John Callcott Hoarsely - Lovers under a blossom tree, 1859



      The painting shows a romantically dressed couple sharing a quiet, intimate moment beneath flowering branches. Soft spring blossoms frame the figures, symbolizing renewal, love, and fleeting beauty. Rich Victorian costumes, delicate gestures, and luminous natural light create an atmosphere of tenderness and elegance.


América Martínez Ferrer - Se nós pudéssemos / Si pudiéramos todos

 


Se nós pudéssemos

acender a palavra

torná-la fulgor

labareda

abrasando-nos os nomes

      e os sinos

conquistaríamos juntos

esta densa trama feita de tempo

rasgando o futuro e a sua espessura.


  Tradução de A.M.


  Original:


Si pudiéramos todos

encender la palabra

volverla fulgor

llamarada

abrasando nuestros nombres

                nuestros sinos

conquistaríamos juntos

esta tupida trama hecha de tiempo

rompiendo el porvenir y su espesura.


      No poema, destaca-se um apelo à força da poesia, que pode ajudar à construção de um mundo mais justo. Pode incendiar "nomes" e "sinos". A expressão condicional "se pudéssemos" reforça a ideia, de que a mudança depende da arte que forma caráter e da vontade coletiva. 


Усова Юлия - Тюря. Usova Julia - Tiuria (russian folk)



"Ах, мой миленький хорошенький Емелька,

Как работала я прошлую недельку.

Тюря тюря тюря тюря-ря

Тюря тюрь тюря тюрь тюря-ря.


Понедельничек я банюшку топила,

А во вторничек мыться ходила.


А в середу я тебя поджидала,

А в четверг о тебе горевала.


А я в пятницу, мой миленький, постилась,

А в субботу об усопших прослезилась.


В воскресенье в нашу церковь я ходила,

Там грехи я свои замолила.


Ах, мой миленький хорошенький Емелька,

Как работала я прошлую недельку.


  Google translation:


Ah, meu querido e belo Yemelka,

Como trabalhei nesta última semana.

Tyurya-tyurya-tyurya-tyurya-rya,

Tyurya-tyurya-tyurya-tyurya-rya.


Na segunda-feira, aqueci a casa de banho,

E na terça-feira fui tomar banho.


Na quarta-feira, esperei por ti,

E na quinta-feira, lamentei a tua ausência.


Na sexta-feira, meu amado, jejuei,

E no sábado, derramei lágrimas pelos que partiram.


No domingo, fui à nossa igreja,

E lá rezei para purgar os meus pecados.


Ah, meu querido e belo Yemelka,

Como trabalhei nesta última semana.


   "Tiuria" is a well-known traditional Russian folk melody.


Armand Point - The Bathers, 1932



      The painting presents an idyllic gathering of nude figures in a tranquil natural setting, celebrating harmony between humanity and landscape. Soft, luminous colours and graceful poses evoke timeless beauty rather than realism. The composition balances classical influences with symbolist sensitivity, creating a dreamlike atmosphere of serenity and contemplation.


Gloria Fuertes - Em noites claras / En las noches claras

 


Em noites claras

resolvo o problema da solidão.

Convido a lua e com a minha sombra

já somos três.


  Tradução A.M.

  Original:


En las noches claras,

resuelvo el problema de la soledad del ser.

Invito a la luna y con mi sombra somos tres.


      O poema aborda o tema da solidão de forma simples e original. A voz poética afirma resolver "o problema da solidão do ser" ao convidar a lua; juntamente com a sua sombra, passam a ser "três". Através da personificação da lua e da sombra, transforma elementos da natureza em companhia imaginária. O poema sugere que a criatividade e a imaginação podem aliviar o isolamento humano. 


Afonso Portinha - A Cotovia | Part. Isabel Silvestre



Bala Grande, se me ouves, diz-me o que aconteceu

Se quem cantava foi embora, ou se quem cantava morreu

O fogo que te queimou renovou-te para melhor

Mas o que mais se renovou parece que foi p’ra pior.


  Eu ouvi a cotovia

  cantar naquela ramada

  Cotovia foste embora, ou tua voz foi calada

  diante de tanta tristeza a morte é quase nada.


Vilarinho sobe aos altos vai ao encontro do céu

Procura velhos caminhos onde a vida se perdeu

Vê o iteiro do vintém ou o alto da sacristia

Foi lá que o sol se escondeu fez-se noite ao meio-dia

Oh, alto das cabeçadas que tamanha solidão

O frio que vem da Estrela congelou-te o coração.


Até o cruzeiro do Alto símbolo que o amor construiu

O musgo cobriu-lhe as faces e todo o amor já partiu

A Mouta e a caparreira velhas parecem melhor,

Se um dia o fogo queimar não renoveis p’ra pior

Olhai as terras a monte que um dia foram de pão

Que os velhinhos cultivavam com o amor do coração.


      "Uma canção popular "desenhada" pelo meu tio Silvestre Gomes, que reflete a tristeza dele ao perceber que, após muitos anos de ausência da sua terra natal, Vilarinho, esta já não tinha o amor daqueles que cultivavam as terras, ou os cantares que davam cor às serras".


Children by a Brook, Francis Danby, 1822.



      It presents a tranquil dark light rural scene in which children gather beside a gently flowing brook. The composition emphasizes harmony between people and nature, with soft light illuminating the landscape and reflecting on the water. Danby’s careful attention to trees, foliage, and atmospheric effects creates a sense of calm and innocence. The painting celebrates childhood, leisure, and the quiet beauty of the countryside, inviting viewers into a peaceful, idyllic world.


Gloria Fuertes - Pena



Muito sofri hoje, segunda.

É meia-noite mais um segundo,

nem sequer é terça.

Isto é assim como rebentar,

nem sequer é parto.


  Tradução A.M.


  Original:


Cuánto he sufrido hoy lunes.

Son las doce y un segundo de la noche

no es ni siquiera martes.

Esto es parecido a reventar

no es ni siquiera parto.


      A autora aborda o terrorismo diário de forma simples, mas profunda. A "pena" (título) surge como um sentimento persistente, ligado à fragilidade humana. O poema convida à reflexão sobre o impacto emocional e a capacidade de o reconhecer como parte da experiência humana. A pintura é de Balthus, In the Street.


Ladaniva - Ajde Jano (Serbian folk song)



"Ajde Jano" is a traditional wedding and folk song originating from the Kosovo region of Serbia.


'Ajde Jano kolo da igramo

'Ajde Jano, 'ajde dušo, kolo da igramo

'Ajde Jano, 'ajde dušo, kolo da igramo.


  English translation:


C'mon Jana, let's dance the kolo

C'mon Jana, c'mon honey, let's dance the kolo

C'mon Jana, c'mon honey, let's dance the kolo.


      Kolo is a South Slavic circle dance, found under this name in Bosnia and Herzegovina, Croatia, and Serbia. It is inscribed on the UNESCO List of Intangible Cultural Heritage for Serbia. Kolo is performed at weddings, social, cultural, and religious ceremonials.


Louis Emile Willa - Two Women with Small Birg



      It is a charming genre painting that captures a gentle moment of compassion and elegance. Set at an open upper-story window, two young women lean outward, their attention focused on a small bird caught in a net. One woman appears ready to free the creature, symbolizing kindness and liberty, while flowers, a decorative pitcher, and rich fabrics enhance the scene.


Ana Blandiana - Sem saber / Sin saber

 


Evidentemente não sou

como esses fiandeiros de palavras

que fazem as roupas e as corridas de agulha,

as glórias, os orgulhos,

apesar de me mover no meio deles

e eles me olharem as palavras como se fossem malhas

– "Que bem posta que vais!", dizem-me,

– "Que bem que te fica o poema!"

sem saber

que os poemas não são o meu vestido,

mas o esqueleto

extraído com dor

e posto por cima da carne como uma carapaça,

tal como as tartarugas,

que assim sobrevivem

séculos

longos e infelizes.


Original:


Evidentemente no me parezco

a ninguno de esos hilanderos de palabras

que se hacen los trajes y las carreras de ganchillo,

las glorias, los orgullos,

aunque me muevo entre ellos

y ellos miran mis palabras como si fueran jerséis,

"—¡Qué bien vestida vas", me dicen.

"—¡Qué bien te queda el poema!",

sin saber

que los poemas no son mis vestidos,

sino el esqueleto

extraído con dolor

y colocado encima de la carne como un caparazón,

siguiendo el ejemplo de las tortugas

que así sobreviven

largos e infelices

siglos.


      No poema, a autora reflete sobre a verdadeira natureza da poesia. Critica os escritores que usam as palavras como ornamento ou instrumento de prestígio, enquanto para ela os poemas nascem da dor e da experiência mais profunda. A metáfora dos "esqueleto" transformados em "carapaça" revela que a poesia faz parte da sua própria identidade e exige sofrimento. Assim, o poema valoriza a autenticidade artística e apresenta a escrita como uma forma de sobrevivência e resistência interior.


Schmigadoon!



      "I found a blooper when they are getting together to spell Heart, the guy with the E has the letter backwards, at first I thought it was funny but for a second when they revealed the heart his heart it’s upside down when they record that part. I also just love how Isabella’s skirt twirls, it is so beautiful!"


John George Brown - A Thrilling Moment, 1880



      A Thrilling Moment captures a lively scene on New York’s docks, where a cluster of boys crowd together in eager suspense as they fish and wait to discover what is emerging from the water. Brown animates the composition with interwoven limbs, expressive faces, and colourful clothing, creating a sense of movement and excitement. The painting reflects his fondness for depicting childhood adventure and camaraderie, while idealizing the innocence, curiosity, and energy of urban youth in nineteenth-century America.


Joan Brossa - O último homem

 


Apesar das aparências e das teorias, diz

que tem medo da solidão; sente-se distanciado

dos objectos; tem medo de não ser mais do que uma

coisa entre as coisas, entre objectos sem nome:

tem consciência de não estar aqui.


  A tradução é de A.M.


      No poema é apresentada uma visão inquietante da condição humana através da figura do derradeiro sobrevivente. A solidão extrema transforma-se num símbolo do vazio, da perda de sentido e do isolamento do indivíduo perante um mundo deserto. Com linguagem simples e sugestiva, Brossa convida o leitor a refletir sobre a fragilidade da existência, o desaparecimento das relações humanas e as consequências de uma sociedade que se afasta dos valores essenciais da vida.


Violeta Parra - La jardinera



Para olvidarme de ti, voy a cultivar la tierra,

En ella espero encontrar remedio para mi pena.

Aquí plantaré el rosal, de las espinas más gruesas,

Tendré lista la corona, para cuando en mi te mueras.


  Para mi tristeza violeta azul, clavelina roja pa' mi pasión,

  Y para saber si me corresponde, deshojo un blanco manzanillón.

  Si me quiere mucho, poquito o nada, tranquilo queda mi corazón.


Creciendo irá poco a poco, los alegres pensamientos,

Cuando ya estén florecidos, irán lejos tu recuerdos.

De la flor de la amapola, seré su mejor amiga,

La pondré bajo la almohada, para dormirme tranquila.


Cogollo de toronjil, cuando me aumenten las penas,

Las flores de mi jardín, han de ser mis enfermeras.

Y si acaso yo me ausento, antes que tu arrepientas,

Heredarás estas flores, ven a curarte con ellas.

 

      La Jardinera é uma canção folclórica chilena em que a narradora procura curar a sua dor amorosa cultivando flores. Cada planta simboliza sentimentos, lembranças e esperanças, transformando o jardim num espaço de renovação emocional. Com linguagem simples e imagens da natureza, a música associa o trabalho de jardinar ao processo de superar o sofrimento.


Johann Hamza - The Bowling Alley



      It captures an elegant social gathering in a richly detailed Rococo-inspired setting. The painting portrays well-dressed figures enjoying a game of skittles, blending leisure, conversation, and refined manners. Hamza’s careful attention to costume, architecture, and gesture creates a lively yet intimate atmosphere. Warm lighting and meticulous brushwork emphasize the affluence and charm of bourgeois life, reflecting the artist’s fascination with nostalgic scenes of 18th-century-inspired social entertainment.


Alfonso Costafreda - As palavras

 

Pedras preciosas do sentido,

diamantes do real.


Perdem o brilho, se vão em sonhos,

a sua luminosa verdade.


Palavras vivas, não lhes toque

quem as não saiba cuidar.


  Tradução de A.M.

  Original:


Piedras preciosas para el sentido,

diamantes de realidad.


Si van en sueños pierden su brillo,

su luminosa verdad.


Palabras vivas, nadie las toque

que no las sepa cuidar.


      No poema, as palavras surgem como algo precioso e frágil, comparadas a "pedras preciosas" e "diamantes de realidade". O poeta valoriza a sua capacidade de transmitir verdade e sentido, alertando para o perigo de as afastar da realidade concreta. A metáfora final reforça a responsabilidade de quem usa a linguagem: apenas aqueles que sabem cuidar das palavras podem preservar o seu brilho e autenticidade.


       


Tanxedoras - "Vente vindo" Xota do Hío



Vem-te vindo, vem-te vindo que eu tamém me vou andando;

Fixem a cama de folha e o vento vai-m'a levando

E o vento vai-m'a levando

Ai a-la la, ai-a la la!


Já fum a Marim, já passei o mar

Já comim laranjas do teu laranjal!

Do teu laranjal, do teu laranjal

Já fum a Marim, ujá passei o mar!


Santo, São André do Hio Santo, São André do Hio

Levavam-no para o mar nunca lhe quixe passar

O rio de São Cibrão, o rio de São Cibrão.

Ai a-la la, la-la la la la!


Zarandeia-te, moça! Zarandeia-te bem!

Se nom é pr'este ano ´r prò ano que vem!

É prò ano que vem, é prò ano que vem

Zarandeia-te, moça! Zarandeia-te bem!


Chamaste-me Moreninha à vista de tanta gente

Chamaste-me Moreninha à vista de tanta gente!

Agora, vais tu ficando, Moreninha para sempre!

Agora, vais tu ficando Moreninha para sempre!


Marinheirinho da nossa Ribeira,

De dia, trabalha e de noite, peneira!

De noite, peneira, de noite, peneira

Marinheirinho da nossa Ribeira!


Ao subí-la e ao baixâ-la, a encostinha de São Pedro

Ao subí-la e ao baixâ-la, a encostinha de São Pedro

Ao subí-la e ao baixâ-la, caéu-me a fita do pêlo!

Ao subí-la e ao baixâ-la, caéu-me a fita do pêlo!


É seis e nom posso-a deixar assim!

Botar ou tesar as fitas do mandil!

Fitas do mandil, fitas do mandil

É seis e nom posso-a deixar assim!


Viva o Hio! Viva o Hio! O Hio há-de vivir!

E o quem nom queira que viva

Os olhos lhe hão de cair! Os olhos lhe hão de cair!

Ai-a la la la, la la la-la!


E no meio, no meio da ria ao compâs, ao compâs dos cantares

O ventinho que vinha de longe ajudava o gaiteiro a tocare...

Ajudava o gaiteiro a tocare

Ai-e le lo, ai-e le lo ai-e la-la!


      Esta peza tradicional foi recollida polo musicólogo Alan Lomax en Corcubión no ano 1952.

 

James Archer (Scottish, 1822 - 1904) - The Picnic, 1870



      It is a charming Victorian genre painting that captures a leisurely outdoor gathering in a sunlit rural setting. Archer portrays elegantly dressed figures enjoying companionship amid lush greenery, conveying warmth, relaxation, and family intimacy. The composition balances detailed costumes with a natural landscape, reflecting the Victorian fascination with domestic life and refined social pleasure.


Enrique García-Máiquez - Leitura num colégio / Lectura en un colegio

 


Mais vale que não saibam para que

serve a poesia, se é que ainda alguém a lê.

Não lhes digas,

cala-te,

que não saibam

que não é neutra a sua beleza, que torna

insuportáveis a crueldade, a idiotia e o ruído

e por isso nos faz solidários.


Ainda a lêem, alguns.

Se te perguntarem

o que é ou para quê, tartamudeia,

faz-te desentendido e sorri.

Depois, quando tiverem a alma em carne viva

e houverem chorado muito, recordarão

que tu podias mas não os preveniste,

e hão-de agradecer-te.


  Tradução de A.M.


  Original:


Más vale que no sepan para qué

sirve leer poesía, si algunos aún la leen.

No les expliques,

calla,

que no sepan

que su belleza no es neutral, que hace

insoportables la crueldade, la idiotez y el ruido

y por eso nos vuelve solitarios.


Algunos aún la leen.

Si te preguntan

qué es o para qué, tartamudea,

contesta imprecisiones, y sonríe.

Más tarde, cuando tengan el alma en carne viva

y hayan llorado mucho, recordarán que tú

pudiste hacerlo y no les previniste,

y te darán las gracias.


      No poema, a poesia surge como uma força transformadora e discreta. O sujeito poético aconselha que não se revele aos jovens o verdadeiro poder da poesia: a capacidade de tornar intoleráveis a crueldade, a estupidez e o ruído do mundo. Através de um tom irónico e cúmplice, sugere que a compreensão dessa força só chegará com a experiência da dor e da maturidade. O poema valoriza a leitura poética como uma forma de despertar moral e emocional, capaz de enriquecer profundamente a vida humana.


Arquivo do blogue