Em
silêncio a casa.
Uma
lâmpada erguida com o seu universo
pequeno
e harmonioso,
e na
varanda a lua com o seu manto.
Manto,
uma palavra culta
para
vós, meus filhos.
Não
ouvis no vidro da janela
a
borboleta a bater, cega?
Não
lhe bastam a noite de verão
nem
as estrelas todas.
Quer
também entrar,
coroar
as vossa frontes e libar
nessas
brancas mãos
que
o cansaço moldou no lençol,
maçapães
de um forno.
O
rouxinol abalou e a coruja
do
alambique ulula e pensa
com
sílabas distantes
para
não vos acordar do repouso.
Dormis,
dormis, enquanto o vosso pai
vai
escrevendo estes versos,
e
tal como a borboleta
marra
no papel como num vidro
e
tenta assim entrar na poesia
como
a noite na luz.
Tradução
A.M.
Original:
En
silencio la casa.
Una
lámpara en pie con su universo
pequeño
y armonioso,
y en
el balcón la luna con su peplo.
Peplo,
una palabra culta
para
vosotros, hijos.
¿No
oís en el cristal de la ventana
la
mariposa acometiendo ciega?
No
le bastan la noche de verano
ni
todas las estrellas.
Quiere
también entrar,
coronar
vuestras frentes y libar
en
esas blancas manos
que
el cansancio amoldó sobre el embozo,
mazapanes
de un horno.
El
ruiseñor se ha ido y la lechuza
de
la vieja almazara ulula y piensa
con
sílabas lejanas
para
no despertar vuestro reposo.
Dormís,
dormís, y vuestro padre al lado
va
escribiendo estos versos,
e
igual que la falena misteriosa,
golpea
en el papel como en un vidrio
y en
la poesía trata así de entrar,
como
en la luz la noche.
No poema "Widmung" ("Dedicatória"), Andrés Trapiello
transforma um momento doméstico e silencioso numa reflexão sobre o amor
paternal e a criação poética. Enquanto os filhos dormem, o poeta observa a
noite e encontra na natureza — a lua, a borboleta, o rouxinol, a coruja —
imagens de delicadeza e mistério. A tentativa da borboleta de atravessar o
vidro espelha o próprio desejo do poeta de alcançar a poesia, convertendo o
quotidiano numa experiência de beleza, ternura e transcendência.