Milton Nascimento e Chico Buarque - O que será



O que será que me dá

Que me bole por dentro, será que me dá

Que brota à flor da pele, será que me dá

E que me sobe às faces e me faz corar

E que me salta aos olhos a me atraiçoar

E que me aperta o peito e me faz confessar

O que não tem mais jeito de dissimular

E que nem é direito ninguém recusar

E que me faz mendigo, me faz suplicar

O que não tem medida, nem nunca terá

O que não tem remédio, nem nunca terá

O que não tem receita.


O que será que será

Que dá dentro da gente e que não devia

Que desacata a gente, que é revelia

Que é feito uma aguardente que não sacia

Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar

Nem todos os unguentos vão aliviar

Nem todos os quebrantos, toda alquimia

E nem todos os santos, será que será

O que não tem descanso, nem nunca terá

O que não tem cansaço, nem nunca terá

O que não tem limite.


O que será que me dá

Que me queima por dentro, será que me dá

Que me perturba o sono, será que me dá

Que todos os tremores me vêm agitar

Que todos os ardores me vêm atiçar

Que todos os suores me vêm encharcar

Que todos os meus nervos estão a rogar

Que todos os meus órgãos estão a clamar

E uma aflição medonha me faz implorar

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem juízo.


      "O Que Será?" é uma das composições mais emblemáticas de Chico Buarque, criada em 1976 para a banda sonora do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos. Marcada pela sua forte carga metafórica e poesia intensa, a canção tornou-se um hino de resistência implícita contra a ditadura militar brasileira e uma profunda reflexão sobre o desejo, a aflição e o mistério da natureza humana.


Hubert Kaplan - In the Village



      The painting presents a charming rural scene filled with warmth and everyday activity. The painting depicts villagers gathered along a quiet country street, surrounded by traditional buildings and lush vegetation. Kaplan’s detailed realism captures the textures of stone, wood, clothing, and foliage with remarkable precision. The harmonious colours and carefully observed details evoke nostalgia for a simpler, close-knit village life


Alejandra Pizarnik - Os trabalhos e as noites

 


para reconhecer na sede o meu emblema

para significar o único sonho

para não me sustentar nunca outra vez no amor


fui toda oferenda

um puro errar

de loba no bosque

na noite dos corpos


para dizer a palavra inocente


      O poema apresenta a poesia como uma procura incessante pela palavra essencial, capaz de traduzir a experiência interior. A noite surge como espaço de introspeção, desejo e descoberta, onde a poeta vagueia entre o amor, a solidão e a procura de identidade. A imagem da «loba» sugere liberdade, instinto e errância. A linguagem, breve e depurada, cria uma atmosfera simultaneamente misteriosa e melancólica. Assim, escrever torna-se uma tentativa de alcançar uma palavra «inocente», pura e verdadeira.


Bea Almar, Pilar Almalé, IXEYA, Irene Mezcal, Ester Vallejo - Todo Cambia



Cambia lo superficial, cambia también lo profundo

Cambia el modo de pensar, cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años, cambia el pastor su rebaño

Y así como todo cambia que yo cambie no es extraño.

 

Cambia el más fino brillante de mano en mano su brillo

Cambia el nido el pajarillo, cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante aunque esto le cause daño

Y así como todo cambia que yo cambie no extraño.

 

Cambia, todo cambia, cambia, todo cambia,

Cambia, todo cambia, cambia, todo cambia.

 

Cambia el sol en su carrera cuando la noche subsiste

Cambia la planta y se viste de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera, cambia el cabello el anciano

Y así como todo cambia que yo cambie no es extraño.

 

Pero no cambia mi amor por más lejos que me encuentre

Ni el recuerdo ni el dolor de mi pueblo y de mi gente

Y lo que cambió ayer tendrá que cambiar mañana

Así como cambio yo en estas tierras lejanas.

 

Pero no cambia tu amor (cambia, todo cambia)

Por más lejos que te encuentres

Ni el recuerdo, ni el dolor (cambia, todo cambia)

De tu pueblo y de tu gente

Y lo que cambió ayer (cambia, todo cambia)

Tendrá que cambiar mañana

Y así como cambio yo (cambia, todo cambia)

En tu tierra tan amada.


      «Todo cambia» es una canción compuesta por el cantautor chileno Julio Numhauser, en Suecia en 1982, durante su exilio. La canción fue grabada posteriormente como cover por Mercedes Sosa en 1984, versión con la cual se popularizó la pieza. Julio Numhauser fue uno de los fundadores de la agrupación de canto nuevo Quilapayún. En 1973, tras el golpe militar de Augusto Pinochet a Salvador Allende y el comienzo de la dictadura pinochetista, Numhauser se exilia en Europa, estableciéndose en Suecia en 1975. En 1982 compuso y grabó «Todo cambia», junto al grupo Somos, dentro de un disco que no se lanzó al mercado oficialmente, pero que circuló en Chile de manera informal.

        in, Wikipedia


Henry Woods - Fruit Sellers from The Islands, Venice, 1903



      The painting presents a lively Venetian scene centred on local fruit vendors beside the city’s waterways. The figures, dressed in traditional clothing, convey the colourful character of everyday life and commerce. Baskets overflowing with fruit introduce vibrant accents, contrasting with the muted architectural and waterside surroundings. The painting celebrates Venice not through grand monuments, but through its people, markets, boats, and ordinary moments of Mediterranean life.


Escolhas

 


Ódio tem 4 letras, amor também;

Mal tem 3 letras, bem também;

Mentira tem 7 letras, verdade também;

Tudo tem 4 letras, nada também;


Forte tem 5 letras, fraco também;

Chorar tem 6 letras, sorrir também;

Vazio tem 5 letras, cheio também;

Doentio tem 7 letras, saudável também;


Negatividade tem 12 letras, positidade também;

Maldade tem 7 letras, bondade também;

Corajoso tem 8 letras, temeroso também.

A vida tem dois lados, escolha o melhor.


      As nossas escolhas diárias moldam o nosso destino, definindo o rumo entre a realização pessoal e as consequências que acumulamos ao longo do tempo.


Anavitória e Orquestra Ouro Preto - Trevo (Ao vivo no Rio de Janeiro)



Tu

É trevo de quatro folhas, é manhã de domingo à toa

Conversa rara e boa

Pedaço de sonho que faz meu querer acordar p'ra vida, ai, ai, ai


Tu

Que tem esse abraço casa, se decidir bater asa

Me leva contigo p’ra passear

Eu juro afeto e paz não vão te faltar, ai, ai, ai


Ah, eu só quero o leve da vida p’ra te levar

E o tempo para

Ah, é a sorte de levar a hora p’ra passear

Pra cá e pra lá, pra lá e pra cá

Quando aqui tu tá.


Tu.

         Nossa, ficou lindo!


Henri Le Sidaner

 


      "Discreto entre os grandes nomes da pintura francesa da viragem do século XX, Henri Le Sidaner ocupa um lugar singular, na fronteira entre o impressionismo tardio, o simbolismo e o intimismo. Pintor de mesas postas em jardins, ruelas desertas e luzes crepusculares, construiu uma obra paciente e contemplativa, onde a ausência de figuras humanas deixa todo o espaço à atmosfera."

                  in, Artem Legrand


Ruy Belo - Muriel

 


Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te

e antes de chegares, já lá estavas

naquele preciso sítio combinado

onde chegavas sempre tarde

ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses

se ausente mais presente pela expectativa

por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente.

Mas sabia e sei que um dia não virás

que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste

ou até se exististe ou se eu mesmo existi

pois na dúvida tenho a única certeza

Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?


      O poema explora a complexidade dos sentimentos humanos, cruzando memória, desejo e consciência da passagem do tempo. A figura evocada no título poderá representar uma presença marcante, associada à experiência amorosa e à reflexão sobre a fragilidade das relações. O poema convida o leitor a refletir sobre a distância entre o que se vive, o que se recorda e aquilo que permanece.


Gabriela Cuicchi - Soy de la tierra



Soy un latido en la tierra, tal vez un pájaro, un alma,

tal vez un pájaro, un alma.

Soy fantasia constante, la voz, el eco y la tarde,

la voz, el eco y la tarde.

A donde grillos y estrellas se vuelven una ilusión.


Soy un ayer y un mañana, sólo un perfume en el aire,

pañuelo alegre en la zamba terron agreste es mi carne

Y un triste arrullo de urpila agita mi corazón.


Y en las alas de una nube micorazon alza vuelo

Y en la flor de una esperanza baila un malambo de fuego,

baila un malambo de fuego.

Cuando en mis párpados arden las rubias trenzas del Sol.


hachando el monte del tiempo desgajo rima y poesía

tiernas plegarias que anidan en alas algún silencio,

en alas algún silencio.

Tierra desde el sentimiento por donde va mi ilusión.


Y en las alas de una nube mi corazón alza vuelo

Y en la flor de una esperanza baila un malambo de fuego,

baila un malambo de fuego.

Cuando en mis párpados arden las rubias trenzas del Sol.


Soy un latido en la tierra, tal vez un pájaro, un alma

tal vez un pájaro, un alma.


      Voz y guitarra en una sublime sinfonía del alma, belleza en su máxima pureza. "Soy de la tierra", obra perteneciente a Horacio Banegas, gran autor santiagueño. Presenta la magia de la guitarra Ayacuchana.


Rupert Bunny - A Summer Morning



      The painting depicts women in soft, flowing fabrics spending time by the water alongside a peaceful family of swans. It shows the artist’s refined use of colour, delicate lighting and elegant composition. Soft tones create a harmonious atmosphere, while the gentle interplay of light and shadow enhances the scene’s intimacy. Bunny’s characteristic sensitivity to beauty transforms an ordinary moment into something poetic and timeless.


Helena Sacadura Cabral - O mundo do trabalho está a mudar

 


      O mundo do trabalho está a mudar. Durante muito tempo, a produtividade e os resultados estiveram no centro das organizações. Hoje, cresce a preocupação em conciliar desempenho com bem-estar, dignidade e desenvolvimento pessoal.

      Humanizar o trabalho significa reconhecer que, por detrás de cada função, existe uma pessoa com capacidades, emoções, necessidades e expectativas. Não significa diminuir a exigência, mas criar condições para que o profissional possa realizar o seu trabalho com responsabilidade, autonomia e equilíbrio.

      A expansão da inteligência artificial e da automação torna esta questão ainda mais importante. À medida que muitas tarefas são realizadas pela tecnologia, ganham valor competências essencialmente humanas, como a criatividade, a empatia, o pensamento crítico, a comunicação e a capacidade de trabalhar em equipa.

      Também as relações dentro das organizações estão a mudar. Modelos de liderança mais participativos, baseados na confiança, na autonomia e no reconhecimento, tendem a substituir formas excessivamente hierárquicas de gestão. A flexibilidade e os modelos híbridos reforçam igualmente a necessidade de encontrar um equilíbrio saudável entre vida profissional e pessoal.

                  Helena Sacadura Cabral


Anna Vaus - You're Already There



      Just found this at the end of my day after work. What a wonderful conclusion of another day here on earth. Thank you.


Hermann von Kaulbach (German,1846 - 1909) - A Happy Reading



      It captures a peaceful moment of domestic pleasure and quiet amusement. The painting portrays children absorbed in reading, suggesting the delight of discovering an engaging story. Kaulbach’s careful attention to facial expression, clothing, and surrounding details creates an intimate, lifelike atmosphere. The artwork celebrates literature as a source of happiness and imagination.


Gabriel Zaíd - Experiência de Arquimedes / Prueba de Arquimedes

 


Se te mergulhasse numa tina

saberia o volume que deslocas.

Se te pendurasse pelos pés

medir-te-ia o tamanho.

Estou perplexo por seres.

Por seres isso, isso e mais do que isso.

Acabarei por entender-te?

Mordo-te e só te arranco um grito.

Abraço-te e voas numa gargalhada.

Onde é que fica a alma, diz o cirurgião?

E tu quem és, digo eu?

Mergulhei de cabeça nos teus olhos.

Não tinham fundo.


  Tradução de A.M.


  Original:


Si te hundiera en una tina,

vería el volumen que desplazas.

Si te colgara de un pie,

hasta qué punto eres un bulto.

Estoy perplejo porque eres.

Porque eres eso, eso y más que eso.

¿Acabaré de entenderte?

Te muerdo y sólo te desprendo un grito.

Te aprieto y vuelas en una carcajada.

¿Dónde está el alma, dicen los cirujanos?

¿Quién eres tú, digo yo?

Me fui de bruces en tus ojos.

No tenían fondo.


      O poeta recorre à referência ao sábio grego para explorar a relação entre conhecimento, experiência e descoberta. A alusão científica transforma-se numa reflexão sobre a capacidade humana de compreender a realidade através da observação e da prática. O título sugere que uma experiência concreta pode revelar princípios universais, mas também questiona os limites da razão. Com ironia e concisão, o poeta aproxima ciência e poesia, mostrando como o pensamento pode iluminar o quotidiano e a existência humana.


Anna Anise - Kernow Ow Thre (Cornwall My Home)



Re sevis war Gilgoodh, y’n howlsedhes kogh,

War Ji an Woon Lulynn mires an lu ow tos,

Mires orth rolys Gever ow resek a-dro,

Ha klewes an werin ow kana war-woelez a-dro.


Ny wra denvyth nefra ow thenna a’m bro,

Ma’s galow an Arloedh dh’esedha ganzo;

Rag hemm yw ow Eden, ragov ha ken re,

Rag hemm yw ow Hernow, ha hemm yw ow thre!


  Tradução em Português:


Fiquei em pé no Cabo da Cornualha, no brilho do sol poente,

No alto de Chywoone em Newlyn a ver as frotas de pesca passar,

A olhar para as roldanas em Geevor a girar sem parar,

E a ouvir os homens a cantar enquanto descem ao subsolo.


E ninguém me tirará jamais desta terra,

Até que o Senhor me chame para sentar à Sua mão,

Pois este é o meu Éden e não estou sozinho,

Pois esta é a minha Cornualha e este é o meu lar!


      "Kernow Ow Thre" é a versão em língua córnea (Kernewek) da famosa canção homónima escrita originalmente por Harry Glasson.


Alfred Augustus Junior - The Village Postman



      The painting presents a quiet scene of everyday rural life. The postman appears as a familiar figure moving through the village, carrying letters that connect this peaceful community with the wider world. The composition emphasises simplicity, routine and human interaction, while the surroundings create a warm, intimate atmosphere. Natural light and carefully observed details enhance the painting’s realism.


José Luis Hidalgo - A sombra desnuda / La sombra desnuda

 


Estás aqui tão desnuda

que ninguém sequer te conhece.

Hoje, não.

Não te pergunto nada agora.

Teu corpo é longa resposta

para quem te interrogar.

Puseste uma máscara de aço

depois de tirar os vestidos.

Ergueste mil muralhas

em volta de teu sangue.

Mas não.

Hoje não te pergunto nada.


  Tradução de A.M.


  Original:


Estás aquí tan desnuda

que no te conoce nadie.

Hoy, no.

Ahora no te pregunto nada.

Tu cuerpo es larga respuesta

a quien quiera preguntarte.

Te has puesto un disfraz de acero

quitándote los vestidos.

Has creado mil murallas

alrededor de tu sangre.

Pero no.

Hoy no te pregunto nada.


      O poema apresenta a nudez como metáfora da verdade interior e do mistério humano. O sujeito poético contempla uma figura que, apesar de despojada, permanece desconhecida. O corpo transforma-se numa «longa resposta», mas também numa barreira, simbolizada pelo «disfarce de aço» e pelas «mil muralhas». O contraste entre vulnerabilidade e defesa revela a dificuldade de conhecer verdadeiramente o outro. A repetição de «Hoje não» reforça o silêncio, a distância e a aceitação momentânea do mistério.


Claude Germain Paget - Les petits délinquants



      It’s a pity not having the possibility of obtaining a better copy on the web. I was there ‘cause we all were there.


Soledad, Cazzu, Flor Cazzuchelli, Nati Pastorutti - Alma de Rezabaile (Casa Sole)



El baile ya ha comenzado

Allá por Santiago del Estero

Retumba toda la selva

El repicar de un bombo legüero.


De fiesta toda la noche

El dulce brillo de las estrellas

Bailaba la Telesita

Que era la danza, que era la reina.


Nochecitas santiagueñas

Ardientes, puras noches de plata

La luna sobre del monte

En luz brillante se desparrama.


Que baile la Telesita

Dulce y fragante como las flores

Gritaba la paisanada

Emborrachada de amores.


Que busca la pobrecita

Tal vez la danza le de un consuelo

Tu pollera remolino

Tus pies descalzos, trompo de fuego.


Telesita, Telesita

Te has vuelto lluvia, te has vuelto luna,

Te has vuelto flor de los campos

Te has vuelto brisa que me perfuma.


Han pasado muchos años

Pero tu pueblo nunca te olvida

Bailando en los rezabailes

Para que tu alma siga encendida.


      La historia de la Telesita, una famosa leyenda del folclore Argentino.


Arquivo do blogue