David Inshaw



O Corvo, 1971

Vincent Van Gogh



Passeio de Inverno.

Greg Kosmicki - Nunca conseguimos alguma coisa


Este caderno é tão velho que o papel amareleceu.
Pergunto-me onde terá crescido a árvore.

Parece que nunca conseguimos alguma coisa sem perder outra.
Há uma espécie de lei que regula isto
e que tem que ver com a finitude dos recursos.
Algures alguém calculou exactamente quanto
custou a minha vida à terra,
quantas pessoas tiveram de morrer para que eu possa existir.

A começar pelos meus pais, e os seus, e todos os que morreram
por causa deles. É como se nos desfizéssemos em sangue.
Quem poderá então acordar amanhã de manhã
e cumprir as suas obrigações, anteriormente preparadas,
como se isso fosse o seu trabalho e apenas o seu trabalho?
Quem terá a coragem de se virar de novo para leste
e olhar o sol que é dos outros?

Tintarella Di Luna - Hetty and the Jazzato Band



A beleza da língua italiana harmonizada.

The Bookshop










      É um filme bonito e belo. O seu conteúdo simples relembra-nos que a realidade da vida é mais forte que um romance ou mesmo um conjunto de muitos livros. A actriz protagonista, Emily Mortimer é uma mulher de uma beleza serena e há silêncios, vento na natureza, a calma dos lugares, a solidão e o barco. Há exteriores que foram gravados nas praias de Barcelona e na Irlanda do Norte.
      A realizadora do filme "A Livraria" é a cineasta espanhola Isabel Coixet, que ganhou o Goya de melhor realização em Espanha. O filme foi baseado no livro da inglesa Penelope Fitzgerald, "The Bookshop" e acontece no final dos anos 50 na Inglaterra, na cidade de Hardborourgh.

Maria Luiza Neto Jorge - Cidades do Sul


Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.

Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.

Mzi Mahola - A Casa do Pobre


Quando era rapaz
Nunca perguntei o motivo
Do percurso solitário
que vinha do abrigo do homem pobre.

Por que ziguezagueava
Como a fuga de uma fera ferida.

Agora que sou adulto
Sei por que os ricos se perturbam
Quando resmungamos.

Tradução de Isaac Pereira

Anaquim - Sou imune ao teu charme




      A música da indústria é o que é e, quase sempre, faz-nos ir às caixas das pastilhas elásticas. O Show que deve continuar em go on alivia a vida. Os Anaquim são uma banda de Coimbra, na qual José Rebola é o compositor e letrista. A sua música tem influências de cantautores portugueses, como Fausto, Sérgio Godinho e Zeca Afonso, mas ainda da canção francesa, da música country e do blue grass. Neles é na ironia que começa a liberdade.

Francesco Primaticcio



Ulisses e Penélope

Rui A. - Ortografias


Fossem muitos fossem quantos, os sítios de te encontrar,
não seriam nunca demasiados;
e não seriam nunca suficientes, os sítios de te cantar.

Fossem muitos, fossem quantos, os cantos de te cantar,
haveria sempre uma revolução francesa,
qualquer coisa de rocambolesco a atrapalhar
o encontro de dois corpos
- com a força toda e toda a consistência da história da humanidade.

Ou, apenas, alguma realidade.

Para a história fica, para lá de óbvios problemas de ortografia,
um segredo.

Izet Sarajlic - Todas voltam de algum lugar



Todas voltam de algum lugar
Zelja de Regensburgo.
Sanja de Trieste.
Asja de Maiorca.
Daniela de Tuniz.
Nieves de Roma.
Mirka de Budapeste.
Sandra Lucic de Tucepi.
Nusa Kajetan do mercado.
Zaga do hospital.
Lucy das aulas.

Todas voltam de algum lugar.
Apenas tu não voltas.

      A tela é de Sir William Orpen, The window seat, 1901

Sophia de Mello Breyner Andresen - O gesto claro


Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem limpidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso
Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa.

An Gréasaí Bróg - Muireann Nic Amhlaoibh



      An Gréasaí Bróg ("The shoemaker"), also known as Beidh Aonach Amárach ("There's a fair tomorrow"), is a popular children's song from West Clare. The old Irish beauty.

Pablo Picasso



Aqui em baixo é tudo azul e é azul a fé que nos move.

Eugénio de Andrade - Escrita da Terra


Afinal os romanos eram
como eu: amavam
os lugares onde a grandeza
e a solidão
andam de mãos dadas.

António Ramos Rosa - A Pedra


A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.

Rui Nunes - Nocturno


façam com as palavras aquilo que quiserem,
desfaçam-nas:
uma palavra desfeita não magoa,
uma palavra inteira rasga a boca,
uma palavra inteira é a certeza
de outra palavra inteira, a corda fina
que vai da trave à terra, do caibro ao vento
de uma janela aberta:
a imprecisa
minúcia da poeira

Gustav Klimt



Quando o pintor ajuda Deus a reajustar a criação.

Friedrich Holderlin - Advocatus Diaboli


Do fundo do coração, eu odeio a turba
dos grandes deste mundo, e dos seus
mensageiros.
E, mais ainda, a genialidade que eles
praticam.

Omar Khayyam - Esta noite


Esta noite a tua boca é a mais bela rosa do universo
Bebo para afogar este pesadelo
Que o vinho seja rubro como as maçãs do teu rosto
E os meus versos tão leves como os anéis dos teus cabelos.

    Palavras vulgares, não são leitor? Talvez não.

The Grass So Little Has To Do by Emily Dickinson





      Time stands still at the beginning of the poem. The day passes, but for the grass it has just been to “brood” some caterpillars into butterflies, to tickle the low-flying bumblebees, and move to the “pretty tune” that the breezes “fetch along” as they travel through the woods and meadow. At night they turn the condensate into pearls of dew drops that gleam and glow as the sun rises. With such riches and beauty a duchess could ride by and not attract a single glance. What a poem for a lyrical song.

  Other words of beauty and wisdom:

To make a prairie it takes a clover and one bee,
one clover, and a bee,
and reverie.
The reverie alone will do,
if bees are few.

Para se fazer uma campina necessita-se de um trevo e de uma abelha,
um trevo, e uma abelha,
e a fantasia.
A fantasia sozinha bastará
se as abelhas forem escassas.

John Clare - Agora é passado III


Agora é passado, mudado e envelhecido,
As florestas e os campos estão pintados de novo.
Morangos silvestres que ambos colhemos então,
Nenhum de nós sabe agora onde cresciam.
O céu está nublado
Os morangos desapareceram da entrada da floresta
Todas as folhas verdes se tornaram amarelas;
Adelaide já não percorre os caminhos da floresta.
O amor verdadeiro não tem com quem deitar-se.
Agora é passado.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro

John Clare - Agora é passado II


Agora é passado desde que por último nos encontrámos
Sob o ramo da aveleira;
Antes que o sol da tarde se pusesse
A sombra dela estendeu-se sobre a terra.
A rajada do Outono
Manchou e definhou cada ramo;
Morangos silvestres como os lábios dela
Deixaram os musgos verdes do chão
E a flor que ela tinha sobre as ancas.
Agora é passado.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro

John Clare - Agora é passado I


Agora é passado - o feliz agora

Quando juntos caminhámos
Sob o ramo do carvalho da floresta
E a natureza disse que nos amávamos.
A rajada do Inverno
O agora desde então rastejou
Por entre nós e separou-nos.
Invernos que murcharam todo o verde
Gelaram o bater do coração.
Agora é passado.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro

A arte de conviver em tolerância











O sonho pela terra.

Ernst Meister - Estudo


Através da janela
mando
a negra razão
falar com a
paisagem.

Tradução de João Barrento

Poema de amor do antigo Egipto

Ameno é o canal que tu cavaste
Pela frescura do vento norte.

Tranquilos os nossos caminhos
Quando a tua mão descansa na minha em alegria.

A tua voz dá vida, como o néctar.

Ver-te é mais do que alimento e bebida.

   Tradução de Hélder Moura Pereira

Leonard Cohen - Did I Ever Love You




Beauty and pain walk hand in hand, down the road
holding the curve of an umbrella's handle
A lonely glove is laying on the sidewalk
and a crashed voice cradels my heart
If there is God he probably listens to you
as you said the whole truth
mine too.

      Dear Leonard it sure rains a lot this november. Thank you for changing my life.

Katherine Hearst - Em boa companhia


E qual é o problema se tenho
o cabelo encaracolado
e as ancas largas?
Talvez não tenha os
dedos longos e elegantes que às vezes
gostaria de ter.
Posso colher margaridas na mesma.

Confesso -
não sou capaz de dizer o ano
em que Napoleão combateu em Waterloo
ou o número atómico do urânio.

É verdade que quando canto
me esqueço das palavras -
o meu chuveiro ainda não correu comigo.

Insuficiências
não me faltam.
Muitas coisas que não sou capaz de fazer,
muitas coisas que não faço
suficientemente bem.

Por outro lado, danço no ritmo certo.
Tenho o último parágrafo de O Grande Gatsby
guardado na memória
e faço um batido de fruta dos diabos.

Por cada parte minha que é insatisfatória
há uma parte
inteiramente satisfatória -
talvez até encantadora
ou, nos meus melhores dias,
maravilhosa.

Eu sou a minha única e fiável companhia nesta vida,
os amigos são arrastados pela corrente, a família desaparece e
os amantes vão para onde vão os amantes por muito
que queiramos que eles fiquem.

Tudo bem.
Eu gosto de mim.

E sou uma companhia muito boa.

Gustav Klimt - Mäda Primavesi, 1912



A juventude é um festim para os sentidos.

Brian Patten - Uma folha de erva


Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
Do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
Não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia àcerca
De como uma folha de erva
Se torna cada vez mais difícil de oferecer

E de como quanto mais envelheces
Uma folha de erva
Se torna mais difícil de aceitar.

Tradução de Jorge Sousa Braga

José Tolentino Mendonça - De Rubliev


Quando Rubliev morreu, o seu mestre, Danila Tchorny, não jejuou nem fez qualquer lamento. E a sua porta não conheceu o perfume alto dos ramos da árvore do incenso.
Então o ânimo dos seus discípulos vacilou. Que acontecia? Tchorny não amava Rubliev? Ele que fora o vigia fiel dos enigmas arriscados! Ele que sabia, de memória, o escondido desenho dos provérbios!
Por essa altura, Danila Tchorny, o mestre, foi designado para pintar o ícone do Criador, na cúpula do secular mosteiro de Troistsko.
Pintou Deus. Tão grande e brilhante. Os discípulos compreenderam.
Deus era a morada de Rubliev.

Leonard Cohen - Going Home



Em breve todos iremos para casa
depois de oferecemos à vida a última romã. 

Carl Vilhelm Holsøe












A arte de pintar interiores.

Sophia de Mello Breyner Andresen - O gesto claro


Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem limpidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso
Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa.

Eugénio de Andrade


Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

Carlos Drummond de Andrade - Por muito tempo


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

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