Christian Friedrich Wilhelm Heinrich Syberg (generally known as Fritz Syberg) - Mother and Child, 1898



      The painting portrays an intimate domestic moment with warmth and quiet realism. The mother’s gentle attention and the child’s calm presence express tenderness, protection, and the enduring bond between parent and child. Soft natural light and muted colours create a peaceful atmosphere. Characteristic of Danish Funen painting, the work celebrates everyday life, transforming an ordinary family scene into a timeless reflection on love and human connection.


Miquel Martí i Pol - Coisas / Cosas

 


Desse Verão quero só recordar

o olhar cúmplice

da vizinha que apanhava sol

despida e sorriu com agrado

ao dar conta de que eu a contemplava,

e esse instante fugaz, irrepetível,

de total quietude, em que o mundo ficou

deserto de si mesmo e era um vidro

transparente e a seguir de novo compacto.

O Verão não será outra coisa,

quero dizer, esse Verão, e se alguém me vier

com as mil bagatelas inefáveis

que compõem os dias e  as noites,

eu direi apenas: - Não me lembro.

 

  Tradução de A.M.

 

  Original:

 

Sólo quiero recordar de este verano

la mirada cómplice

de una vecina que tomaba el sol

desnuda y sonrió complacida

al darse cuenta de que la contemplaba,

y aquel instante fugaz, irrepetible,

de total quietud, en que el mundo quedó

desierto de sí mismo y era un cristal

transparente y de nuevo compacto.

El verano no será otra cosa,

este verano, quiero decir, y si alguien me habla

de aquellas mil bagatelas inefables

que componen los días y las noches,

diré tranquilamente: - No me acuerdo.

 

      O poema valoriza os pequenos elementos do quotidiano como portadores de memória, identidade e afeto. A atenção ao detalhe transforma o banal em símbolo da existência, sugerindo que a verdadeira riqueza reside naquilo que frequentemente ignoramos. O poema celebra, assim, a dignidade do quotidiano e a intimidade da memória.


Starling Arrow - Honor Way



Way honour way,

Way on our way,

Way honour way on our way!


Coming up home

I’m coming up home!

Coming up home

I’m coming up home!


Roses

At the bottom of the garden’

Theres roses

Won’t you sing with me my darlin

We’re braiding roses

At the bottom

And the thorns will be the guard into the night'


    Ancient wisdom of the soul!


Edmund Blair Leighton - A Nibble, 1914



      The painting portrays a poetic childhood moment in a rural place. The brook (a small river) is symbol of life and the dog a symbol of faithfulness. The innocent children are learning how to deal with both. Is the dog waiting for the fish?

      Is this a variant of A.I.? 


 

Alexandre Pinheiro Torres - A Democracia Plural Portuguesa Ocidental

 


Neste bairro onde miam gatas há dez mil de gente   Fácil:

contem-se todas as cabeças    uma por uma

uma de cada vez    Façam-se perguntas

Registem-se as respostas     Por exemplo: ao perguntar-se


Se ganham menos do que é necessário p’ra viver

façam uma cruz    Mas façam a mesma cruz

caso digam o contrário   Se tiverem um rádio vejam

o rádio e façam uma cruz no rádio


Se tiverem uma bicicleta cruz na bicicleta

Cruz nos aparelhos de TV     Cruz nos frigoríficos

Cruz se a barraca for deles    Cruz se for alugada

Cruz na idade que têm     Cruz se são solteiros ou casados


Cruzes em resumo em tudo o que é máquina

Máquinas de costura por exemplo  Vejam

se as rodas andam   Cruz   Cruz    Cruz   Cruz

Cruz no número de filhos     Não há nada que não conte


Depois de tudo passado a pente fino   

contado classificado    codificado   computorizado

é preciso calcular a média   Dividir o que há

por todos para que ninguém se queixe de injustiça


Os nomes não interessam   Os nomes não têm significado

Velho ou doente não se deixe ninguém de fora

Sendo assim até uma doente estéril ficará com

alguns filhos    Se a maioria passa fome calcule-se


a fome média    Estamos ou não na democracia  ocidental?   

Todos têm de tê-la igual     Não haverá

desempregados porque todos    mas todos   terão uma

fracçãozinha de emprego para sustentar uma fracçãozinha


de família numa fracçãozinha de barraca    Nada pois

de sangueiras   ódios   ressentimentos    Sobretudo nada de

provocações à Guarda nem de atacar o Quartel do

Carmo ou o palácio onde tanto se esforçam os doutores-deputados


Este é o conselho das pessoas sábias    Está aliás na

Constituição que    ó diabo    é preciso emendar para que

se prescreva   inalienável   o direito a fracções mais pequenas

Assim é que será bem plural e ocidental a democracia em Portugal.


      O poema constitui uma reflexão crítica sobre a identidade política e cultural de Portugal após a ditadura. Com ironia e densidade simbólica, o poeta questiona os limites da democracia, denunciando contradições entre os ideais de liberdade e a realidade social. O título, deliberadamente extenso, sugere uma visão satírica dos discursos oficiais. A linguagem incisiva e o tom desencantado convidam o leitor a pensar criticamente sobre o exercício do poder e a participação cívica.


Blaze Foley's Clay Pigeons - John Prine's cover by Toni Lindgren

 


I'm goin' down to the Greyhound station

Gonna get a ticket to ride

Gonna find that lady with two or three kids

And sit down by her side.


Ride 'til the sun comes up and down around me

'Bout two or three times

Smokin' cigarettes in the last seat

Tryin' to hide my sorrow from the people I meet

And get along with it all.


Go down where the people say y'all

Sing a song with a friend

Change the shape that I'm in

And get back in the game and start playin' again.


I'd like to stay, but I might have to go

To start over again

Might go back down to Texas

Might go to somewhere that I've never been.


And get up in the mornin' and go out at night

And I won't have to go home

Get used to bein' alone

Change the words to this song

And start singin' again.


I'm tired of runnin' 'round

Lookin' for answers to questions that I already know

I could build me a castle of memories

Just to have somewhere to go.


Count the days and the nights that it takes

To get back in the saddle again

Feed the pigeons some clay, turn the night into day

And start talkin' again when I know what to say.


I'm goin' down to the Greyhound station

Gonna get a ticket to ride

Gonna find that lady with two or three kids

And sit down by her side.


Ride 'til the sun comes up and down around me

'Bout two or three times

Smokin' cigarettes in the last seat

Try to hide my sorrow from the people I meet

And get along with it all.


Go down where the people say y'all

Feed the pigeons some clay

Turn the night into day

And start talkin' again when I know what to say.


      "Clay Pigeons" is a song about personal renewal, starting over, and seeking quiet peace after a hard life. It was written by the Texas outlaw country musician Blaze Foley, and later made famous by John Prine, who loved the track so much he felt he should have written it himself.


Richard Schmid - The Sound of the Night, 2004



      The painting invites viewers to experience the silence of the night as something almost audible, celebrating nature’s tranquil beauty and the artist’s extraordinary observational skill. The three "selves" live tan inner intimacy.


Albano Martins - A Mesma Canção

 


A sensação que tens

é de que tudo

quanto dizes já o leste

noutros livros. Mas

depois consideras: também

o sol e os pássaros

repetem todos os dias

a mesma canção.


      O poema reflete sobre a aparente impossibilidade da absoluta originalidade. O sujeito poético reconhece que as palavras parecem já ter sido ditas, mas conclui que a repetição faz parte da própria natureza, tal como. Não há nada, ou há muito pouco, de surpreendente a dizer. 

 

Luís Trigacheiro e Salvador Sobral - Imagina a Cara Dela



Imagina a cara dela quando me vir com um ramo

De acácias amarelas já imaginei o plano

Quando entrar pela janela imagina a cara dela


Levei duas semanadas e fui ter com a dona Dores

Que garante que as acácias entre as mil e uma flores

São de muita eficácia no que respeita aos amores


Diz que flores são como flechas imagino a cara dela

Duas rosas nas bochechas e eu, de acácias amarelas

A entrar pela janela imagina a cara dela


O que é aquilo na janela dois vultos em contraluz

Não é só a sombra dela, não foi isto que eu supus

Imagino a minha cara, minha nossa, meu Jesus


Vou ter com a dona Dores, vou pedir o meu dinheiro

Vou amaldiçoar as flores e deitá-las no bueiro

Imagina a minha cara, saiu cara a brincadeira


Saiu cara a brincadeira imagina a minha cara

Duas rosas nas bochechas, um buraco na carteira

Um ramo na sarjeta, Dona Dores ali sem jeito


E tudo tão de repente que se ela imaginasse

Imagina a cara dela.


      Não tenho palavras para descrever a canção. Faltam-me adjetivos, que não sejam demasiado comuns para descrever a sua beleza e arte. "It’s a work of art". 


Gaetano Chierici - La Maschera (The Mask)




      The painting captures a tender domestic moment with remarkable realism and emotional warmth. A child, absorbed in play, wears a theatrical mask while family members observe with gentle amusement. Chierici’s meticulous attention to everyday details transforms an ordinary scene into a celebration of childhood imagination, innocence, and family affection, revealing the beauty and quiet charm of nineteenth-century domestic life.


Mariana Finochietto - Detém-se a tarde / La tarde se detiene

 



(17)


Detém-se a tarde,

suspensa

nos fios

da luz

que o vento

tece

e destece

por entre os ramos.


No instante

de pássaros agrestes,

a pureza

e a crueldade

são as únicas

certezas

sobre o mundo.


  Tradução de A.M.


  Original:


(17)


La tarde

se detiene,

suspendida

en los hilos

de luz

que teje

y desteje

el viento

entre las ramas.


En este instante

de pájaros agrestes,

la pureza

y la crueldad

son las únicas

certezas

sobre el mundo.


      Neste breve poema, Mariana Finochietto suspende o tempo para revelar a coexistência dos contrários. A tarde imóvel, presa nos fios de luz entre as árvores, cria um instante de contemplação onde a natureza expõe a sua verdade essencial. O canto agreste das aves e o movimento do vento contrastam com a aparente quietude, sugerindo que beleza e violência, pureza e crueldade, convivem inseparavelmente. A linguagem depurada transforma um momento quotidiano numa reflexão profunda sobre a condição humana e o mundo.


Le Mondine - La Lavanderina




La bella lavandaia verso il fiume cantando va

scende dalla collina fresca nella mattina

Porta le cesta piena quanti panni andrà a lavar

lunga è la giornata lunga un'eternità.


Il sole sta per tramontar

lavanderina torna al tuo casolar

Quelle mani gonfie come fai

ti fanno male più che mai.

Di lontano pare la

il tuo villaggio nuovo che aspetta già

Sulla porta mentre il giorno muor

soltanto un bacio con il tenero dolor.


La bella lavandaia verso il fiume cantando va

quel canto si diffonde dal fiume sulle sponde

Come una cantilena fino a sera ripeterà

sempre quel ritornello lungo un'eternità.


      Too Pop for my taste, but I listened lots of these songs during my childhood. Traditional laundry relied heavily on physical labour, using river rocks, wooden paddles, and washboards to clean textiles. A typical historic wash day involved soaking clothes in lye or soap, scrubbing by hand, and wringing out water manually.


Fredrik Kolstø (Norwegian painter, 1860-1945) - Woman by the Window, 1910



      It portrays a quiet, contemplative moment as a woman stands beside a sunlit window, absorbed in thought. Soft natural light gently illuminates her figure, creating subtle contrasts between the interior’s muted tones and the brightness beyond the glass. The restrained palette and careful composition evoke intimacy, solitude, and introspection. Kolstø’s realistic style captures everyday domestic life with warmth and psychological depth, inviting viewers to reflect on stillness, memory, and the silent passage of time.


Andrés Trapiello - Widmung

 


Em silêncio a casa.

Uma lâmpada erguida com o seu universo

pequeno e harmonioso,

e na varanda a lua com o seu manto.


Manto, uma palavra culta

para vós, meus filhos.

Não ouvis no vidro da janela

a borboleta a bater, cega?


Não lhe bastam a noite de verão

nem as estrelas todas.

Quer também entrar,

coroar as vossa frontes e libar

nessas brancas mãos

que o cansaço moldou no lençol,

maçapães de um forno.


O rouxinol abalou e a coruja

do alambique ulula e pensa

com sílabas distantes

para não vos acordar do repouso.


Dormis, dormis, enquanto o vosso pai

vai escrevendo estes versos,

e tal como a borboleta

marra no papel como num vidro

e tenta assim entrar na poesia

como a noite na luz.


  Tradução A.M.


  Original:


En silencio la casa.

Una lámpara en pie con su universo

pequeño y armonioso,

y en el balcón la luna con su peplo.


Peplo, una palabra culta

para vosotros, hijos.

¿No oís en el cristal de la ventana

la mariposa acometiendo ciega?


No le bastan la noche de verano

ni todas las estrellas.

Quiere también entrar,

coronar vuestras frentes y libar

en esas blancas manos

que el cansancio amoldó sobre el embozo,

mazapanes de un horno.


El ruiseñor se ha ido y la lechuza

de la vieja almazara ulula y piensa

con sílabas lejanas

para no despertar vuestro reposo.


Dormís, dormís, y vuestro padre al lado

va escribiendo estos versos,

e igual que la falena misteriosa,

golpea en el papel como en un vidrio

y en la poesía trata así de entrar,

como en la luz la noche.


      No poema "Widmung" ("Dedicatória"), Andrés Trapiello transforma um momento doméstico e silencioso numa reflexão sobre o amor paternal e a criação poética. Enquanto os filhos dormem, o poeta observa a noite e encontra na natureza — a lua, a borboleta, o rouxinol, a coruja — imagens de delicadeza e mistério. A tentativa da borboleta de atravessar o vidro espelha o próprio desejo do poeta de alcançar a poesia, convertendo o quotidiano numa experiência de beleza, ternura e transcendência.


Crêuza de mä - Erica Boschiero e Giua



 

Umbre de muri, muri de mainé

Dunde ne vegnì, duve l'è ch'ané

Da 'n scitu duve a l'ûn-a se mustra nûa

E a nuette a n'à puntou u cutellu ä gua.


E a muntä l'àse gh'è restou Diu

U Diàu l'è in çë e u s'è gh'è faetu u nìu

Ne sciurtìmmu da u mä pe sciugà e osse da u Dria

A funtan-a d'i cumbi 'nta cä de pria.


  E e anda e e e anda e e e anda io!


E 'nt'a cä de pria chi ghe saià

Int'à cä du Dria che u nu l'è mainà

Gente de Lûgan facce da mandillä

Qui che du luassu preferiscian l'ä

Figge de famiggia udù de bun

Che ti peu ammiàle senza u gundun


E a 'ste panse veue cose ghe daià

Cose da beive, cose da mangiä.

Frittûa de pigneu giancu de Purtufin

Çervelle de bae 'nt'u meximu vin

Lasagne da fiddià ai quattru tucchi

Paciûgu in aegruduse de lévre de cuppi.


E 'nt'a barca du vin ghe naveghiemu 'nsc'i scheuggi

Emigranti du rìe cu'i cioi 'nt'i euggi

Finch'ou matin crescià da puéilu rechéugge

Frè di ganeuffeni e d'è figge

Bacan d'a corda marsa d'aegua e de sä

Che a ne liga e a ne porta 'nte 'na crêuza de mä.


      Crêuza de mä cantado no dialeto da Ligúria (Génova) significa "caminho de mula junto ao mar". Vejamos o que nos diz a Wikipedia: The song "is about the hard-working life of sailors and fishermen in Genoa, but also displays their serene mood when gathering together for dinner. The lyrics mention various traditional Genoan dishes, which are allegedly served in "Andrea's house".


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