Alexandre O'Neill - Redacção


  

Uma senhora pediu-me
um poema de amor.

Não de amor por ela,
trivialidades «minha rosa, lua do meu céu interior»
que podia eu dizer
para ela, a não destinatária,
que não fosse por ela?

Sem objecto, o poema
é uma redacção
dos 100 Modelos
de Cartas de Amor.


in, No Reino da Dinamarca

      A vida de quem ama e de quem escreve poesia não é fácil. A quem quereria a senhora oferecer o tal poema? O terceiro elemento da narrativa é o mais feliz no processo.

Renata Correia Botelho



«Sempre em direcção à terra
a água procura nas ervas um coração

a bater, quase tudo
reduzido a pulso vegetal.»


     A foto é do jovem fotógrafo Joeri Bosma, de 17 anos, que vive na ilha de Texel, junto aos Países Baixos.

Jacques Prévert - Familiale

A mãe faz tricô
O filho vai para a guerra
Tudo muito natural acha a mãe
E o pai que faz o pai?
Negocia
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negocia
Tudo muito natural acha o pai
E o filho e o filho
o quê o que acha o filho?
Nada absolutamente nada acha o filho
O filho sua mãe faz tricô seu pai negocia ele luta na guerra
Quando tiver terminado a guerra negociará com o pai
A guerra continua a mãe continua ela tricota
O pai continua ele negocia
O filho foi morto ele não continua mais
O pai e a mãe vão ao cemitério
Tudo muito natural acham o pai e a mãe
A vida continua a vida com o tricô a guerra os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério.




La mère fait du tricot
Le fils fait la guerre
Elle trouve ça tout naturel la mère
Et le père qu'est-ce qu'il fait le père?
Il fait des affaires
Sa femme fait du tricot
Son fils la guerre
Lui des affaires
Il trouve ça tout naturel le père
Et le fils et le fils
Qu'est-ce qu'il trouve le fils?
Il ne trouve rien absolument rien le fils
Le fils sa mère fait du tricot son père des affaires lui la guerre
Quand il aura fini la guerre
Il fera des affaires avec son père
La guerre continue la mère continue elle tricote
La père continue il fai des affaires
Le fils est tué il ne continue plus
La père et la mère vont au cimetière
Ils trouvent ça naturel le père et la mère
La vie continue la vie avec le tricot la guerre des affaires
Les affaires la guerre le tricot la guerre
Les affaires les affaires et les affaires
La vie avec le cimitière.


   Os tempos mudaram, hoje quase todos fazem tricô. A indiferença, explica-se pelo facto de hoje todos querermos ser emissores, todos acharmos que somos o centro do processo comunicativo e nos estarmos nas tintas para ouvir ou ver os outros.

Louis-Jean-François Lagrenée



    Vénus e as ninfas caminhavam incautas por um carreiro da floresta que as conduzia às águas do rio sagrado. Ao som de cítaras, liras, harpas e flautas doces, as ninfas restabeleceram a harmonia deste mundo de modo que a transfiguração e a consagração mítica dos heróis os conduziria à renovação do Amor. O banho nas águas representava a catarse total, não apenas de todos os recalcamentos, mas das misérias da própria História.
    Conclusão: A 'realidade virtual' não é de agora, porque depois de medirmos a nossa dor e a crueldade do nosso destino, resta-nos criar e recriar modelos perfeitos.

Emily Loizeau - Je Ne Sais Pas Choisir



Quand je dors toute seule, je me dis Dieu ce serait bon
De partager mon lit avec un garçon
Quand je partage mon lit avec un garçon
Je me dis, dormir toute seule Dieu ce serait bon.

Ah non mais vraiment
Je ne sais pas choisir
C'est bien embêtant
Je vous le fait pas dire
Ah non mais vraiment
Je ne sais pas choisir
C'est tellement troublant
Laissez-moi dormir.

Quand chez l'Indien je prends un Poulet Tikka
Je me dis ça s'rait mieux un Agneau Korma
Quand finalement je mange des Gambas aux raisins
Je me dis j'aurais dû prendre végétarien.

Quand je veux me jeter du pont du Carroussel
Je me dis finalement non la vie est belle
Quand quelqu'un me dit: "Dieu que la vie est belle!"
Je voudrais me jeter du pont du Carroussel.

Quand je veux mourir le mercredi matin
Je me dis ça peut attendre jeudi matin
Quand je me réveille le matin du jeudi
Je me dis j'aurais dû mourir mercredi.

      A juventude dos anos 60 e 70 escrevia textos assim, ingénuos, e cantava-os com melodias simples. Esta canção, por exemplo, tem por tema um dos problemas da vida: as escolhas. Diz o texto "Quando durmo sozinha digo a mim mesma 'Deus como seria bom dividir a cama com um rapaz', mas quando divido a cama com um rapaz digo 'Dormir sozinha é que é bom.' Que bons velhos tempos.

Boris Pasternak - Um poema de Iuri Jivago



Sob o salgueiro onde se enleia a hera,
procuramos refúgio da intempérie.
A envolver-nos os ombros um capote.
Em torno de ti cercam-te os meus braços.

Mas não. No abraço as plantas
não se entontecem de hera, mas de embriaguez.
Estendamos então este capote
sob nós em toda a amplidão.

in, Doutor Jivago
Tradução de Moura Pimenta

   Quer o livro de Boris Pasternak, quer o filme de David Lean tentaram demonstrar que no modo de vida comunista não havia espaço para afectos, uma vez que a família era uma instituição burguesa individualista que anulava os deveres sociais exigidos por radicais como Strelnikov. Lara e Iuri Jivago eram a prova de que era ainda possível amar e celebrar o amor em poesia.

Ana Hatherly

Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
E que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
E o que só por mim poderá ter sonhado

Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
E que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
E descobrir-te o que de mim se esconde

Então serias aquele que existe
E o que só por mim poderá ter sonhado.

in, A Idade da Escrita


   A vida é um jogo de completudes sempre incompletas, mas são esses desequilíbrios que lhe dão sentido. Ali, onde se oferta a parte e se recebe a outra, é que desponta o mistério.

Ingmar Bergman's Persona - Monólogo da Dra.



    Você acha que não entendo? O sonho impossível de "ser". Não "parecer", mas "ser" você. Consciente o tempo todo. Vigilante. Ao mesmo tempo, o abismo entre o que você é para si e para outros. O sentimento de vertigem e o constante desejo de finalmente ser exposto. Ser visto por dentro, cortado, talvez até aniquilado. Cada tom de voz uma mentira, cada gesto uma falsidade, cada sorriso uma tristeza. Cometer suicídio? Oh, não. Isso é feio. Não se faz isso. Mas você pode tornar-se imóvel, você pode ficar calada. Assim pelo menos não mente. Você pode se fechar, se trancar. Assim não tem que interpretar papéis, fazer caras ou falsos gestos. Você acha... Mas veja, a realidade não coopera. O seu esconderijo não é impermeável. A vida penetra em tudo. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou irreal, se é verdade ou mentira. Apenas no teatro a questão carrega peso. Mesmo lá, difícilmente. Eu te entendo, Elisabet. Eu entendo o ficar calada, você é imóvel. Que você colocou essa falta de vontade num sistema fantástico. Eu te entendo e te admiro. Eu acho que você deveria manter esse papel até que ele seja descartado. Até que não seja mais interessante. Aí você pode deixá-lo. Assim como você, pouco a pouco, deixa todos os outros papéis.

    Sou ou não sou? Represento que papeis? É possível viver sem representar? Que cortinas vou abrindo e fechando? Afasto-me de mim quando uso as máscaras adequadas nos palcos da poesia, da música, da politica, religião, família, profissão. Para ser eu, calo-me como Elisabet.  

Acolher e envolver

    

    Acolher é a atitude unívoca de quem recebe o peregrino que passa e lhe oferece tudo o que tem de coração aberto: o descanso, o alimento, o conselho, a paz. Restabelecido e reconfortado o peregrino parte e segue viagem. 
    Na nova evangelização, mais importante do que ficar à espera e abrir a porta a quem passa, é deixá-la entreaberta e partir para envolver. A atitude passa a ser biunívoca e cria-se a possibilidade da espiritualidade activa reciproca. É este aspecto - envolver - que tem faltado ao longo dos séculos no cristianismo. No renovado Pátio dos gentios, o pastor não se deve colocar nem no fim do rebanho (orgulhosamente só), nem no inicio (orgulhosamente só), mas no meio. 

Gen 18,1-10a - A hospitalidade e o acolhimento



Naqueles dias,
o Senhor apareceu a Abraão junto do carvalho de Mambré.
Abraão estava sentado à entrada da sua tenda,
no maior calor do dia.
Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele.
Logo que os viu, deixou a entrada da tenda
e correu ao seu encontro;
prostrou-se por terra e disse:
«Meu Senhor, se agradei aos vossos olhos,
não passeis adiante sem parar em casa do vosso servo.
Mandarei vir água, para que possais lavar os pés
e descansar debaixo desta árvore.
Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças
antes de continuardes o vosso caminho,
pois não foi em vão que passastes diante da casa do vosso servo».
Eles responderam: «Faz como disseste».
Abraão apressou-se a ir à tenda onde estava Sara e disse-lhe:
«Toma depressa três medidas de flor da farinha,
amassa-a e coze uns pães no borralho».
Abraão correu ao rebanho e escolheu um vitelo tenro e bom
e entregou-o a um servo que se apressou a prepará-lo.
Trouxe manteiga e leite e o vitelo já pronto
e colocou-o diante deles;
e, enquanto comiam, ficou de pé junto deles debaixo da árvore.
Depois eles disseram-lhe:
«Onde está Sara, tua esposa?».
Abraão respondeu: «Está ali na tenda».
E um deles disse:
«Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano
e então Sara tua esposa terá um filho».



     Na origem do texto que nos é proposto está, provavelmente, uma antiga "lenda cultual" que narrava como três figuras divinas tinham aparecido a um cananeu anónimo junto ao carvalho sagrado de Mambré, perto de Hebron. Narrava também, o modo como esse cananeu os tinha acolhido na sua tenda e como tinha sido recompensado com um filho pelos deuses. 
    Mambré era um famoso santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., muito antes de Abraão aí ter chegado. Mais tarde, quando Abraão se estabeleceu nesse lugar, a antiga lenda cananaica foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas. No séc. X a.C., reinado de Salomão, os autores jahwistas recuperaram esta velha lenda para apresentar a sua catequese.

Fausto Guedes Teixeira



Fomos colhêr a fruta. Um ar de fogo
Cortava, assolador, terras de vinha...
Somos noivos então? disse-te: e logo
Tiraste à pressa a tua mão da minha.

Com os braços erguidos p'ra colhêr
Os frutos, inclinada para a frente,
Êsse esforço fazia aparecer
As formas do teu corpo, suavemente.

Num movimento que fizeste, a saia
Colou-se às tuas pernas com doçura,
E eu vi, como através duma cambraia,
A sua fôrça e quasi a sua brancura.

Tu descascavas uma tangerina,
As mãos agora nuas, com anéis;
E ria a tua boca pequenina
Mostrando uns dentes brancos e cruéis.


  Poeta com rua na cidade de Lamego, 1871-1940. Este poema, tão à Cesário Verde, descobre os mistérios do amor e dos frutos. 

Emile Munier


“Emile Munier”

O momento do teu primeiro olhar quando nós éramos um pomar de macieiras.

                              Para A.

William Shakespeare



JULIETA
Dizei-me: como vieste até aqui e para quê? Os muro do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui.

ROMEU
Transpus este muros com as leves asas dos amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidade de fazer ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo.

JULIETA
Se eles te vêem, matar-te-ão.

ROMEU
Ai! Há mais perigos nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra a sua inimizade.

JULIETA
Por nada deste mundo eu quereria que te vissem aqui.

ROMEU
O manto da noite oculta-me aos olhos deles. Mas se tu me não amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse faltando-me o teu amor.

JULIETA
Quem te ensinou este caminho?

   in, Romeu e Julieta

   Cada varanda de Verona é exigência da solidão.

Sophia de Mello Breyner Andresen


  

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face.

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio.

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque és de todos os ausentes o ausente.


   A presença suave de quem falta.

The Voice Squad - As I Roved Out


As I roved out on a fine May morning To view the meadows and flowers gay, Who should I spy but my own true lover As she sat under yon willow tree. I took off my hat and I did salute her, I did salute her most courageously. When she turned around, well the tears fell from her, Sayin', "False young man, you have deluded me!"

"For to delude you, how can that be my love
It's from your body I am quite free.
I'm as free from you as the child unborn is
And so are you too, dear Jane, from me.
A diamond ring I owned I gave you, A diamond ring to wear on your right hand. But the vows you made, love, you went and broke them And married the lassie that had the land.” “If I'd married the lassie that had the land, my love, It's that I'll rue till the day I die. When misfortune falls sure no man may shun it, I was blindfolded I'll ne'er deny.” Now at nights when I go to my bed of slumber The thoughts of my true love run in my mind. When I turned around to embrace my darling, Instead of gold sure it's brass I find. And I wish the Queen would call home her army From the West Indies, Amerikay and Spain, And every man to his wedded woman In hopes that you and I will meet again.


Um pedaço da alma irlandesa. Ali no pub, as velhas harmonias de um povo que nunca deixou de cantar o melhor de si. Kate Rusby no album Hourglass refere-se assim a esta canção: "A very well-known Irish ballad from around Napoleonic times. It tells the sad story of lovers separated by a governmental decree that single men, for monetary reward, should marry the wives of landed lords away at war so that the land would still be worked." Estranhos costumes.

Peter Handke




Quando a criança era criança
andava com os braços a baloiçar.
Queria que o ribeiro fosse um rio,
que o rio fosse uma corrente,
e que esta poça fosse o mar.

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança.
tudo era cheio de vida
e toda a vida era uma.

Quando a criança era criança,
não tinha opinião de nada.
Não tinha hábitos, ficava muitas vezes
sentada de pernas cruzadas,
fugia, tinha um remoinho no cabelo
e não fazia uma cara sorridente
quando tirava fotografias.

      Excerto do poema de Peter Handke, recitado no início do filme As Asas do Desejo, "Der Himmel Über Berlin" de 1987, realizado por Wim Wenders. O tempo tudo cura. Mas como se ele é a origem da doença? Não, talvez o tempo não exista.

Alice Sant’Anna

quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente


      Demasiada escuridão ou luz cegam, mas são circunstâncias necessárias.

Robert Musil



   «Se quisermos passar sem problemas por portas abertas, é bom não esquecer que elas têm ombreiras sólidas; este princípio, segundo o qual o velho professor sempre tinha vivido, mais não é do que uma exigência do sentido de realidade. Ora, se existe um sentido de realidade – e ninguém duvidará de que ele tem direito à existência –, então também tem de haver qualquer coisa a que possamos chamar o sentido de possibilidade.
      Aquele que o possui, não diz, por exemplo: isto ou aquilo aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer aqui, mas inventará: isto ou aquilo poderia, deveria, teria de ter acontecido aqui. E quando lhe dizem que uma coisa é como é, ele pensa: provavelmente, também poderia ser diferente. Assim, poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é.»

      in, O Homem sem Qualidades

      Não recopiar, mas inferir. O sentido de possibilidade parte da atitude reactiva para a pró-activa. 

Raul Brandão


 

      Não me compreendo nem compreendo os outros. Não sei quem sou e vou morrer. Tudo me parece inútil e agarro-me com desespero a um fio de vida, como um náufrago a um pedaço de tábua.

      Nem sei o que é a vida. Chamo vida ao espanto. Chamo vida a esta saudade, a esta dor; chamo vida e morte a este cataclismo. É a imensidade e um nada que me absorve; é uma queda imensa e infinita, onde disponho de um único momento.

      Talvez o mundo não exista, talvez tudo no mundo sejam expressões da minha própria alma. Faço parte de uma coisa dolorosa, que totalmente desconheço, e que tem nervos ligados aos meus nervos, dor ligada à minha dor, consciência ligada à minha consciência.

      Nós não vemos a vida – vemos um instante da vida. Atrás de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavera está aqui, mas atrás deste ramo em flor houve camadas de primaveras de oiro, imensas primaveras extasiadas, e flores desmedidas por trás desta flor minúscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que aí vem um tropel, um sonho, desmedido que há-de realizar-se. E nenhum grito é inútil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé. A alma que vai desesperada à procura de Deus, que erra no universo, ensanguentada e dorida, a cada grito se aproxima de Deus. Lá vamos todos a Deus, os vivos e os mortos.

      O sonho completo é o universo realizado.

      in, Húmus


      Para já a beleza, depois se verá.

NASA's Juno spacecraft




      A sonda Juno foi assim baptizada em referência à mitologia greco-romana, segundo a qual Júpiter se rodeou de um véu de nuvens para esconder a sua maldade. Foi a mulher dele, a deusa Juno, quem conseguiu adentrar esse véu e revelar a natureza real de Júpiter. Assim, e tal como na mitologia, a sonda Juno deu nas primeiras horas desta terça-feira, 5 de julho de 2016, o primeiro passo para penetrar as espessas nuvens de Júpiter, onde passará 18 meses recolhendo, analisando e enviando informações. Ao fim de 5 anos de viagem e de muito dinheiro gasto vamos ter esperança e fé de que tudo correrá bem.

Fairport Convention - Meet On The Ledge



      Richard Thompson escreveu esta canção aos 17 anos. "the ledge" era um local sobre os ramos de uma árvore onde ele se encontrava com os amigos de juventude para compor e partilhar canções. Em inglês, 'ledge' significa 'saliência' e o autor nunca entendeu a razão porque a canção se tornou tão famosa - era normalmente a canção com que os Fairport Convention terminavam os concertos - e porque era cantada em funerais. 
      Numa entrevista à revista Mojo, em março de 2011, Richard Thompson confessou:"The hardest thing about being a 17-year-old songwriter is that you're embarrassed - you're never going to write a song saying, 'These are my feelings, I love you.' So I was trying to find some semi-veiled language that conveyed something to somebody somehow but which didn't really say anything up front. It's a slightly naïve song, a little obscure. I don't even know what it means." Thompson acrescentou: "I had to sing it at my own mother's funeral. It was in her will. That's about the hardest thing I've ever done".
      Thompson, ainda no inicio da carreira (a canção fazia parte do segundo single dos Fairport), não estava seguro das suas capacidades vocais e por essa razão quis que fossem Sandy Denny e Ian Matthews a interpretá-la. Não podia ter feito melhor escolha.

We used to say
That come the day
We'd all be making songs
Or finding better words
These ideas never lasted that long.

The way is up
Along the road
The air is growing thin
Too many friends who tried
Were blown off this mountain with the wind.

  Meet on the ledge
  We're gonna meet on the ledge
  When my time is up I'm gonna see all my friends
  Meet on the ledge
  We're gonna meet on the ledge
  If you really mean it, it all comes round again.

Yet now I see
I'm all alone
But that's the only way to be
You'll have your chance again
Then you can do the work for me.

 Os versos sugerem o papel da amizade verdadeira na construção do que permanece.

Imagem



     Enquanto se espalha a poluição deste tempo em todos lugares, nas ideias e nos afectos, cada um de nós sente-se cada vez mais só. A foto é de Pentti Sammallaht.

Sophia de Mello Breyner Andresen - O mar dos meus olhos


 

A escritora aos 25 anos.
 .
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma


      Quando acontece a 'vastidão de alma' até uma foto antiga o revela.

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