Clarice Lispector


    Mas o instante-já é um pirilampo que acende e apaga, acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará no imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago. Só aquilo que capto em mim tem, quando está a ser agora transposto em escrita, o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar. Mais que o instante, quero o seu fluxo.

Sophia de Mello Breyner




Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão

Tempo de coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça


  O contraste com o Eclesiástico.

Franz Joseph Haydn - Symphony No 94 G major 'Surprise'


    Na Sinfonia nº 94, no segundo andamento, Haydn introduziu um acorde repentino em fortíssimo logo após a abertura do tema em piano, para obrigar os presentes a tomarem atenção à obra e não se deixarem adormecer. Era o tempo em que muitos estavam presentes no concerto porque era fino.

Rosa Alice Branco



Fazes os deveres, ensino
os números a obedecerem-te e a amares
as letras umas ao lado das outras, solidárias
como uma pequena vírgula para que o silêncio
receba a tua voz. Voo junto às tuas asas,
lubrifico-as e fico a ver como se suavizam
os traços do teu rosto. Agora vais partir.
Irei um pouco atrás com a cor da tarde
para não ser vista. Por mais que vás
estarei de mansinho atrás das asas. Ser mãe
é ir assim. É assim que vou à fonte.

   O novo corte umbilical.

Clarice Lispector - A matéria primordial



    Dá-me a tua mão:
Vou te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

    Com os dedos de Bernardo Sassetti.

Herbicida

Ela própria já confundia a literatura
com a capacidade de espalhar Roundup pelos caminhos.
Duas vezes por ano,
cabia-lhe dirigir o trabalho dos homens. Vigiava-os.
A concentração, o débito dos pulverizadores, o ritmo.
Um processo mecânico e assexuado.
Neutro como todas as tarefas de destruição.

   in, Les nichons de la vierge

Joseph Karl Stieler - Retrato de Anna Hillmayer


    A subversão cromática do pecado e da virtude. O pintor é livre. Entretanto a luz brilha.

António Manuel Pires Cabral


5.

Não estou só
Recrutei companheiros para o Inverno
que não o temem como se teme um lobo,
mas apenas como é justo que se tema
o desdobrar das páginas do tempo:
com decoro. Então
aconchegados a mim, e eu a eles.
Somos uma parede.


Mas há quem esteja só
e assim deva ficar.


A esses, tudo aquilo que o nocivo
Inverno lhes trouxer
recordará o que ficou retido
nas levianas demasias do Verão.


As cartas que usarão como recurso
contra a ausência do Sol
ninguém lhas lerá, ser-lhe-ão devolvidas
com um carimbo maquinal: «Desconhecido
neste endereço». Cartas descompostas
de terem ido e voltado.
Cartas que em boa verdade
escreverão a si mesmos
sob outros nomes e moradas. Cartas
semelhantes a ardilosos bumerangues
ou a cães ensinados a voltar para nós,
trazendo na boca, molhado de saliva,
o pau que arremessámos.


in, Telhados de Vidro nº3

  A solidão é mais fria do que a morte.

António Carlos Secchin

É ele!

No Catumbi, montado a cavalo,
lá vai o antigo poeta
visitar o namorado.
Não leva flores, que rapazes
raro gostam de tais mimos.
Leva canções de amor e medo.
Cachoeiras de metáforas,
oceanos de anáforas, virgens a quilo.
Ao sair, deixa ao sono cego do parceiro
dois poemas, um cachimbo e um estilo.


  A estranha exclamação.

Andrea Fossati


Ainda temos ofertas para os deuses.

Jairo Aníbal Niño

Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Tirei-to da sacola.
Não quiseste ir comigo à matiné,
domingo passado.
Contaram-me os meus amigos
que estavas na companhia do Bermúdez,
o grandote que pratica luta livre.
Contaram-me que estavas muito bonita,
e que te rias a cada momento.
Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Agora que está a chover,
assoma-te à janela
e verás passar oitenta barquitos de papel.
Não procures mais pelo teu caderno de geografia.


  No mapa da vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Deito-me tarde.
Espero por uma espécie de silêncio
que nunca chega cedo.
Espero a atenção a concentração da hora tardia
ardente e nua.
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho.
É então que se vê o desenho do vazio.
É então que se vê subitamente
a nossa própria mão poisada sobre a mesa.

É então que se vê passar o silêncio.
Navegação antiquíssima e solene.

   Íntimo, secreto.

The Rumjacks - An Irish Pub Song



There's a county map to go on the wall,
A hurling stick & a shinty ball,
The bric, the brac, the craic & all,
Lets call it an Irish pub,
Caffreys, Harp, Kilkenny on tap,
The Guinness pie & that cabbage crap,
The ideal wannabee Paddy trap,
We'll call it an Irish pub,

Whale, oil, beef, hooked! I swear upon the holy book,
The only 'craic' you'll get is a slap in the ear,
Whale, oil, beef, hooked! I'll up & burst yer filthy mug,
If you draw one more shamrock in me beer!

We'll raise the price o' beer a dollar,
We'll make em wear a shirt & collar,
We'll fly a bloody tri-colour,
And call it an Irish pub,
Jager bombs & double shots,
The underagers think its tops,
We'll spike the drinks & pay the cops,
We got us an Irish pub.

The quick one in the filthy bog,
The partin' glass across the lug,
O' the lady-O, the dirty dog,
We got us an Irish pub,
It's over to me and over to you,
We'll skip along the Avenue,
And who t'hell is Ronnie Drew?
We got us an Irish pub.

Plasma screens & neon lights,
Kara-farkin-oke nights,
The bouncers they can pick the fights,
We'll call it an Irish pub,
Plastic cups, a polished floor,
We'll hose the blood right out the door,
And let the knucklers back for more,
We got us an Irish pub,

Oh top o' the mornin', Garryowen,
Kiss me I'm Irish, Molly Malone,
Failte, Slainte, Pog ma thon,
We got us an Irish pub,
Spike the punch & strip the willow,
Strike me up the rakes o' Mallow,
The Liffey never ran so shallow,
We got us an Irish pub.


    Pub é a abreviatura de 'public place' e a sua origem remonta ao longínquo tempo da ocupação romana na Grã-Bretanha. Os primeiros 'lugares públicos' da Irlanda datam do fim do Século XII. O pub é tradicionalmente um local reservado ao encontro de amigos, para jogar, tratar de negócios, dançar e, por oportuno, consumir bebidas para esquecer as dores da vida.

    Do mesmo modo que Amália Rodrigues, há décadas atrás, se insurgia contra a descaracterização da Casa da Mariquinhas, os The Rumjacks, neste tema, não aceitam a proliferação dos Irish pubs que não respeitam a verdadeira tradição irlandesa.

José Saramago - Retrato do Poeta Quando Jovem




Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.


    Até ao fim.

Charles Villiers Stanford - The Bluebird



The lake lay blue below the hill,
O'er it, as I looked, there flew
Across the waters, cold and still,
A bird whose wings were palest blue.

The sky above was blue at last,
The sky beneath me blue in blue,
A moment, ere the bird had passed,
It caught his image as he flew.

    O poema é de Mary Coleridge e a composição de Charles Villiers Stanford. Os versos descrevem o momento supremo em que um pássaro azul voa sobre as águas de um lago e alguém o observa em silêncio para o acolher dentro de si. O coro de Cambridge foi ao encontro do melhor lugar e dá um exemplo de totalidade.

José Carlos Barros

depois de três dias de
comunicações e mesas redondas sobre
a conservação do lobo
o capuchinho vermelho pediu a
palavra e disse
tudo muito certo
mas como é que eu levo
o lanche
à minha avó?

    Thomas Hobbes reescreveu a frase do notável escritor latino Plauto, "O homem é o lobo do próprio homem.". Pouco há a fazer.

Chantal Maillard

Andava pelas costas da tua mão, confiada,
como quem anda nos montes
seguro de que o vento existe,
de que a terra está firme,
da repetição eterna das coisas.
Mas de repente o universo tremeu:
levaste a mão aos lábios
e bocejando abriste a noite
como uma gruta cálida.

Levavas dez mil séculos despertando
e o fogo ardia impaciente na tua boca.


Tradução de A.M.
a quem sinto dívida.

Anduve por el dorso de tu mano, confiada,
como quien anda en las colinas
seguro de que el viento existe,
de que la tierra es firme,
de la repetición eterna de las cosas.
Mas de repente tembló el universo:
llevaste la mano a tus labios
y bostezando abriste la noche
como una gruta cálida.

Llevabas diez mil siglos despertando
y el fuego ardía impaciente en tu boca.

Daniel Faria

A luz de Damasco é um grito
Para a ovelha que regressa

A luz de Damasco é um tombar do trigo, um cair
Do grão – cega tanto como os olhos
De um homem perseguido quando se volta
Para nós

A luz de Damasco golpeia. É circuncisão
Que abre, limpa, a luz de Damasco
É dura. Da dureza

Das pedras que um mártir junta com as mãos
Com que empedra o caminho para a morte. A luz
De Damasco é esse lume

Da oração de um mártir ao morrer.

in, Dos Líquidos


 Uma antiga sugestão de felicidade.

Hieronymus Bosch - Concert in the Egg



    O Concerto no Ovo é uma tela que durante muito tempo foi considerada cópia de uma obra perdida criada por Hieronymus Bosch. Actualmente é tida como baseada num dos seus desenhos.
   Esta alteração deve-se à análise da música presente no livro aberto, que mostra notas de Thomas Crecquillon, do ano de 1549.
    Sabe-se que foi comprada em 1890, por 400 francos, pelo Palais des Beaux-Arts de Lille a um negociante de arte parisiense. Recentemente, o quadro apareceu com o título em holandês Zangers en musici in een ei numa exposição em 2008, no Museu Noordbrabants, na Holanda. Seja como for, a pintura ou é de Bosch ou é bem à maneira de Bosch.

    in, Wikipédia

Chegar a casa

    O neoliberalismo tem vindo a impludir as rotinas de cada dia e tem defendido que as nossas vidas só serão plenas, quando forem à velocidade de 3 segundos antes do orgasmo. Este blogue defende a plenitude 3 segundos depois e com a venda dos cavalos.

Renata Correia Botelho - El pájaro



é de ti, passarinho, que fala
esta música. espero-te à varanda
do meu quarto, num abismo
que se ergue do chão aos meus olhos
ainda baços. encontraste aqui,
como eu, a tua sombra, pajarillo

tú me despertaste, enseñame a vivir
e vamos juntos, por aí, numa voz só,
entoando esta cantiga com os cavalos
bravos, fingindo a vida e logrando
a morte, recolhendo à terra,
passarinho, sem nada temer,

recolhendo à terra.


  Nada a temer.

Anna-Maria Hefele - Polyphonic overtone singing


    Agradeço à minha filha Lara o conhecimento do video. À primeira audição parece que estamos na presença de um truque de estúdio, mas não. O canto dos harmónicos é o canto de dois ou mais sons em simultâneo por uma única pessoa, que ao manipular os espaços da cavidade bocal ressalta os harmónicos da própria voz. A técnica é bastante popular na Ásia Central entre mongóis e tuvanos e pela sua natureza suave, era usada nas cantiga de ninar. 
    Pela voz pode, afinal, sair um coro.

Henrique de Lemos

Procura no que sonhas
apenas a frescura 
de um curso de água
descendo a montanha.

Não faças de barragem
o teu ser: da tua boca
jorrará sempre a mentira
de um suposto saber.

Do eterno, 
da pura visão selvagem,
do avanço intrépido para o que é,
só os bichos podem beber.

  A necessidade de secar a macieira.

Franz Toussaint - A fonte das gazelas

Elas só vêm beber quando cai o crepúsculo. Uma a uma e inquietas elas surgem das sombras procurando uma nesga de céu reflectido na fonte.

Assim esperas a noite para penetrares em minha casa, e antes de me beijares a boca, procuras ver em meus olhos o encantamento da minha alma!

in O Jardim das Carícias

    Uma leitora chamou a atenção para a possibilidade de o autor do texto não ser Franz Toussaint. Na verdade, o trecho faz parte de um conto do livro Jardins de Caresses, que reúne contos árabes do séc X, que foram traduzidos para francês pelo autor. Assim, ele é apenas o tradutor. Bem haja.

Abba - Like An Angel Passing Through My Room



Long awaited darkness falls
casting shadows on the walls
in the twilight hour I am alone
sitting near the fireplace,
dying embers warm my face

In this peaceful solitude
all the outside world subdued
everything comes back to me again
in the gloom
like an angel passing through my room

Half awake and half in dreams
seeing long forgotten scenes
so the present runs into the past
now and then become entwined,
playing games within my mind

Like the embers as they die
love was one prolonged goodbye
and it all comes back to me tonight
in the gloom
like an angel passing through my room.

I close my eyes
and my twilight images go by
all too soon
like an angel passing through my room.



   A música ligeira não cria intimidade. Falta-lhe silêncio, lirismo e imaterialidade. O seu objectivo é entreter, emocionar e não celebrar.

Glória de Sant'Anna

Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender os meus passos nesse limite.


    Daí, a riqueza da música.
 
                                 Amar.

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