Garota não - Eva

 


Quantos animais descobres no céu meu pequeno floco de neve

Nesses olhos de princesa em cada nuvem delicadeza.


Quantossorrisostraz o teudedo do pé filhote de pai chimpanzé

Vemgotinha de pureza alegrar mãe natureza.


Com o que sonhas tu quandosorris

Deixandoomundo há voltamais feliz

Moreninha daboca bonita

Na tua pestana a vida é finita

Tão longa que rasga toda a solidão

Que acolhe e que tira os meus olhos do chão

Serena, serena, doce motorzinho

Que bate no peito tum tum de mansinho.


Tum tum tum tum tum tum

Se queres um beijinho eu dou-te um

Tum tum tum tum tum tum

Se queres um abraço eu dou-te um

Tum tum tum tum tum tum

Se queres um colinho eu dou-te um

Tum tum tum tum tum tum

Se queres um amigo posso ser um

Tum tum tum tum tum tum!


      Garota não é o nome artístico da cantautora portuguesa Cátia Mazari Oliveira, nascida em Setúbal a 29 de outubro de 1983. O que leva no coração é luz.


Peter Vilhelm Ilsted (1861-1933) - A Quiet Moment



      The painting shows two women absorbed in a calm, solitary task—such as handwork or reading—highlighting a pause from the rushing outside. The atmosphere is calm and contemplative, suggesting the beauty of ordinary life and the quiet pleasures of home.


Carlos Drummond de Andrade - Memória

 


Amar o perdido

deixa confundido

este coração.


Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.


As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão


Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.


      O poema reflete sobre a fragilidade das recordações e a permanência do passado. A memória surge como espaço de afetos, perdas e experiências que continuam a influenciar o presente. O sujeito poético interroga aquilo que permanece e aquilo que se desvanece, revelando uma visão simultaneamente nostálgica e lúcida.


A garota não - Monstro



 

Toma de mim a loucura

Leva os sonhos e a mão que cura

Na palma quente da terra

Dói a solidão mais do que o dente que ferra,

Que ferra grosso e imundo

Fundo mais que o fim do mundo

É quando o medo me abraça

Tremendo o monstro que passa


E eu vou

Com toda a calma

Sou do tamanho da minha alma

Ao encontro imperfeito

De Deus em ti,

tu no meu peito.


      A canção explora a construção do medo e da ameaça através da figura simbólica que representa aquilo que assusta, oprime ou perturba. A voz poética confronta o monstro, recusando a submissão e afirmando a coragem, a resistência e a liberdade individual.


Peter Ilsted (Danish, 1861-1933) - Woman Knitting by a Window, 1902



      This work of art presents a quiet domestic scene, bathed in soft, natural light. A woman sits absorbed in her knitting, her figure viewed from behind, creating a sense of intimacy and gentle mystery. Warm brown and golden tones contrast with the cooler light entering through the window. The carefully arranged interior conveys order and tranquillity.


Sophia de Mello Breyner Andresen - Ode à maneira de Horácio



Feliz aquela que efabulou o romance

Depois de o ter vivido

A que lavrou a terra e construiu a casa

Mas fiel ao canto estridente das sereias

Amou a errância o caçador e a caçada

E sob o fulgor da noite constelada

À beira da tenda partilhou o vinho e a vida


  in, O Búzio de Cós e outros Poemas, 1997


      O poema celebra uma figura feminina que concilia experiência, trabalho e liberdade. Inspirada no universo de Horácio, Sophia valoriza uma vida plenamente vivida, onde a construção da casa e o cultivo da terra coexistem com o desejo de aventura. As referências às sereias, à caça, à noite e ao vinho evocam a dimensão mítica, sensual e convivial da existência. A «errância» simboliza a liberdade de seguir o desconhecido, enquanto a partilha final afirma a comunhão entre natureza, amor, viagem e poesia.


The ancient "Silence of the Universe" in Nepal



      Job 30:20

      "I cry to you, O God, but you don’t answer. I stand before you, but you don’t even look."


Erik Henningsen (Danish painter) 1855 - 1930 - Dance at the inn, 1919



      The painting captures a lively rural gathering with characteristic realism and social observation. Inside a modest Danish inn, couples dance while other guests watch, converse, or enjoy the festive atmosphere. Beneath its cheerful surface, the painting offers an affectionate glimpse of Danish popular life and communal entertainment in the early twentieth century.


Hans Magnus Enzensberger - Aqui e acolá acontece

 


Aqui e acolá acontece,

ouve-se um grito de socorro.

Imediatamente alguém se atira à água,

tudo completamente gratuito.


Em pleno desenfreado capitalismo

os cintilantes bombeiros aí estão ao dobrar

da esquina e apagam, ou no chapéu do pedinte

há de súbito uma prata a brilhar.


De manhã as ruas estão cheias

de pessoas que andam de um lado para o outro,

serenas, sem facas na mão.

apenas à compra de leite e rabanetes.


Como em plena paz.


Dá gosto ver.


  Traduzido para Português por Alberto Pimenta.


      O poema apresenta, com ironia subtil, manifestações de solidariedade num mundo dominado pelo capitalismo e pela ameaça da violência. O socorro imediato, a generosidade inesperada e a tranquilidade das ruas contrastam com a ideia de uma sociedade desenfreada e potencialmente perigosa. A expressão "Como em plena paz" adquire um tom ambíguo: aquilo que deveria ser banal parece extraordinário. Enzensberger questiona, assim, a fragilidade da paz quotidiana e celebra ironicamente os gestos humanos que ainda escapam à lógica económica.

      Este poeta alemão morreu em 2022.


A garota não e Luca Argel - Países que ninguém invade



a fala curta

como um mantra

e os cabelos longos

de cometa


a vida lenta

feita um tantra

tecendo a poesia

que se inventa


o dia cresce

como as plantas

sem dar a volta

no planeta


o amor dissolve

toda a zanga

só não sabe

quem não tenta


cabem em nós

os países que ninguém invade

nem contrafaz

os sonhos, as lutas, as frutas, as pontes, cornetas

de guerra e paz


      Nas palavras d’A garota não: "Aconteceu que nos cruzámos num mesmo palco, onde se homenageava Chico Buarque. Enquanto aguardávamos a nossa vez de entrar, falávamos baixinho atrás do pano sobre a vida no geral e nada em particular. E vai daí disse para o Luca: 'vamo fazê uma música em conjunto, menino?' Ele não pareceu entusiasmado, mas foi amável como sempre é. Não voltámos a tocar no assunto, até que alguns dias depois recebi um pequeno audio cantarolado. Era o início da nossa canção". A letra fala sobre o espaço íntimo, os sonhos e a liberdade que resistem a qualquer ataque exterior.


Huleeb (Hugo)



      Huleeb é o nome de (Hugo), um artista digital 3D autodidata que vive em Montreal, Canadá, conhecido pelo seu estilo surrealista melancólico. Aqui, ele tenta transmitir que a pessoa humana é limitada pela sua biologia, pelo tempo de vida e pelas suas capacidades físicas, mas é justamente essa condição que dá significado às nossas ações e ao nosso esforço.


Louise Glück- Na praça / In the Plaza

 



Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,

Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,

tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura

inclinada sobre uma revista.

Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo

comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.

 

Por ela ignorar o seu próprio poder,

este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação dele.

Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe atribui

numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,

uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente do Sul.

 

Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a esperá-lo.

E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados de lavar

e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra vez o olhar.

E depois disso tornar-se-ão amantes.

 

Mas ele espera que isso não aconteça logo,

pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu corpo,

     sobre as suas emoções,

é um poder que ela deixará de possuir assim que se comprometer –

 

recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento

a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será como

uma pessoa que não projeta sombra, que não está presente no mundo;

nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,

pouco importa se ela vive ou morre.

 

  Tradução de Frederico Pedreira


  Original:


For two weeks he’s been watching the same girl,

someone he sees in the plaza. In her twenties maybe,

drinking coffee in the afternoon, the little dark head

bent over a magazine.

He watches from across the square, pretending

to be buying something, cigarettes, maybe a bouquet of flowers.


Because she doesn’t know it exists,

her power is very great now, fused to the needs of his imagination.

He is her prisoner. She says the words he gives her

in a voice he imagines, low-pitched and soft,

a voice from the south as the dark hair must be from the south.


Soon she will recognize him, then begin to expect him.

And perhaps then every day her hair will be freshly washed,

she will gaze outward across the plaza before looking down.

And after that they will become lovers.


But he hopes this will not happen immediately

since whatever power she exerts now over his body, over his emotions,

she will have no power once she commits herself —


she will withdraw into that private world of feeling

women enter when they love. And living there, she will become

like a person who casts no shadow, who is not present in the world;

in that sense, so little use to him

it hardly matters whether she lives or dies.


      O poema explora o desejo, a fantasia e a distância entre imaginar alguém e realmente conhecê-lo. Um homem observa secretamente uma jovem e constrói, a partir dela, uma relação inteiramente imaginária. A sua fascinação depende precisamente da ausência de reciprocidade: enquanto ela permanece desconhecida, conserva poder sobre ele. Quando imagina uma possível relação, teme perder esse encantamento. O poema revela, assim, a natureza possessiva da fantasia amorosa e a fragilidade das expectativas humanas, através de uma linguagem simples, fria e profundamente inquietante.

      O still é do filme Malena, 2000.


Samuel Bough (British, 1822-1878) - Bothwell Castle from the Clyde, 1861



      The painting presents the medieval Scottish castle rising dramatically above the River Clyde. The ruined stone structure is hidden in the landscape, while the river creates a calm, reflective foreground. Bough combines earthy browns and greens with soft atmospheric greys, giving the scene a distinctly Scottish character.


Valeria Pariso - Quem tem a chave / ¿Quién tiene la llave

 


Quem tem

a chave da cela

que está na tua mão?


  Tradução de A.M.

  Original:


¿Quién tiene

la llave de la celda

que está adentro de tu mano?


      O poema apresenta uma imagem paradoxal e inquietante: a «cela» encontra-se dentro da própria mão, sugerindo que a prisão e a liberdade dependem do indivíduo. A chave simboliza a possibilidade de libertação, mas também a responsabilidade de agir. Com linguagem extremamente concisa, o poema questiona os limites entre aprisionamento exterior e interior, convidando à reflexão sobre medos, escolhas e autonomia pessoal.


Pedro Infante - Cucurrucucu Paloma



 

Dicen que no comia no mas se la iba en puro llorar

Dicen que no dormia no mas se la iba en puro tomar

Cuentan que el mismo cielo se estremecia al oir su llanto

Como lloro por ella que hasta en su muerte la fue llamando.


Ayayayayay lloraba

Ayayayay reia

Ayayayaya cantaba

De pasion mortal moria.

 

Que una paloma triste muy de mañana le iba a cantar

A su casita sola con sus puertitas de par en par

Cuentan que esa paloma no es otra cosa mas que su alma

Que todavia la espera a que regrese la desdichada.

 

Cucurrucucu paloma

Cucurrucucu no llores

Las piedras jamas paloma

Que van a saber de amores.


      Jamás habrá otro Pedro Infante, podrán imitar su voz, pero nunca su personalidad, el ser humano que era.


Andre Masson - A view of Ibdes, a village in Aragon, 1935



      The painting transforms a recognisable Spanish landscape into a vivid Surrealist vision. Dominated by fiery reds, oranges and yellows, the painting presents rocky forms, hills and the village in a dreamlike, almost organic composition. Two striking roosters emerge from the foreground, blending mysteriously with the terrain. Masson creates double images, including a crocodile-like form among the rocks. The result is a dramatic landscape where nature, imagination and symbolism merge.


Nuria Mezquita - Eu queria ser como Marilyn



Eu queria ser como Marilyn,

mas algo correu mal.


O meu cabelo, os músculos, a boca, as mamas...

Algo correu mal.


Eu queria ser como Marilyn,

brincar com os meus amantes

trocá-los

parti-los

enganá-los

tirar a perna a um

a outro o braço

comê-los devagar,

como cerejas cobertas de caramelo.

Morder-lhes o coração.


Eu queria passear sem cuecas

cantar happy birthday ao presidente

dar alegria ao meu daddy

foder com o meu tiger

encher com diamantes a mesa de cabeceira

suar

sonhar

virar-me

em lençóis de linho pisado

por três ou quatro gigantes.


Eu queria ser como Marilyn.

Tentar a vida dos magnates

foder Franky

Jonny

e Ronny.

Pôr os United em xeque

cantar canções fracassadas

no piano de Truman Capote.

Beber até cair

cheirar umas linhas de heroína

apalpar os colhões de uma equipa inteira de futebol

chupar pilas em troca

de rosas

pastilhas

100 frases.


Desenhar o inferno só com uma linha,

com a voz mais porca e mais doce.


Sim, eu queria ser como Marilyn

E como tu e tu

Como a porteira

Até a minha mãe.


Mas definitivamente,

é claro,

algo

correu

mal.


  Tradução de A.M.


      O poema parte da figura icónica de Marilyn Monroe para explorar o desejo de ser outra pessoa e a distância entre aparência e identidade. A admiração pela atriz transforma-se numa reflexão sobre beleza, fama e reconhecimento, mas também sobre a fragilidade escondida por detrás do mito. O tom é simultaneamente confessional e irónico, revelando uma consciência crítica dos modelos femininos impostos pela sociedade. 


The Floating Town (Part 1) - Rust Don't Mean Ruined • Surreal AI Music Video (4K)



 

They towed us out here to be sold for scrap.

We had other plans.


Every hull in this harbor was towed out for scrap,

Stamped and forgotten and left off the map.

But the rope found the rope and the board found the nail,

And a town grew up out of everything that failed.

Now there's smoke in the morning, there's bread on the line,

And a door that still opens at a quarter past nine.

The paint's coming off, well, so is mine.

We're getting along just fine.


Rust don't mean ruined, old don't mean done,

The tide still lifts us, every last one.

They wrote us off, but the water never did.

Rust don't mean ruined, old don't mean done.


Miss Ada came out here at sixty-five or so,

Said the world quit waving, so she let the waving go.

She's mending the same coat she's mended for years,

One brass button still on from her wedding day.

And she'll tell you a patch is just a place that held on,

And she'll pour you a cup before you ask.

We don't throw much away out here,

Not a coat, not a boat, not a year.


Somebody asked me, don't it hurt, being left behind?

I said, friend... we weren't left.

We were let go. There's a difference.

I used to think growing old meant learning what to leave.

Turns out it's learning what's worth carrying.

And every light in this town is still on.


Rust don't mean ruined, old don't mean done,

The tide still lifts us, every last one.

If your hands look older, if your days run long,

Rust don't mean ruined. Come on. Sing along.

Rust don't mean ruined... old don't mean done.


They towed us out here to be sold for scrap...

and we built a town instead.


      "The Floating Town is a surreal AI film and music video series set far out on the open water - an imaginary settlement made from about a hundred old ships that had finished their working lives. Ferries, trawlers, coal barges, tugboats, one great listing passenger liner. Out here they found each other. Rope to rope, board to nail, until they were something new: a home inside a rusted hull, a garden growing out of an old lifeboat, a warm window in the fog.

      Everyone here is past sixty. Their coats are patched wool and oilskin, mended for decades, with brass buttons and rope worn as jewelry. Nobody hurries, because nobody is being timed. They're the kind of neighbours who know exactly when to knock and when to just leave a chair waiting.

      They share their decks with gentle animals every bit as old and as odd - woolly sea-cows, long-eared seabirds, a plump dragon the size of a house cat, one enormous sleepy snail who will not be rushed. It's all graded like a faded 35mm feature: burnt orange, tobacco brown, oxidized teal, sea fog grey. A peaceful, fictional world about community, craftsmanship and things worth taking care of.

      Somewhere in the second verse of the song, a woman walked in that I hadn't planned for. Her name is Miss Ada. She's still wearing the coat she's been mending for years - with one brass button left on it from her wedding day. She'll tell you a patch is just a place that held on. She'll pour you a cup before you ask."

      in, YouTube video notes


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