Chulada da Ponte Velha - Por Aquela Serra Acima



Por aquela serra acima vinte e quatro cegos vão

Ora cegos vão, ora cegos vão!

Cada cego tem seu moço, cada moço tem seu cão

Ora tem seu cão, ora tem seu cão!


Por aquela serra acima vai um gato reméu méu

Ora reméu méu, ora reméu méu!

Que lhe cortaram um ramo para a pruma do chapéu

Ora do chapéu, ora do chapéu!


Por aquela quelha abaixo vai a roda do amolador

Ora amolador, ora amolador!

Fura pratos, mete gatos, tudo só c’um furador

Ora furador, ora furador!


Por aquela serra acima, vai o boi ao ferrador

Ora ferrador, ora ferrador!

Vai calçar uns sapatinhos, pr'a bailar com o Prior

Ora c’o Prior, ora c’o Prior!


Por aquela quelha abaixo, toca a gaita o capador

Ora capador, ora capador!

Coitadinho do porquinho da casa do regedor

Ora regedor, ora regedor!


Por aquela serra acima, cai foleca, gela ó pastor

Ora o pastor, ora o pastor

Pula o bode, espanta a cabra, nascem cabritos pr'ó calor!

Ora pr’ó calor, ora pr’ó calor!


Por aquela serra acima vinte e quatro cegos vão

Ora cegos vão, ora cegos vão!

Cada cego tem seu moço, cada moço tem seu cão

Ora tem seu cão, ora tem seu cão!


O cego dá pão ao moço, o moço dá pão ao cão!

Ora pão ao cão, ora pão ao cão!

O cão comeu a côdea e acompanha de leitão!

Ora de leitão, ora de leitão!


      "bendito" popular da Reguenga, Santo Tirso. As primeira e segunda quadras são populares, as restantes são de Napoleão Ribeiro.


Thomas Dessoulavy - View of the Acquoria Bridge in Tivoli

 


      The painting captures a serene Italian landscape bathed in warm sunlight. The ancient stone bridge, arching gracefully above a rushing waterfall, anchors the composition. Lush greenery clings to rugged cliffs, while delicate brushstrokes suggest mist rising from the churning water. Tiny figures provide scale and human presence, emphasizing nature’s grandeur. 


Javier Salvago - Fim de festa



Enfim sós, vida. Terminou a festa

e não resta ninguém que possa obrigar-nos

a forçar sorrisos, ou a inventar incómodas

mentiras piedosas. Todos se foram.


Vai-te desnudando sem medo. Conheço

as velhas rugas de tua carne triste.

Acariciei-as. Sei o que teu rosto

oculta por baixo da maquilhagem.


Enfim sós, vida. A casa em silêncio

e tu e eu nus, calados e ausentes,

 - juntos por rotina, mais que por desejo -

como dois amantes cansados de se verem.


      A tela é da pintora checa Anastasia. O poema desmonta as mascaras quando estamos rodeados pelas circunstâncias e, o cair em si, fora delas. 


Roy Orbison - Only the Lonely



      This lovely man's voice has the power to soothe my soul and everything around me. Nobody really sings like him.


The Hour of the Star



      Written by Clarice Lispector, The Hour of the Star deals with the problems of the rural Northeast versus the urban Southeast of Brazil, poverty and the dream of a better life, and, of an uneducated woman's struggle to survive in a sexist society.


Javier Salvago - Outra idade

 


Passou-me a idade de ser poeta

porque tudo passa, é lei da vida;

embora continue, por vício ou tendência,


a falar para o papel, a poesia

não é já a minha pátria, nem o meu território.

Só regresso às vezes, de visita,


como quem volta aonde foi feliz.


Javier Salvago - Como se quer a um gato



Amar as pessoas

como se quer a um gato,

com seu carácter, sua independência,

sem o querer mudar,

sem pretender domá-lo,

deixando-o aproximar quando quiser,

sendo feliz

com a sua felicidade.



Nuno Ribeiro - Saloia



      "Saloia" é uma história intemporal que relata a visita de uma rapariga do interior à zona histórica do Douro, onde se sente atraída pelo destino a entrar numa loja que por si só já é um mundo à parte. A Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau é um tesouro à beira-rio que esconde segredos e iguarias logo se revelam após uma mordida num Pastel de Bacalhau com Queijo Serra da Estrela DOP despoletando um universo inteiro de sensações.

      A magia acontece a cada segundo. Marionetas e fantoches relatam e apadrinham o conto de fadas, onde as gentes do interior e da cidade se envolvem num bailado conduzido por Nuno Ribeiro.

      A Saloia não é só uma cara bonita, como o pastel de bacalhau não é só um pastel de bacalhau, como isto não é só uma canção.


Théodore Gérard - At the dairy farm, 1866



      The painting presents an intimate glimpse of rural life. Inside a rustic farm interior, a young milkmaid carefully pours fresh milk while another figure tends to chores nearby. Soft, natural light filters through a window, illuminating wooden beams, earthen floors, and simple tools. Gérard’s fine detail and gentle realism celebrate domestic labour and pastoral tranquillity of the 19th-century countryside life.


Laia Noguera - Amo a vida pequenina



Amo a vida pequenina,

sentar-me à porta de casa,

a ver passar as pessoas,

um pardal a mover-se,

a tarde declinando

nas casas do corpo.


Bem sei que hei-de morrer

muito antes de morrerem

as árvores a que quero.


Mas não me preocupa nada,

porque no instante

em que se partir o fio derradeiro

serei apenas aquela mulher

que se sentava à porta de casa

para observar simplesmente

e ser folha e raiz.


Genadeklanken - Op Golgotha

 


Jarenlang leefd' ik in ijdelheid,

Onbekommerd, 'k had voor God geen tijd,

'k Wist niet wat er voor mij was bereid,

Op Golgotha!


Daar was Gods genade rijk en vrij;

Daar schonk Hij vergeving ook aan mij;

Daar werd ik van al mijn zonden vrij:

Op Golgotha!


Door Gods woord leerd' ik mijn zonde zien,

Beefd' ik om de straf die 'k had verdiend,

Schuldig was ik; wil mij toch ontzien,

Door Golgotha!


Jezus is het Die mij heeft gered,

Nu houdt Hij geheel mijn hart bezet!

Als een Vriend hoort Hij naar mijn gebed,

Door Golgotha!


Nu kan 'k zingend voor mijn Heiland staan,

Nu bid ik Hem als mijn Koning aan,

Nu ik weet wat Jezus heeft gedaan,

Op Golgotha!


Prijs de liefde die verlossing bracht;

Prijs Gods goedheid, prijs Zijn trouw en macht;

Prijs Hem, daar Hij aan de mensheid dacht,

Op Golgotha!


  Tradução das 2 primeiras estrofes:

  (Google tradutor)


Por anos vivi na vaidade,

Despreocupado, não tinha tempo para Deus,

Não sabia o que estava preparado para mim,

no Gólgota!

 

Lá a graça de Deus era rica e livre;

Lá Ele também me concedeu perdão;

Lá fui liberto de todos os meus pecados:

no Gólgota!


      O Gólgota, também conhecido como Calvário, é a colina situada fora das antigas muralhas de Jerusalém onde, segundo os Evangelhos, Jesus Cristo foi crucificado. O nome deriva do aramaico Gûlgaltâ, significando "lugar da caveira" (em grego: Kraniou Topos), possivelmente devido à forma rochosa da colina ou por ser local de execuções.


Fredrik Borgen (1852-1907) - Morning Atmosphere


      Fredrik Borgen’s Morning Atmosphere captures the quiet poetry of early daylight in rural Norway. Soft, diffused light spreads across a tranquil landscape, gently illuminating fields, trees, and possibly a still body of water. Muted blues, pale golds, and delicate greys blend harmoniously, evoking cool dawn air and hushed stillness. The composition emphasizes calm and subtle tonal transitions rather than dramatic detail, inviting contemplation and conveying a serene, almost spiritual connection between nature and morning light.


Antonio Deltoro - Domingo

 


Sinto-me só como um dedo a que faltasse a mão.

O domingo é um híbrido, um animal

com pés de sábado e cabeça de segunda,

terra de ninguém que respira tédio, comidas familiares.

É um jogo de cartas onde não se arrisca,

música em surdina, pausa.

O domingo é anacrónico, corre devagar, por medo do abismo,

do infarto de segunda, do inferno:

ao domingo os audazes jogam mais do que a semana.

O domingo é um dia por decreto, um falso dia.

O domingo amanhece tarde e anoitece cedo,

é um crepúsculo precoce, entre paredes,

 

pesado.


Antonio Deltoro - Uma árvore

 


Uma árvore grande,

onde não cante o pássaro,

nem subam esquilos,

nem se esconda a inquietação.


Uma árvore que vá ganhando devagar

como as outras porte e espessura.


Quero plantar uma árvore de silêncio

e sentar-me à espera

que os frutos lhe caiam.


Catarina Carvalho Gomes - Novos velhos / Suicide tree / Só mais um pouquinho



Os pais sempre cientes levam sua vida a achar

que as ideias presentes, outrora por concretizar,

são dignas de respeito mesmo causando dor.


Creem no direito de suplantar amor

em troca de trabalho.


Oh, não!

Não endeuso minha gente.

O meu tempo é de franqueza e sangro de remexer a terra.

 

"Podia morrer agora que estava tudo bem".

Assim, na horizontal, disseste tu depois do amor,

enfim, podias ir e nada ficava por fazer.

Como a suicide tree, caías tu por terra.

Ao fim de penetrar, floresces tu de uma só vez,

enfim, contente com o propósito de tudo isto.

Eu também poderia perecer depois de ser toda mulher,

mas preferia balançar na vertical.

 

Eu sou mais que flor, eu sou fruto dessa espera que não cessa

e anda às voltas sem cuidado, porque a ânsia é grande

de sentir de novo adrenalina a correr no corpo mole.

Se ficar passiva para sempre, nunca mais terei prazer

em ver o vento afastar a nuvem escura que só cobre a minha copa,

pronta a verdecer e cheia de docinho para dar.

 

Vou partir, voar, sem sair do coração mudar de sotaque mesmo a meio da canção,

para me sentir mais perto de todos os povos desta terra,

francamente farta de nos ter por cá.

Deixem-me ficar só mais um pouquinho que apesar de já estar pronta

para ir para o outro lado queria ainda provocar uma catarse coletiva.


      Catarina Carvalho Gomes nasceu em Braga, 1997. É artista multidisciplinar e interessa-se pelo trabalho de exploração vocal nas áreas da música e teatro. Como cantora, integrou o Ensemble Caleidoscópio, dirigido por Bruno Pernadas, e o projeto Frestão de João Grilo. Gravou voz para os discos de Pedro Lima, Samuel Martins Coelho, GRÃO, Homem em Catarse e Romain Valentino. Em 2023, lançou o disco autoral Novas Canções da Terra, projeto com o qual venceu o prémio de melhor concerto no Festival Emergente, em 2024.


Jean-Luc Godard - First Name: Carmen, 1983



      Carmen is a member of a terrorist gang who falls in love with a young police officer guarding a bank that she and her mates try to rob. She leads him on while dragging the two of them closer to their ultimate doom. Jean-Luc Godard intercuts the film with shots of a string quartet practicing Beethoven, and his main protagonist, Carmen, is played by Maruschka Detmers creating a stunning effect in many scenes of extended nudity.


Sarah Kirsch - A Cheia

 


Espelhos negros paisagens duplas beleza de cartas de jogar

A nuvem saúda a sua gémea, o céu um círculo.

Um tronco, cada árvore duas copas.


O teu corpo sou eu, tu sorris para ti.


Izidro Alves - Identificação

 


As lágrimas

foram o que de mais puro

trouxe da infância


E a fisga

para atirar ao céu

o mais obsceno.


Olivia Chaney - House on a Hill



In this house on a hill

Where I've come to see what is real

All I find is illusion.


Urgently she sees Spring grow

Build to a stream on it flows

Till Autumn falls, golden

Leaves her silent, scolded.


Men nearby drain fields

Hopeful for all they yield

Not wond'ring why the days end

With the sun in the West.


At night, I hang from the ledge

By moon, by Pleiades

In all the shining mystery.


In this house on a hill

Where I've come to need less

And many more will.


      Olivia Chaney was born in Florence, Italy, and grew up in Oxford, England, studying composition, piano and voice. Early influences include her father's record collections and his own renditions of early blues and '60s folk songwriters such as Bob Dylan, Fairport Convention and Bert Jansch.

      The song is a haunting folk meditation on memory, desire, and emotional distance. Her voice reminds Anne Briggs. Built with gentle piano fingers, the track unfolds with quiet intensity. The lyrics sketch an image of longing centred on an old country house, symbolizing unattainable love and isolation.


Valdemar Irminger - The model tries to keep warm, 1903


      Valdemar Irminger (1850–1938) foi um proeminente pintor dinamarquês, conhecido pela sua transição do realismo para o romantismo. Esta pintura, intitulada originalmente em dinamarquês como Modellen varmer sig, é um momento do quotidiano íntimo com sensibilidade poética. A pintura retrata uma modelo num momento de pausa, procurando calor junto a uma fonte de fogo ou luz, um tema comum nas suas observações de figuras humanas em ambientes interiores.


Jordi Doce - Ferida



O tacto e chama daquele

instante, folha de neve

nos meus dedos,

corte e queimadura


na pele. Os dias passam

e a ferida não fecha. Volta

o frio ou imagino que volta

e uma voz nasce no contacto.


Duo Medieval (Uli Kontu-Korhonen and Anneliina Rif) perfoms the medieval round "Sumer is icumen in".



 


      "Sumer is icumen in" is the incipit of a medieval English round or rota of the mid-13th century; it is also known variously as the Summer Canon and the Cuckoo Song.

      The line translates approximately to "Summer has come" or "Summer has arrived". The song is written in the Wessex dialect of Middle English. Although the composer's identity is unknown today, it may have been W. de Wycombe or a monk at Reading Abbey, John of Fornsete [Wikidata]. The manuscript in which it is preserved was copied between 1261 and 1264.

                 in, Wikipedia


Martin Sijbesma, Dutch, born 1968 - Ytsje reading a map



      This is so beautiful. Sunlight shines gently and lands on her chest, map and the car hood. She is framed by the open door. This soft, natural light falls across her face and hands, highlighting delicate features and creating gentle contrasts with the muted background. The composition feels intimate and calm, with subdued earth tones lending warmth and restraint. Sijbesma’s brushwork balances realism and atmosphere, emphasizing mood over detail. The painting suggests themes of curiosity, journey, and introspection within an everyday scene.


Golgona Anghel - Olhe, preciso de dinheiro

 


Olhe, preciso de dinheiro.

Preciso de muito dinheiro. Quero abrir um negócio.

Algo meu, sabe como é. Estou farto de patrões.

Não posso passar a minha vida atrás de um balcão.

A levar todas as noites com a baba dos perdidos nas trombas.

Já não tenho paciência.

Com esta idade, já viu o que é.

Sujeitar-se a todos os labregos.

Já tentei noutros bancos, sim.

Pedi também aos meus pais, é verdade;

disse-lhes que era para me casar.

Não, não tenho casa, nem automóvel.

Mas, olhe, posso garantir com o meu corpo.

O meu fígado, senhor, tem que ver o meu fígado.

É fígado de motard. Isto parece encolhido e tal,

mas anda a mil.

E adiantado, não pode pagar nada como entrada?

Entrada, não sei.

Só se for o coração.


Coletivo Capela - Ó minha Rosinha



Ó minha Rosinha eu hei-de te amar

De dia ao sol, de noite ao luar.

De noite ao luar, de noite ao luar,

Ó minha Rosinha eu hei-de te amar.


Ó minha Rosinha eu hei-de ir, hei-de ir

Jurar a verdade que eu não sei mentir

Que eu não sei mentir, que eu não sei mentir

Ó minha Rosinha eu hei-de ir, hei-de ir.


Ó minha Rosinha bailaste, bailei

Bailaste no adro que eu bem te mirei 

Que eu bem te mirei, que eu bem te mirei

Ó minha Rosinha bailaste, bailei.


Ai! Oh ai - ó ai ó la rai!

Ai! Oh ai - ó ai ó la rai!


      A melodia "Ó minha Rosinha" tem as suas raízes no folclore português, especificamente na região do Minho. É uma canção tradicional popular, frequentemente interpretada por ranchos folclóricos da região de Viana do Castelo. É considerada uma "moda de baile", com uma melodia típica que passa de geração em geração.


Alexander Litovchenko - Charon, 1861



      In the Greek mythology, Charon was the son of Erebus and Nyx (Night), whose duty it was to ferry over the Rivers Styx and Acheron those souls of the deceased who had received the rites of burial. In payment he received the coin that was placed in the mouth of the corpse.


António Gedeão - Poema das Coisas Belas

 


"As coisas belas,

as que deixam cicatrizes na memória dos homens,

por que motivo serão belas?

E belas, para quê?


Põe-se o sol porque o seu movimento é relativo.

Derrama cores porque os meus olhos vêem.

Mas por que será belo o pôr do Sol?

E belo, para quê?


Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,

mas só são coisas quando coisas percebidas,

por que direi das coisas que são belas?

E belas, para quê?


Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas

sem precisarem de ser coisas percebidas,

para quem serão belas essas coisas?

E belas, para quê"


      Com linguagem sensível, o eu lírico convida o leitor a olhar o mundo com mais atenção e gratidão. Através dessa contemplação, revela-se que a verdadeira beleza não está no extraordinário, mas no que é comum e autêntico. São belas para quê? Para através do mistério podermos compreender a possibilidade de Deus existir.


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