Maria Azenha - A Porta

 


se dobrares neste instante

o lugar das palavras lá me encontrarás

conheço o nome de onde vens porque

este é o caminho dos labirintos


escrevo entre os joelhos o desencanto

das metáforas e sei que morreste

entre uma pergunta e o in-verso caminho


trago os olhos límpidos de orvalho de tanto

oscilar o coração no cais

por vezes toma a forma dos barcos ausentes

e o meu corpo é um lugar de redes


conheço as portas dos teus cabelos

e a certeza de que vou ardendo


      O poema constrói uma atmosfera de desejo, perda e desencanto através de imagens simbólicas e enigmáticas. A porta representa uma passagem entre mundos, memórias e sentimentos, enquanto o “labirinto” sugere a dificuldade de encontrar um caminho afetivo. A morte surge associada à rutura e à impossibilidade de comunicação. As imagens do cais, dos barcos ausentes e das redes traduzem espera, abandono e fragilidade. No final, o fogo exprime uma paixão dolorosa, intensa e inevitável, que permanece ligada à ausência do outro.


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