Amanda Esh - Wildflowers don't care where they grow



The hills were alive with wildflowers

And I was as wild, even wilder than they 

For at least I could run, they just died in the sun

And I refused to just wither in place.


  Just a wild mountain rose, needing freedom to grow

  So I ran fearing not where I'd go

  When a flower grows wild, it can always survive

  Wildflowers don't care where they grow.


And the flowers I knew in the fields where I grew

Were content to be lost in the crowd

They were common and close, I had no room for growth

I wanted so much to branch out.


So, I uprooted myself from home ground and left

Took my dreams and I took to the road

When a flower grows wild, it can always survive

Wildflowers don't care where they grow.


I grew up fast and wild and I never felt right

In a garden so different from me

I just never belonged, I just longed to be gone

So the garden, one day, set me free.


I hitched a ride with the wind and since he was my friend

I just let him decide where we'd go

When a flower grows wild, it can always survive

Wildflowers don't care where they grow.


      The song metaphorically portrays the journey of self-discovery and the pursuit of freedom. The wildflowers symbolize resilience and the ability to thrive in any environment, reflecting the artist's desire to break free from conformity and explore unknown paths in life.


Michael Taylor - Girl with water jug, 2003



      The painting presents a quiet, intimate moment rendered with restrained lyricism where a middle-aged woman faces her destiny. The water in the jar is mixed in forms and colours waiting to be purified and clear. So is her mind. 


Agustín García Calvo - Não tentar a má sorte

 


Ser um mau poeta,

constatá-lo se for preciso,

e de manhã levantar muito tarde,

esticar os versos

como quem junta pedrinhas

e depois as joga à corrente,

e à noite levantar mais tarde ainda,

e depois as joga à ressaca,

tirar uma palavra à sorte

e dar voltas e mais voltas

pela cidade, junto com ela,

agarradinhos pela mão,

escolher uma palavra gigante,

hermafrodita, por exemplo,

e passeá-la contigo

pelo meio da multidão desacostumada,

e depois levantar, outra vez, muito tarde

pela manhã, com ela já ausente,

lavar as mãos e os dentes,

sentar a escrever e esperar,

esperar, até cansar de esperar,

limpar o pó e fazer a cama,

descobrir debaixo da mesa

centenas

de objeções mortas

e um despertador alienado

que gira e volta a girar, impassível

frente às tuas horas de sono ou de insónia.


      O poema propõe uma atitude de recuo crítico perante a pretensão humana de controlo. A “má sorte” funciona como metáfora do real imprevisível, que se volta contra quem tenta dominá-lo. O tom é irónico e sentencioso, próximo da oralidade, reforçando a ideia de um saber popular que desafia a racionalidade moderna. O poema questiona a confiança excessiva na vontade individual e no progresso, sugerindo que o silêncio, a espera e a renúncia podem ser formas de resistência.


Números 6, 22-27

 


O Senhor disse a Moisés:

«Fala a Aarão e aos seus filhos e diz-lhes:

'O Senhor te abençoe e te proteja.

O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face

e te seja favorável.

O Senhor volte para ti os seus olhos

e te conceda a paz'».


      «Os pesadelos de Lovecraft, as visões de Philip K. Dick e a inquietante matemática de Hilbert – dissolvidos neste espaço infernal a que chamamos Internet – acabaram por se tornar qualquer coisa que se assemelha ao nosso mundo. Ou pior, que o é.» 

      Roberto Calasso


An AI Shortfilm - Serene Countryside


How enchanting!


Été 85, 2020, dir. François Ozon

 


      Set on the windswept coast of Normandy, the film traces the intense bond between sixteen-year-old Alexis and the slightly older, magnetic David after a boating accident brings them together. What begins as a dazzling summer romance soon darkens into something more fragile and dangerous, as youth, desire, and recklessness collide.

      Beneath the seaside charm lies a meditation on memory, grief, and the way a single season can echo across a lifetime. It asks how we carry those early, defining encounters long after the sun has set on them.

      Premiering at Cannes 2020, the film was widely praised for its craftsmanship, atmosphere, and affecting performances.


Herbert William Weekes - Bañándose con los cerdos


Que 2026 seja um bom ano.


Ana Salomé - Ode ao castigo

 


Só mais uma menina entre outras

E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz

Como um erro ortográfico do coração.


Castigo.

Entre nós o alto muro do recreio

E a obrigação de permanecer só.


Laura Ponce - De quando e agora

 



Quando eu me aferrava à tristeza

com a mesma insistência

dos cães a rondar os sacos do lixo,

o mundo era um lugar

menos amável mas seguro,

e eu podia prever o rito funerário.

Agora,

a felicidade plausível

tem um espinho,

isso do

desassossego.


   A tela é de Edward Hopper.


Charles Sillem Lidderdale - The young faggot-gatherer, 1894



      It presents a rural girl pausing amid gathered sticks, rendered with meticulous academic realism. Earthy browns and muted greens anchor the scene, while soft daylight models the youth’s face and worn clothing. The bundle of twigs signifies humble labour and seasonal survival. Calm posture and distant gaze lend introspection, balancing sentiment with restraint, and elevating everyday toil into a quietly dignified, pastoral moment.


Brigitte Bardot - Moi Je Joue, 1964



Moi je joue

Moi je joue à joue contre joue

Je veux jouer à joue contre vous

Mais vous, le voulez-vous?


De tout cœur

Je veux gagner ce cœur à cœur

Vous connaissez mon jeu par cœur

Alors défendez-vous.


Sans tricher

Je vous le promets

J'ai gagné

Tant pis c'est bien fait

Vous êtes mon jouet.


À présent

Ce ne sera plus vous mais toi

Et tu feras, ça t'apprendras

N'importe quoi pour moi.


Sans m'en faire

Je vais t'assurer

Un enfer

De griffes et de crocs

Tu crieras bientôt.


Au secours

Alors décidant de ton sort

Pour m'éviter quelques remords

Je t'aimerais plus fort.


Oh oui, plus fort

Oui, oui, oui, oui, plus fort

Ah, plus fort

Oui, oui ah

Oh, plus fort, oui

Aïe, aïe, aïe!


    Brigitte Bardot c'est beau, Brigitte Bardot c'est chaud!


Julia Gutiérrez - Das formas disponíveis



Das formas possíveis

de chegar a uma ilha deserta

destaco duas: por erro ou por amor.


Nenhuma tem a ver com o transporte

nem a ilha tem de ser um bocado de terra.



António Gregório - Carpintaria

 


Sobretudo tive pena de quem lhe fez

o caixão porque a morte creio é cheia de horas

mortas e o meu avô carpinteiro igual a

ele irá perscrutar cada pormenor da

obra do seu caríssimo colega. Já

o vejo desdenhoso abanando a cabeça

descarnada aos primeiros sinais de cedência

prematura da madeira à pressão da terra.


Charles Aznavour - Noël à Paris



C'est Noël chéri et nous sommes à Paris

C'est Noël chéri et tous ceux que nous aimons sont loin

Bien loin d'ici étrange fête

Sans nos enfants sans nos parents sans nos amis

Ce soir nous souperons en tête à tête ma chéri.


C'est Noël mon Coeur et nous sommes à l'hôtel

Moi le voyageur moi le nomade éternel

Toujours tombant du ciel et que m'importe

Seule avec toi je suis heureuse au coin du feu

Tous les sapins du monde tu les portes dans tes yeux.


Restons ici, n'allons pas à l'église

J'ai fait dresser la table pour dîner

La chambre est tout encombrée de valises

Mais il faut peu de place pour s'aimer.


C'est Noël chéri et nous voici réunis

Dans Paris tout gris tout maussade et tout contrit

Sans neige et sous la pluie Dieu me pardonne

Nous connaîtrons des réveillons plus solennels

Ce soir embrassons-nous car minuit sonne c'est Noël.


      Très jolie, cette chanson, je ne la connaissais pas. Joyeux Noël à tous!


Norman Rockwell - Is he coming? 1919



O que nos faz acreditar assim? Ele existe, ele vem.


Ana Blandiana - Humildade



Nada posso fazer para que o dia

não tenha vinte e quatro horas.

Apenas posso dizer:

perdoa-me pela duração do dia.

Também não posso impedir

o voo das borboletas a partir das larvas.

Apenas posso implorar o teu perdão,

pelo voo das borboletas, pelas larvas,

perdoa-me pelas flores que se transformam em frutos

e os frutos em sementes e as sementes em árvores.

Perdoa-me pelos mananciais

que se convertem em rios e os rios

em mares e os mares em oceanos.

Perdoa-me pelos amores

que se transformam em recém-nascidos

e os recém-nascidos em solidões

e as solidões em amores.

Nada posso impedir.

Tudo segue o seu destino e nunca me pergunta nada.

Nem o último grão de areia, nem sequer o meu sangue.

Apenas posso dizer: perdoa-me.


      O poema reflete sobre a condição humana diante do tempo e do absoluto. A humildade surge como forma de lucidez: aceitar a vida como ela é, os limites, o silêncio e a fragilidade da resposta pequena. Daí o pedido de perdão.


Gabriel Zaíd



O sol explode:

               desaba

para refrescar-se na tua alegria.

Ondas rebentam do teu peito

e eu banho-me no teu riso.


Ondas altas e sóis

de praias distantes.

O teu riso é a Criação

feliz de ser amada.


Saltabraz - Gaudete Christus Est Natus



Gaudete! gaudete!

Christus est natus ex Maria virgine

Gaudete!


1. Tempus adest gratiae, hoe quod optabamus;

carmina laetitiae devote reddamus.

2. Deus homo factus est, natura mirante;

mundus renovatus est a Christo regnante.

3. Ezecaelis orta clausa per transistur;

unde lux est orta, salus invenitur.

4. Ergo nostra contio psallat iam in lustro;

Benedicat Domino; salus regi nostro.


Rejoice, rejoice! Christ has born

Out of the Virgin Mary

Rejoice!


1. The time of grace has come — what we have wished for,

songs of joy Let us give back faithfully.

2. God has become man, (with) nature marvelling,

The world has been renewed by Christ (Who is) reigning.

3. The closed gate of Ezekiel is passed through,

Whence the light is raised, salvation is found.

4. Therefore, let our preaching now sing in brightness

Let it give praise to the Lord: greeting to our King.

 

    Scandinavian Chant de Noël.  Most Excellent!


Delmira Agustini - O inefável

 


Eu morro de modo estranho... Não é a vida

que me mata, nem a morte, nem o amor,

mas um pensamento, calado como ferida.

Não sentistes nunca a estranha dor


de um pensamento imenso agarrado à vida,

que devora alma e carne e não chega a dar flor?

Não tivestes nunca dentro uma estrela adormecida

que vos queimava e não tinha fulgor?


Ó cabo dos Martírios! Carregar eternamente,

árida e estéril, a trágica semente

cravada nas entranhas como um dente feroz!


E um dia arrancá-la numa flor abrindo,

milagrosa, inviolável!... Como quem, sorrindo,

segurasse nas mãos a cabeça de Deus!


      Delmira Agustini nasceu em Montevidéu em 1886 e morreu na mesma cidade em 1914, morta aos 27 anos pelo ex-marido. Educada em família próspera, compôs os seus primeiros versos aos dez anos de idade, estudou francês, que falava fluentemente, e executava ao piano peças de Bach, Beethoven e Chopin, além de se dedicar ao desenho e à pintura. Abandonou a música e as artes visuais para se ocupar exclusivamente da literatura, que considerava a sua grande vocação. Neste soneto ela carrega a dor de um pensamento e a beleza da solução.


Richard Bergh - Nordic Summer Evening



      It depicts a quiet Scandinavian waterline at dusk, suffused with pale, lingering light. Cool blues and muted greens dominate, reflecting the calm of northern summer nights. A man and a woman stand contemplatively by the water, blending into the landscape. The horizon glows softly, suggesting endless twilight. The painting conveys stillness, introspection, and a subtle emotional tension between human presence and vast, serene nature. Silence feels almost audible, emphasizing time suspended between day and night in Nordic stillness.



Mes petites amoureuses, 1974, dir. Jean Eustache

 


      In a quiet village near Bordeaux, Daniel lives a carefree childhood under the care of his grandmother until his mother calls him to join her in Narbonne. Pulled out of school, he begins working as an apprentice in a moped repair shop and comes into contact with older boys who introduce him to the world of girls and male bravado. As his rural innocence fades, Daniel grapples with belonging, identity, and the uneasy transition from boyhood to adolescence.


Logan Institute Singers - Mary, Did You Know?



Mary, did you know that your baby boy would one day walk on water?

Mary, did you know that your baby boy would save our sons and daughters?


Did you know that your baby boy has come to make you new?

This child that you've delivered will soon deliver you.


Mary, did you know that your baby boy would give sight to a blind man?

Mary, did you know that your baby boy would calm the storm with his hand?


Did you know that your baby boy has walked where angels trod?

When you kiss your little baby you kiss the face of God.


Mary, did you know? Mary, did you know? Mary, did you know? Mary, did you know?

The blind will see, the deaf will hear the dead will live again.

The lame will leap, the dumb will speak the praises of the lamb.


Mary, did you know that your baby boy is Lord of all creation?

Mary, did you know that your baby boy would one day rule the nations?


Did you know that your baby boy is Heaven's perfect lamb?

This sleeping child you're holding is the great I Am.


      "Mary, Did You Know?" is a Christmas song addressing Mary, mother of Jesus, with lyrics written by Mark Lowry in 1984, and music by Buddy Greene in 1991. The text has received both praise for reflecting the love of God, as well as criticism for perceived ambiguity or lack of theological depth.


Irving Ramsey Wiles - The Corner Table, 1886



      The painting depicts a quiet café interior bathed in soft, subdued light. A well-dressed woman sit at a small table tucked into a corner, suffers from being alone. The composition emphasizes intimacy and modern urban leisure, reflecting late-nineteenth-century realism with subtle Impressionist influence.


José Jorge Letria - Ode aos Natais Esquecidos

 



Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta

que dava acesso aos mistérios da noite,

daquela noite em particular, por ser a mais terna

de todas as noites que a minha memória

era capaz de guardar, com letras e sons,

no seu bojo de coisas imateriais e imperecíveis.

Tinha comigo os cães e os retratos dos mortos,

a lembrança de outras noites e de outros dias,

os brinquedos cansados da solidão dos quartos,

os cadernos invadidos pelos saberes inúteis.

E todos me diziam que era ainda muito cedo,

porque a meia-noite morava já dentro do sono,

no território dos anjos e dos outros seres alados,

hora inatingível a clamar pela nossa paciência,

meninos hirtos de olhos fixos na claridade

enganadora de uma árvore sem nome.


Depois, o meu pai morreu e as minhas ilusões também.


Quando Dezembro se aproximar do fim,

lançarei pétalas ao vento como se tentasse

semear o perfume do que fui enquanto acreditei.

Talvez o homem volte com outro embrulho secreto,

só para me dizer que esse é o livro que ainda me falta escrever.

Então, juntarei os amigos, os filhos e os netos

numa roda de luz à minha volta e direi do Natal

o que os antigos diziam dos heróis e dos deuses:

foi à sombra deles que nos fizemos homens.

Quando eu partir de vez, lembrem ao menos

a ternura do meu sorriso de menino

quando a meia-noite soava no relógio da sala

e eu acreditava ainda que a felicidade era possível.


      O poema constrói uma reflexão melancólica sobre a perda do sentido humano do Natal. O eu poético evoca os Natais da infância marcados pela magia, contrastando-os com a celebração adulta, dominada por uma festa esvaziada da antiga beleza.


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