim,

  Eu nasci de um ventre negro

  Eu vim.


Nutrindo minhas raízes eu floresço em toda a terra

Eu saúdo a mamãe África

Eu saúdo a nossa era.


Cabocla pega no laço já dizia minha Vó

Eu honro as minhas ancestras

Eu já não caminho só.


      Clã Colibrís é um grupo musical e coletivo artístico brasileiro conhecido por criar e interpretar canções de rezo e cânticos de conexão espiritual, sagrado feminino e exaltação à natureza. Essas canções funcionam como "medicina" para a alma, misturando mantras, toadas e cantos de tradições indígenas, afro-brasileiras e da floresta (como temas dedicados a Iemanjá, Exu Guardião e o arquétipo do feminino).


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