Vizinhos - Laranjeiras



      Conheceram-se em Évora, através do grupo académico Seistetos, e a amizade foi quase instantânea. Como moravam perto uns dos outros e passavam parte do tempo juntos, a tocar e a cantar, o nome do grupo foi fácil de encontrar. "Veio dessa proximidade que queremos dar também às pessoas, sendo que o público é a nossa 'vizinhança', o nosso 'bairro' e também queremos que façam parte da nossa história", explicam David, Francisco e Miguel, de 25 anos, e Tomás, de 21.


Charles Friederic Ulrich - In the Land of Promise, Castle Garden, 1884.

 

      Castle Garden in New York City was the country’s first immigration station and processed a large refugee population in the late 19th century. Here, people from different countries talk, rest, and pass the time waiting for inspection and registration. Four figures draw our attention. In the centre, a mother nurses her baby — a trunk label suggests they may be from Sweden. A red-haired girl sits just behind them, and a uniformed man smokes a pipe to the right. About two dozen men, women, children, and a baby sit in rows of wooden benches or on traveling trunks in this horizontal painting. Their skin is mostly pale with some ranging more toward pink and others toward tan. A woman nursing a baby sits in the centre of the composition.


Carmen Martín Gaite - Clarão / Destello

 


Hoje falais outra língua,

ó lírios despenteados à chuva,

prendeis-me convosco,

como se eu me visse num espelho.

Mas tenho de vos deixar,

puxam-me logo agora

que eu acabo de me encontrar

- pequenina, pura -

no meio das vossas corolas.

Vou fechar os olhos

- não me apaguem a imagem -

e vou-me sem vos olhar outra vez.

Ai, quando vos voltar a ver

saberei eu perceber a vossa linguagem

que por um instante rasgou minha treva,

ó lírios despenteados pela chuva?


 Tradução de A.M.


  Original:


Hoy habláis otra lengua,

lirios que os despeináis bajo la lluvia.

Me apresáis con vosotros

igual que si me viera en un espejo.

Y tengo que dejaros.

Tiran de mí precisamente ahora

que acabo de encontrarme

-pequeña, pura-

entre vuestras corolas.

Voy a cerrar los ojos,

-no deshagan la imagen.

Y me iré sin miraros otra vez.

Ay! Cuando vuelva a veros

¿sabré ya comprender este lenguaje vuestro

que un minuto ha rasgado mi tiniebla

oh lirios despeinados por la lluvia?


      O poema explora o instante fugaz da revelação interior. A imagem do clarão sugere uma iluminação súbita, breve mas transformadora, capaz de romper a rotina e expor emoções escondidas. Olhar os lírios! O contraste entre luz e sombra reforça a tensão entre conhecimento e incerteza, característica central da escrita de Martín Gaite e da condição humana contemporânea.


Elia Suleiman - The Time That Remains, 2009



      Structured across several decades, the film traces the history of a Palestinian family from the aftermath of 1948 to the present day, drawing heavily from the personal memories of Elia Suleiman himself. Through episodic scenes, it portrays everyday life under occupation with a mixture of melancholy, absurdity, and quiet resistance. The film reflects on memory, identity, and historical continuity. It suggests that daily existence itself becomes a form of persistence in the face of political erasure and fragmentation. Presented in competition at the Cannes Film Festival, the film stands among Elia Suleiman’s most celebrated and personal works.


Venice in 1101 - Lagoon to Empire (AI Reconstruction)



      Journey through Venice in 1100 AD, at the height of its rising maritime power — a city forged from lagoon mud into one of the most formidable republics in the Mediterranean world. From the glittering mosaics of St. Mark’s Basilica to the shipyards of the Venetian Arsenal where fleets were built at astonishing speed, this was a civilization balancing commerce, faith, and ambition. As rival powers watched from Constantinople to the Holy Roman Empire, Venice stood as the economic and naval engine of the medieval world — poised on the edge of even greater expansion. 

                                           in, YouTube notes

Johan Christian Dahl - Stugunøset på Filefjell



      It portrays a rugged Norwegian mountain landscape with dramatic realism and atmospheric light. The painting captures the solitude and grandeur of Filefjell, where rocky terrain, distant peaks, deers and shifting skies create a powerful sense of nature’s scale. Dahl balances precise observation with Romantic emotion, emphasizing humanity’s small presence within the wilderness.


Alberto Nessi - Neve

 


Russia's Kamchatka Peninsula (AI?)

1


Cobre-nos, neve, com o teu silêncio

faz-nos mudos

põe as estrelas no traço obsceno

dos pneus, vela as engrenagens

pousa devagar sobre os detritos, não deixes

de cobrir as chagas,

abafa a blasfémia, o riso,

o vómito do mundo,

branca luz brilhando sobre a sebe

que nos faz claros contra o vidro

olhando o nosso puro irmão,

o pássaro.


2


Terá ela conhecido a infância, esta mulher

cheia de vinho

que procura o isqueiro debaixo da mesa?

E o homem de costas que divaga

sentado no banco com uma cerveja preta

gesticulando entre fantasmas

habitados pelo vento?

Cobre, neve, com as tuas flores piedosas

as feridas dos homens desiludidos

cobre a ceifa dos seus sonhos

neste bar onde se finge viver.


Tradução de A.M.


  Original:


1


Coprici, neve, con il tuo silenzio

rendici muti

metti le stelle sopra il calco osceno

dei copertoni, fa’ velo agli ingranaggi

pòsati adagio sui detriti, non smettere

di coprire le piaghe

spegni la bestemmia il cachinno

il vomito del mondo

bianca luce che splendi sulla siepe

e ci fai chiari contro il vetro

a guardare l’uccello,

il nostro puro fratello.


2


Avrà avuto un’infanzia questa donna

piena di vino

che cerca l’accendino sotto il tavolo?

E l’uomo di schiena che straparla

seduto al banco con la birra scura

gesticolando tra fantasmi

abitati dal vento?

Copri, neve, coi tuoi fiori pietosi

le ferite degli uomini delusi

copri la segatura dei loro sogni

in questo bar dove si finge di vivere.


      No poema, a neve surge como símbolo de silêncio, solidão, reflexão interior e purificação. A paisagem branca cria um ambiente calmo, revelando sentimentos de isolamento humano. A neve representa a passagem do tempo e a fragilidade das memórias, mostrando como o ser humano procura sentido e conforto num mundo marcado pela mudança e pela incerteza.


Roza Fragorapti - Ancient Greek Lyre

 

      As an attribute of Apollo, the god of prophecy and music, the lyre to the ancient Greeks symbolized wisdom and moderation. Are we proud of the European culture? 


John Atkinson Grimshaw (English, 1836-1893) - The Lovers


      The Lovers is a moody, atmospheric painting that captures a quiet moment of romance beneath twilight skies. Grimshaw’s mastery of light and shadow creates a dreamlike setting, with glowing lanterns, reflective surfaces, and rich autumnal tones enhancing the scene’s emotional depth. The figures appear intimate yet distant, emphasizing mystery and longing. Typical of the artist’s Victorian nocturnes, the work blends realism with poetic melancholy, inviting viewers to linger in its hushed beauty and contemplative mood.

Alberto Nessi - Rosa de bar / Rosa di bar

 


No balde oculto pelos pinheiros

a rosa escuta

as vozes, o choque do saco no contentor

os sapatos de quem busca no chão

sabe-se lá o quê.

Rosa curiosa.


A rosa olha com seu olho de frágil irmã

dos poetas, quem passa na estrada,

sem ser vista, perto

e longe da gente.

Rosa paciente.


  Original:


Nel secchio nascosto dai pinastri

la rosa ascolta

le voci, l’urto del sacco nel container

le scarpe di chi cerca sull’asfalto

chissà che cosa.

Rosa curiosa.

 

La rosa guarda

col suo occhio di fragile sorella

dei poeti, chi passa per strada,

senza essere vista, vicina

e lontana dalla gente.

Rosa paziente.


   Tradução: A.M.


      Romancista engajado e poeta sonhador, o autor da Suíça italiana Alberto Nessi, aos 75anos, recebeu no dia 18 de fevereiro o Grande Prémio suíço de Literatura 2016. "Solidário com a classe operária" e próximo da natureza, como se constata neste poema simples e tão belo.

  

Spokanki - Ceann Dubh Dilis



A chinn duibh dhílis dhílis dhílis

Cuir do lámh mhín gheal tharam anall

A bhéinlín meala, 'bhfuil boladh na tíme air

Is duine gan chroí nach dtabharfadh duit grá.


Tá cailín' ar an mbaile seo'ar buile 's ar buaireamh

Ag tarraingt a ngruaige 'sá ligean le gaoith

Ar mo shonsa, an scafaire is fearr ins na tuatha

Ach do thréigfinn an méid sin ar rún dil mo chroí.


Is cuir do cheann dílis dílis dílis

Cuir do cheann dílis tharam anall

A bhéinlín meala, 'bhfuil boladh na tíme air

Is duine gan chroí nach dtabharfadh duit grá.


My sweet, sweet, sweet dark-haired love

Put your pale, soft hand around me now

Mouth of honey that has the smell of thyme

It is a heartless man that would not love you.


The girls of this town are furious

Pulling their hair and letting it blow in the wind

For me, the best man in the countryside

But I would dump them all for my heart's love.


Lay your sweet, sweet, sweet head

Lay your sweet head on me

Mouth of honey that has the smell of thyme

It is a heartless man that would not love you.


      Understanding 0, vibes 100!

Edward Young - Mutterliebe



      Mutterliebe significa "amor de mãe". Num caminho de montanha onde não se sabe o que fica adiante, com possibilidade de chuva forte, sentimos um olhar terno, quem sabe preocupado. O outro borrego escondido atrás, nas costas, é outro elemento de beleza. Muito belo.

 

Manuel Resende - Voltar para casa



Mas porque tem a pessoa de voltar para casa

e seguir o rasto das árvores no chão,

pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos

e as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?

Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,

E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,

pronta a saltar e a arder todo o corpo?

Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,

cabisbaixa?


      Chama-se tristeza, é uma emoção tão espontânea e essencial como o amor, a alegria, o medo, a raiva. Todos temos dias tristes, quando ficamos zangados, somos magoados, sofremos perdas. Não vale apenar disfarçar, o melhor talvez seja desabafar como Georges Moustaki "Non, je ne suis jamais seul avec ma solitude."

.


Hollow Coves - Blessings



Sunlight fell and reminded me that life can be so gracious sometimes,

And I felt like everything around me was connected somehow.

At night I hear the rhythm of the ocean as it breaks on the shore,

And I think about all the things that I am grateful for.


And they say, "Hold on to the ones you love keep 'em close to you!"

And they say, "Hold on to this time we have and let the light shine through."


Sometimes I get a little bit emotional when I see love unfold

Two hearts bound by reflections of the memories they'll forever hold.


There are blessings all around you open up your eyes

Feel the sunlight fall upon you let it free your mind.

There are blessings all around you take a step outside

Let your heart shine in a new light see it come alive.


      I love how they walk barefoot everywhere, so free~spirited and its really good for their immunity!


Theodor Grust - Kerzenlichtreflexionen (Reflejos a la luz de las velas), 1890

 

      The painting captures an intimate, candlelit interior suffused with warmth and quiet contemplation. A young woman, softly illuminated by flickering light, is absorbed in a reflective moment, while polished surfaces echo the candle’s glow. The composition evokes domestic serenity, nostalgia, and gentle introspection, celebrating the poetic beauty of everyday life under the enchanting shimmer of candlelight and timeless human grace and quiet charm.


Eduardo Galeano - Fogueiras / Fuegos

 


Cada pessoa brilha com luz própria

entre todas as mais.

Não há duas chamas iguais,

há chamas grandes e chamas pequenas

e chamas de todas as cores.

Há gente de chama serena, que nem dá conta do vento,

e gente de chama louca, que deita chispas à volta.

Certas chamas, chamas tolas

não alumiam nem queimam;

mas ardem com tanta gana

que não se podem olhar sem pestanejar,

e quem se chegar muito, pega fogo.


 Trad. A.M.


  Original:


Cada persona brilla con luz propia

entre todas las demás.

No hay dos fuegos iguales.

Hay fuegos grandes y fuegos chicos

y fuegos de todos los colores.

Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento,

y hay gente de fuego loco, que llena el aire de chispas.

Algunos fuegos, fuegos bobos,

no alumbran ni queman;

pero arden la vida con tantas ganas

que no se puede mirarlos sin parpadear,

y quien se acerca, se enciende.


      O poema celebra a diversidade humana através da metáfora do fogo. Cada pessoa arde de modo singular: algumas iluminam, outras aquecem, outras quase não se notam. Galeano valoriza aqueles fogos intensos que contagiam e inspiram, capazes de acender outros com a sua energia e paixão. (É o objetivo deste blogue!)O poema exalta a individualidade, a força transformadora das relações humanas e a capacidade de certos seres de despertar entusiasmo, esperança e vida nos que os rodeiam.


Paul Émile Chabas - Matinée de Septembre / Manhã de Setembro

 


      Matinée de Septembre é uma pintura em óleo sobre tela do pintor francês Paul Émile Chabas, datada de 1911, que causou polémica na sua época. Pintada ao longo de vários verões, mostra uma rapariga nua, de pé, nas águas pouco profundas de um lago, iluminada pelo sol da manhã. Ela está ligeiramente inclinada para a frente, numa posição ambígua, postura que tem sido interpretada como protegendo a sua intimidade, estando com frio, ou lavando-se com uma esponja. Também tem sido considerada uma pose pouco inocente que deu origem a uma "fetichização da inocência".

      A pintura foi exibida pela primeira vez no Salão de Paris de 1912 e, apesar da identidade do seu primeiro proprietário não seja clara, é certo que Leon Mantashev a adquiriu no final de 1913. Foi levada para a Rússia e, no rescaldo da Revolução de Outubro de 1917, pensou-se que tinha desaparecido. Matinée de Septembre reapareceu em 1935 na coleção de Calouste Gulbenkian, e após a sua morte em 1955, foi vendida a um comerciante de Filadélfia, que a doou anonimamente ao Metropolitan Museum of Art em 1957.

      Embora várias mulheres terem alegado serem o modelo de Matinée de Septembre, Chabas nunca revelou a sua identidade. Ele descreveu o trabalho como "tudo o que sei sobre pintura", e respondia afirmativamente quando lhe perguntavam se aquela era a sua obra-prima. Escritores mais recentes, contudo, descreveram a pintura como sendo kitsch, apenas com o valor de uma peça histórica.

                                               in, Wikipedia


Pál Szinyei Merse - Picnic in May, 1873




      The painting radiates youthful freedom and modernity. Set on a sunlit hillside, elegantly dressed figures recline, converse, and dine amid fresh spring grass. Brilliant greens, pinks, and blues capture the season’s vitality, while loose brushwork anticipates Impressionism. The composition balances intimacy with openness, blending leisure, nature, and social harmony. Celebrated for its luminous palette and spontaneous atmosphere, the painting marked a bold departure in Hungarian art toward plein air naturalism and inspired generations of later painters.


José Jiménez Lozano - Árvore seca / Arbol seco

 


Dez anos esperou que a seca árvore

florisse de novo. Dez anos

de machada afiada e trémula,

mas a árvore

mostrava só os braços nus,

o poleiro da pega e dos corvos.

Cortou-a por fim, e de repente,

viu-lhe o coração verde, a borbotar de seiva;

um ano mais, e floria.


 Trad. A.M.


  Original:


Diez años esperó que el árbol seco

floreciera de nuevo. Diez años

con el hacha aguzada y temblorosa,

pero el árbol

sólo exhibía sus desnudos brazos,

la percha de la urraca y de los cuervos.

Cortóle al fin, y, de repente,

vio su corazón verde, borbotón de savia;

un año más, y hubiera florecido.


      Estes versos condensam numa imagem austera a fragilidade da existência. A árvore, despojada de folhas e aparente de vitalidade, simboliza a solidão, o desgaste do tempo e a vulnerabilidade humana. Contudo, permanece erguida, sugerindo dignidade, memória e perseverança. As palavras confrontam a aridez exterior com uma vida interior latente, insinuando que, mesmo na esterilidade ou no abandono, subsiste uma possibilidade de renovação, esperança e silenciosa transcendência.


Lu rusciu te lu mare - Cantistoria



'Na sira ieu passai te le padule,

e 'ntisi le ranocchiule cantare,

e 'ntisi le ranocchiule cantare.

A una a una ieu le sintia cantare,

ca me pariane lu rusciu te lu mare,

ca me pariane lu rusciu te lu mare.


Lu rusciu te lu mare è mutu forte,

la fija te lu re se tae alla morte,

la fija te lu re se tae alla morte.

Iddhra se tae alla morte e ieu alla vita,

la fija te lu re sta se marita,

la fija te lu re sta se marita.


Iddhra sta se marita e ieu me nzuru,

la fija te lu re me tae nu fiuru,

la fija te lu re me tae nu fiuru.

Iddhra me tae nu fiuru e ieu na palma,

la fija te lu re se 'ndeae alla Spagna,

la fija te lu re se 'ndeae alla Spagna.


Iddhra se 'ndeae alla Spagna e ieu 'n Turchia,

la fija te lu re la zita mia,

la fija te lu re la zita mia.

E vola vola vola palomba vola,

e vola vola vola palomba mia,

ca ieu lu core meu, ca ieu lu core meu,

ca ieu lu core meu te l'aggiu dare.


      "Lu rusciu te lu mare" é uma das canções mais icónicas da tradição popular do Salento, Itália, interpretada por vários cantores populares, incluindo o grupo Cantistoria. A trova é uma seresta que fala sobre o amor, o desejo e o som do mar, com letras tradicionais no dialeto salentino. O título significa "O barulho do mar".

      A melodia e texto são originários de Galípoli, na Apúlia, há muitos séculos, que narra a história do amor impossível entre uma dama nobre e um soldado, numa época em que ninguém podia fugir aos seus papéis sociais. As diferentes classes também são expressas nas palavras, como "casar-se", que é "maritare" para a dama, e um dialeto "'nzuru" para a classe mais humilde. Ao longo dos séculos, surgiram diferentes versões; a original era muito lenta e melancólica; na década de 1980, o músico Luigi Cardigliano modificou a melodia, tornando-a mais rápida, e desde então tornou-se um clássico da música folclórica da Apúlia.


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