Rosalía de Castro, musicado por Amancio Prada



Adiós, ríos; adiós fontes; adiós, regatos pequenos;
adiós, vista dos meus ollos, non sei cando nos veremos.

Miña terra, miña terra, terra donde me eu criey,
hortiña que quero tanto figueiriñas que prantey,

prados, ríos, arboredas, pinares que move o vento,
paxariños piadores, casiña do meu contento,

muíño dos castañares, noites craras de luar,
campaniñas trimbadoiras da igrexiña do lugar,

amoriñas das silveiras que eu lle daba ó meu amor,
camiñiños antre o millo ¡adiós, para sempre adiós!

¡Adiós groria! ¡adiós contento! ¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que conoço por un mundo que non vin!

Deixo amigos por estraños, deixo a veiga polo mar,
deixo, en fin, canto ben quero...¡Quén pudera non deixar...!

Adiós, adiós, que me vou, herbiñas do camposanto,
donde meu pay se enterróu, herbiñas que biquey tanto,
terriña que nos crióu.

Xa se oyen lonxe, moy lonxe, as campanas do Pomar;
para min, ¡ay !, coitadiño, nunca máis han de tocar.

Xa se oyen lonxe, máis lonxe cada balada é un dolor;
voume soyo, sin arrimo... Miña terra, ¡adiós!, ¡adiós!.

¡Adiós tamén, queridiña...! ¡Adiós por sempre quizáis...!
Dígoche este adiós chorando dende a beiriña do mar.

Non me olvides, queridiña, si morro de soidás...
Tantas légoas mar adentro...¡Miña casiña! ¡meu lar!


Adiós, ríos; adiós fontes; adiós, regatos pequenos;
adiós, vista dos meus ollos, non sei cando nos veremos.


   Dizia Agustina Bessa-Luís "As coisas simples são indissolúveis. Não havendo nelas contradição, a tendência é para serem duráveis." Assim são a poesia de Rosalia e as melodias de Amancio Prada.

Paixão Segundo São Mateus



    A vóz de Emma Kirkby comenta a traição de Judas:

Blute nur, du liebes Herz!
Ach! ein Kind, das du erzogen,
das an deiner Brust gesogen,
droht den Pfleger zu ermorden,
denn es ist zur Schlange worden.

Sangra, coração amado!
Ah! um filho que tu criaste,
que em teu peito foi amamentado,
ameaça matar o seu Protector
pois em serpente ele se tornou.


    A tentação suficiente.

Silvia Ugidos




Tal como qualquer cidade
também nós escondemos
turvos itinerários, edifícios arruinados,
escuras vielas de rancor ou desejo,
arrabaldes de medo ou parques para o amor,
cantos em penumbra onde ocultar segredos,
praças que nunca visitamos
e aborrecidos museus onde expor lembranças
que não interessam a ninguém.
A nós
também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho — primoroso e com laço —
dos remorsos.
Viajantes que passam por nós
com as suas malas a caminho de outros corpos
e sobretudo
transeuntes alheios à nossa própria vontade,
incivis e teimosos;
têm nomes ridículos
tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
e especulam — como vulgares comerciantes —
com o preço
por metro quadrado do nosso coração.


  A tela é de Ricardo Santos Hernandez

Manuel de Barros - Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei. 
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.


   A lição.

Lennart Sjögren - O remo



O achador de um remo quebrado
não pode dizer com certeza
que um naufrágio ocorreu

mas é provável que haja um remador
na água

um esquecimento pode ter ocorrido
o seu nome
rendeu-se à corrente
e renunciou as possibilidades do remo.

Clarice Lispector


    Mas o instante-já é um pirilampo que acende e apaga, acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará no imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago. Só aquilo que capto em mim tem, quando está a ser agora transposto em escrita, o desespero das palavras ocuparem mais instantes que um relance de olhar. Mais que o instante, quero o seu fluxo.

    Irving Berlin compôs "Days may not be fair always, that's when I'll be there always; not for just an hour, not for just a day, not for just a year but always".

Franz Joseph Haydn - Symphony No 94 G major 'Surprise'


    Na Sinfonia nº 94, no segundo andamento, Haydn introduziu um acorde repentino em fortíssimo logo após a abertura do tema em piano, para obrigar os presentes a tomarem atenção à obra e não se deixarem adormecer. Era o tempo em que muitos estavam presentes no concerto porque era fino.

Rosa Alice Branco



Fazes os deveres, ensino
os números a obedecerem-te e a amares
as letras umas ao lado das outras, solidárias
como uma pequena vírgula para que o silêncio
receba a tua voz. Voo junto às tuas asas,
lubrifico-as e fico a ver como se suavizam
os traços do teu rosto. Agora vais partir.
Irei um pouco atrás com a cor da tarde
para não ser vista. Por mais que vás
estarei de mansinho atrás das asas. Ser mãe
é ir assim. É assim que vou à fonte.

   O novo corte umbilical.

Clarice Lispector - A matéria primordial



    Dá-me a tua mão:
Vou te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

    Com os dedos de Bernardo Sassetti.

Herbicida

Ela própria já confundia a literatura
com a capacidade de espalhar Roundup pelos caminhos.
Duas vezes por ano,
cabia-lhe dirigir o trabalho dos homens. Vigiava-os.
A concentração, o débito dos pulverizadores, o ritmo.
Um processo mecânico e assexuado.
Neutro como todas as tarefas de destruição.

   in, Les nichons de la vierge

Joseph Karl Stieler - Retrato de Anna Hillmayer


    A subversão cromática do pecado e da virtude. O pintor é livre. Entretanto a luz brilha.

António Manuel Pires Cabral


5.

Não estou só
Recrutei companheiros para o Inverno
que não o temem como se teme um lobo,
mas apenas como é justo que se tema
o desdobrar das páginas do tempo:
com decoro. Então
aconchegados a mim, e eu a eles.
Somos uma parede.


Mas há quem esteja só
e assim deva ficar.


A esses, tudo aquilo que o nocivo
Inverno lhes trouxer
recordará o que ficou retido
nas levianas demasias do Verão.


As cartas que usarão como recurso
contra a ausência do Sol
ninguém lhas lerá, ser-lhe-ão devolvidas
com um carimbo maquinal: «Desconhecido
neste endereço». Cartas descompostas
de terem ido e voltado.
Cartas que em boa verdade
escreverão a si mesmos
sob outros nomes e moradas. Cartas
semelhantes a ardilosos bumerangues
ou a cães ensinados a voltar para nós,
trazendo na boca, molhado de saliva,
o pau que arremessámos.


in, Telhados de Vidro nº3

  A solidão é mais fria do que a morte.

António Carlos Secchin

É ele!

No Catumbi, montado a cavalo,
lá vai o antigo poeta
visitar o namorado.
Não leva flores, que rapazes
raro gostam de tais mimos.
Leva canções de amor e medo.
Cachoeiras de metáforas,
oceanos de anáforas, virgens a quilo.
Ao sair, deixa ao sono cego do parceiro
dois poemas, um cachimbo e um estilo.


  A estranha exclamação.

Andrea Fossati


Ainda temos ofertas para os deuses.

Jairo Aníbal Niño

Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Tirei-to da sacola.
Não quiseste ir comigo à matiné,
domingo passado.
Contaram-me os meus amigos
que estavas na companhia do Bermúdez,
o grandote que pratica luta livre.
Contaram-me que estavas muito bonita,
e que te rias a cada momento.
Não procures mais pelo teu caderno de geografia.
Agora que está a chover,
assoma-te à janela
e verás passar oitenta barquitos de papel.
Não procures mais pelo teu caderno de geografia.


  No mapa da vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Deito-me tarde.
Espero por uma espécie de silêncio
que nunca chega cedo.
Espero a atenção a concentração da hora tardia
ardente e nua.
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho.
É então que se vê o desenho do vazio.
É então que se vê subitamente
a nossa própria mão poisada sobre a mesa.

É então que se vê passar o silêncio.
Navegação antiquíssima e solene.

   Íntimo, secreto.

The Rumjacks - An Irish Pub Song



There's a county map to go on the wall,
A hurling stick & a shinty ball,
The bric, the brac, the craic & all,
Lets call it an Irish pub,
Caffreys, Harp, Kilkenny on tap,
The Guinness pie & that cabbage crap,
The ideal wannabee Paddy trap,
We'll call it an Irish pub,

Whale, oil, beef, hooked! I swear upon the holy book,
The only 'craic' you'll get is a slap in the ear,
Whale, oil, beef, hooked! I'll up & burst yer filthy mug,
If you draw one more shamrock in me beer!

We'll raise the price o' beer a dollar,
We'll make em wear a shirt & collar,
We'll fly a bloody tri-colour,
And call it an Irish pub,
Jager bombs & double shots,
The underagers think its tops,
We'll spike the drinks & pay the cops,
We got us an Irish pub.

The quick one in the filthy bog,
The partin' glass across the lug,
O' the lady-O, the dirty dog,
We got us an Irish pub,
It's over to me and over to you,
We'll skip along the Avenue,
And who t'hell is Ronnie Drew?
We got us an Irish pub.

Plasma screens & neon lights,
Kara-farkin-oke nights,
The bouncers they can pick the fights,
We'll call it an Irish pub,
Plastic cups, a polished floor,
We'll hose the blood right out the door,
And let the knucklers back for more,
We got us an Irish pub,

Oh top o' the mornin', Garryowen,
Kiss me I'm Irish, Molly Malone,
Failte, Slainte, Pog ma thon,
We got us an Irish pub,
Spike the punch & strip the willow,
Strike me up the rakes o' Mallow,
The Liffey never ran so shallow,
We got us an Irish pub.


    Pub é a abreviatura de 'public place' e a sua origem remonta ao longínquo tempo da ocupação romana na Grã-Bretanha. Os primeiros 'lugares públicos' da Irlanda datam do fim do Século XII. O pub é tradicionalmente um local reservado ao encontro de amigos, para jogar, tratar de negócios, dançar e, por oportuno, consumir bebidas para esquecer as dores da vida.

    Do mesmo modo que Amália Rodrigues, há décadas atrás, se insurgia contra a descaracterização da Casa da Mariquinhas, os The Rumjacks, neste tema, não aceitam a proliferação dos Irish pubs que não respeitam a verdadeira tradição irlandesa.

José Saramago - Retrato do Poeta Quando Jovem




Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.


    Até ao fim.

Charles Villiers Stanford - The Bluebird



The lake lay blue below the hill,
O'er it, as I looked, there flew
Across the waters, cold and still,
A bird whose wings were palest blue.

The sky above was blue at last,
The sky beneath me blue in blue,
A moment, ere the bird had passed,
It caught his image as he flew.

    O poema é de Mary Coleridge e a composição de Charles Villiers Stanford. Os versos descrevem o momento supremo em que um pássaro azul voa sobre as águas de um lago e alguém o observa em silêncio para o acolher dentro de si. O coro de Cambridge foi ao encontro do melhor lugar e dá um exemplo de totalidade.

José Carlos Barros

depois de três dias de
comunicações e mesas redondas sobre
a conservação do lobo
o capuchinho vermelho pediu a
palavra e disse
tudo muito certo
mas como é que eu levo
o lanche
à minha avó?

    Thomas Hobbes reescreveu a frase do notável escritor latino Plauto, "O homem é o lobo do próprio homem.". Pouco há a fazer.

Chantal Maillard

Andava pelas costas da tua mão, confiada,
como quem anda nos montes
seguro de que o vento existe,
de que a terra está firme,
da repetição eterna das coisas.
Mas de repente o universo tremeu:
levaste a mão aos lábios
e bocejando abriste a noite
como uma gruta cálida.

Levavas dez mil séculos despertando
e o fogo ardia impaciente na tua boca.


Tradução de A.M.
a quem sinto dívida.

Anduve por el dorso de tu mano, confiada,
como quien anda en las colinas
seguro de que el viento existe,
de que la tierra es firme,
de la repetición eterna de las cosas.
Mas de repente tembló el universo:
llevaste la mano a tus labios
y bostezando abriste la noche
como una gruta cálida.

Llevabas diez mil siglos despertando
y el fuego ardía impaciente en tu boca.

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