Ana Pérez Cañamares - Quando o sol / Cuando el sol

 


Quando o sol já só se adivinha

pelo seu reflexo nos pássaros

que voam fora do teu alcance


é hora de fechar os ouvidos

aos gritos que te oprimem

e escutar os ecos que chegam

de longe a sussurrar-te:


defende as tuas asas.


 Tradução A.M.


  Original:


Cuando el sol ya sólo se adivina

en su reflejo sobre los pájaros

que vuelan fuera de tu alcance


es la hora de cerrar los oídos

a los gritos que te apremian

y escuchar los ecos que vienen

de lejos para susurrarte:


defiende tus alas.


      No poema, Ana Pérez Cañamares transforma o fim do dia em fim da vida, numa revelação íntima. O aproximar da noite prevê a morte e permanece a necessidade de manter a fé.


Fanny Brate - Among the spring blossoms



      Among the Spring Blossoms by Fanny Brate describes a woman gathered beneath flowering trees, immersed in the freshness of spring. Soft sunlight filters through pale blossoms, casting a gentle glow across her face and clothing. Brate captures a moment of lost innocence, natural companionship, and seasonal renewal.


Rosalía - Sexo, Violencia y Llantas

 


Quién pudiera vivir entre los dos

Primero amaré el mundo y luego amaré a Dios

Quién pudiera vivir entre los dos

Primero amaré el mundo y luego amaré a Dios.


Quién pudiera venir de esta tierra

Y entrar en el cielo y volver a la tierra

Que entre la tierra, la tierra y el cielo

Nunca había el suelo.


En el primero

Sexo, violencia y llantas

Deportes de sangre, monedas en gargantas.


En el segundo

Destellos, palomas y santas

La gracia y el fruto y el beso de la balanza.


Quién pudiera vivir entre los dos

Primero amaré el mundo y luego amaré a Dios.


      "Sexo, Violencia y Llantas" é a faixa de abertura do álbum "Lux" de Rosalía, que apresenta de forma clara o principal conflito do disco: a tensão entre o desejo pelos prazeres e dores do mundo físico e a busca por uma dimensão espiritual mais elevada.

      Logo no início, o verso "Quién pudiera vivir entre los dos / Primero amaré el mundo y luego amaré a Dios" ("Quem pudesse viver entre os dois / Primeiro amarei o mundo e depois amarei a Deus") deixa evidente essa dualidade. Rosalía sugere que a experiência terrena é um passo necessário antes da busca pelo divino, estabelecendo uma ordem de prioridades que parte do concreto para o espiritual.

      A letra constrói dois universos opostos. O primeiro, representado por "sexo, violencia y llantas (pneus?)" e "deportes de sangre, monedas en gargantas" ("desportos sangrentos, moedas nas gargantas”), retrata um cotidiano intenso, industrial, materialista e até brutal, dominado pelo desejo, pelo risco e pelo dinheiro. O segundo universo, com "destellos, palomas y santas" ("clarões, pombas e santas"), traz imagens de pureza e espiritualidade.

      O trecho "la gracia y el fruto y el beso de la balanza" ("a graça, o fruto e o beijo da balança") sugere equilíbrio e recompensa espiritual, reforçando o tema do álbum de buscar harmonia entre extremos. O contexto do álbum, que mistura espiritualidade e orquestra sinfónica, amplia essa busca por transcendência. 


Rosalía & Carminho - Memória





Ainda te lembras de mim?

Ainda sabes de onde eu vim?

Quem sou esta que aqui estou?

Diz-me no meu olhar triste

Que alguma memória existe

E ainda sabes quem sou


Diz-me se ainda tropeço

Se me alegro se agradeço

Ou se ainda sei cantar

Recorda-me por favor

Alguma coisa o que for

que eu não consigo Lembrar


Vem comigo p'la cidade

Diz-me com sinceridade

Se tu te lembras de mim

Onde cresci e amei

Com quem vivi e me dei

Ou se a algo eu pus fim


Será que tu me conheces

Que o tempo passa e não esqueces

Quem eu fui e sou em fim

Oh meu doce coração

Diz-me se sabes ou não

Ainda te lembras de mim?

 

Siempre que me acuerdo de algo

Siempre lo recuerdo un poco diferente

Y sea como sea ese recuerdo

Siempre es verdad en mi mente

Y si mi alma se derrama

Y la falta de pasado es el olvido

Cuando muera solo pido

No olvidar lo que he vivido.


      Só um "r" separa "carminho" de "caminho". Tudo na Arte de Carminho é caminho. Por isso, neste deslumbrante "Memória" que ela e Rosalía interpretam, as duas vozes provêm do mesmo lugar, da mesma procura. Aquilo não é um dueto. É um monólogo a duas vozes. É connosco que elas falam. É a nós que nos interpelam e convidam-nos a, também nós, deixarmos de ser escravos do Tempo. Carminho propõe-nos a maior liberdade… que é a de ser… a de inteiramente ser!


Evert Jan Boks (Dutch painter) - Going into the world, 1913



      It captures a young woman on the threshold of change. Seated at a railway station, elegantly dressed in black, she clutches a parasol and handbag while luggage waits nearby. Her expression blends anticipation, uncertainty, and quiet resolve. Around her, bustling figures and a watchful admirer hint at a world in motion. Boks renders the scene with warm realism, transforming an ordinary departure into a poignant meditation on independence, transition, and possibility.


The Great Dictator (1940) dir. Charlie Chaplin

 


      Set in the fictional state of Tomainia, the film follows two parallel figures: a tyrannical dictator, Adenoid Hynkel, and a humble Jewish barber who is mistaken for him. Through this duality, the story unfolds as a satire of totalitarian power and blind obedience.


Julia Gutiérrez - Das formas disponíveis

 


Das formas possíveis

de chegar a uma ilha deserta

destaco duas: por erro ou por amor.


Nenhuma tem a ver com o transporte

nem a ilha tem de ser um bocado de terra.


 (Tradução A.M.)

  Original:


De las formas disponibles

de llegar a una isla desierta

destaco dos: por amor o por error.


Ninguna tiene que ver con el transporte

ni la isla tiene que ser un trozo de tierra.


Mairéad Ní Mhaoinigh - Méabh Ní Bheaglaioch



      This song is the finale of a specially commissioned one-off documentary called ‘Ceol na nGael’, which marks 50 years of RTÉ Raidió na Gaeltachta, and the remarkable role it played in preserving and showcasing Irish music tradition for future generations.  National treasure Mairéad Ní Mhaoinigh explores the role the station has played in shaping her own career as a musician – and that of many other musicians of her generation and beyond. 


Robert Walker Macbeth - The Cider Orchard, 1890



      The painting captures a tranquil rural scene in late autumn. A group of labourers gathers in an orchard, pressing apples into cider, surrounded by soft golden light and muted earth tones. Macbeth’s impressionistic style conveys atmosphere and quiet industry, reflecting Victorian ideals of pastoral life, community, and seasonal rhythms.


Maria do Rosário Pedreira - Bárbaros



Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam

nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem

o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,

com um ramo quebrado, puseram-se a riscar o contorno

do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.

A água fascinava-os, como aos cavalos que traziam

alados e sem crinas para chegarem mais cedo.


Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado. Beberam

ás mulheres que haveriam de ter. e adormeceram

mais longe do céu.


Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.


De manhã, a planície estava ainda mais plana.


      O poema reflete sobre a fragilidade das relações humanas e a incapacidade de comunicação autêntica. Os "bárbaros" simbolizam a indiferença emocional e a violência subtil presente no quotidiano. A linguagem contida intensifica o sentimento de distanciamento e desencanto. Há uma crítica à superficialidade dos afetos e à erosão da empatia. O tom melancólico revela uma consciência aguda da solidão contemporânea, onde o outro surge como ameaça ou ausência, mais do que como possibilidade de encontro verdadeiro.


“Mr. Sandman" - A Retro Jazzy Living Room Cover



Mr. Sandman, bring me a dream (bung, bung, bung, bung)

Make him the cutest that I've ever seen (bung, bung, bung, bung)

Give him two lips like roses and clover (bung, bung, bung, bung)

Then tell him that his lonesome nights are over

Sandman, I'm so alone (bung, bung, bung, bung)

Don't have nobody to call my own (bung, bung, bung, bung)

Please turn on your magic beam

Mr. Sandman, bring me a dream.

 

Mr. Sandman, I'm so alone

Don't have nobody to call my own

Please turn on your magic beam

Mr. Sandman, bring me a dream.


      "Mr. Sandman" is a popular song written by Pat Ballard and published in 1954. It was first recorded in May of that year by Vaughn Monroe and his orchestra and later that year by The Chordettes and the Four Aces. The song's lyrics convey a request to "Mr. Sandman" to "bring me a dream" – the traditional association of the folkloric figure (but in this context the meaning of dream is more akin to 'dreamboat'). The pronoun used to refer to the desired dream is often changed depending on the sex of the singer or group performing the song, as the original sheet music publication, which includes male and female versions of the lyrics, intended.

      Emmylou Harris's recording of the song was a hit in multiple countries in 1981. Other versions of the song have been produced by Chet Atkins (1954) and Bert Kaempfert (1968).


Arnold Meermann - Courting Couple in an Alpine Landscape



      The painting describes a romantic scene set amid serene mountain scenery. A finely dressed couple stands in gentle conversation, surrounded by lush greenery and distant Alpine peaks. The composition balances human intimacy with the grandeur of nature, emphasizing harmony between figures and landscape.


Jesús Jiménez Domínguez - A ponte no nevoeiro / El Puente en la niebla



Detenho-me

a meio do caminho

e escuto.


Num extremo

aquele que fui grita-me:

Espera-me!


No outro,

aquele que serei sussurra-me:

Segue-me.


E a ponte, eterna,

não aguenta o peso dos três.


  Original:


Me detengo

a mitad del recorrido

y escucho.


En un extremo

aquel que fui me grita:

¡Espérame!


En el otro,

el que seré me susurra:

Sígueme.


Y el puente, eterno,

no aguanta el peso de los três.


      O poema explora a incerteza e a transição através da metáfora da ponte envolta em nevoeiro. A névoa simboliza o desconhecido, enquanto a travessia sugere um processo interior de mudança ou busca. O ambiente é introspectivo e melancólico, convidando à reflexão sobre decisões e caminhos de vida. A linguagem é simples mas evocativa, criando uma atmosfera densa que reforça a ambiguidade e a fragilidade da experiência humana.


Moonlight Reggae, frei nach Ludwig van Beethoven



      If you hate AI, you'll need to rethink your position. What happens when Ludwig van Beethoven meets a laid-back reggae groove? "Moonlight Reggae" reimagines the spirit of the Moonlight Sonata in a calm, cinematic atmosphere. Inspired by vintage retro film posters and the poetic vision of Jules Verne, this video blends moonlight, nostalgia and smooth rhythm into a dreamy journey between Bonn and the cosmos.


Joaquín Sorolla y Bastida - Another Margarita, 1892


It portrays a young woman accused of infanticide being transported by train, guarded by Civil Guards. Slumped in despair, she embodies shame and social condemnation. The muted palette and stark realism heighten the emotional gravity, while the confined space emphasizes her isolation. Sorolla departs from his luminous beach scenes here, offering a sober critique of injustice, poverty, and the harsh treatment of marginalized women in 19th-century Spain.


 

Doctor Zhivago



      Rod Steiger, Omar Sharif, Tom Courtenay, Geraldine Chaplin and Julie Christy, 1965. Let's remember! Lieutenant General Yevgraf Zhivago searches for the daughter of his half-brother Dr. Yuri Zhivago and Larissa ("Lara") Antipova. Yevgraf believes a young dam worker, Tanya Komarova, may be his niece and explains to her why.


L. Cohen's lesson



Master, "does it need to be so cruel and so bright?"


Manoel de Barros - O Menino que ganhou um rio

 


Minha mãe me deu um rio.

Era dia de meu aniversário e ela não sabia o que me presentear.

Fazia tempo que os mascates não passavam naquele lugar esquecido.

Se o mascate passasse a minha mãe compraria rapadura

Ou bolachinhas para me dar.

Mas como não passara o mascate, minha mãe me deu um rio.

Era o mesmo rio que passava atrás de casa.

Eu estimei o presente mais do que fosse uma rapadura do mascate.

Meu irmão ficou magoado porque ele gostava do rio igual aos outros.

A mãe prometeu que no aniversário do meu irmão

Ela iria dar uma árvore para ele.

Uma que fosse coberta de pássaros.

Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera ao meu irmão

E achei legal.

Os pássaros ficavam durante o dia nas margens do meu rio

E de noite eles iriam dormir na árvore do meu irmão.

Meu irmão me provocava assim: a minha árvore deu flores lindas em setembro.

E o seu rio não dá flores!

Eu respondia que a árvore dele não dava piraputanga.

Era verdade, mas o que nos unia demais eram os banhos nus no rio entre pássaros.

Nesse ponto nossa vida era um afago!


      O poema (tão belo!) valoriza a imaginação infantil e a relação íntima com a natureza. O "ganhar um rio" simboliza liberdade, riqueza subjetiva e criatividade, em contraste com valores materiais. O rio torna-se extensão do menino, sugerindo pertença e fusão com o mundo natural, característica marcante da obra do autor.


Frank Percy Wild - Punting on the Thames



      The painting describes a serene riverside scene with an elegantly dressed woman gliding along the Thames in a flat-bottomed boat. Soft, diffused light reflects on the water, while lush greenery frames the composition. The atmosphere feels leisurely and refined, evoking late 19th-century leisure culture.


José Luís Tinoco - Os Lobos e Ninguém, canta Carlos do Carmo


      Morreste-nos. Deixa lá, como dizia o António Lobo Antunes "Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida." Obrigado.

 


Cresceu nas pedras, falou sozinho com a voz de relento

Soube do sabor da morte, da sorte e do vento.

Cresceu calado, dormiu sozinho na terra batida

Marchou descalço no pó dos caminhos da vida.


Guardou os rebanhos dos lobos à chuva e ao frio

Suou tardes de terra dura na ponta do estio.

Comeu do pão magro, da magra soldada

Largou a enxada, largou o noivado

Largou p´ra cidade mais perto para um pão mais certo.


Malhou no ferro, abriu trincheiras, estradas, sonhou.

Andou no mato perdeu a infância. Matou.

Marchou caldo, dormiu sozinho na terra batida

Caiu descalço no pó dos caminhos da vida.


E os lobos lá longe e as asas de abutre sem cara

E o medo na tarde, na farda, no corpo, na arma.

Soldado na morte, do mato no norte

Na sorte do vento, no fogo da terra

Nascido descalço, crescido nas pedras

Dormido sozinho, no pó do caminho.


Enxada, pão magro, relento, soldado

Na ponta do estio e o medo na tarde

E os lobos lá longe e as asas de abutre sem cara.


      A canção tem uma atmosfera intensa, explorando sentimentos de identidade, solidão e resistência. A metáfora dos lobos sugere luta e sobrevivência num mundo adverso, enquanto "ninguém" evoca anonimato e invisibilidade.


 

Alejandra Pizarnik - Carência / La Carencia

 


Eu não sei de pássaros,

nem conheço a história do fogo.

Mas creio que devia ter asas a minha solidão.


Desfolha-se este lilás.

De si mesmo cai

e oculta sua antiga sombra.

Eu hei-de morrer de coisas assim.


 Trad. A.M.


  Original:


Yo no sé de pájaros,

no conozco la historia del fuego.

Pero creo que mi soledad debería tener alas.


Esta lila se deshoja.

Desde sí misma cae

y oculta su antigua sombra.

He de morir de cosas así.


      A pintura é The Flight of the Soul, Poem of the Soul de  Louis Janmot.


John Prine - Speed of the Sound of Loneliness



You come home late and you come home early

You come on big when you're feeling small

You come home straight and you come home curly

Sometimes you don't come home at all.


So, what in the world's come over you

And what in heaven's name have you done

You've broken the speed of the sound of loneliness

You're out there running just to be on the run.


Well, I got a heart that burns with a fever

And I got a worried and a jealous mind

How can a love that'll last forever

Get left so far behind.


It's crossed the evil line today

Well, how can you ask about tomorrow

We ain't got one word to say

You're out there running just to be on the run.


      John Prine wrote it about the dissolution of his marriage to Rachel Peer.  This is a poignant express of a couple in great pain. Great sadness, and still yet great beauty.  


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