The painting captures a
serene summer moment. Marie Krøyer sits relaxed in a deckchair surrounded by
blooming white roses. Dressed in a light, elegant dress and hat, she blends
gently with the luminous garden atmosphere. Soft sunlight and loose brushwork
create a sense of warmth and intimacy. The composition reflects the calm beauty
of everyday life, emphasizing light, colour, and the tranquil charm of a Danish
seaside garden during the Skagen painters’ era.
Peder Severin Krøyer - Roses Marie Krøyer sitting on a deckchair in the garden at Mrs. Bendsen's house - 1893
Cristian Aliaga - Os versinhos
Os
versinhos,
estes
frascos sem tinta
onde
pomos o melhor da memória.
Muros
de iluminação, amargas torres,
palavras
somente?
Mas a quem encomendar a história,
senão
a estas nuvens pequenas
de
espuma?
Heis-de ficar cegos
de
tanto cerrar os olhos.
(Trad.
A.M.)
Big Hill - Chris Brain (Ft. Natalie Wildgoose)
Brain describes the tune as "a simple, gently undulating song inspired by a long-held longing to climb one of the hills in the Yorkshire Dales, a view I’d admired through the window on countless journeys, always promising myself I’d walk it one day." When he finally made the ascent, the experience was just as quietly revelatory as anticipated: "a steady breeze seemed to carry me up the slope, and a cool river below offered relief after the descent.” The song features guest vocals from Natalie Wildgoose, who Brain notes “shares a deep connection to the Yorkshire Dales and spends much of her time there."
Sound of Falling (2024) dir. Mascha Schilinski
Set within a rural
landscape shaped by memory and silence, the film follows several women whose
lives intersect across different periods of time. Their experiences echo one
another through fragments of family history, personal trauma, and unspoken
emotions, gradually forming a layered portrait of how the past reverberates
across generations.
Giuseppe Ungaretti - Em repouso
Quem me acompanhará pelos campos:
o sol semeia diamantes,
gotas
de água sobre a dócil erva,
e fico tranquilo na inclinação do universo sereno.
Dilatam-se as montanhas em sorvos de sombra lilás
e com o céu vagueiam,
em cima na frágil abóbada quebra-se o encanto
e, em mim, me precipito e num ninho meu me apago.
Tradução
de Luís Pignatelli
Emily Dickinson
O
coração tem muitas portas.
Só
tenho de abrir.
Cada
doce "adiante" que me empurra para
entrar
sem a dor da rejeição
recorda-me
que
em
algum lugar
existe
superioridade.
Tradução
de Ana Fernandes
Amy Winehouse - All my lovin'
If you cover a song,
always do it differently, and by Christ, this is different! Amy was genuine. Not a fake. Her singing style
is inspired by the great jazz, soul and gospel singers. I always agree with those who confess The Beatles created perfect songs. Right! But Amy and Joe Cooker turned two of them even better.
Jean-Luc Godard - Prénom Carmen, 1983
Na conferencia de imprensa do Festival de Veneza de 1983, do qual Prénom Carmen recebeu o Leão de Ouro de melhor filme, Godard afirmou que estava "interessado em ver as coisas, não antes de elas existirem, mas antes que se lhes dê um nome". Na mesma entrevista, disse ainda: "Acho que, no cinema, não pode haver senão histórias de amor". Godard costumava despistar os jornalistas, mas, dessa vez, foi franco e exato, dando-lhes a melhor explicação possível da simplicidade de Prénom Carmen, uma história de amor que, partindo de um grande mito feminino já conhecido de todos, busca, paradoxalmente, retroceder ao que existe antes do nome, antes da linguagem, antes do conhecimento.
Nomear, como se sabe desde os tempos bíblicos, é dominar,
designar, classificar. Inversamente, não dizer o nome, ou regredir ao pré-nome,
é negar da história de Carmen aquilo que todos já conhecem, é arrancá-la da
ordem simbólica em que foi enquadrada pela tradição. É "contar" a sua história ao
invés de somente representá-la.
Georgina Ramírez - Outubro
Nunca
houve tanto vazio
nas
nossas vidas
como
neste tempo
da
tua falta
Temos
sido deserto e sede
mas
na tua margem
sempre
amparo
e
água fresca
Umas
costas
foste-nos
sempre
e
sem ti
somos
apenas
bocados
de família
espaços
em branco
cheios
de silêncio.
Tradução de A.M. e a tela é de
George Tooker - Waiting room, 1957
It portrays a tense,
surreal interior filled with silent, isolated figures. People sit stiffly on
wooden benches along bare walls, avoiding eye contact and appearing emotionally
disconnected. The muted palette and rigid symmetry create an atmosphere of anxiety
and confinement. Though the scene resembles an ordinary public waiting area,
the unnatural stillness makes it unsettling. Tooker, associated with Magic
Realism, uses precise detail and distorted perspective to suggest alienation
and the impersonal nature of modern life, turning a familiar setting into a
haunting psychological space.
Nena - "Portas do Sol" ao vivo no Campo Pequeno, 4 de Outubro de 2025
Não
me dás um sinal vou p'la marginal a olhar p'ro rio
Ouço
a rádio a dar e está a tocar o que nos uniu
Passo
pelo Chiado, história em todo lado, o que tremeu
Um
dia meu amado agora passado no Rossio.
Quer tu esqueças ou guardes
mais cedo ou mais tarde vais-te lembrar
Que fomos como Lisboa e se isto não soa bem,
então não sei
O que mais irá, o que mais virá.
Vimos esta paisagem como uma miragem, mas não foi
Ali
no miradouro das portas do Sol um nós surgiu
Canto
agora em Lisboa e mesmo que minta, diz se aí
Que
esta frase que digo de coração partido é p'ra ti.
E tu
estás cá ou estás fora um antes no agora em postal
Diz
não gostes de alguém que sonha p'ra além de Portugal.
A canção transforma Lisboa num símbolo vivo de um
relacionamento passado. A jovem cantora utiliza lugares marcantes da cidade,
como o Chiado, o Rossio e o miradouro das Portas do Sol, não apenas como
cenários, mas como pontos carregados de lembranças e emoções. Ao cantar “Que
fomos como Lisboa”, Nena sugere que o relacionamento, assim como a cidade, é
feito de camadas de história, nostalgia e uma beleza que resiste ao tempo,
mesmo depois do fim do amor.
Carl von Bergen - Girls rescuing a doll in a stream
The painting portrays a
gentle childhood moment set in nature. Two young girls lean over a shallow
stream, carefully retrieving a fallen doll from the water. Their body language
shows urgency mixed with tenderness. Soft natural light and earthy tones create
a calm rural atmosphere, while the flowing water adds movement. The scene
captures innocence, friendship, and the small dramas of childhood.
Gloria Bosch - A despedida
Se
te despedires, fá-lo de mansinho,
nada
de brusquidão.
Não
me digas: 'Vamos estar um tempo sem nos ver'.
O
que é o tempo?, responder-te-ia.
Uma
ponte entre o adeus e o reencontro?
Se
te despedires, que o teu adeus me conforte,
que
seja o bálsamo de minhas feridas,
que os teus lábios me digam: 'até depois',
'fazes
já parte da minha vida',
que
eu possa sentir que em todo o momento
nossas
mãos se buscarão na sala de espera
e
falaremos de amores, de como passa o tempo,
de
quão interessante te acho.
António Lobo Antunes, no dia da sua morte
"A loucura é qualquer coisa que existe em todos nós, é mais um
receio que uma realidade. No fundo, o que é enlouquecer? É sair de uma
determinada norma, não é? É preciso muita coragem para se ser realmente louco."
in, O Jornal, 1992
Morreste-me.
Mafalda Veiga - A Fonte
Vai
à fonte que a alegria nunca pára de jorrar
E
não passa nenhum dia sem que eu te veja pintar
Essa
cor que tens nos lábios, essa cor que tem o céu
Vem
ensinar aos teus braços o caminho para os meus
São
duzentas primaveras mais outono, inverno e verão
Nunca
estar longe da vista faz-nos bem ao coração
Vai
à fonte que a alegria é promessa para cumprir
Se
chegares com olhar triste hás-de sair a sorrir
Se
pintares o mundo inteiro num bocadinho de mar
Se
inventares em porcelana uma maneira de amar
Essa
fonte há-de contar-te os mistérios de onde eu vim
E
quando molhares os lábios, hás-de lembrar-te de mim.
Para
sempre "Quando molhares os lábios, hás-de lembrar-te de mim." Muito belo.
Aleksander Augustynowicz (Polish painter, 1865-1944) - Portrait of the artist's daughter - Ola Kozlowska
Most of his paintings
are made from watercolour and are themed on landscapes, Polish folklore and his
daughters; his artworks are currently exhibited in numerous museums around
Poland and in private ownership. After the start of World War II he moved to
Warsaw, where he was killed during the Warsaw Uprising. This one describes Ola looking for beauty.
Begoña Abad - O Meu avô nunca saiu
O meu
avô nunca saiu da sua terra.
A
terra tinha quatro casas,
quatro
ruas, quatro caminhos,
quatro
moradores, quatro cães.
Não
havia nem bispos, nem ministros,
nem
putas, nem altos cargos,
não
havia empresas, nem bancos, nem igreja havia.
Na
verdade não saiu nunca do seu moinho.
E já
é acaso que por esse lugar,
remoto
e esquecido,
acertasse
a vida a passar.
Falava
pouco o meu avô mas sabia muito,
tendo
aprendido tudo a ver a mó,
implacável,
a girar eternamente,
esmagando
o grão, até o fazer em farinha.
(Trad.
A.M.)
Carolina - A Mulher que Já Foi Tua
Mudou-se
para a nossa rua, a mulher que já foi tua
e perde o tempo à janela,
Se passas ela sorri, mas não olha mais pra ti
por
me ver olhar p'ra ela.
Sabe
quando entras e sais, de onde vens, para onde vais
pois
é esse o seu desejo,
Que tudo faz p'ra te ver... e eu, tudo tento fazer
só
p'ra ela ver que eu vejo.
Há dias tive dó, porque assim que se viu só
foi
para dentro a chorar,
E eu
tive pena daquela que perde o tempo à janela
só
para te ver passar.
Mudou-se
p'rá a nossa rua, a mulher que já foi tua
p'ra
que junto dela passes,
Não
fez tudo o que devia, pois muito mais eu faria
se
por outra me trocasses.
Carolina nasceu em Hamburgo (Alemanha) a 12 de Abril de 1984
e veio para Portugal com apenas 5 meses, mais propriamente para Trás-os-Montes
na localidade de Aveleda, onde teve muito cedo o seu primeiro encontro com o Fado. Que voz tão fresca, num poema bem construído e com músicos excelentes. Comparando as cantadeiras, o original da Amália não é tão belo. Obrigado.
Sophie Gengembre Anderson - The Song of the Lark
"Bring the dews the birds shake
off,
Waking in the hedges,—-
Those too, perfumed for a proof,
From the lilies' edges:
(...)
Bring them calm and white in;
Whence to form a mirror pure,
For Love's self-delighting.
Bring a grey cloud from the east,
Where the lark is singing;
Something of the song at least,
Unlost in the bringing:
That shall be a morning chair,
Poet-dream may sit in,
When it leans out on the air,
Unrhymed and unwritten."
- Elizabeth Barrett Browning, The
House of Clouds (excerpt)
Gina Saraceni - Devolveu ao mar
Devolveu
ao
mar as pedras,
guardadas anos e anos
em
frascos de marmelada.
No
lugar delas
foi
o vazio
o
que ficou.
Tal
como um abandono,
ainda
dura.
(Trad.
A.M.)
José Luis Hidalgo - Chega-te
Chega-te.
Mais, mais,
até
tocar nos meus sonhos.
Não,
ainda não...
Mais
ainda, e mais, sem medo,
como
a água do mar
ao
seu fundo de lodo,
como
se chega a Deus
o
azul todo do céu.
Como
eu me chego a ti
quando
te digo: amo-te.
Trad.
A.M.
Filipa Torres - Cachos d'ouro
Eu rodava na tua mão, a luz era um fio infinito.
Ao beber deste momento deslumbrei-me contigo
Culpei os teus cachos d’ ouro como se fossem castigo.
Esta noite meu amor acordei de um sonho lindo
Enlaçava um cacho teu, ai no meu dedo mindinho.
Um,
um, um...
Enlaçaste os braços(?) de uma vez em mim como um cordão
Quero saber se também é d’ ouro esse teu coração.
Esta jovem tem voz fresca, bucólica e introspetiva como raramente se ouve. O poema não é "conversa de café" é poesia com um bater feminino que procura a beleza e o mistério. São videos e canções assim, que nos dão esperança perante o panorama pobre que a música portuguesa atravessa. Obrigado.
José Luis Hidalgo - Só tu e eu sabemos
Só
tu e eu sabemos a verdade deste mundo
que
roubamos à morte dia a dia,
que
erguemos do nada só com palavras
fumo
cinza de um beijo esquecido na tua fronte.
Só
tu e eu sabemos
fábulas
como flautas
silêncios
como formigas mais ou menos sonoras
e
isso que se edifica lentamente em teus olhos
por
trás da vitrina ou cristal de uma lágrima
esse
beijo ou pulsar
esse
sorriso ou chama
de
ter a vida à flor dos lábios.
Trad.
A.M. e tela de
Alberto Soares - Apodrecer
Apodrecer é simples: basta
ceder do coração apenas
a parte mais sombria.
Guardar o resto para inúteis
coisas que não acontecem.
Lavrador Estrangeiro - Gaiteiros de Bravães feat Catrapana (AEPB)
É nómada digital tem escritório no quintal, teletrabalha no Minho
Fala estrangeiro de fora, coitada da Dona Aurora que não entende o vizinho
Gorro e flanela vestida, óculos e barba comprida, calça que não tapa a meia
Mata-se a tratar da horta, mas não sai da cepa torta. É a comédia da aldeia.
Tudo anda a murmurar que o viram fotografar a bosta dos animais
Não sei quantos .com ele deve passar fome. Arrobas não são quintais
A rir-se do lavrador de rato e computador enquanto apanha limões
Sobre o muro empoleirada, qual treinador de bancada, dá Aurora as instruções.
Arranca as ervas do chão
Pega assim na roçadeira
Leva o carrinho de mão
Puxa a corda do motor
Cava o galeiro em linha
Neste baile o mandador
É a chata da vizinha.
De todas as redondezas vêm ver estas proezas do lavrador estrangeiro
A tentar usar sachola sem saber vergar a mola é um circo no terreiro
A Aurora a dar ao braço vai mandando no compasso deste baile no quintal
Dança ela e as vizinhas mais o estrangeiro lingrinhas o baile neo rural.
O estrangeiro empreendedor trata a horta com primor
Já parece lavrador tudo graças à vizinha.
"Catrapana é um projeto do Agrupamento de Escolas de Ponte da
Barca que teve origem no Plano Nacional das Artes. Catrapana é um grupo de
percussão, dinamizado e coordenado por Rafael Freitas dos Gaiteiros de Bravães,
um apaixonado pelas diversas expressões culturais locais, constituído por
alunos do 2.º ciclo do ensino básico que procura tornar a arte mais acessível,
pela expressão da música popular, aos jovens alunos, na comunidade educativa,
através da participação, fruição e criação cultural."
L’Été (Summer, 1968) dir. Marcel Hanoun
Set during a quiet, suspended stretch of summer, the film follows a young woman wandering through sparse landscapes and fragmented encounters, her inner thoughts gradually overtaking external action. Narrative becomes secondary to sensation, as moments feel unfinished, drifting between reality, memory, and introspection. The story unfolds more like a diary than a conventional plot, reflecting emotional uncertainty and solitude.
Beneath its apparent
simplicity lies a reflection on time, alienation, and the fragile boundary
between presence and absence. The summer setting becomes symbolic, a fleeting
interval where identity feels unstable and choices remain unresolved. The film
invites viewers to inhabit uncertainty rather than seek resolution.
José Cereijo - Nunca
Nunca
dormi nos teus braços,
nunca
acordei de manhã a ver o armário, a janela, os livros,
ou
escutei o ruído dos canos, os passos solitários na rua,
e
pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real
tu
também devias ser.
Não
soube a que sabiam os teus lábios, ou o teu riso,
não
te vi a despir,
não
soube nem saberei nunca como os teus olhos, no amor,
incendiavam
a noite.
Essa
falta, bem sei, é uma mutilação sem remédio,
um
triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.
É
também, a seu modo, forma e prova de amor,
de
lúcido humilhado amor,
de
devastado e verdadeiro amor,
que
eu ofereço à tua lembrança.
Eu tive um caso, assim, com a Domingas Assunção Galamba Ascenção. Vivia no Laranjeiro e um dia passei em frente da sua casa. Parei e continuei. Tal como Dante nunca entre nós houve nada, mas em mim houve quase tudo. Hoje, a memória continua terna.


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