Chulada da Ponte Velha: Espanta Pardejos + Passarinho



Xé, ladrões

Inde p'r`ó monte

Comer saltões

Que lá tem mel

E aqui tem fel!


Agarrei o passarinho!

Agarrei o passarinho antre a treia do centeio.

Ó ladrão que te regalas!

Ó ladrão que te regalas com o passarinho alheio.


Sou ferreiro, faço ferro,

também faço vergas d' aço!

Faço orelhas a meninos

sem medida nem compasso!


Sou poeta, planto versos,

também cavo muitas letras!

Faço línguas para os bichos

pr’a que digam muitas tretas!


Apanhei a joaninha!

Apanhei a joaninha antre as folhas de um faval.

Ó ladrão que te regalas!

Ó ladrão que te regalas c'a carocha no Natal.


Acacei a formiguinha! (bis)

Acacei a formiguinha antre as pedras do terreiro.

Ó ladrão que te regalas! (bis)

Ó ladrão que te regalas c'o a trabalhinho alheio.


      A Chulada da Ponte Velha é um projeto musical português dedicado à recolha, revitalização e reinvenção das práticas musicais tradicionais do Entre Douro e Minho, com especial destaque para as chulas dos descantes.


Emil Keyser - Kinder beim Ringelreihenspiel



      A pintura representa um grupo de crianças envolvidas numa brincadeira tradicional de roda. A composição transmite alegria, espontaneidade e inocência, captando a energia própria da infância. Os movimentos coordenados, os gestos e a proximidade entre as figuras sugerem cumplicidade e espírito de grupo. A cena evoca um ambiente despreocupado, onde a brincadeira assume um papel central na socialização e na descoberta do mundo.


Ezra Pound – A Rapariga / The Girl



A árvore penetrou as minhas mãos,

A seiva ascendeu pelos meus braços,

A árvore cresceu-me no peito -

Para baixo,

Os ramos crescem fora de mim, como braços.


Árvore és tu,

Musgo és tu,

Tu és violetas com o vento acima delas.

Uma criança – tão alta – és tu,

E tudo isso é loucura para o mundo.


  Tradução de J. T. Parreira


  Original:


The tree has entered my hands,

The sap has ascended my arms,

The tree has grown in my breast-

Downward,

The branches grow out of me, like arms.


Tree you are,

Moss you are,

You are violets with wind above them.

A child – so high – you are,

And all this is folly to the world.


      O poema explora a transformação provocada pelo amor, apresentando a mulher como uma presença que altera profundamente a identidade do sujeito poético. A beleza da rapariga é a beleza da árvore. O poema exprime a dificuldade de compreender essa transformação interior, revelando a tensão entre a experiência amorosa e a consciência de si próprio.


Song For You - Björn Ehlien & Nine Antwort

 


This is a song for you

That you can listen to

Whenever you feel

The world is coming down on you boy


I know what you´ve been through

On the darkest of your days

Now you shine like a star

And I´m reaching out for you boy


Life is so short

Try to keep your head up high

One day you´ll be old

And I will roam the starry sky

Some things may change

But my love carries a light that shines for you boy

And it won´t be blown away


And when I was your age

I had the purest thoughts

But I broke like a chain

That someone pulled too hard


My grandma loved me well

On that I had no doubt

When she passed in November

I was crying all my eyes out boy


Life is so short

You get born and raised and then you die

One day you´ll be old

And wonder how the day´s gone by

Some things may change

But my love carries a light that shines for you boy

And it won´t be blown away


Life is so short

So make it your time.


      In the video notes, we can read: "‘Song for You’ is a personal gift for my foster son, who is now seven years old. One evening, as we were getting ready for bed, he asked me out of the blue, whether I’d still look after him once I’d passed away. I think I just stammered something, as I was so taken aback.

      The question really got me thinking. A few days later, whilst I was lost in thought and improvising on my guitar, this melody popped into my head and the words just poured out of me. Enjoy listening, and feel free to drop me a line if you like."


Theodore Gerard - Girl Reading a Letter



      The painting captures an intimate moment of quiet reflection. A young girl is absorbed in a letter, her attention suggesting curiosity, anticipation or perhaps concern about its message. The painting’s warm, earthy colours create a gentle, nostalgic atmosphere, while the careful rendering of the figure and surroundings adds realism and charm. The curiosity of the dog is also a mistery.


José Manuel Benítez Ariza - In memoriam

 


Agora sou eu quem está

na linha de partida;

não te aflijas, mãezinha,


com a vantagem que levas,

o tempo aí e a distância

medem-se de outra maneira;


e ao fim e ao cabo, dá no mesmo,

no nada que seremos,

quem foi antes, quem depois.


  Tradução A.M.


  Original:


Ahora soy yo quien está

en la línea de salida;

no te preocupes, mamá,


por la ventaja que llevas:

ahí el tiempo y la distancia

se miden de otra manera;


y, al fin y al cabo, da igual,

en la nada que seremos,

quién fue antes, quién detrás.


      O poema evoca a memória da mãe ausente, transformando a recordação num gesto de homenagem. Nele, a condição humana é dissolvida no tempo e o tempo dissolve a condição humana. Somos, apenas, breves. A tela é da americana Mary Cassatt.


Julia Andersson – Forever the Forest Sings



      Julia Andersson is a Swedish speaking Finn. Here, her music encapsulates the essence of nature.


Samuel McCloy - The new girl



      The New Girl is a watercolour by the Irish artist Samuel McCloy (1831–1904). The painting belongs to his body of figurative works, reflecting his interest in everyday life. A girl entering primary school for the first time. Through delicate watercolour techniques, McCloy evokes the intimate atmosphere characteristic of Victorian genre painting.


María Belén Aguirre - No dia em que meu pai / El día en que mi padre

 


No dia em que meu pai nos abandonou da primeira vez,

ela disse para mim:

- "Maria, vem cá, temos de falar".

Puxou um cadeirão,

sentou-me no colo

e fitou-me.

- "Tu, agora, és o homem da casa" – disse-me.


E eu assenti.


  Tradução de A.M.


  Original:


El día en que mi padre nos abandonó por primera vez,

ella me dijo:

"-María, venga. Tenemos que hablar".

Puso un sillón en la galería.

Me sentó sobre sus piernas.

Me miró.

"-Ahora Ud. es el hombre de la casa", me dijo.


Asentí.


      O poema explora a ausência paterna e as marcas emocionais deixadas pelo afastamento. O título sugere um momento decisivo, capaz de transformar a perceção do passado e do presente. A figura do pai assume um valor simbólico, enquanto María (crioso, não a mãe) assume o poder.


Chris Orange - Fenix

 


Campanas angelicales que ahora vienen subiendo

Mensajes dimencionales que ahora vengo conprendiendo

Campanas angelicales que ahora vienen subiendo

Espacios dimencionales que ahora vengo recorrendo.


Pinta dragon, pinta guacamayo

Pinta fenix, pinta yage

Pinta guacoya, pinta guachumita

Pinta san pedrito lleno de poder.


Ey lerey lerey reley le lerey le lerey

Ey lerey lerey reley le lerey le lerey

Ey lerey lerey reley le lerey le lerey

Ey lerey lerey reley le lerey le lerey huuux.


Ese fenix viene volando

Por los cielos con sus alas

Va despegando, levantando vuelo

Iluminando nuestro caminho.


Oh sagrado abuelo

Crece lindo guachumero arbolito

Lindo cactus espinoso lleno de luz

Estrellita de poder.


Ilumina nuestro cuerpo

Fenix dorado luminoso

Llevanos en el camino

Donde nadie este perdido.


Va fluyendo como el fuego

Como el agua, como el aire

Purificando nuestros corazones

Ay mi tierrita viene sonrriendo.


Chas ca ñaui agui chu

Cura taita killa inti

Uma sacha zairi protector

Ay tabaquito libranos del mal.


Canchaña ninchis huaca hampi

Zairi ri ri ri ri ri zairi ri sana naina zairi

Ay maru ay maru.


      Fenix is an original song written and performed by Chris Orange at an event for the Sacred Circle Collective.  


William Henry Midwood - The Parting Of Burns And His Highland Mary



      The painting depicts the poignant farewell between Scottish poet Robert Burns and Mary Campbell, the woman he passionately loved. Set against a picturesque rural landscape, the painting evokes the tenderness and sadness of two lovers facing separation. Midwood’s careful attention to the figures, costumes and natural surroundings enhances the scene’s romantic atmosphere. The work transforms a brief historical episode into a timeless reflection on love, longing and the pain of parting. 

                                                 

Ezra Pound - Antiga sabedoria, um tanto cósmica



So-shu sonhou,

E tendo sonhado que era um pássaro uma abelha e uma borboleta,

Pensou com seus botões para que procurar sentir-se como qualquer outra coisa,

Daí sua satisfação.


    Tradução de M. Faustino

      O poema explora a relação entre identidade, liberdade e felicidade. No sonho, So-shu transforma-se sucessivamente num pássaro, numa abelha e numa borboleta, assumindo diferentes formas de existência. Contudo, ao despertar, questiona a necessidade de ser diferente daquilo que realmente é. Esta reflexão sugere que a satisfação nasce da aceitação de si próprio, sem procurar incessantemente outras identidades. Com simplicidade e humor, o poema valoriza o autoconhecimento, a naturalidade e a tranquilidade interior.

Clã Colibrís - Ventre Negro



  Eu nasci de um ventre negro

  Eu vim,

  Eu nasci de um ventre negro

  Eu vim.


Nutrindo minhas raízes eu floresço em toda a terra

Eu saúdo a mamãe África

Eu saúdo a nossa era.


Cabocla pega no laço já dizia minha Vó

Eu honro as minhas ancestras

Eu já não caminho só.


      Clã Colibrís é um grupo musical e coletivo artístico brasileiro conhecido por criar e interpretar canções de rezo e cânticos de conexão espiritual, sagrado feminino e exaltação à natureza. Essas canções funcionam como "medicina" para a alma, misturando mantras, toadas e cantos de tradições indígenas, afro-brasileiras e da floresta (como temas dedicados a Iemanjá, Exu Guardião e o arquétipo do feminino).


Caroline Emilie Mundt (Danish painter, 1842–1922) - Two Children "The Gift", 1878



      It portrays a tender childhood scene, capturing a moment of sharing and quiet affection. The children’s interaction suggests innocence, generosity and the simple pleasure of receiving something special. Mundt’s naturalistic approach lends the scene an intimate, everyday quality, while the careful depiction of the young figures invites the viewer to imagine their relationship and feelings. Through this domestic subject, the Danish painter celebrates childhood’s emotional richness, reminding us that even a small gift can express kindness, strengthen bonds and create lasting happiness.


Franklin Carmichael ( 1890-1945) - Autumn on the hills, 1932



      The Painting captures the rugged beauty of the Canadian landscape in autumn. Rolling hills, covered with colourful trees and vegetation, display rich shades of gold, orange, red and green. The composition emphasises the natural contours of the land, while distant hills create a sense of depth and spaciousness. Carmichael’s bold forms and simplified shapes reflect his association with the Group of Seven. The painting celebrates Canada’s wilderness, transforming seasonal change into a powerful expression of colour, light and harmony.


Bob Dylan - What Good Am I? / Para que sirvo eu? - Louise Hoffsten's cover

 


Para que sirvo eu se sou como todos os outros

Se simplesmente me afasto ao ver como te vestes

Se me fecho em mim mesmo pra não te ouvir chorar

Para que sirvo eu?


Para que sirvo eu se sei e não ajo

Se vejo e não digo, se através de ti contemplo

Se me faço de surdo ao céu troante

Para que sirvo eu?


Para que sirvo eu enquanto choras suavemente

E escuto na minha mente o que dizes durante o sono

E logo regelo como os que nada fazem

Para que sirvo eu?


Para que sirvo eu então aos outros e a mim

Se tive todas as chances e falhei mesmo assim

Se tenho as mãos atadas e não me interessa

Quem as atou nem porquê nem onde devia eu estar?


Para que sirvo eu se digo disparates

E rio na cara do que a tristeza traz

E apenas volto as costas enquanto morres em silêncio

Para que sirvo eu?


  Tradução de Henrique Manuel Bento Fialho.


  Original:

What good am I if I'm like all the rest,

If I just turned away, when I see how you're dressed,

If I shut myself off so I can't hear you cry,

What good am I?


What good am I if I know and don't do,

If I see and don't say, if I look right through you,

If I turn a deaf ear to the thunderin' sky,

What good am I?


What good am I while you softly weep

And I hear in my head what you say in your sleep,

And I freeze in the moment like the rest who don't try,

What good am I?


What good am I then to others and me

If I've had every chance and yet still fail to see

If my hands tied must I not wonder within

Who tied them and why and where must I have been


What good am I if I say foolish things

And I laugh in the face of what sorrow brings

And I just turn my back while you silently die,

What good am I?


      "What Good Am I?" is a song written and recorded by Bob Dylan for his 1989 album Oh Mercy. The song is a deeply introspective and moral piece centred on radical self-honesty, empathy, and personal culpability. Through a series of pressing rhetorical questions, Dylan interrogates his own conscience—asking what value a person has if they turn away from others' suffering, ignore injustice, stay silent when they see pain, or freeze in moments when they could try to help.


Carl Frederik Aagaard - Italians under an aqueduct in a high-lying town at a lake, 1878



      The painting depicts a picturesque Italian landscape where traditional architecture meets the tranquillity of nature. Beneath the imposing aqueduct, figures gather along a pathway, bringing human warmth to the historic setting. The elevated town and nearby lake suggest a Mediterranean atmosphere, while the ancient stonework evokes the passage of time. Through careful detail, balanced composition and natural colours, Aagaard celebrates Italy’s architectural heritage and the timeless beauty of its countryside.


Ana Blandiana - Sem saber / Sin saber

 


Evidentemente não sou

como esses fiandeiros de palavras

que fazem as roupas e as corridas de agulha,

as glórias, os orgulhos,

apesar de me mover no meio deles

e eles me olharem as palavras como se fossem malhas

– "Que bem posta que vais!", dizem-me,

– "Que bem que te fica o poema!"

sem saber

que os poemas não são o meu vestido,

mas o esqueleto

extraído com dor

e posto por cima da carne como uma carapaça,

tal como as tartarugas,

que assim sobrevivem

séculos

longos e infelizes.


  Tradução de A.M.


  Original:


Por supuesto que no me parezco

A ninguno de esos tejedores de palabras

Que tejen trajes y carreras,

Vanidades, orgullos,

Aunque me mueva entre ellos

Y ellos miren mis palabras como si fueran jerséis

"¡Qué bien vistes!", —me dicen,

"¡Qué bien te va el poema!",

 Sin saber

Que los poemas no son mi vestimenta

Sino mis huesos

Extraídos dolorosamente

Y colocados sobre mi carne como un caparazón

A imitación de las tortugas

Que sobreviven así

Durante largos e infelices

Siglos.


      O poema refuta a poesia cosmética e artificial dos "fiandeiros de palavras". Distanciando-se de quem usa o verso para construir vaidades e carreiras, a autora defende que a escrita autêntica não é um adorno ou vestuário social. Pelo contrário, o poema surge como o seu próprio esqueleto exposto, extraído através da dor. Utilizando a metáfora da carapaça da tartaruga, Blandiana apresenta a criação poética como um mecanismo doloroso, mas vital.


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