José Luís Peixoto - Palavras para a Minha Mãe



mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses 
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. 
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente. 

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste 
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te 
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente. 

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, 
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia 
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz. 

lê isto: mãe, amo-te. 

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não 
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que 
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não 
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes. 

Roberto Calasso

   

A Alegoria da Árvore da Vida de Ignacio de Ries

      Não existe uma rigorosa distinção entre símbolo e alegoria, na medida em que a alegoria é a própria simbologia em decomposição, morta por hipertrofia. Todavia, nessa decomposição do símbolo liberta-se um poder imenso, o frio sentido algébrico, o que permite criar com soberano arbítrio as convenções, impor que qualquer coisa possa substituir qualquer outra coisa. «A alegoria seiscentista não é convenção da expressão, mas expressão da convenção»: assim se cria também o mito da escrita, perene festim de morte, entregue à «volúpia com que o significado domina, como um tenebroso sultão, no harém das coisas». A alegoria incontrolável, agora subtraída a uma ordem viva do sentido, mera obrigação de procurar imagens e de ir elaborando sempre o seu significado através de lacerações combinatórias, provoca acima de tudo o extravasar das próprias imagens: tal como os objectos invadem obsessivamente a cena do teatro barroco, até se converterem nos verdadeiros protagonistas, também as figuras irrompem como ameaças nos livros de emblemas, comemorando a cisão progrediente entre imagem e significado. Quem é que, ao abrir Emblematum Liber de Alciato e ao ver uma mão cortada com um olho na palma, pousada em pleno céu, numa paisagem campestre, poderá pensar na prudência, como pretendia o texto do emblema? Reconhecerá, pelo contrário, a vivisecção do corpo humano, uma muda alusão ao estado de natureza como obra de alvenaria e a inconsciente instauração do fragmento como categoria dominante do estético. Com a acumulação destes materiais prepara-se a ribalta do moderno. A história de então prefigura a verdadeira história dos nossos dias: aquelas imagens, então saídas para o mundo, como feras saídas da jaula, continuam a vaguear pelo mundo. Kafka descreveu-as: «Leopardos irrompem pelo templo e esvaziam os vasos dos sacrifícios; isso repete-se sempre; no fim, pode prever-se, e torna-se uma parte da cerimónia». Alegoricamente, o escritor é aquele que assiste a essa cena.

    in, Os Quarenta e Nove Degraus

Jean Giono - L'homme qui plantait des arbres




Aula para os meus alunos.


       O desenho animado "L’homme qui plantait des arbres", de 1987, conta a história de Elzéard Bouffier, um pastor de ovelhas silencioso e persistente, que dedicou a sua vida ao plantio de milhares de árvores, durante mais de 30 anos, numa grande área dos Alpes franceses, na região de Provença. De tal modo o fez, que modificou completamente a paisagem e se edificou ele mesmo como pessoa. No fim da vida já tinha perdido o hábito de falar, porque já não havia necessidade de o fazer. 

Wallace Stevens

    «O abstracto não existe, mas existe como imanente. Ou seja, a ficção abstracta é tão imanente na mente do poeta como a ideia de Deus é imanente na mente do teólogo. O poema é uma luta com a inacessibilidade do abstracto.»

    in, Notas Para Uma Ficçao Suprema

Agustina Bessa-Luís - Memórias


    

   Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não saberemos onde elas nos podem levar. Hibernam por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidas. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor dos sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas.

    Diamantes.

The Beatles - Lady Madonna




Humphrey Lyttelton and His Band - Bad Penny Blues.
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Lady Madonna, children at your feet
Wonder how you manage to make ends meet
Who finds the money? When you pay the rent?
Did you think that money was Heaven sent?

Friday night arrives without a suitcase
Sunday morning creep in like a nun
Monday's child has learned to tie his bootlace
See how they run!

Lady Madonna, baby at your breast
Wonder how you manage to feed the rest

See how they run!

Lady Madonna, lying on the bed
Listen to the music playing in your head

Tuesday afternoon is never ending
Wednesday morning papers didn't come
Thursday night you stockings needed mending
See how they run!

Lady Madonna, children at your feet
Wonder how you manage to make ends meet.


     A canção é um tributo às mulheres pobres, que sofrem para dar o que têm e o que não têm para criar os filhos. Uma forma de stabat mater moderno. A pluri-significação dos versos sugere uma mulher católica, que não usa a pílula, mas que chega a prostituir-se para fazer com que o dinheiro chegue até ao fim do mês. O verso que John Lennon juntou "See how they run" complica ainda mais a interpretação. Terão, mulheres como esta, dificuldade em enfrentar a moral oficial e fogem para dela se esconderem? Ou serão os miúdos a brincar? 
    Quanto à melodia, ela é inspirada em "Bad Penny Blues" de Humphrey Lyttleton, um clássico de jazz dos anos 50. Atente-se nesta citação de Paul McCartney "I was trying to write a bluesy boogie-woogie thing. I got my left hand doing an arpeggio thing with the chord, an ascending boogie-woogie left hand, then a descending right hand. I always liked that, the juxtaposition of a line going down meeting a line going up."
    São, ainda, notáveis as harmonias que George Martin criou para o verso "See how they run", os "horn and sax arrangements", a voz à "Elvis" de McCartney, os dias da semana com a excepção do sábado e, quem desejar ouça a versão de 1968 de Fats Domino.

Ary dos Santos - Retrato de Sophia