Bright Star


    Fanny Brawne está ler um poema de John Keats que a amava e morreu aos 25 anos. Duas flores do tempo do Romantismo, oposto ao racionalismo, marcado pela emoção, pelo lirismo e pelo eu.

Bright star, would I were steadfast as thou art —
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like Nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors —
No — yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft swell and fall,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever — or else swoon to death.

   
 O poeta quer ser constante como uma estrela.

Ó estrela cintilante! Quisera ser como tu -
Não no esplendor tranquilo, pairando sobre a noite,
Espreitando, de pálpebras sempre abertas,
Como um Eremita da Natureza, perseverante, vigilante,
As águas na sua tarefa sacerdotal
De purificar as margens do homem na terra.
Ou fitando o manto macio da neve
Que caiu sobre as montanhas e os pântanos -
Não - todavia arraigado, todavia imutável,
Quisera pousar a cabeça sobre o jovem seio da minha amada,
Sentir para sempre a sua curva suave,
Acordar sempre em doce agitação,
Escutar, escutar o seu terno respirar,
E assim viver para sempre - ou então morrer.

    Tradução sempre imperfeita.

Gigliola Cinquetti - Non ho l'età


    Dizia Hugo Hofmannsthal 'Amadurecer significa separar de forma mais nítida, ligar de forma mais íntima'. É, depois da infância, o tempo intenso de viver.

Félix de Cárdenas




    Reinterpretar o interior pelo exercício do despojamento. Deixar de possuir, retirar os adornos, não levar nada para o caminho. O pintor nasceu em Sevilha em 1950.

Robert Louis Stevenson - O que acende os candeeiros




O meu chá está quase pronto e o sol abandonou o céu;
É hora de ir à janela para ver Leerie passar;
Todas as noites à hora do chá e antes de nos sentarmos,
Com a sua lanterna e a sua escada ele vem e acende a rua.

Tom será condutor e Maria irá para o mar,
O papá é banqueiro e muito rico;
Mas eu, quando for grande e puder decidir,
Oh, Leerie, irei contigo todas as noites e farei a ronda dos candeeiros!

Nós temos muita sorte, temos um candeeiro à nossa porta,
E Leerie pára para o acender e acende muitos mais;
Oh, Leerie, antes de te ires embora com a tua escada e a tua lanterna,
Oh, Leerie, cumprimenta a criança que te está a olhar!


    O Leerie é agora um fio, onde de vez em quando pousa o pássaro.

Mia Couto - O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com o meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.


    Ser feliz quando a luz não tiver peso.

A Viagem dos cem passos



    Os trailers são o que tristemente são, mais vale uma cena completa do filme. Como não existe nenhuma no Youtube partilho esta entrevista de Charlotte Le Bon, uma das actrizes principais da história, de beleza fresca, simples e europeia - apesar de ter nascido no Canadá. O filme é terno e em muitos momentos belo, sobre o modo como a comida, o bom senso e a amizade podem unir culturas diferentes. 

    Nota: Só para quem já "reparou" no filme.

Tracy K. Smith - The Good Life

When some people talk about money
They speak as if it were a mysterious lover
Who went out to buy milk and never
Came back, and it makes me nostalgic
For the years I lived on coffee and bread,
Hungry all the time, walking to work on payday
Like a woman journeying for water
From a village without a well, then living
One or two nights like everyone else
On roast chicken and red wine.

    Tradução: in Trapézio, sem rede

Quando algumas pessoas falam de dinheiro
Fazem-no como se este fosse um amante misterioso
Que saiu para comprar leite e nunca mais
Voltou, e isso torna-me nostálgica
Daqueles anos em que vivi de pão e café,
Sempre esfomeada, indo para o trabalho em dia de receber
Como uma mulher que vai à procura de água
A partir de uma aldeia sem poço, vivendo então
Uma ou duas noites como toda a gente
De frango assado e vinho tinto.


    No poema, "Quando algumas pessoas falam de dinheiro" fala-se de gente que o tempo empobreceu, ao contrário da narradora que sente apenas nostalgia. A ironia da sua sorte e azar.

Unknown authors



    Falta génio à obra que parece, ou foi mesmo, tirada de um molde. Como o lugar é digno, o facto levanta suspeitas. Será mesmo fake? Será esta a estátua do futuro? Em que lugar estará? A net não sabe.

"De repente tudo vai ficando tão simples que assusta.
A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem.
As opiniões dos outros, são realmente dos outros, e mesmo que
sejam sobre nós; não tem importância.
Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada.
E, isso não faz a menor falta.
Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado e sim a vida que
cada um escolheu experimentar. Por fim entendemos que tudo que
importa é ter paz e sossego, é viver sem medo,
é fazer o que alegra o coração naquele momento. E só!"

Adelino Ínsua

Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas
à doce árvore entre a terra e o céu.
Sobe às alturas das pedras nuas,
estão difíceis estes tempos modernos para a contemplação,
na rarefacção dos lugares teofânicos.
Toma nos lugares mais baixos a beleza
de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.
Contemplações insignificantes
contemplações mais magnificentes.
Depois deves numerá-las: a cerimónia.
Para que germinem no teu vaso de ouro
e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.

Ana Moura - Até ao Verão


Deixei 
na Primavera o cheiro a cravo,
rosa e quimera que me encravam 
na memória que inventei.

E andei
como quem espera pelo fracasso
contra mazela em corpo de aço
nas ruelas do desdém.

E a mim que importa
se é bem ou mal
se me falha a cor da chama a vida toda
é-me igual

Vim sem volta
queira eu ou não
que me calhe a vida insana e vá sem boda
até ao Verão.

Deixei 
na Primavera o som do encanto
risa promessa e sono santo
já não sei o que é dormir bem

E andei 
pelas favelas do que eu faço
ora tropeço em erros crassos
ora esqueço onde errei.

Letra e melodia de Márcia Santos


    Márcia Santos traz ar fresco à música portuguesa. As suas melodias têm a beleza simples que nos alegra a alma e os textos são coerentes. Estudante de pintura, e preocupada com a sua geração e o seu país, oferece aqui a Ana Moura um fado sobre a dificuldade de amadurecer.

Midlake - Acts of Man


If all that grows starts to fade, starts to falter 
Oh, let me inside, let me inside, not to wait 
Let all that run through the fields through the quiet, 
Go on with their, own with their own hidden ways. 

When all newness of gold travels far from 
Where it had once been, 
Born like the earth over years 
And when the acts of man 
Cause the ground to break open 
Oh, let me inside, let me inside, not to wait.

Great are the sounds of all that live 
And all that man can hold.

    Brilhante. 'falter' significa na Língua portuguesa 'vacilar' e o grupo é um quinteto de lo-fi rock de Austin, Texas, EUA.

As maçãs de Cezanne



    Gosto da palavra reparar, pois transporta para o acto de ver uma polissemia e uma ética. Reparar introduz-nos por si só numa lentidão, porque aquilo a que alude não é um observar qualquer: é um ver parado, um revisar porventura mais minucioso do que um mero relance; é uma visão segunda, uma nova oportunidade, isso que Merleau-Ponty dizia ser o único enigma que a visão celebra.
    Mas reparar é mais do que isso: põe também em prática uma reparação, um processo de restauro, de resgate, de justiça. Como se a quantidade de meios-olhares e sobrevoos que dedicamos às coisas fosse lesivo dessa ética que permanece em expectativa no encontro com cada olhar. Por isso, de certa forma, só quando reparamos começamos a ver. 
    As maçãs de Cezanne têm, a qualquer momento que reparamos nelas, o poder de fazer-nos tocar a substância da terra, como se fossemos o primeiro homem. A contemplação começa quando aceitamos que não sabemos ver, que a nossa visão é parcial e pobre, que vemos sempre "como que por espelho e de maneira confusa" (ICor 13,12). A contemplação é um despojamento dos porquês. Simone Weil diria que só contemplaremos uma maçã, quando não tivermos intenção de comê-la. Esse é o armistício capaz de desencadear o espanto.

    José Tolentino Mendonça

Bob Dylan - Oh, Sister



    Desafiando o conceito de eternidade, Bob Dylan canta nesta canção "Time is an ocean but it ends at the shore", mais tarde diria "Eternity has nothing to do with time".
    A canção, de titulo "Oh, Sister", é uma resposta aos constantes rogos de Joan Baez para que voltasse à fase politica. Bob não voltou, apesar de nunca deixar de escrever textos e canções sociais sobre o seu tempo. Os "Diamonds and Rust" eram só, e apenas, diamantes. E os diamantes são eternos.

Kay Sage - Le Passage


    Um candelabro aceso para a pintora e poetisa norte-americana, nascida em Albany, no estado de Nova York, em 1898. Morreu em 1963, na sua casa em Woodbury, Connecticut, com um disparo sobre o coração.
    Diz-se por aí, que os suicidas configuram o destino longínquo da humanidade, que sabem antes dos outros. Para ela, amanhã era nunca.

Milan Kundera - A insustentável leveza do ser

    'Noise has one advantage, it drowns out words.' And suddenly he realized that all his life he had done nothing but talk, write, lecture, concoct sentences, search for formulations and amend them, so in the end no words were precise, their meanings were obliterated, their content lost, they turn into trash, chaff, dust, sand; prowling through his brain, tearing at his head, they were his insomnia, his illness. And what he yearned for at that moment, vaguely but with all his might, was unbounded music, absolute sound, a pleasant and happy all-encompassing, over-powering, window-rattling din to engulf, once and for all, the pain, the futility, the vanity of words. Music was the negation of sentences, music was the anti-word!

    O barulho tem o mérito de anular palavras inúteis.

Federico García Lorca

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena pues de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.


    Tentativa de tradução: Porém eu te sofri. Rasguei as minhas veias, tigre e pomba, sobre a tua cintura em duelo de mordiscos e açucenas.

A Diana de Versalhes









~

Preservada no Museu do Louvre, esculpida em mármore branco, com 2m de altura, a obra é uma cópia romana de um original perdido, em bronze, atribuído ao escultor grego Leocarés, datado provavelmente de 325 a.C. Foi descoberta em Itália e tornou-se a escultura mais famosa da deusa Diana na história da arte. 
Em 1556, foi oferecida pelo papa Paulo IV ao rei Henrique II de França, como alusão implícita à amante do rei, Diana de Poitiers. Foi então colocada no Jardim da Rainha no Palácio de Fontainebleau, onde eram expostas importantes peças da Antiguidade.
A figura de Diana é dinâmica, está em plena caça, em acto de tirar uma flecha do seu arcaz. O braço esquerdo, ausente, foi restaurado fazendo-o pousar a mão na cabeça de uma corça, animal sagrado da deusa, mas originalmente devia segurar um arco. Nos pés traz sandálias e, na cabeça, um diadema.

    Notas retiradas da Wikipedia.

    A cópia romana desta escultura grega permite outra leitura. Ártemis, deusa da caça, irmã de Apolo, é aqui representada a retirar uma seta da aljava. A cabeça está voltada para a direita, o olhar dirige-se a um sujeito externo à composição, talvez uma presa mais apetecida. O copy-paste, que Aristóteles e Platão chamavam de mimesis é, afinal, uma das bases da cultura ocidental.

Rui Knopfli - Sem nada de meu

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

    Ser feliz.

O desejo de viver



"Tudo pode acontecer depois da curva, do outro lado. Mas felizmente, diríamos, tu estás ainda aqui, deste lado. Antes de." 

    Gonçalo M. Tavares

Pablo Neruda

Saibas que não te amo e que te amo
feito de que dos dois modos é a vida,
a palavra é uma ala do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.


Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não desejar amar-te nunca:
por isto não te amo todavia.


Amo-te e não te amo como se tivera
nas minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino infeliz.


Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso amo-te quando não te amo
e por isso amo-te quando te amo.


    Amar ilude a solidão.

José Rui Teixeira

Cada instante é um lugar perdido em que te entregas
à passagem do tempo. A juventude é um vício
que perdemos inevitavelmente. Dizes: é breve o amor,
efémera a vida.

Somos uma estância museológica,
algo anacrónico que aprende a perdurar por medo
de morrer. Toca-me, conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido, dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.

Basta-me que o teu olhar me encontre.

    No limite, "tu és."

Niccoló Paganini Caprice No. 24 - Julia Fischer


  O capricho 24, em La menor, é o último dos célebres 24 Caprices para violino solo de Paganini. A sua estrutura é composta por onze variações e um final. É reconhecida uma das peças mais difíceis de executar compostas para este instrumento.
  Inicialmente os 24 caprichos foram compostos para treinar a técnica do instrumento, mas tornaram-se composições célebres e serviriam de inspiração a compositores como Franz Liszt, Brahms e Rachmaninoff.

Roberto Juarroz - Há poucas mortes inteiras

Há poucas mortes inteiras.
Os cemitérios estão cheios de fraudes.
E as ruas de fantasmas.

Há poucas mortes inteiras.
Mas o pássaro sabe em que último ramo pousa
e a árvore sabe onde o pássaro termina.

Há poucas mortes inteiras.
A morte é cada vez mais insegura.
A morte é uma experiência da vida.
E às vezes duas vidas são precisas
para se completar uma morte.

Há poucas mortes inteiras.
Os sinos dobram sempre igual.
Mas a realidade já não dá garantias
e para morrer já nem basta viver.

Tradução de A.M.


    O pássaro vai morrer junto à árvore, sozinho.

Daniel Faria

http://sillyfuck.tumblr.com/post/91283990679

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe.


    De Daniel Faria morreu com 28 anos. Estava, como diz o verso, "ligeiramente acima do que morre".

'Pour rien, je peux te regarder'



    A inocência é a saúde da alma, mas é difícil de preservar porque se deixa facilmente seduzir. Sem pecado, Daniel toca-lhe no botão do vestido.

Luís de Camões - Oh! como se me alonga, de ano em ano

Oh! como se me alonga, de ano em ano, a peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha este meu breve e vão discurso humano! Vai-se gastando a idade e cresce o dano; perde-se-me um remédio, que inda tinha; se por experiência se adivinha, qualquer grande esperança é grande engano. Corro após este bem que não se alcança; no meio do caminho me falece, mil vezes caio, e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, se os olhos ergo a ver se inda parece, da vista se me perde e da esperança.

Na angustia da transitoriedade, o poeta, que tanto procura cantar cousas eternas, sente mais que os outros homens.

Giovanni Bellini - Naked Young Woman in Front of the Mirror

File:Giovanni Bellini - Young Woman at Her Toilette - Google Art Project.jpg


    Bellini pintou este óleo sobre madeira aos 85 anos. Foi o seu primeiro nu, depois de uma obra extensa de arte religiosa. Sem ser bíblico, mitológico ou sequer moral, a tela projecta o belo sagrado e profano. A tensão entre o secular e o pressentimento do transcendente.

Jean Ritchie - One I Love



Uma rapariga apaixona-se por um 'coal miner of Kentucky':

All of my friends fell out with me
Because I kept your company
Let them say whatever they will
I love my love with a free good will.

One, I love
Two, he loves
Three, he's true to me.

They tell me he's poor, they tell me he's young
I tell them all to hold their tongue
If they could part the sand and the sea
Then they might part my love from me.

Over the mountains he must go
Because his fortune is so low
With an aching heart and a troubled mind
He's leaving his own true love behind.

When I'm awake, I find no rest
Until your head lies on my breast
When I'm asleep I'm dreaming of
My one, my dear, my own true love.



    Jean Ritchie é um 'little bird' da música folk americana. Nascida em 1922, no Kentucky, hoje com 92 anos, recolheu e cantou baladas narrativas que descrevem ricos e pobres, idas à fonte, a luz da natureza, as dores do parto, as brincadeiras de crianças, a fatalidade da morte - tal como o povo as cantava. Era conhecida como a menina dos Apalaches que tocava 'old time ballads' com um 'mountain dulcimer'. A simplicidade das melodias e da sua voz permanecem.

Manuel António Pina - O regresso



Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.


    Fecho de ciclos.

Yehuda Amichai - Instruções para uma criada de mesa

Não levantes os copos e os pratos
da mesa. Não esfregues
a nódoa da toalha. É bom sabê-lo:
antes de mim houve aqui gente.

Compro sapatos que andaram nos pés de outro.
(O meu amigo tem as suas próprias ideias.)
O meu amor é a mulher de outro homem.
A minha noite é tomada pelos sonhos.
As gotas de chuva são pintadas na minha janela,
nas margens do meus livros há anotações de outros.
No projecto da casa em que quero viver
o arquitecto desenhou estranhos junto à porta de entrada.
Na minha cama há uma almofada
com o espaço vazio de uma cabeça que já se foi.

    Os leftovers.

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