Alex Amen - Peaches




If you don't want my lovin’ honey stay away from me

If you don't want my peaches honey don't you shake my tree

Shake my tree let my peaches be

If you don't want my lovin’ stay away from me.


Wake up in the early morning and my heart is full of pain

Wake up in the early morning honey babe I call your name

Call your name I call your name

Laying in morning listening to the rain.


Think of all the times together think on words that you once said

How you sang into my heart and whispered dreams into my head

But you blocked me out, shut me down, closed the door

I walk the floor

Can't call your phone

Left me alone

It's all wrong

Your love is gone.


Someday when the sun is rising you'll wake up, I'll be gone

You'll look up through your big brass window and think about how you was wrong

You was wrong, you was wrong

You said you'd be mine forever and you was wrong

If you don't want my lovin’ honey stay away from me

If you don't want my peaches honey don't you shake my tree

Shake my tree let my peaches be

If you don't want my lovin’ stay away from me.


      Alex Amen is a twenty-five-year-old artist and songwriter from Texas.


Charles Edward Perugini (Italian-born English painter, 1839-1918) - Choosing a nosegay



      The painting presents an elegant young woman selecting flowers from a richly arranged nosegay. Dressed in a refined white gown, she bends attentively towards the blossoms, her delicate posture conveying grace and quiet concentration. Perugini surrounds her with luxuriant flowers, creating a harmonious dialogue between feminine beauty and nature. The carefully rendered details and serene mood reflect the Victorian fascination with elegance, refinement and domestic beauty.


Adam Zagajewski - Os meus mestres

 


Os meus mestres não são infalíveis.

Não se trata de Goethe, que só conseguia

adormecer quando ao longe

gemiam os vulcões, nem de Horácio,

que escrevia na língua dos deuses

e dos sacerdotes. Os meus mestres

pedem-me conselhos. Vestindo macios

sobretudos deitados velozmente

por cima dos sonhos, ao romper dia, quando o vento

fresco interroga os pássaros, os meus

mestres falam por sussurros.

Consigo ouvir a sua voz trêmula.


      O poema apresenta os mestres não como figuras perfeitas e distantes, mas como presenças frágeis, humanas e silenciosas. Em contraste com Goethe e Horácio, símbolos da grandeza literária, os verdadeiros mestres do sujeito poético pedem-lhe conselhos e comunicam através de sussurros. A imagem dos sobretudos sobre os sonhos e do vento que interroga os pássaros cria uma atmosfera de delicadeza e mistério. A sua voz trémula sugere que a sabedoria nasce também da dúvida, da vulnerabilidade e da escuta atenta.


A Cor que Ficou — Canção Oficial do livro "A Última Cor do Mundo" de Maria Clara Lopes de Almeida

 


Quando o dia amanheceu o mundo deixou de ter cor

As montanhas perderam o verde, nem o vento trouxe flor

Dizem que existe uma pena azul guardada no coração da mata

À espera que alguém descubra a última cor que ainda canta.


Longe e onde a água ainda canta e a floresta

Nunca deixou de sonhar.


Há uma cor que ninguém levou dorme no coração da mata

Enquanto houver quem saiba amar a vida há-de voltar

Se escutares o vento chamar talvez encontres o caminho

Porque a última cor do mundo ainda vive bem devagar.


Entre árvores muito antigas onde o tempo sabe esperar

Viviam mãos sem violência e olhos capazes de escutar

Nem o ouro nem as fronteiras lhes ensinaram ambição

Só o nome das águas claras e a voz do coração.


Depois veio o silêncio, a aldeia adormeceu

Mas uma pena azul continuou a pintar o céu.

Há uma cor que nunca morreu, nem quando o mundo escureceu

Viaja escondida na luz de um olhar que ainda sabe ver


E quando tudo parecia perdido

Foi Irapuã quem guardou a última cor do mundo.


      A canção é da autoria de R. Grant de Vasconcelos, inspirada no livro "A Última Cor do Mundo", de Maria Clara Lopes de Almeida.


Menci Clement Crnčić




      Menci Clement Crnčić (1865-1930) was a Croatian painter, printmaker, teacher and museum director. He is among the founders of modern Croatian painting, contributing greatly to its development. He promoted landscape painting, mainly seascapes, using light, colour, and soft strokes in an impressionist style. He was the founder of modern Croatian graphic art and played an important role in teaching several generations of Croatian painters. Here, we can see two examples of his art.

 

Ana Martins Marques - As casas pertencem aos vizinhos

 


As casas pertencem aos vizinhos

os países aos estrangeiros

os filhos são das mulheres

que não quiseram filhos

as viagens são daqueles

que nunca deixaram a sua aldeia

como as fotografias por direito pertencem

aos que não saíram na fotografia


— é dos solitários, o amor.


      O poema constrói-se a partir de associações paradoxais sobre a ideia de pertença. As casas, os países, os filhos, as viagens e as fotografias parecem pertencer precisamente a quem deles está afastado. Esta inversão cria uma reflexão sobre o desejo, a ausência e a distância entre possuir e experimentar. A repetição da estrutura sintática dá ritmo e reforça o efeito de estranheza. No verso final, a solidão surge como condição paradoxal do amor, revelando que aquilo que se deseja pode pertencer sobretudo a quem dele está privado. A pintura é de Edvard Munch, Two Human Beings (The Lonely Ones).


Brian May - Love Of My Life



Love of my life, you've hurt me,

You've broken my heart and now you leave me.

Love of my life can't you see,

Bring it back, bring it back,

Don't take it away from me

because you don't know what it means to me.


Love of my life, don't leave me,

You've taken my love, you now desert me,

Love of my life, can't you see?

Bring it back, bring it back,

Don't take it away from me

because you don't know what it means to me.


You will remember

When this is blown over

And everything's all by the way

When I grow older

I will be there at your side

to remind you how I still love you, I still love you.

 

      According to John Reid, Freddie Mercury wrote "Love of My Life" about David Minns. Minns was a man that Freddie was having an affair with behind Mary Austin's back between 1975 and 1978.


Jean-Eugène Buland - Bonheur des Parents, 1903



      It portrays a young couple sharing an intimate moment with their newborn child in a modest rural interior. The mother tenderly nurses the baby while the father sits beside her, his expression combining pride, concern and tenderness. Buland’s meticulous realism captures worn clothing, simple surroundings and everyday objects, emphasising the family’s humble circumstances.

 

A.M.Pires Cabral - A umas flores amarelas

 


Encontro-as por acaso numa ilharga

sombria do caminho. São amarelas.

Reluzem como um sol que arda na noite.


Estas flores tão densamente de ouro,

eriçadas de estames que parecem

a pelagem dum gato posto à prova,


a mim, que me comovo com igrejas singelas

de preferência a grandes catedrais,


mostram um esplendor totalmente inesperado

neste chão de pedra que ninguém diria

poder florir assim.


Ó flores cujo nome desconheço,

prolongai esse fulgor humilde em cada dia

de que ainda disponho para ver as flores,


antes de as flores virem ter comigo.


      O poema parte da contemplação de flores para refletir sobre a passagem do tempo, a fragilidade e a beleza efémera da existência. O amarelo, associado à luz, ao amadurecimento e também ao declínio, adquire um valor simbólico. O sujeito poético observa a natureza com atenção e transforma uma realidade simples numa meditação sobre a condição humana.


Garota não - Eva

 


Quantos animais descobres no céu meu pequeno floco de neve

Nesses olhos de princesa em cada nuvem delicadeza.


Quantossorrisostraz o teudedo do pé filhote de pai chimpanzé

Vemgotinha de pureza alegrar mãe natureza.


Com o que sonhas tu quandosorris

Deixandoomundo há voltamais feliz

Moreninha daboca bonita

Na tua pestana a vida é finita

Tão longa que rasga toda a solidão

Que acolhe e que tira os meus olhos do chão

Serena, serena, doce motorzinho

Que bate no peito tum tum de mansinho.


Tum tum tum tum tum tum

Se queres um beijinho eu dou-te um

Tum tum tum tum tum tum

Se queres um abraço eu dou-te um

Tum tum tum tum tum tum

Se queres um colinho eu dou-te um

Tum tum tum tum tum tum

Se queres um amigo posso ser um

Tum tum tum tum tum tum!


      Garota não é o nome artístico da cantautora portuguesa Cátia Mazari Oliveira, nascida em Setúbal a 29 de outubro de 1983. O que leva no coração é luz.


Peter Vilhelm Ilsted (1861-1933) - A Quiet Moment



      The painting shows two women absorbed in a calm, solitary task—such as handwork or reading—highlighting a pause from the rushing outside. The atmosphere is calm and contemplative, suggesting the beauty of ordinary life and the quiet pleasures of home.


Carlos Drummond de Andrade - Memória

 


Amar o perdido

deixa confundido

este coração.


Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.


As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão


Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.


      O poema reflete sobre a fragilidade das recordações e a permanência do passado. A memória surge como espaço de afetos, perdas e experiências que continuam a influenciar o presente. O sujeito poético interroga aquilo que permanece e aquilo que se desvanece, revelando uma visão simultaneamente nostálgica e lúcida.


A garota não - Monstro



 

Toma de mim a loucura

Leva os sonhos e a mão que cura

Na palma quente da terra

Dói a solidão mais do que o dente que ferra,

Que ferra grosso e imundo

Fundo mais que o fim do mundo

É quando o medo me abraça

Tremendo o monstro que passa


E eu vou

Com toda a calma

Sou do tamanho da minha alma

Ao encontro imperfeito

De Deus em ti,

tu no meu peito.


      A canção explora a construção do medo e da ameaça através da figura simbólica que representa aquilo que assusta, oprime ou perturba. A voz poética confronta o monstro, recusando a submissão e afirmando a coragem, a resistência e a liberdade individual.


Peter Ilsted (Danish, 1861-1933) - Woman Knitting by a Window, 1902



      This work of art presents a quiet domestic scene, bathed in soft, natural light. A woman sits absorbed in her knitting, her figure viewed from behind, creating a sense of intimacy and gentle mystery. Warm brown and golden tones contrast with the cooler light entering through the window. The carefully arranged interior conveys order and tranquillity.


Sophia de Mello Breyner Andresen - Ode à maneira de Horácio



Feliz aquela que efabulou o romance

Depois de o ter vivido

A que lavrou a terra e construiu a casa

Mas fiel ao canto estridente das sereias

Amou a errância o caçador e a caçada

E sob o fulgor da noite constelada

À beira da tenda partilhou o vinho e a vida


  in, O Búzio de Cós e outros Poemas, 1997


      O poema celebra uma figura feminina que concilia experiência, trabalho e liberdade. Inspirada no universo de Horácio, Sophia valoriza uma vida plenamente vivida, onde a construção da casa e o cultivo da terra coexistem com o desejo de aventura. As referências às sereias, à caça, à noite e ao vinho evocam a dimensão mítica, sensual e convivial da existência. A «errância» simboliza a liberdade de seguir o desconhecido, enquanto a partilha final afirma a comunhão entre natureza, amor, viagem e poesia.


The ancient "Silence of the Universe" in Nepal



      Job 30:20

      "I cry to you, O God, but you don’t answer. I stand before you, but you don’t even look."


Erik Henningsen (Danish painter) 1855 - 1930 - Dance at the inn, 1919



      The painting captures a lively rural gathering with characteristic realism and social observation. Inside a modest Danish inn, couples dance while other guests watch, converse, or enjoy the festive atmosphere. Beneath its cheerful surface, the painting offers an affectionate glimpse of Danish popular life and communal entertainment in the early twentieth century.


Hans Magnus Enzensberger - Aqui e acolá acontece

 


Aqui e acolá acontece,

ouve-se um grito de socorro.

Imediatamente alguém se atira à água,

tudo completamente gratuito.


Em pleno desenfreado capitalismo

os cintilantes bombeiros aí estão ao dobrar

da esquina e apagam, ou no chapéu do pedinte

há de súbito uma prata a brilhar.


De manhã as ruas estão cheias

de pessoas que andam de um lado para o outro,

serenas, sem facas na mão.

apenas à compra de leite e rabanetes.


Como em plena paz.


Dá gosto ver.


  Traduzido para Português por Alberto Pimenta.


      O poema apresenta, com ironia subtil, manifestações de solidariedade num mundo dominado pelo capitalismo e pela ameaça da violência. O socorro imediato, a generosidade inesperada e a tranquilidade das ruas contrastam com a ideia de uma sociedade desenfreada e potencialmente perigosa. A expressão "Como em plena paz" adquire um tom ambíguo: aquilo que deveria ser banal parece extraordinário. Enzensberger questiona, assim, a fragilidade da paz quotidiana e celebra ironicamente os gestos humanos que ainda escapam à lógica económica.

      Este poeta alemão morreu em 2022.


A garota não e Luca Argel - Países que ninguém invade



a fala curta

como um mantra

e os cabelos longos

de cometa


a vida lenta

feita um tantra

tecendo a poesia

que se inventa


o dia cresce

como as plantas

sem dar a volta

no planeta


o amor dissolve

toda a zanga

só não sabe

quem não tenta


cabem em nós

os países que ninguém invade

nem contrafaz

os sonhos, as lutas, as frutas, as pontes, cornetas

de guerra e paz


      Nas palavras d’A garota não: "Aconteceu que nos cruzámos num mesmo palco, onde se homenageava Chico Buarque. Enquanto aguardávamos a nossa vez de entrar, falávamos baixinho atrás do pano sobre a vida no geral e nada em particular. E vai daí disse para o Luca: 'vamo fazê uma música em conjunto, menino?' Ele não pareceu entusiasmado, mas foi amável como sempre é. Não voltámos a tocar no assunto, até que alguns dias depois recebi um pequeno audio cantarolado. Era o início da nossa canção". A letra fala sobre o espaço íntimo, os sonhos e a liberdade que resistem a qualquer ataque exterior.


Huleeb (Hugo)



      Huleeb é o nome de (Hugo), um artista digital 3D autodidata que vive em Montreal, Canadá, conhecido pelo seu estilo surrealista melancólico. Aqui, ele tenta transmitir que a pessoa humana é limitada pela sua biologia, pelo tempo de vida e pelas suas capacidades físicas, mas é justamente essa condição que dá significado às nossas ações e ao nosso esforço.


Louise Glück- Na praça / In the Plaza

 



Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,

Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,

tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura

inclinada sobre uma revista.

Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo

comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.

 

Por ela ignorar o seu próprio poder,

este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação dele.

Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe atribui

numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,

uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente do Sul.

 

Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a esperá-lo.

E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados de lavar

e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra vez o olhar.

E depois disso tornar-se-ão amantes.

 

Mas ele espera que isso não aconteça logo,

pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu corpo,

     sobre as suas emoções,

é um poder que ela deixará de possuir assim que se comprometer –

 

recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento

a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será como

uma pessoa que não projeta sombra, que não está presente no mundo;

nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,

pouco importa se ela vive ou morre.

 

  Tradução de Frederico Pedreira


  Original:


For two weeks he’s been watching the same girl,

someone he sees in the plaza. In her twenties maybe,

drinking coffee in the afternoon, the little dark head

bent over a magazine.

He watches from across the square, pretending

to be buying something, cigarettes, maybe a bouquet of flowers.


Because she doesn’t know it exists,

her power is very great now, fused to the needs of his imagination.

He is her prisoner. She says the words he gives her

in a voice he imagines, low-pitched and soft,

a voice from the south as the dark hair must be from the south.


Soon she will recognize him, then begin to expect him.

And perhaps then every day her hair will be freshly washed,

she will gaze outward across the plaza before looking down.

And after that they will become lovers.


But he hopes this will not happen immediately

since whatever power she exerts now over his body, over his emotions,

she will have no power once she commits herself —


she will withdraw into that private world of feeling

women enter when they love. And living there, she will become

like a person who casts no shadow, who is not present in the world;

in that sense, so little use to him

it hardly matters whether she lives or dies.


      O poema explora o desejo, a fantasia e a distância entre imaginar alguém e realmente conhecê-lo. Um homem observa secretamente uma jovem e constrói, a partir dela, uma relação inteiramente imaginária. A sua fascinação depende precisamente da ausência de reciprocidade: enquanto ela permanece desconhecida, conserva poder sobre ele. Quando imagina uma possível relação, teme perder esse encantamento. O poema revela, assim, a natureza possessiva da fantasia amorosa e a fragilidade das expectativas humanas, através de uma linguagem simples, fria e profundamente inquietante.

      O still é do filme Malena, 2000.


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