Como
será, pergunto eu,
não
sentir continuamente que devíamos
ocupar
vários espaços ao mesmo tempo?
Não
pensar, enquanto nos deitamos com um livro,
que
devíamos estar a fazer outra coisa?
Assumir,
como os homens fazem,
a
importância do tempo
que
dedicamos ao nosso enriquecimento.
Nós,
mulheres,
sentimos
sempre
que
estamos a roubar o tempo a alguém.
Que
talvez nesse preciso instante
alguém
nos reclama e
não
pode contar connosco.
Precisamos
de muito treino
para
não nos apagarmos, constantemente,
para
não nos minimizarmos.
Ah!
Mulheres, companheiras!
Quando
é que nos convenceremos
de
que aquele gesto
de
oferecer a maçã a Adão
foi
muito sábio?
Tradução de A.M.
Original:
Cómo
será, me pregunto,
no
sentir incesantemente
que
uno debería ocupar varios espacios al mismo tiempo?
No
pensar, mientras se tumba uno con un libro,
que
se debería estar haciendo otra cosa.
Asumir,
como hacen los hombres,
la
importancia del tiempo
que
dedicamos al propio enriquecimiento.
Las
mujeres
tenazmente
sentimos
que
le estamos robando tiempo a alguien.
Que
quizás en ese preciso instante
se
nos requiere
y no
se cuenta con nosotras.
Precisamos
todo
un entrenamiento
para
no borrarnos, minimizarnos,
constantemente.
¡Ah!
¡Mujeres, compañeras mías!
¿Cuándo
nos convenceremos
de
que fue sabio el gesto
de
extenderle a Adán
la
manzana?
O poema denuncia a culpa persistente que muitas mulheres
sentem ao dedicar tempo a si próprias. A autora critica as expectativas sociais
que impõem disponibilidade constante e desvalorizam o crescimento pessoal
feminino. A referência final à maçã de Eva reinterpreta o mito bíblico como
símbolo de emancipação e conhecimento. Assim, o poema desafia estereótipos de
género e apela à libertação das culpas impostas pela tradição patriarcal.