Xícara - Cantiga Bailada



Tenho à minha janela, eras tão bonita

E eu já te não quero, o que tu não tens à tua

O que tu não tens à tua.


Um vaso de manjerico, eras tão bonita

E eu já te não quero, que dá cheiro a toda a rua

Que dá cheiro a toda a rua.


Adeus ou rua da fonte, eras tão bonita

E eu já te não quero, calçadinha mal segura

Calçadinha mal segura.


E quando o meu amor passa, eras tão bonita

Eu já te não quero, não há pedra que não bula

Não há pedra que não bula.


  Oh ló, ai lariló lela! Oh ló, ai lariló ló!


As pedras do meu balcão, eras tão bonita

E eu já te não quero, estão todas a três a três

Estão todas a três a três.


Os meus amores de algum dia, eras tão bonita

E eu já te não quero, já os cá tenho outra vez

Já os cá tenho outra vez.


Oh ló, ai lariló lela! Oh ló, ai lariló ló

Oh ló, ai lariló lela! Oh ló, ai lariló ló.


      "Cantiga Bailada" é uma canção emblemática da música tradicional portuguesa . A versão mais famosa foi gravada pelo grupo Brigada Victor Jara em 1984. A melodia tem origem na região de Idanha-a-Nova, na Beira Baixa, e faz parte do espólio das lendárias Adufeiras do Castelo.


Marcel Rieder - Ladies looking at sunset, 1920



      The painting presents a quiet, reflective scene in which elegantly dressed women pause to admire the fading light of day. Warm golden hues illuminate the sky, while soft brushwork creates a tranquil, atmospheric mood. The composition balances the figures with the expansive landscape, emphasizing contemplation and shared experience. Rieder’s mastery of light, colour, and subtle detail transforms an ordinary moment into a poetic meditation on beauty, serenity, and the passage of time.


José Saramago - Cria a natureza

 


      Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável brutidade.

      Entre mortos e aleijados, considera, não faltará quem escape para garantir os resultados da gerência, modo ambivalente e portanto equívoco de substantivar o gerir e o gerar, com aquela confortável margem de imprecisão que produz as mutações do que se diz, do que se faz e do que se é.

      Não marca a natureza coutadas, mas aproveita delas.

      E se depois das ceifas os mil formigueiros da seara não têm celeiro igual, os ganhos e perdas vão todos à grande contabilidade do planeta e nenhuma formiga fica sem a sua estatística parte de alimento.

      Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções: quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros.

      A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade.

      É tudo muito fácil, muito claro e muito justo, porque, de memória de formiga ou elefante, ninguém tal contestou no grande reino dos animais.

 

      in, Levantado do Chão, 1980


      Neste excerto de Levantado do Chão, José Saramago apresenta uma reflexão sobre a natureza como uma força imparcial, que privilegia a continuidade da vida acima do destino dos indivíduos. Através da metáfora das formigas, evidencia que a morte faz parte do equilíbrio natural, sendo encarada sem compaixão ou julgamento. O narrador utiliza ironia e linguagem filosófica para questionar a ideia de justiça natural, sugerindo uma crítica indireta às desigualdades e à forma como a sociedade encara a sobrevivência.


Le Mondine - Quel Mazzolin di fiori



Quel mazzolin di Fiori che vien dalla montagna (×2)

E bada ben che non si bagna che lo voglio regalar.(×2)


Lo voglio regalare perché l'e un bel mazzetto (×2)

Lo voglio dare al mio moretto questa sera quando vien.(×2)


Sta sera quando viene, sarà una brutta sera (×2)

E l'è perché il sabato sera lui non l'è venut da me.(×2)


Non è venut da me l'è andat dalla Rosina (×2)

E perché mi son poverina mi fa pianger e sospirare. (×4)


Quel mazzolin di Fiori che vien dalla montagna (×3)

e bada ben che non si bagna

Che lo voglio regalar, regalar, regalar, regalar

Quel mazzolin di Fiori.


      "Quel Mazzolin di Fiori" é uma famosa canção folclórica italiana do final do século XIX, originária da região alpina. A letra narra a história de uma jovem camponesa que planeia oferecer um ramo de flores ao seu amado, mas é tomada pela tristeza ao descobrir que ele a trocou por outra, chamada Rosina. Durante a Primeira Guerra Mundial, a canção tornou-se um dos temas favoritos dos Alpini (tropas de montanha italianas). Longe de casa e dos seus amores, os soldados cantavam-na com forte nostalgia .


Prince Eugen of Sweden and Norway, Duke of Närke - Skogen (The Forest)



      Prince Eugen of Sweden and Norway’s Skogen envelops viewers in a tranquil woodland where tall trees filter soft light through dense foliage. Muted greens, earthy browns, and delicate shadows create a contemplative atmosphere, emphasizing nature’s quiet grandeur rather than dramatic spectacle. The composition draws the eye inward along subtle paths between trunks, inviting reflection and solitude. Balancing realism with poetic mood, the painting expresses the artist’s deep affection for Scandinavian landscapes, transforming an ordinary forest into a timeless, spiritual sanctuary of calm.


María García Zambrano - O sonho da felicidade

 


Apanhar caranguejos à meia-noite

às apalpadelas

escolher as pedras mais aguçadas

e erguê-las

pegar neles pelo lado inofensivo

metê-los no balde

e continuar

com a lanterna na cabeça.

Procurar

a mão do meu pai

com emoção

e os pés tiritando de mar

e salitre,

observar

no meio das sombras

a mão dele segurando com força na minha


cuidado para não pisar o reflexo da lua.


  Tradução de A.M. e imagem de Karoliina Ahvenainen


      O poema apresenta a felicidade como um sonho simultaneamente desejado e inalcançável. A criança que vai apanhar carangueijos com o pai. A voz poética reflete sobre a fragilidade das expectativas humanas, mostrando que a procura constante pode gerar inquietação. As imagens sugerem esperança, mas também desencanto, revelando que a verdadeira felicidade talvez resida na aceitação do presente e na capacidade de encontrar sentido nas experiências vividas com serenidade, transformando o sonho em aprendizagem humana.


Mimi Fariña - In the Quiet Morning




In the quiet morning there was much despair

And in the hours that followed no one could repair

That poor girl tossed by the tides of misfortune

Barely here to tell her tale rolled in on a sea of disaster

Rolled out on a mainline rail.


She once walked right at my side I'm sure she walked by you

Her striding steps could not deny torment from a child who knew

That in the quiet morning there would be despair

And in the hours that followed

No one could repair.


That poor girl

She cried out her song so loud

It was heard the whole world round

A symphony of violence the great southwest unbound.


La laa laa laa la la la laa laa

La laa laa laa la la laa laa

La laa laa laa la la la laa laa

La la la laa laa

La la la laa.


In the quiet morning there was much despair

And in the hours that followed no one could repair

That poor girl tossed by the tides of misfortune

Barely here to tell her tale rolled in on a sea of disaster

Rolled out on a mainline rail.


      The song was written by Mimi Baez Fariña, after Janis Joplin’s death by drug overdose on October 4, 1971. She deserved it much. Through gentle imagery, heartfelt lyrics, and a calm melody, the song expresses grief, remembrance, and enduring love. Rather than dwelling on loss alone, it celebrates the lasting presence of cherished memories, offering comfort and hope while honouring a life that ended too soon with quiet grace.


Rene Magritte - Two Girls Walking Along a Street, year1954



      Magritte juxtaposes familiar figures with an atmosphere of mystery, encouraging viewers to question everyday reality. The calm composition, restrained palette, and dreamlike quality blur the boundary between the real and the imagined. Rather than telling a clear story, the painting invites contemplation, emphasizing perception, ambiguity, and the hidden strangeness beneath ordinary life.


Miguel Torga - Alvorada

 


Foi tudo simples: aconteceu.

O dia amanheceu,

Acordei.

E reparei no milagre concreto de viver.

E cantei

Como um galo feliz.

O que esse canto diz

É que não sei.


  in, Diário XII


      No poema, o nascer do dia simboliza a renovação, a esperança e a força da vida. A natureza surge como expressão de liberdade e harmonia, despertando o ser humano para um novo começo. O eu lírico apenas não entende o mistério e ainda bem.


Mary Evelina Kindon - Las gracias antes de la cena



      The Mary Evelina's painting offers to the viewer, a warm domestic scene cantered on gratitude, family and everyday ritual. Before sharing a meal, the figures pause in prayer, emphasizing humility, togetherness and Victorian moral values. It also celebrates the importance of faith, family bonds, and appreciation for simple blessings, transforming an ordinary pre-dinner moment into a touching expression of shared devotion. When I was a child I was used to similar moments owing to Catholic rituals.


Gabrielle Hope - The Hummingbird's nest

 


I want a house that is full of wind chimes

So we can hum along while we bake, hmm

And I want to rest in a place with no yelling

Where the hummingbird lays her nest.


Four green eyes and a duck with a diaper

Porcelain teapots and Junes

But we'll never have fish 'cause ya know we won't feed 'em

And the cats would eat 'em too.


I want a house that is full of wind chimes

So we can hum along while we bake, hmm

And I want to rest in a place with no yelling

Where the hummingbird lays her nest.


Come to our house that is full of wind chimes

And we will hum along while we bake, hmm

Oh, come and rest in a place with no yelling

Where the hummingbird lays her nest.


      The song is a whimsical, comforting folk song that paints a picture of a peaceful, domestic sanctuary. It focuses on simple joys—like wind chimes and baking—and escaping the chaos of the outside world to find a safe space of your own.  What a wonderful unique beam of light.


Briton Rivière - Circe and her Swine



      In Homer’s Odyssey, Circe lives alone on an island. She is skilled, intelligent, self-sufficient. Men arrive at her door expecting hospitality and dominance. Instead, she gives them wine laced with magic and turns them into pigs.

      For centuries, that transformation has been read as punishment, but Circe does not hunt men. They come to her. They enter her space, consume what she offers, assume control. And suddenly they are revealed as what they already are greedy, impulsive, ruled by appetite. The spell doesn’t create the pig. It exposes it.


Gioconda Belli - Culpas obsoletas

 


Como será, pergunto eu,

não sentir continuamente que devíamos

ocupar vários espaços ao mesmo tempo?

Não pensar, enquanto nos deitamos com um livro,

que devíamos estar a fazer outra coisa?

Assumir, como os homens fazem,

a importância do tempo

que dedicamos ao nosso enriquecimento.


Nós, mulheres,

sentimos sempre

que estamos a roubar o tempo a alguém.

Que talvez nesse preciso instante

alguém nos reclama e

não pode contar connosco.

Precisamos de muito treino

para não nos apagarmos, constantemente,

para não nos minimizarmos.


Ah! Mulheres, companheiras!

Quando é que nos convenceremos

de que aquele gesto

de oferecer a maçã a Adão

foi muito sábio?


Tradução de A.M.


Original:


Cómo será, me pregunto,

no sentir incesantemente

que uno debería ocupar varios espacios al mismo tiempo?

No pensar, mientras se tumba uno con un libro,

que se debería estar haciendo otra cosa.

Asumir, como hacen los hombres,

la importancia del tiempo

que dedicamos al propio enriquecimiento.


Las mujeres

tenazmente sentimos

que le estamos robando tiempo a alguien.

Que quizás en ese preciso instante

se nos requiere

y no se cuenta con nosotras.

Precisamos

todo un entrenamiento

para no borrarnos, minimizarnos,

constantemente.


¡Ah! ¡Mujeres, compañeras mías!

¿Cuándo nos convenceremos

de que fue sabio el gesto

de extenderle a Adán

la manzana?


      O poema denuncia a culpa persistente que muitas mulheres sentem ao dedicar tempo a si próprias. A autora critica as expectativas sociais que impõem disponibilidade constante e desvalorizam o crescimento pessoal feminino. A referência final à maçã de Eva reinterpreta o mito bíblico como símbolo de emancipação e conhecimento. Assim, o poema desafia estereótipos de género e apela à libertação das culpas impostas pela tradição patriarcal.


Alice Boavista - Boa Nova



Caro amigo como vais? Já faz tempo sem te ver

Vou direto à boa nova que te escrevo.

(Como vais? Como vens?)


Já senti o pé tricor, tricotei essa raiz

E se o mar cobriu a areia quero voltar.


De candeia às avessas com sete pedras na mão

Peço, corro para ti com pezinhos de lã

Mas deixa esse lugar-comum que longe não se vê

Rio, jardim, penumbra, rua que estou a perder.


Tricotei o som do mar, já senti o pé tricor

A raiz cobriu a areia, quero voltar.

(Como vais? Como vens?)


Sem te ver eu vou direto, como vais meu caro amigo?

Já faz tempo que te escrevo a boa nova.


Sou jardim à beira-mar, plantação de vento e cor

Casa aberta à boa nova podes voltar.

(Como vais? Como vens? Quando vens?) 


      "Natural de Marco de Canaveses, Alice Boavista constrói aqui uma narrativa centrada na saudade, na memória e na relação afetiva com os lugares que moldam a identidade de cada pessoa. Através da forma de uma carta imaginária, a canção dá voz a alguém que se dirige a um lugar ausente, alimentando a esperança de um futuro reencontro e do regresso a um espaço que continua vivo na memória.

      A cantora, compositora e maestrina Alice Boavista procura criar uma ponte entre a música tradicional portuguesa e uma linguagem autoral contemporânea. Entre 2021 e 2025 foi maestrina do Coro de Santa Joana e integra atualmente vários projetos, como Quarteto Nota do Meio, Marca 4 D’Água, Gomo de Tangerina, Eiró, Crua e Zêzere Arts Vocal Ensemble." 

        in, RadioB

 

Sir George Clausen - Evening Song, 1893



      The painting describes a girl at dusk, pausing in quiet reflection as the day's labour ends. Bathed in a strange yellowish warm fading light, the figure blends harmoniously with the surrounding landscape, conveying serenity and a deep connection to nature. Like Moses, she seems to stare at a misterious God.


Wallace Stevens - Paráfrase Lunar

 


A lua é a mãe do patético e da piedade.


Quando, no mais fastidioso fim de Novembro,

a sua velha luz se alonga pelos ramos,

frágil, lentamente, dependendo deles;

Quando o corpo de Jesus queda num palor,

humanamente próximo, e a figura de Maria,

tocada pelo orvalho, se recolhe num abrigo

feito de folhas, que apodreceram caíram;

Quando sobre as casas, uma ilusão dourada

traz de volta uma época primitiva de paz

e sonhos pacificadores às pantufas no escuro –


A lua é a mãe do patético e da piedade.


   A tradução  é de Jorge Fazenda Lourenço e a pintura de Edward Mason Eggleston.


      O poema explora a relação entre imaginação e realidade através da imagem da lua. O poeta sugere que a perceção do mundo depende do olhar humano, transformando o real em algo simbólico e subjetivo. Assim, o poema valoriza a criatividade como forma de interpretar e reinventar a realidade.


Sophia de Mello Breyner Andresen - Há muito

 


Há muito que deixei aquela praia

De grandes areais e grandes vagas

Mas sou eu ainda quem na brisa respira

E é por mim que espera cintilando a maré vazia


      O poema reflete sobre a passagem do tempo, a distância entre o passado e o presente. O sujeito poético evoca recordações, revelando a perda de algo valioso, convidando o leitor a refletir sobre a condição humana e a transformação inevitável da vida.


Gabrielle Hope - Me and you



There's me and you, you and me

And both of us, guess that makes we

And me and you will never be apart

I knew you were the only one

When you said that you liked

My momma's orange Italian knitted scarf.


And I like the way your face is held

By coveralls and button-ups

And the oil from your truck when it won't start

You like the way I play the strings

And cartwheel when I can't think of things

And you like the way my hair falls in its part.


There's me and you, and you and me

And both of us, guess that makes we

And me and you will never be apart

I'm your lover, I'm your friend

It's me and you to the end

Till we're both so deaf, we can't hear each other talk.


But I won't care, I'll hold your hand

We'll eat ice cream and sit in sand

Tap three times to tell her you know what.


I love you

There's me and you, and you and me

And both of us, guess that makes we

And me and you will never be apart.


      That was the best I love you song I've ever heard. And you vibe delightful and innocent. The look of you, the sound of you, your style the way you put that together. I would sacrifice myself to protect you from any harm. This makes my heart happy. I can’t put into words the feelings this gives me.

  In the video notes it is said:

      "Gabrielle Hope was born in the mountains of Tennessee, she later relocated Shenandoah Valley, VA when she was 13.  She learned to sing in church and drew inspiration from the mountain music and old gospel hymns that would eventually go on to be the building blocks for country music and ballads that we hear today.  Gabrielle is looking to bring light to the traditional Appalachian sounds that have been lost and forgotten over time. She enjoys traditional folk music and draws inspirations from Jean Ritchie Richie, Sierra Ferrell, and Sibylle Baire."


Eivind Nielsen - Reading woman in a summer landscape, 1896



      A woman sits absorbed in her book amid a sunlit summer landscape, surrounded by soft greenery and open space. Warm light, delicate brushwork, and harmonious natural tones create a calm, reflective atmosphere. The painting captures the peaceful intimacy of reading outdoors during a tranquil summer day.


Julia Bellido - O poema / El Poema

 


É uma queda

num abismo de sede que nunca acaba

e onde vamos ardendo.


É como um arranhão

ou punhalada,

o aguilhão, de repente, de uma abelha.


Um gole de vodka

numa madrugada de verão

onde não esperavas já

encontrar ninguém.


E é a um tempo tão breve,

e vai-se a ver tão simples

como uma concha de água que se vira.


  Tradução A.M.


  Original:


Es un precipitarse

a un abismo de sed que nunca cesa

y al que vamos ardiendo.


Es como un arañazo

o una puñalada.

El aguijón, de pronto, de una abeja.


Un chupito de vodka

en una madrugada de verano

donde ya no esperabas

encontrarte con nadie.


Y es a la vez tan breve,

y resulta tan simple

como un cuenco de agua que se vuelca.


      No poema, a poesia surge como uma força viva, capaz de dar sentido à experiência humana e de transformar o quotidiano. O sujeito poético reflete sobre o próprio ato de escrever, sugerindo que o poema nasce da observação, da memória e da emoção. A linguagem é simples, mas carregada de simbolismo, privilegiando a intimidade e a autenticidade.


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