Mt 10,26-31

   Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos:

28 Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno! 
29 Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. 
30 Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. 
31 Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais.

   A beleza da poesia bíblica, hoje, na igreja da minha aldeia. 

Billy Joel - Piano Man



It's nine o'clock on a Saturday
The regular crowd shuffles in
There's an old man sitting next to me
Making love to his tonic and gin

He says, "Son can you play me a memory
I'm not really sure how it goes
But it's sad and it's sweet
And I knew it complete
When I wore a younger man's clothes."

Sing us a song you're the piano man
Sing us a song tonight
Well, we're all in the mood for a melody
And you've got us feeling alright

Now John at the bar is a friend of mine
He gets me my drinks for free
And he's quick with a joke or to light up your smoke
But there's someplace that he'd rather be

He says, "Bill, I believe this is killing me."
As a smile ran away from his face
"Well, I'm sure that I could be a movie star
If I could get out of this place."

Now Paul is a real estate novelist
Who never had time for a wife
And he's talking with Davy, who's still in the Navy
And probably will be for life

And the waitress is practicing politics
As the businessmen slowly get stoned
Yes, they're sharing a drink they call "Loneliness"
But it's better than drinking alone

Sing us a song you're the piano man
Sing us a song tonight
Well we're all in the mood for a melody
And you've got us feeling alright

It's a pretty good crowd for a Saturday
And the manager gives me a smile
'Cause he knows that it's me they've been coming to see
To forget about life for a while

And the piano it sounds like a carnival
And the microphone smells like a beer
And they sit at the bar and put bread in my jar
And say, "Man, what are you doing here?"

Sing us a song you're the piano man
Sing us a song tonight
Well we're all in the mood for a melody

And you've got us feeling alright.


      Os versos da canção são cantados do ponto de vista de um pianista de bar que se foca em todas as outras pessoas que estão no bar: John, o bartender; a servente e visitantes como Paul e Davy. A maioria das personagens são sonhos não completos, e o trabalho de pianista, ao que parece, é ajudar os outros a esquecer a vida por um momento.
      O refrão, vem dos donos do bar que cantam, "Sing us a song, you're the piano man, sing us a song, tonight. "Well, we're all in the mood for a melody and you've got us felling alright." (Ora, cante-nos uma canção. Você é o pianista. Cante-nos uma canção esta noite, pois nós estamos dispostos a ouvir uma melodia e você faz-nos sentir bem.)

Adrienne Rich - Não lhes direi onde fica esse lugar



Há um lugar entre dois arvoredos onde a erva cresce encosta acima
e a velha estrada revolucionária se desfaz em sombras
junto de uma casa de culto abandonada pelos perseguidos
que nessas sombras desapareceram.

Fui lá dar ao apanhar cogumelos rente ao pavor, mas não se deixem enganar
isto não é um poema russo, não é outro lugar senão este,
o nosso país a aproximar-se da sua própria verdade e pavor,
das suas próprias formas de fazer desaparecer pessoas.

Não lhes direi onde fica esse lugar, essa trama sombria de floresta
que se encontra com a ilesa tira de luz -
encruzilhadas cravejadas de fantasmas, paraíso de compostagem:
sei bem quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazê-lo desaparecer.

E, se não lhes digo onde fica, porque é que lhes digo
o que seja? Porque ainda ouvem, porque em tempos como estes
para que sequer dêem ouvidos, é necessário
falar de árvores.

Trad. Vasco Gato


      No tempo de Estaline as pessoas não eram mortas, simplesmente desapareciam. 

Monty Python - A Book At Bedtime



      Anda por aí, uma estatística que dá a conhecer que muito poucos portugueses lêem mais de dois livros por ano, porém compram cinco. Há uma outra ainda pior, entre cada cinco portugueses os cinco sabem ler e escrever, contudo só um consegue interpretar. No reino de Sua Majestade a situação não parece ser diferente.

John Cleese, Connie Booth - Bookshop



Uma loura nem sempre dá trabalho, mas esta dá mesmo.

Girls in mini dress (c. 1960)



      A minissaia é um saia cuja bainha fica bem acima dos joelhos - geralmente 20 cm acima do joelho -. Esta peça de roupa foi definida como o símbolo da moda "Swinging London" na década de 1960. Se por um lado destapava mais feminilidade por outro encurtava-lhe o mistério.

O Trio Odemira



      Os irmãos Júlio e Carlos Costa foram ainda novos para Odemira. O conjunto Dois Odemira surgiu em 1955, quando venceram um concurso de novos talentos promovido pelo programa radiofónico "Companheiros da Alegria" de Igrejas Caeiro. Tornaram-se Trio Odemira com a entrada de um novo elemento, José Ribeiro.
      O primeiro LP foi gravado em 1957 pela Valentim de Carvalho. O disco que gravaram tinha um tema 'Rio Mira' que se tornou num grande sucesso, fora o caso de o tema ter sido proibido pela Rádio Renascença, por causa da rapsódia incluir uma quadra popular de um analfabeto de Odemira, que rezava assim: «Ai se eu tivesse a liberdade/Que a pulga tem no lençoli/Apalpava as moças todas/Esta é dura aquela é moli». Dados da Wikipedia.

Eugenio Montale - A poesia (em itália)

Desde os alvores do século se discute
se a poesia existe dentro ou fora.
Primeiro venceu o dentro, depois contra-atacou
duramente o fora
e desde há anos se assiste a um empate
que não poderá durar visto que o fora
está armado até aos dentes.

in, La poesia (In Italia)
Traduções de David Mourão-Ferreira


















 Versão do poema do Sr. Montale.

Desde os alvores dos tempos que se discute
se a Deus existe só dentro ou só fora de nós.
Primeiro venceu o fora, depois contra-atacou
duramente o dentro
e desde há anos se assiste a um empate
que não poderá durar visto que o só dentro
está armado até aos dentes.

 Que me desculpe o Sr. Montale.

Théodore Charles Coquelin - Still life with plums



A ameixeira, ameixoeira ou ameixieira dá ameixas.

Paul Brady - The Lakes of Pontchartrain



It[G] was on one[D] fine March[C] morning,            [Em]when[G] I bid New[D] Orleans a[G]dieu,         [G]and I was on[D] the road to[C] Jackson[Em] town,  [G]my fortunes to[C] renew,                 I[G] cursed[D] all foreign[C] money,[Em]           [G]no credit[C] could I gain,               [G]which filled my[D] heart with[C] longing for,    [Em]the[G] lakes of[D] Pontcha[G]rtrain I stepped aboard a railway train beneath the morning sun. I rode the rails ‘til evening  and lay me down again. All strangers there, no friends to me, ‘til a dark girl towards me came. And I fell in love with a Creole girl on the Lakes of Pontchartrain.   I said "my pretty creol girl,  My money here's no good,  If it weren't for the alligators, I would sleep out in the wood, your welcome here, kind stranger our house is very plain,  but we never turn a stranger out on the lakes of Pontchartrain" She took me to her mamma's house,  and treated me right well, her hair upon here shoulders, in jet black ringlets fell, to try to preen here beauty I'm sure would be in vain so hansome was my creol girl on the lakes of Pontchartrain I asked her would she marry me, and she it never would be, while she had got a lover, and he was off at sea she said that she would wait for him and faithful she remained waiting for her sailor  on the lakes of Pontchartrain She value well my bonny old girl. Ill never see you no more I wont forget your kindness in that cottage by the shore and at every social gathering  a golden glass I'll drain, and drink the health to the creol girl on the lakes of Pontchartrain.

      Um certo dia, Bob Dylan telefonou a Paul Brady e pediu-lhe para lhe ensinar a tocar esta canção. Paul Brady esperou que Dylan viesse a Londres para um concerto e tal aconteceu. "Peguei-lhe nos dedos e coloquei-os nas cordas da guitarra e ele aprendeu depressa". Se ouvirmos a versão de Dylan nota-se que teve um bom professor.

      Mas, o que narra a canção? A Wiki diz-nos o seguinte "The Lakes of Pontchartrain is an American (US) ballad about a man who is given shelter by a beautiful Louisiana Creole woman. He falls in love with her and asks her to marry him, but she is already promised to a sailor and declines."

Alberto Caeiro - XXXVI E há poetas que são artistas




E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.

in, O Guardador de Rebanhos

      Este poema surgiu, hoje, no Exame Final Nacional de Português. Nele, Caeiro expõe a sua "teoria poética", que pode resumir-se ao seguinte: a poesia é o simples ato de captar a Natureza através dos sentidos de forma espontânea, de acordo com uma relação de comunhão e harmonia. Num outro sentido, movimentam-se os poetas que fazem da poesia um trabalho árduo de intelectualização, de exposição de conceitos e combinação artística das palavras.
      Repetindo, estamos perante o confronto entre uma forma de elaborar poesia caracterizada pela simplicidade, objetividade, espontaneidade, naturalidade, e outra artificial, muito pensada e elaborada.

Rosa Alice Branco - Mapa Anatómico



     a Luís Miguel Nava

Para António Damásio estou debruçada à janela
do meu corpo. Posso contemplar os objectos da paisagem:
coração, pulmões, intestinos, músculos.
As vísceras são o meu cenário como um poema
de Nava e há sentimentos que me unem a cada uma
e a todas elas quando uma dor explode nas entranhas,
mas para Damásio sou apenas um espectador solidário
do outro lado do vidro. Nava sabia como um cenário
se despedaça entre as rochas, como a pele é a raíz
e a flor do sofrimento.

Desde a descoberta da perspectiva que estamos à janela
com um olho bovinamente parado. Dizem-me agora
que contemplamos um pátio interior, um rim? Não sentem
que o desespero tem uma face oculta para o sentirmos
e outra iluminada por um sol afundado no manto
dos intestinos? O cérebro de Damásio continua cativo
do teatro do seu corpo e eu devia ter metido citações.
Aprendi muito com ele, mas foi Nava quem me disse
que todos os caminhos vão dar à pele.


     in, Soletrar o dia

Ana Merino



A minha intimidade é pequena
cabe na minha boca
e desliza por entre os dentes;

se a descubro a fingir que é saliva
engulo-a,
não quero vê-la alheia nas palavras
nem perdê-la com um beijo.


in, Poesia espanhola, Anos 90

   Migalha astuta mas essencial.

O Diabo voltou outra vez



      Depois de reforçar os seus interesses em Londres, o diabo  desceu ao mediterrâneo. Instalou-se em Pedrogão Grande e ao mandar soprar os ventos, ao ver os carros e as casas queimadas, ao reconhecer a impotência dos bombeiros, ao contar 64 mortos, o diabo repetiu "Ça va!" 

A Melhor escola



Das emoções (instintivas) aos sentimentos (privados) e destes aos afectos (em relação).

Paul Brady - Arthur McBride and the Sergeant



Oh, me and my cousin, one Arthur McBride
As we went a-walking down by the seaside
Now, mark what followed and what did betide
For it being on Christmas morning...
Out for recreation, we went on a tramp
And we met Sergeant Napper and Corporal Vamp
And a little wee drummer, intending to camp
For the day being pleasant and charming
"Good morning ! Good morning!" the sergeant did cry
"And the same to you gentlemen!" we did reply 
Intending no harm but meant to pass by
For it being on Christmas morning
But says he, "My fine fellows if you will enlist
It's ten guineas in gold I will slip in your fist
And a crown in the bargain for to kick up the dust
And drink the King's health in the morning
For a soldier he leads a very fine life
And he always is blessed with a charming young wife
And he pays all his debts without sorrow or strife
And always lives pleasant and charming...
And a soldier he always is decent and clean
In the finest of clothing he's constantly seen
While other poor fellows go dirty and mean
And sup on thin gruel in the morning."


"But", says Arthur, "I wouldn't be proud of your clothes
For you've only the lend of them as I suppose
And you dare not change them one night, for you know
If you do you'll be flogged in the morning
And although that we are single and free
We take great delight in our own company
And we have no desire strange faces to see
Although that your offers are charming
And we have no desire to take your advance
All hazards and dangers we barter on chance
For you would have no scruples for to send us to France
Where we would get shot without warning"


"Oh now!", says the sergeant "I'll have no such chat
And I neither will take it from spalpeen or brat
For if you insult me with one other word
I'll cut off your heads in the morning"
And then Arthur and I we soon drew our hods
And we scarce gave them time for to draw their own blades
When a trusty shillelagh came over their heads
And bade them take that as fair warning
And their old rusty rapiers that hung by their side
We flung them as far as we could in the tide
"Now take them out, Divils!", cried Arthur McBride
"And temper their edge in the morning"
And the little wee drummer we flattened his pow
And we made a football of his rowdeydowdow
Threw it in the tide for to rock and to row
And bade it a tedious returning
And we having no money, paid them off in cracks
And we paid no respect to their two bloody backs
For we lathered them there like a pair of wet sacks
And left them for dead in the morning
And so to conclude and to finish disputes
We obligingly asked if they wanted recruits
For we were the lads who would give them hard clouts
And bid them look sharp in the morning.


Oh me and my cousin, one Arthur McBride
As we went a walkin' down by the seaside
Now mark what followed and what did betide
For it being on Christmas morning.



      É uma anti-war song, ou melhor, uma anti-recruitment song. Este tipo de canções, como por exemplo Mrs McGrath, Johnny I Hardly Knew You ou The Kerry Recruitment eram populares na Irlanda do século XIX, onde sargentos recrutadores eram vistos como figuras odiosas que punham alguns shillings nas mãos de rapazes irlandeses pobres para os lançar na guerra. A canção é antiga mas ganhou uma nova versão em 1976 com Paul Brady. É a Irlanda no seu melhor.
       Já agora, em 1992, Bob Dylan fez uma versão bonita no álbum Good as I Been to You.

O Diabo foi a Londres



      O diabo anda por aí e de nada adianta enxotá-lo, porque ele vive dentro e fora de nós. Temos de estar preparados para saber lidar com ele e ter sorte. Põe ovos. De tempos a tempos vem cá acima cuidar dos seus interesses e como ele diz numa canção de Brel "Ça va!"

Rufus Wainwright



      It was a magical evening. 1500 singers came to Luminato Festival at the Hearn Generating Station in Toronto. Daveed and Nobu taught them back up parts to Leonard Cohen's Hallelujah, then Rufus Wainwright joined them on stage to sing lead. There is a time to be lonely and another time to be in crowd, a time to sing a "cold and a broken" hallelijah. We miss you much Leonard. 

José Carlos Ary dos Santos - O Relógio



Pere Borrel del Caso

Pára-me um tempo por dentro
passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contratempo estar
passa-me agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.

    Haja quem ponha melodia nestes versos. 

Ingeborg Bachmann - Uma espécie de perda



          

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.


      Poema sobre quando o mundo é menor que nós.

Diego Cusano













      Diego, artista gráfico natural de Perugia na Itália, descreve-se como um pesquisador da fantasia e revela "I started watching things from a different point of view, and from this new approach I started creating the illustrations that, since then, I’m publishing each day on the social networks: objects change their native function, through the graphic, to a new, different, unpredictable function".

Nuno Júdice - Beatitude



No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam 
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas, 
na idade de ouro,
as almas constipam-se, 
amaldiçoando 
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar 
das almas.

      Conclusão: Os santos não sabem apreciar a música dos anjos, têm interesses.

Luis Pastor - Pájaro de Barro



Hice un pájaro de barro
y lo pinté de colores:
pico amarillo y blanco
alas azules y ocres.

Antes de dormir le cuento
a mi pájaro de barro
un cuento de vuelo y viento
para que empiece su canto.

  Sé que vuela, que vuela
  y que cuida mis sueños,
  sale por la ventana
  y vuelve luego.

Un arco iris de lluvia
para que beba mi pájaro,
granos de trigo y oro
para que alegre su canto.

Tengo un pájaro de barro
lo modelé con mis manos
y le enseño las palabras
de un idioma inventado.


  O pássaro de barro do Pastor.

Mariana - 27 anos



      Este still retirado de uma festa infantil das marchas Santo António em Gouveia há quase vinte anos atrás, revela tristeza e alegria no rosto da Mariana. Eu, mais do que uma vez, atravessei as suas primaveras de olhos fechados. A vida nunca nos foi diferente, Mariana.

JS Bach: Mass in B minor - Cum sancto spiritu



      No Sanctus a primeira parte é adaptada de Isaías 6:3, a segunda é um texto tirado do Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém e estabelece uma relação com o Salmo 118 (117). Dedico-o ao meu pai com a alegria da senhora que canta no minuto 3.37'. Este é um dos momentos mais intensos de toda a história da música coral sacra.

Sete anos sem o meu pai



                Foi à nossa mesa que aprendi quase tudo, pai. Obrigado.

Dora Ribeiro - Como utilizar palavras frescas

como utilizar palavras frescas
ou etc

enxugue primeiro as próprias mãos
depois
mergulhe as palavras do mundo
ou
em qualquer vestígio dele
quando puder
recupere as melhores
e as mais urgentes

em caso de incêndio
assuma a responsabilidade.


in, O Poeta não existe

Jorge de Sousa Braga - Nenúfares



Um nenúfar flutua
na mesma água
que a lua


in, Fogo sobre fogo

A tela é de Amparo Salvador Martinez

Aryton Page - Minimalism photo





      O minimalismo começou a ganhar notoriedade como movimento artístico nos Estados Unidos na década de 1960. Desde então, os artistas minimalistas buscam ressaltar ao máximo a essência do que querem representar, eliminando das suas obras todos os elementos que consideram desnecessários. Dizem eles que quando tudo é importante, nada é importante. Ou seja, menos é mais.

Pablo Neruda

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha. 

Carson McCullers


...o amor e a qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante.

É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser o amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o facto de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais intensamente ao seu amado, ainda que isto lhe cause somente dor.

Luis Miguel Cintra - Fermosa e gentil dama



Fermosa e gentil Dama, quando vejo
a testa de ouro e neve, o lindo aspeito,
a boca graciosa, o riso honesto,
o marmóreo colo e branco o peito,
de meu não quero mais que meu desejo,
nem mais de vós que ver tão lindo gesto.
Ali me manifesto
por vosso a Deus e ao mundo; ali me inflamo
nas lágrimas que choro,
e de mim, que vos amo,
em ver que soube amar-vos, me namoro;
e fico por mim só perdido, de arte
que hei ciúmes de mim por vossa parte.

Se porventura vivo descontente
por fraqueza d'esprito, padecendo
a doce pena que entender não sei,
fujo de mim e acolho-me, correndo,
à vossa vista; e fico tão contente
que zombo dos tormentos que passei.
De quem me queixarei
se vós me dais a vida deste jeito
nos males que padeço,
senão de meu sujeito,
que não cabe com bem de tanto preço?
Mas inda isso de mim cuidar não posso,
de estar muito soberbo com ser vosso.

Se, por algum acerto, Amor vos erra
por parte do desejo, cometendo
algum nefando e torpe desatino,
se ainda mais que ver, enfim, pretendo,
fraquezas são do corpo, que é de terra,
mas não do pensamento, que é divino.
Se tão alto imagino que de vista
me perco (peco nisto),
desculpa-me o que vejo;
que se, enfim, resisto
contra tão atrevido e vão desejo,
faço-me forte em vossa vista pura,
e armo-me de vossa fermosura.

Das delicadas sobrancelhas pretas
os arcos com que fere, Amor tomou,
e fez a linda corda dos cabelos;
e porque de vós tudo lhe quadrou,
dos raios desses olhos fez as setas
com que fere quem alça os seus, a vê-los.
Olhos que são tão belos
dão armas de vantagem ao Amor,
com que as almas destrui;
porém, se é grande a dor,
co a alteza do mal a restitui;
e as armas com que mata são de sorte
que ainda lhe ficais devendo a morte.

Lágrimas e suspiros, pensamentos,
quem deles se queixar, fermosa Dama,
mimoso está do mal que por vós sente.
Que maior bem deseja quem vos ama
que estar desabafando seus tormentos,
chorando, imaginando docemente?
Quem vive descontente,
não há-de dar alívio a seu desgosto,
porque se lhe agradeça;
mas com alegre rosto
sofra seus males, para que os mereça;
que quem do mal se queixa, que padece,
fá-lo porque esta glória não conhece.

De modo que, se cai o pensamento
em algüa fraqueza, de contente,
é porque este segredo não conheço;
assi que com razões, não tão somente
desculpo ao Amor do meu tormento,
mas ainda a culpa sua lhe agradeço.
Por esta fé mereço
a graça, que esses olhos acompanha,
o bem do doce riso;
mas, porém, não se ganha
cum paraíso outro paraíso.
E assi, de enleada, a esperança
se satisfaz co bem que não alcança.

Se com razões escuso meu remédio,
sabe, Canção, que porque não vejo,
engano com palavras o desejo.


      Petrarca ensinou a idealizar a mulher o que a realidade tornou prudente, em vez de deusa, mulher. Depois dos enganos, resta o verso.

Lara - 23 anos



      Roubámos tempo ao tempo, espaço ao espaço, matéria à matéria e vida à vida. No processo, encontrámos a beleza antiga, fizemos a recolha, juntámos a nossa parte, falta agora sagrá-la. Lara, sei o caminho.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Espera

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê passar o silêncio
Navegação antiquíssima e solene.

in, Geografia

The Be Good Tanyas - Human Thing



Yer a human thing
Who yah think that you're foolin?
Yer not foolin', not foolin' me
Yer a human thing
Yer so busy frontin'
Confusin" courage and acting
Move me, move me
Could it really be so wrong
To let somebody, somebody see.
Move me, move me
A girl can keep it together
Come on now, you know you we'll take the weather
Come on now, you know we love your weather
You got roots cannot be torn from under
Won't you shake it like you've never done before
You've got roots cannot be torn from under
Won't you shake it like you've never done before
You're a human thing.


      Três meninas de Vancouver, British Columbia, Canada. 

Renata Correia Botelho






«ponho entre aspas o teu nome,
metáfora arisca,
tão inútil como um circo
no nevoeiro.»


      Dizia a Clarice Lispector "E ninguém é eu e ninguém és tu. Esta é a solidão."

Jaime Corum - Red Tapestry 2011.



      Ir para lá dos olhos em actos de contrição e esperar a luz da luz. Vês aquelas pegadas de barro no tapete vermelho? São minhas.

Rico

Rico,
é o que rouba ao esquecimento 
três ou quatro instantes,
e deles faz a sua enxerga
para dormir,
inteiro,
a noite dos animais.

Cuca, a Pirata.

Borboletas

No mar não há borboletas.

Faz-me falta uma asa colorida,
de patas pousadas no interior do pulso
a medir-me o ritmo da vida.

É assim que as fadas sabem 
se ainda temos coração.

Cuca, a Pirata

Francisco José Viegas - O Que Nos Separa da Literatura




Enquanto falam de literatura, a grande puta,
os professores falam uma língua invisível, 
cerrada em versos que os antepassados 
deviam ter escrito – e não escreveram. 

Labirintos, aquários, metáforas, ventanias, 
varandas nas colinas, tudo roubam como 
assaltantes sem método, nem glória, nem 
música, nem conhecimento da beleza que 

incendeia os bosques e ilumina os caminhos.  
Enquanto falam de literatura, a grande puta,
a luz negra tudo apaga, tudo esconde e suja.

Mata-nos muito, a literatura – de tédio
ou de medo, ou de um horror que aprofunda
o que nos separa: isto e a vida, sempre.

      Se é professor de Língua Portuguesa não leia este soneto, se gosta de critica literária também não, não o leia. Acusam-no de falar, analisar ou criticar sobre o que não está escrito. Há escritores que tratam a literatura por 'a grande virgem'. Nada a fazer.

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