A true gem of Art Nouveau



      This very beautiful door was designed by the Italian architect Pietro Fenoglio in 1907. The residents of Turin have nicknamed this door the "Pomegranate Gate". The facade is wrought iron, and upon inspection you can see two pomegranate trees, bursting with fruit, and absolutely alive with colour. A true gem of Art Nouveau design.


Alberto Nessi - A Neve

 


1


Cobre-nos, neve, com teu silêncio

faz-nos mudos

põe as estrelas no traço obsceno

dos pneus, vela as engrenagens

pousa devagar sobre os detritos, não deixes

de cobrir as chagas

abafa a blasfémia o riso

o vómito do mundo

branca luz brilhando sobre a sebe

que nos faz claros contra o vidro

olhando nosso puro irmão,

o pássaro.


2


Terá ela conhecido infância, esta mulher

cheia de vinho

que procura o isqueiro debaixo da mesa?

E o homem de costas que divaga

sentado no banco com uma cerveja preta

gesticulando entre fantasmas

habitados pelo vento?

Cobre, neve, com tuas flores piedosas

as feridas dos homens desiludidos

cobre a ceifa dos seus sonhos

neste bar onde se finge viver.


Alberto Nessi - A Rosa de um bar

 


No balde oculto pelos pinheiros

a rosa escuta

as vozes, o choque do saco no contentor

os sapatos de quem busca no chão

sabe-se lá o quê.

Rosa curiosa.


A rosa olha com seu olho de frágil irmã

dos poetas, quem passa na estrada,

sem ser vista, perto

e longe da gente.

Rosa paciente.


Bob Dylan Cover - Make You Feel My Love



When the rain is blowing in your face

And the whole world is on your case

I could offer you a warm embrace

To make you feel my love.


When the evening shadows and the stars appear

And there is no one there to dry your tears

I could hold you for a million years

To make you feel my love.


I know you haven't made your mind up yet

But I would never do you wrong

I've known it from the moment that we met

No doubt in my mind where you belong.


I'd go hungry, I'd go black and blue

I'd go crawling down the avenue

Know there's nothing that I wouldn't do

To make you feel my love.


The storms are raging on the rolling sea

And on the highway of regret

The winds of change are blowing wild and free

You ain't seen nothing like me yet.


I could make you happy, make your dreams come true

Nothing that I wouldn't do

Go to the ends of the earth for you

To make you feel my love.


To make you feel my love.


      Your beautiful harmonies lift the spirit and warm the soul. Goose bumps and tears, literally!


Johan Krouthén - Picknick i det gröna, 1912



      Johan Krouthén nasceu em 1858, em Linköping, na Suécia. Os pais eram comerciantes. Desde cedo dedicou-se à pintura com paixão. Em 1884, conheceu Hulda Ottoson e viria a casar-se com ela dois anos depois. Tiveram uma vida conjugal curta e trágica. Perderam o primeiro filho em 1886, logo que se casaram; e em 1891, quando deu à luz gémeos, Hulda morreu durante o parto. Foram tempos difíceis, tendo que criar os filhos numa região onde a arte não tinha a aceitação como nas grandes cidades da Europa. As pinturas paisagísticas suavizaram-lhe a vida.


Marino Muñoz Lagos - Perdão para os traidores

 


Quando no inverno

se comiam as primeiras castanhas

e vinha a chuva

qual rapariga entre vidros,

tu corrias os teus filhos

um por um e rosto a rosto,

e adivinhando os seus sonhos

ou teus sonhos, dizias

com secreta esperança: "médico,

engenheiro, doméstica, agricultor,

árvore, espiga, poeta".

Mãe, atraiçoámos-te.

Somos os mais ilustres

vagabundos da terra.


Maria do Rosário Pedreira

 


Se partires, não me abraces - a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha com viagens na pele salgada das ondas.


Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –


o teu perfume preso á minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém - longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto

espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.


Maria do Rosário Pedreira

 


Acordo com o teu nome nos

meus lábios — amargo beijo


esse que o tempo dá sem

aviso a quem não esquece.


    Sra. Rosário, o seu poema toca-me tanto. Os amores verdadeiros deveriam ser eternos.


Gaetano Chierici - Grief


Blowing In The Wind, written by Bob Dylan and performed by Anabela.


O gato é Mr. Trump ou Mr. Putin.


Maria do Rosário Pedreira - Pudesse eu morrer hoje


Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite –

e deitar-me na terra; e não ouvir senão o rumor das ervas

e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,

nem das aves negras nos meus braços de mármore,

nem de te ter perdido – não ter medo de nada. Pudesse


eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo –

das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;

de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo

deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida

e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo

já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde

para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse


eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,

a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi –

porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre

o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam

nas mãos); e pudesse eu deixar de escrever esta manhã


e pudesse eu morrer

mas ouço-te a respirar no meu poema.


Maria do Rosário Pedreira - Se o vires

 


Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;

que me sento na cama, distraída, a dobar demoras

e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.

Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por

causa dos outros laços que não desfaço, sei que o

amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se


o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;

que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso

sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele

não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos

separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,

mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,


diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.


Rafael Puerta e Ricardo Bergha - Cavalo



Cavalo, criatura divina,

Em tuas retinas o espelho do açude,

Que o tempo te cuide e conserve, parceiro,

Meu fiel companheiro de vida e estrada.


Cavalo, a manada dos ventos te espera

A galopear primaveras e adornar estes pagos,

Em meu peito te trago, em meus sonhos, te vejo,

E sempre desejo que sejas eterno.


Teu pelo de inverno da cor da geada

Que beijou a invernada e te benzeu, tordilho,

Tu, que desde potrilho sempre esteve comigo,

Me levas contigo a galopar por aí.


Cavalo, me sinto mais vivo

Ao pisar no estrivo e sentir o vento na cara,

O tempo não para, passa num upa –

E eu levo em tua garupa meus segredos guardados.


Cavalo entonado, parece um desenho

És tudo que tenho, meu melhor amigo,

Aqui te bendigo em cada verso que faço

E com rimas te abraço e te canto, cavalo.


    Parabéns, gauchada!


Eduard von Grützner - Benedictine Monk with Wine at Breakfast



      O prazer sexual é um dom de Deus, que para concretizar esse dom criou o orgasmo. A Igreja prefere a sublimação.


O rapaz está pronto

 


      Num belo dia, teria eu onze anos, o professor disse a meu pai:

- O rapaz está pronto. Já sabe ler, escrever, fazer as operações e já na semana passada fez o último problema. Já pode mandá-lo para caixeiro.

Na época, o maior grau de sapiência era saber resolver o último problema. O problema era de arrepiar, mas a ciência que a tabuada nos oferecia abria -nos o caminho.

O professor, elucidando-nos, dizia:

- A tonelada tem treze quintais e meio...

E logo todos nós em coro respondíamos:

- O quintal tem quatro arrobas; a arroba, trinta e dois arrateis; o arratel, quatro quartas; a quarta, quatro onças; a onça, oito oitavas; a oitava, três escrúpulos e o escrúpulo, vinte e quatro grãos de trigo seco.

- Ora, tornava o senhor mestre, como cada formiga pode elevar ao cimo da torre um grão de bico?

Não era preciso mais nada. Esta elucidação era como um raio de luz que entrava nas nossas cabeças e íamos logo lestos resolver o problema, enchendo um papel com multiplicações, indo depois, triunfantes, mostrar ao professor.

A partir desse momento, estávamos aptos a entrar na luta pela vida!

    Francisco Serrano


Maria do Rosário Pedreira - Hoje podes deitar-te

 


Hoje podes deitar-te na minha cama

e contar-me mentiras - dizer, não sei,

que o amor tem a forma da minha mão

ou que os meus beijos são perguntas que

não queres que ninguém te faça senão

eu; que as flores bordadas na dobra do

meu lençol são de jardins perfeitos que

antes só existiam nos teus sonhos; e que

na curva dos meus braços as horas são

mais pequenas do que uma voz que no

escuro se apagasse. Hoje podes rasgar

cidades no mapa do meu corpo e

inventar que descobriste um continente

novo - uma pátria solar onde gostavas

de morrer e ter nascido. Eu não me

importo com nada do que me digas esta

noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o

pólen excessivo das corolas, o seu vermelho

impossível. Mas amanhã, antes de partires,

não digas nada, não me beijes nas costas

do meu sono. Leva-me contigo para sempre

ou deixa-me dormir - eu não quero ser

apenas um nome deitado entre outros nomes.


  Painting, Magritte's The Lovers


Miguel Torga - Fronteira

 


De um lado terra, doutro lado terra;

De um lado gente, doutro lado gente;

Lados e filhos desta mesma serra,

O mesmo céu os olha e os consente.


O mesmo beijo aqui, o mesmo beijo além;

Uivos iguais de cão ou de alcateia.

E a mesma lua lírica que vem

Corar meadas de uma velha teia.


Mas uma força que não tem razão,

Que não tem olhos, que não tem sentido,

Passa e reparte o coração

Do mais pequeno tojo adormecido.


  Pintura de Rui Albuquerque


Maria Alberta Menéres - Meditação

 


Fechei os olhos, para ver melhor

tudo o que a luz me negava!

– E quando o sono chegou

antes da revelação,

senti a minha alma paralela

como as grades que um jardim

desenha, às vezes, no chão.


𝕰𝖑𝖙𝖍𝖎𝖓 - Madre de Deus

 


Madre de Déus, óra | por nós téu Fill' essa hóra.


U verrá na carne | que quis fillar de ti, Madre,

joïgá-lo mundo | cono poder de séu Padre.

Madre de Déus, óra | por nós téu Fill' essa hóra.     


E en aquel día, | quand' ele for mais irado,

fais-lle tu emente | com' en ti foi enserrado.

Madre de Déus, óra | por nós téu Fill' essa hóra.     


U verás dos santos | as compannas espantadas,

móstra-ll' as tas tetas | santas que houv' el mamadas.

Madre de Déus, óra | por nós téu Fill' essa hóra.


      Madre de Deus (Cantiga 422) is one of the songs from the manuscript Cantigas de Santa Maria written in the medieval Galician-Portuguese language during the reign of Alfonso X of Castile El Sabio (1221–1284). Beyond beautiful.


Hubert Salentin - The Art Lovers



      Hubert Salentin was born in Zülpich and grew up in poor circumstances in the then Prussian Rhine province on. Despite discovering his passion for art at a young age, Salentin initially spent 14 years of his professional life as a blacksmith and before devoting himself entirely to painting. Salentin was a respected master blacksmith in his hometown, but at this time he was already creating his first oil paintings and small-format portraits of citizens of the city.


Maria do Rosário Pedreira - Vieste como um barco

 


Vieste como um barco carregado de vento, abrindo

feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa

que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste

o tempo de iludires a arquitetura fria do estaleiro


onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,

se partiste,

que dentro de mim se acanham as certezas e

tu vais sempre ardendo, embora como um lume

de cera, lento e brando, que já não derrama calor.


Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar

o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;

e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:

o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,

exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam

no cais como se transportassem no corpo o vaivém

dos barcos. Dizem-me os seus passos


que vale a pena esperar, porque as ondas acabam

sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei

que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde

para quase tudo. Por isso, vou para casa


e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


Maria do Rosário Pedreira - Ainda bem

 


Ainda bem

que não morri de todas as vezes

que quis morrer – que não saltei da ponte,

nem enchi os pulsos de sangue, nem

me deitei à linha, lá longe. Ainda bem


que não atei a corda à viga do tecto, nem

comprei na farmácia, com receita fingida,

uma dose de sono eterno. Ainda bem


que tive medo: das facas, das alturas, mas

sobretudo de não morrer completamente

e ficar para aí – ainda mais perdida do que

antes – a olhar sem ver. Ainda bem


que o tecto foi sempre demasiado alto e

eu ridiculamente pequena para a morte.


Se tivesse morrido de uma dessas vezes,

não ouviria agora a tua voz a chamar-me,

enquanto escrevo este poema, que pode

não parecer – mas é – um poema de amor.


Oh! Darling - The Beatles cover by Inu and Martu de Pacífica

 


      You girls rock! I had never noticed that the bass line was so elaborate, and the voice is so sweet and evocative! Even the birds tried to join in there at the end. Thank you.


Géza Peske - Zwei Buben mit Steinschleuder auf der Sommerwiese



      Geza Peske was a Hungarian painter. His most famous paintings have children in country fields, learning through childish experiences for future life. Simple initiation tales.

 

Maria do Rosário Pedreira

 


Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher

nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias

e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança

da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez


quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo

incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os

trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e

falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.


Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los

da dor como aos filhos que não iremos ter nunca

porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão


culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem

cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.

E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.


      Um poema cheio de beleza e iluminação. O que sugerem os versos? Os refugiados ucranianos que vieram para Portugal? Os outros? Regressam e não regressam. Não, não sei.


Maria do Rosário Pedreira - Mãe, eu quero ir-me embora

 


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada                           

daquilo que disseste quando os meus seios começaram

a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,

murcharam tão depressa as rosas que me deram –

se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu

deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.


Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão

cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,

só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais

que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos

os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,

deitei-me com mais homens do que aqueles que amei

e o que amei de verdade nunca acordou comigo.


Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre

caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.

Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez

não chames pelo meu nome, não me peças que fique –

as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me

embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue

de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como

uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.


Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem

nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta

hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.

Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas

essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre

o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias

foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão

tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam

virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.


    A tela é de Franz Xaver Winterhalter - Portrait of Anna Bertier


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