Harold Harvey - The Critics, 1922



      The painting portrays a small group absorbed in thoughtful conversation, suggesting an intimate moment of artistic or literary discussion. The figures’ attentive expressions and relaxed postures convey quiet concentration rather than confrontation.


Aurora Luque - As pontes inflamáveis / Los puentes inflamables

 


Na hora de atravessar

essa ponte do meio do caminho

quando vais escolhendo malgré toi

os chamados prazeres simples da vida

- sabendo que no fundo são eles que te escolhem a ti,

somando-te a seu séquito caduco -

então simplificas o cálculo do mundo,

até da beleza

que presumias tão incalculável.

E descobres que tudo se reduz

a viajar do muito para o muito menos,

do povoado para o vento do deserto,

do excesso para o escasso,

a declinar palavras consabidas

ou a declinar sem mais, intransitivamente,

a trocar os magníficos plurais

por um cerco singular

esboçando alguma resistência...


As pontes inflamáveis

do meio do caminho da vida.


  Tradução de A.M.


  Original:


A punto de cruzar         

ese puente del medio del camino          

cuando vas eligiendo malgré toi

los llamados placeres sencillos de la vida

-sabiendo que, en el fondo, te eligen a ti ellos, 

te suman a su séquito caduco- 

simplificas el cálculo del mundo: hasta de la belleza      

que presumías tan incalculable.             

Y descubres que todo se reduce             

a viajar de lo mucho a lo muy menos,   

de lo poblado al viento del desierto,     

del exceso a lo escaso,

a declinar palabras consabidas 

o a declinar sin más, intransitivamente,

a cambiar los magníficos plurales           

por un acorralado singular        

enarbolando alguna resistencia...          


Los puentes inflamables

del medio del camino de la vida.


      O poema reflete sobre a meia-idade como um momento de transição inevitável, em que os ideais grandiosos cedem lugar à aceitação dos limites da existência. A imagem da ponte simboliza a passagem para uma consciência mais sóbria, onde a abundância se transforma em escassez e o plural se reduz ao singular. Contudo, o poema não é resignado: afirma uma resistência discreta perante o tempo, preservando a beleza e a dignidade da experiência humana.


Ester Vallejo - A la fresca



Cuando la luna se apague cuando su luz ya no brille

Ya no habrá nada mas bello que tus dos ojitos linda 

Ya no habrá nada mas bello que tus dos ojitos linda.


No me interesa ser grande ni la fama ni el dinero

Que las mejores estrellas son las que están en el cielo 

Que las mejores estrellas son las que están en el cielo. 


Vente a tomar la fresca las frescas a la fresca

Me quedo con mis amigas a cantar dichas y penas

Yo me quedo con ellas, con la flor y con la hoguera.


Que se despierte la idea que no estemos tan dormidos

Que no me quemen las hojas si soy árbol o soy libro

Que no me quemen las hojas si soy árbol o soy libre.


Y aunque se nuble el montey piense que nada brille

Nos quedara recordarnos en los días más felices

Nos quedara recordarnos en los días más felices.


Vente a tomar la fresca las frescas a la fresca

Me quedo con mis amigas a cantar dichas y penas

Yo me quedo con ellas, con la flor y con la hoguera

con la flor y con la hoguera con la flor…


Y ya no habrá nada más bello que las mejores estrellas

Y ya no habrá nada más bello si soy árbol o soy libro

si soy árbol o soy libre, libre


Que ya no habrá nada que ya no habrá nada más bello

Que ya no habrá nada que ya no habrá nada más bello

Que las frescas a la fresca.


      ¡Qué bonita!


August Malmström - Grindslanten, 1885



      The painting captures a lively group of children eagerly scrambling for a coin tossed near a gate. The animated composition celebrates childhood energy, playfulness, and social interaction, contrasting youthful excitement with the calm presence of observing adults. Rich details, expressive gestures, and warm natural light create a vivid sense of everyday rural Swedish life.


César Simón - Uma noite / Una noche

 


Uma noite, há algum tempo,

caminhávamos os dois.

De repente, a arder

mas conscientes

- nunca o amor turva a consciência -

metemos por ali, para beijar-nos,

no armazém escuro.

Fizemos amor na mais pura chama,

à beira do perigo

- a porta estava partida,

passavam pessoas no passeio...

A vida breve e o amor fugaz.

Como saber se em tais ocasiões

o amor nos preserva

ou nos destrói?

Agora, após o ricto com que mal

assinalo a presença dessa porta,

os passos conduzem-me para longe.

E caminho à chuva.

 

  Tradução A.M.


  Original:


Una noche, hace tiempo, caminábamos.

De pronto, enardecidos,

pero conscientes

-nunca el amor enturbia la consciencia-

nos metimos ahí, para besarnos,

al almacén oscuro.

Hicimos el amor en el más puro fuego,

junto al peligro

-la puerta estaba rota,

por la acera pasaban transeúntes…

La vida breve y el amor en vilo.

¿Cómo saber si en tales ocasiones

el amor nos preserva

o nos destruye?

Ahora tras el rictus con que apenas

señalo la presencia de esa puerta,

mi consideración me lleva lejos.

Y en la lluvia camino.


      No poema, César Simón transforma a recordação de um encontro amoroso numa reflexão sobre a fragilidade da existência. O desejo surge ligado ao risco, tornando o amor simultaneamente força vital e possibilidade de destruição. A memória, distante mas persistente, revê esse instante intenso com serenidade melancólica, enquanto a chuva simboliza tempo de depuração. O pedaço de tela é de Francesco Hayez.

 


Grupul Tradițional DOR - Tătî ghina șî pricina



      The song "Tătî ghina șî pricina" is a traditional folk song from the Timok Romanians in Romania, often performed during local celebrations and gatherings. Its lyrics deal with jealousy and gossip in relationships, while encouraging people to let go of resentment and celebrate life, as shown at.


Carl Erik Törner (Swedish, 1862-1911) - Lost in Thoughts



      It portrays a solitary figure absorbed in quiet reflection and emotional stillness. Solitary? Certainly not! The straw hat and the male walking stick prove romance. Soft, natural light gently illuminates the subject, while subdued colours reinforce the contemplative mood.


Paul Celan - Fala também tu / Sprich auch du

 


Fala também tu,

fala em último lugar,

diz a tua sentença.


Fala –

Mas não separes o Não do Sim.

Dá à tua sentença igualmente o sentido:

dá-lhe a sombra.


Dá-lhe sombra bastante,

dá-lhe tanta

quanto exista à tua volta repartida entre

a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.


Olha em redor:

como tudo revive à tua volta! –

Pela morte! Revive!

Fala verdade quem diz sombra.


Mas agora reduz o lugar onde te encontras:

Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?

Sobe. Tacteia no ar.

Torna-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!

Mais subtil: um fio,

por onde a estrela quer descer:

para em baixo nadar, em baixo,

onde pode ver-se cintilar: na ondulação

das palavras errantes.


in, Sete rosas mais tarde

Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno


  Original:


Sprich auch du,

sprich als letzter,

sag deinen Spruch.


Sprich –

Doch scheide das Nein nicht vom Ja.

Gib deinem Spruch auch den Sinn:

gib ihm den Schatten.


Gib ihm Schatten genug,

gib ihm so viel,

als du um dich verteilt weißt zwischen

Mittnacht und Mittag und Mittnacht.


Blicke umher:

sieh, wie’s lebendig wird rings –

Beim Tode! Lebendig!

Wahr spricht, wer Schatten spricht.


Nun aber schrumpft der Ort, wo du stehst:

Wohin jetzt, Schattenentblößter, wohin?

Steige. Taste empor.

Dünner wirst du, unkenntlicher, feiner!

Feiner: ein Faden,

an dem er herab will, der Stern:

um unten zu schwimmen, unten,

wo er sich schimmern sieht: in der Dünung

wandernder Worte.


      O poema é uma meditação sobre a palavra depois da catástrofe. O poeta convida a falar, mas sem ilusões, procurando uma linguagem depurada, fiel ao silêncio e à verdade. A voz poética recusa discursos fáceis e valoriza a autenticidade, mesmo quando as palavras parecem insuficientes. A tensão entre dizer e calar traduz o trauma histórico e existencial, transformando a poesia num gesto de resistência, memória e responsabilidade perante o outro.


Rimski & Handkerchief - Cross Eyed & Crazy



      "Cross Eyed and Crazy" is an original musical clown tune by Rimski & Handkerchief, known for playing their Bicycle Piano & Double Bassicle. Because it is an exclusive street performance song, formal studio lyrics are not available. However, the chorus and verses feature catchy, old-time country blues lines, and I tried to get the lyrics with some imperfections.


Cross-eyed and crazy, I’m wild about my Daisy

she as happy as she can be!

She doesn’t like potatoes, neither tomato

sausages and beans.


And every time she’s downtown looking for a new clown

you can always see somebody else’s face

She’s a bold and lovely lady

cross-eyed and crazy, lazy on a sunny day.


Well, if you’re going fishing all the time

I’m going fishing, too!

Let me love you, love you

but that she caught more fish than you.


Well, if she caught, now, you got good bait

Here’s a little something I would like to relate

And if she caught now, you got good bait

I’m a going fishing, too!


So, when the morning sun is shining in the West

She’ll be dancing in those ragtime dresses she likes best

Everybody’s watching as the banjo plays

and a two-legged gypsy drives the people hopping away.


Well, Daisy can play it people started crying

"Here’s the dancing lady come walk fast!"

She’s a bow-legged lady, but I said,

"Ain’t crazy, lazy on a sunny day?"


    What about the cat? Lovely!


Félix Vallotton - The Ball, 1899



The painting shows children playing in a sunlit park, where a bright red ball becomes the visual and emotional focus. Strong contrasts between light and shadow, flattened forms, and simplified shapes reflect the artist’s distinctive Post-Impressionist and Nabi influences. Vallotton transforms an ordinary leisure scene into a carefully composed meditation on childhood, distance, perception, and the subtle complexities of human interaction.


Begoña Abad - Conservar o fogo / Conservar el fuego



Conservar o fogo

desde que foi inventado.

Nisso consiste, cada dia,

este encargo de viver.


  Tradução de A.M.


  Original:


Conservar el fuego 

desde que fue inventado.

En eso consiste, cada día,

esta tarea de vivir.


      No poema, Begoña Abad transforma o fogo numa metáfora da vida, da esperança e da resistência. Conservar essa chama significa preservar a capacidade de amar, criar e permanecer fiel aos valores essenciais, apesar das adversidades. A brevidade do poema reforça a intensidade da sua mensagem: viver é um exercício quotidiano de cuidar do que nos mantém humanos. A tela é de Peter Paul Rubens.


As vidas caladas - Antía Muíño ft. Caamaño & Ameixeiras



Ai! Canta beleza no inconstante devir da natureza

Ai! Canta xenreira oculta baixo a sombra da indiferenza.


Ai! Cantas vidas caladas, silenciadas, ocultas baixo unha máscara

Ai! Que dolor gratuíto que preciso dicirlle ao mundo: hoxe existo.


Ai! Canta beleza no inconstante devir da natureza

Ai! Cantas feridas abertas buscan a fórmula perfecta para sanar.


Ai! Cantas vidas caladas, silenciadas, ocultas baixo unha máscara

Ai! Que dolor gratuito que preciso que urxente darnos o permiso.


Pra vivir, sentir, dicir, "Querido mundo: hoxe existo!"


      Antía Muíño is a singer, guitarist, and songwriter, one of the most important voices in the new Iberian song movement. In her music, the echoes of the voices of her native Galicia resonate alongside singer-songwriter music, jazz, and pop.


John Ottis Adams - Gleaners at Rest, 1886



      It portrays a quiet rural moment as women pause from gathering leftover grain after the harvest. Resting beneath open skies, the figures embody dignity, resilience, and harmony with the land. The balanced composition celebrates agricultural labour while inviting contemplation of rest, community, and the enduring rhythms of nature that shape both daily life and human experience.


Casimiro de Brito - Arte poética



Silêncio: a palavra

respira. Corpo deitado

no mar. Silêncio de fogo

e música.


Silêncio: a palavra sangra

seu cântico de pó. Peixe

de sombra

mordendo as estrelas.


A palavra só. A palavra

refresca. Osso abandonado

na praia deserta.


A palavra de água

onde nego a morte. Pausa

do sol.


      No poema, a criação literária surge como um gesto de descoberta, em que a palavra procura captar o indizível. O poeta valoriza a simplicidade, o silêncio e a intensidade da experiência interior, sugerindo que a poesia nasce da escuta atenta do mundo e de si próprio. A escrita não pretende explicar a realidade, mas revelá-la através da intuição, da emoção e da condensação expressiva, transformando o quotidiano em conhecimento sensível.



The River Bend - Emotional Irish Folk Ballad



      Is this made by A.I.? Irish ballads have been an integral part of the country's history and cultural heritage for centuries. These traditional songs have served as a means of preserving and passing down the stories, customs, and values of the Irish people. They have evolved over time, reflecting the changing social and political landscape of Ireland, and have played a significant role in shaping the country's identity. 

      Does this Kilcarrick place exist?

    The line "Past the mill beyond Kilcarrick" likely refers to the historic routes or landscapes around the town of Bagenalstown (also known as Muine Bheag) in County Carlow, Ireland. Kilcarrick is a prominent local area in the district, known for its rural charm and equestrian events.


Firmin Baes -Mother by the crib, 1916



      It portrays a tender domestic moment, with a mother leaning lovingly over her sleeping child. Soft, luminous light envelops the figures, emphasizing warmth, intimacy, and maternal devotion. Baes balances realism with gentle sentiment, celebrating the protective bond between parent and infant in a peaceful, timeless family setting with graceful sensitivity.


Abelardo Linares - Uma estranha certeza / Una extraña certeza

 


Durante muitos anos, muita vez

me lembrei de ti, ou da tua imagem,

para ser mais exacto, pois daquilo

que em tempos amámos fica-nos só

(tal como de um livro) uma muito vaga

impressão geral e um que outro pormenor.

E muita vez também me perguntei,

procurando na névoa da lembrança

não sei se uma resposta, o que deixaste tu

em mim que seja ainda meu,

e se não foi o amor, o meu amor por ti

e não tu própria, o que me importa ainda

e o que procuro eu ainda ao recordar-te.

Se a nossa vida arde, somos nós chama

ou antes aquilo que se queima e é cinza?

Nessa desmesura que é o tempo

acham sua razão o amor e o esquecimento,

mas não a sua medida. Ao recordar-te,

compreendo-o tão bem, que pouco importa

saber ou não saber, mas tão só

sentir que foste parte de mim mesmo,

que estás dentro de mim, como os meus sonhos,

que são e não são eu, mas em mim nascem,

que já nunca de mim te apagarás,

e que, queira eu ou não queira o esquecimento,

hás-de ir vivendo sempre com a minha vida.

Que estranha sensação, essa certeza.


  Tradução de A.M.


  Original:


Durante muchos años, a menudo

me he acordado de ti, o de tu imagen,

para ser más exacto, pues de aquello

que amamos una vez sólo nos queda

(al igual que de un libro) una muy vaga

impresión general y alguna anécdota.

Y a menudo también me he preguntado,

buscando entre la niebla del recuerdo

no sé si una respuesta, qué dejaste

en mí que sea mío todavía

y si no fue el amor, mi amor por ti

y no tú misma, aquello que aún me importa

y lo que busco aún al recordarte.

Si arde nuestra vida, ¿somos llama

o aquello que se quema y es ceniza?

En esa desmesura que es el tiempo

encuentran su razón amor y olvido,

pero no su medida. Al recordarte,

lo comprendo tan bien, que importa poco

saber o no saber, sino tan sólo

sentir que fuiste parte de mí mismo,

que dentro de mí estás, como mis sueños,

que son y no son yo, pero en mí nacen,

que ya nunca de mí podrás borrarte

y que, quiera o no quiera yo el olvido,

has de seguir viviendo con mi vida.

Qué extraña sensación esa certeza.


      O poema explora a persistência da memória amorosa perante a erosão do tempo. O sujeito poético questiona se o que permanece é a pessoa amada ou o próprio sentimento vivido, concluindo que ambos se fundem na identidade. A oposição entre chama e cinza simboliza transformação e perda. Com linguagem sóbria, meditativa e intimista, o poema revela que certas presenças sobrevivem ao esquecimento, tornando-se parte indelével do ser.


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