Isaías 11, 1-10



"O lobo viverá com o cordeiro
e a pantera dormirá com o cabrito;
o bezerro e o leãozinho andarão juntos
e um menino os poderá conduzir.
A vitela e a ursa pastarão juntamente,
suas crias dormirão lado a lado;
e o leão comerá feno como o boi.
A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra
e o menino meterá a mão na toca da víbora.
Não mais praticarão o mal nem a destruição
em todo o meu santo monte:
o conhecimento do Senhor encherá o país,
como as águas enchem o leito do mar."


      A revolta do homem contra Deus (Gn 3) havia introduzido no mundo factores de desequilíbrio que quebraram a harmonia entre o homem e a natureza (Gn 3,17-19), entre o homem e o seu irmão (Gn 4)… Mas agora o "Messias" trará a paz e, dessa forma, cumprir-se-á o projecto inicial que Deus tinha para o mundo e para o homem: os animais selvagens e os animais domésticos viverão em harmonia. A própria serpente (o animal que despoletou a desarmonia universal, ao estar na origem do afastamento do homem do Deus criador) comungará desta harmonia e desta paz sem fim: é a superação total do desequilíbrio, do conflito, da divisão que o pecado do homem introduziu no mundo. 

Caravaggio - Descanso na Fuga para o Egito




      É uma pintura do mestre do barroco italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio, de 1597, que se encontra na Galeria Doria Pamphilj em Roma, e que retrata um anjo a tocar para a Sagrada Família durante o seu descanso na Fuga para o Egipto. 
      A cena é baseada, não na Bíblia, mas em contos ou lendas que se tinham desenvolvido no início da Idade Média. De acordo com a lenda, José e Maria interromperam a fuga num bosque; o Menino Jesus ordenou às árvores que se curvassem, assim José poderia apanhar frutos e, em seguida ordenou que uma fonte de água jorrasse das raízes para que os pais pudessem saciar a sede. Esta história adquiriu muitos detalhes extras durante os séculos.

Miguel Torga - Súplica



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…

Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

      Este poema é um texto de retiro. Cansado do amor, da profissão, da luta, das vitórias, resta "Por favor, deixa-me só. Quero regressar ao cais."

1º de Dezembro



Bem-hajam os heróis 
que ajudaram a melhorar a nossa terra.

Freud dizia "Nós somos o que fizeram de nós", mas Jean-Paul Sartre melhorou essa opinião dizendo "nós somos o que fazemos do que fizeram de nós."

Rhiannon Giddens - Julie



      Rhiannon Giddens compôs esta canção, onde se estabelece o diálogo entre um escravo sulista e a sua amada negra durante a Guerra Civil. A autora escreveu os versos depois de ter lido "The Slaves War" de Andrew Ward, que reconta esta parte da história americana na perspectiva dos escravos. A melodia faz lembrar a de Pretty Polly, a mesma que inspirou a de Masters of War de Bob Dylan.

Federico García Lorca - O menino Stanton



Do you like me?
Yes, and you?
Yes, yes.

Quando estou só
restam-me ainda os teus dez anos,
os três cavalos cegos,
os teus quinze rostos com o rosto apedrejado
e as pequenas febres gélidas sobre as folhas do milho.
Stanton. Meu filho. Stanton.
Às doze da noite o cancro saía pelos passeios
e falava com as conchas vazias dos documentos.
O vivíssimo cancro cheio de nuvens e termómetros
com a sua casta ânsia de maçã, para que não o piquem os rouxinóis.
Na casa onde não há um cancro
quebram-se as paredes brancas no delírio da astronomia
e nos estábulos mais esconsos e nas encruzilhadas dos bosques
brilha por muitos anos o fulgor da queimadura.
A minha dor sangrava pelas tardes
quando os teus olhos eram dois muros.
Quando as tuas mãos eram dois países
e o meu corpo rumor de erva.
A minha agonia em busca da sua roupa,
poeirenta, mordida pelos cães,
e tu acompanhaste-a sem vacilar
até à porta da água escura.
Ó meu Stanton, idiota e belo entre os pequenos animaizinhos,
com a tua mãe partida pelos ferreiros das aldeias,
com um irmão debaixo da ponte,
outro comido pelos formigueiros
e o cancro, sem vedações, latindo por entre as casas!
Há amas de leite que dão às crianças
rios de musgo e amargura de pé
e algumas negras sobem andares para espalhar veneno de rato.
Porque é verdade que a gente
quer lançar as pombas nas sarjetas
e eu sei o que esperam aqueles que, pela rua,
nos apertam a carne dos dedos.
A tua ignorância é um monte de leões, Stanton.
No dia em que o cancro te deu uma surra,
cuspiu em ti no dormitório onde morreram os hóspedes durante a epidemia
e abriu a sua quebrada rosa de vidros secos e mãos brandas
para salpicar de lodo as pupilas dos que navegam,
tu procuraste na erva a minha agonia,
a minha agonia com flores de terror,
enquanto o ácido cancro mudo que quer deitar-se contigo
pulverizava paisagens vermelhas pelos lençóis da amargura
e colocava sobre os caixões
pequenas plantas geladas de ácido bórico.
Stanton, vai para o mato com as tuas harpas judias,
vai, para que aprendas as palavras celestiais
que dormem nos troncos, nas nuvens, nas tartarugas,
nos cães que dormem, no chumbo, no vento,
nos lírios que não dormem, nas águas que não abundam,
para que aprendas, filho, o que o teu povo esquece.
Quando começar o tumulto da guerra,
deixarei um bocado de queijo ao teu cão no escritório.
Os teus dez anos serão as folhas
que voam da roupa dos mortos.
Dez rosas de débil enxofre
ao ombro da minha madrugada.
E eu, Stanton, eu somente, em esquecimento,
com as tuas caras murchas sobre a minha boca,
penetrarei repetidamente as verdes estátuas da Malária.


      Stanton Hogan é o menino que tem de aprender a lidar com o outro lado da vida e, como nas histórias de iniciação, tem de atravessar o rio com a harpa judaica e com o cão velho. O que levará o ser humano a escrever assim? A homossexualidade, a Guerra de Espanha, "flores de terror"? "Dez rosas de débil enxofre ao ombro da minha madrugada"? Os versos de Lorca são feito e dor e morte.

Jonio González - Expiação

não farei nada para que me entendas
nem recitarei a litania
que faz florir o tronco morto:

ergui de propósito
a minha casa sobre a areia,
cuspi contra o vento
para o céu,
pus a cabeça no cepo

e não farei nada para que me perdoes,
ficarei aqui à espera
com o meu melhor sorriso,
a rimar pão com fome
e escuro com travessia.


  Original:

no haré nada por que me entiendas
ni recitaré la letanía
que hace florecer el tronco muerto:

he levantado a conciencia
mi casa sobre la arena
he escupido contra el viento
al cielo
he metido los pies en el cepo

no haré nada por que me perdones
me quedaré aquí
aguardando a que lleguen
con mi mejor sonrisa
rimando pan con hambre
oscuridad con travesía.


  Antigas, as histórias dos amantes.

É mais difícil no escuro

           

     Obrigado, L. Cohen.

Kraków żegna Leonarda Cohena



      Cracóvia é uma cidade da Polónia. Localiza-se no sul do país, nas margens do rio Vístula e tem cerca de 850 mil habitantes. Foi fundada por volta do ano 700 por um sapateiro remendão chamado Krak, que se tornou no primeiro rei do seu país, sendo capital entre 1320 e 1596. Por estar perto de Auschwitz, é muito comum turistas, ao visitarem a cidade, passarem o dia no mais famoso campo de concentração da Europa.
      Desta vez, ao tomar conhecimento da morte de Leonard Cohen, a cidade saiu à rua e homenageou alguém que lhes diz muito. "Nós temos um carinho muito grande por ele. Uma vez veio cá cantar, foi a Campo de Concentração e houve amigos nossos que o viram chorar. Hoje, choramos nós por ele como se fosse da nossa família polaca." Disse uma das pessoas na praça. É a antiga cultura europeia no seu melhor.

Rebecca De Mornay



      A actriz de 57 anos referiu à revista People o seguinte “Leonard Cohen was one of the greatest poets, but for me, he was also one of the most important people in my life, and losing him is like losing a limb.”
      “He was my ground, he was my aerial, as he wrote in his song 'Treaty' I really cannot fathom what life will be like without him in it. At least I was able to spend time with him in his last year. He faced death as he faced life: straight on, with honesty, grace, and breathtaking depth of perception. He enjoyed the quiet, simple moments with friends, and being immersed in working on songs. He said in his last interview that he was ready to die, and he said in his last public outing that he would live forever. Both are true. There was no one like him, and there never will be.”

Dance Me to the End of Love




      Em 2011, o coro da cidade australiana de Sydney de nome 'Timbre Flaws' resolveu agitar a estação de caminhos de ferro local, pela altura do Natal. O resultado é surpreendente e demonstra como as canções de L. Cohen não são nem tristes nem pessimistas.

Field Commander Cohen





Field Commander Cohen, he was our most important spy.
Wounded in the line of duty,
Parachuting acid into diplomatic cocktail parties,
Urging Fidel Castro to abandon fields and castles.
Leave it all and like a man,
Come back to nothing special,
Such as waiting rooms and ticket lines,
Silver bullet suicides,
And messianic ocean tides,
And racial roller-coaster rides
And other forms of boredom advertised as poetry.

I know you need your sleep now,
I know your life's been hard.
But many men are falling,
Where you promised to stand guard.

I never asked but I heard you cast your lot along with the poor.
But then I overheard your prayer,
That you be this and nothing more
Than just some grateful faithful woman's favorite singing millionaire,
The patron Saint of envy and the grocer of despair,
Working for the Yankee Dollar.

Ah, lover come and lie with me, if my lover is who you are,
And be your sweetest self awhile until I ask for more, my child.
Then let the other selves be wrong, yeah, let them manifest and come
Till every taste is on the tongue,
Till love is pierced and love is hung,
And every kind of freedom done, then oh,
Oh my love, oh my love, oh my love.

      Hoje, Fidel Castro morreu. Cohen considerava-o um "fool", um louco, um sonhador, porque os exploradores e os explorados, os ricos e os pobres, os manipulares de intenções, os guardiões da ignorância, os senhores e os escravos continuam e hão-de continuar. Nesta canção, Cohen que confessa trabalhar para o Yankee Dollar, aconselha Fidel a abandonar as praças e castelos que conquistou. 

Suzanne Elrod




      Leonard Cohen conheceu Suzanne Elrod  em Manhattan, num dos  elevadores do Chelsea Hotel, “He was going in, I was going out” recorda Suzanne Elrod. “Eu tinha 19 anos e aceitei ir viver com ele no apartamento, mantendo os dois uma vida cultural muito elevada entre escritores, pintores e filósofos. Ele tinha um jeito especial para contemplar e meditar as conversas, as pessoas, os lugares e até fazia isso comigo. Olhava-me "como Abraão olhava Sarah“ e ficava à espera de um milagre de luz. Lia Layton, Whitman, Lorca e frequentemente regressava a Montreal para estar com a mãe "She was his most dreamy spiritual influence," recordou Suzanne. “The only thing that bothered me was that she always called me Marianne."
      Suzanne recorda, ainda "We admired the wild peacocks, listened to the stream in the morning, watched the sunset in the evening. I was devoted to him. As long as someone like him was in the universe, it was okay for me to be here. I was walking on tiptoe - anything for the poet. Our relationship was like a spider web. Very complicated.", "Leonard is the most responsible human being imaginable. He’s always been there for the children.", "I always felt married."
      Embora Cohen tivesse oferecido a Suzanne "a filigreed Jewish wedding ring" a união matrimonial nunca chegou a ser formalizada. A mãe acabou por morrer e os dois separaram-se em 1978. Ela acabou por ir viver para Avignon, em França, com os dois filhos Adam e Lorca e vive agora (2016), em Paris. "I believed in him," disse ela "He had moved people in the right direction, toward gentleness. But then I became very alone - the proof of the poetry just wasn’t there." 
      Suzanne confessou, que quando a Lorca lhe confirmou o falecimento de Leonard, começou a chorar e foi assim até ao aeroporto.

The bird



      "Eu vim de tão longe à procura da beleza."

      L. Cohen encontrava nas suas referências literárias uma boa maneira de falar da velhice: «Tennessee Williams escreveu um dia: ‘A vida é uma peça de teatro muito bem escrita, excepto no 3.º acto’. E eu estou a começar agora o 3.º acto». 
      Ao longo da vida andou à procura do amor, da palavra e de Deus. Em cada um procurou a beleza. 

O mal em nós



      Adolph Eichmann tornou-se o responsável pela morte de 5 milhões de seres humanos, ao gerir as deportações em massa dos judeus para os campos de concentração, nas zonas ocupadas pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Este estranho poema de L. Cohen, que era judeu, demonstra que o mal em nós está na nossa natureza.

Pete Seeger - To My Old Brown Earth




      To my old brown earth and to my old blue sky, I'll now give these last few molecules of "I". And you who sing and you who stand nearby I do charge you not to cry. Guard well our human chain, watch well you keep it strong as long as sun will shine, and this our home keep pure and sweet and green, for now I'm yours and you are also mine.  by Pete Seeger

      Tradução: À minha velha terra castanha e ao meu velho céu azul, eu irei dar agora estas poucas moléculas do meu "Eu". E a vós que cantais e que permaneceis por perto, eu encarrego-vos de não chorarem. Guardem bem os elos humanos, ponderem bem e mantenham-nos fortes enquanto o sol brilhar. E mantenham a nossa casa alva, limpa e verde, porque agora eu sou uma parte de vós e vós sois uma parte de mim.

      "Seeger é um sonhador de velhas lutas inúteis" L. Cohen

Anthem




      É um vídeo bonito para o que se diz ser, um texto contrastivo com o refrão "The answer my friend is blowing in the wind" de Bob Dylan. Cohen bloqueou as respostas: "The holy dove will be caught again", "The wars will be fought again", "The widowhood of every government", "While the killers in high places say their prayers out loud". A resposta não está no vento, mas no malogro, na derrota, no fracasso, na perda e na aprendizagem possível (a luz) que surge de cada um desses momentos.



           Each man
           has a way to betray
           the revolution
           This is mine.

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