Mila Kucher



É uma luta o tentar sabermos quem somos e não o saberemos. 

Agostinho da Silva



  «Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito.»

   in, Textos e Ensaios Filosóficos I 

Zhangye Danxia

      A 1700km de Pequim, na província de Gansu, na zona norte da China, situa-se o Parque Geológico Zhangye Danxia, que abriga uma das mais inacreditáveis paisagens do mundo. No local, numa área de 500 km², existe um conjunto de montanhas multicoloridas que parecem ter sido pintadas à mão por algum pintor talentoso. Elas consistem em formações de arenito e outros depósitos minerais que se foram acumulando por mais de 24 milhões de anos.










      «Quando viajas, estás a experimentar de uma maneira muito prática o acto de Renascer. Estás diante de situações completamente novas, o dia passa mais devagar e na maior parte das vezes não compreendes a língua que as pessoas estão a falar. Exactamente como uma criança que acabou de sair do ventre materno. com isso, passas a dar muito mais importância às coisas que te cercam, porque delas depende a tua sobrevivência. Passas a ser mais acessível às pessoas, porque elas poderão ajudar-te em situações difíceis. E recebes qualquer pequeno favor dos deuses com uma grande alegria, como se isso fosse um episódio para ser lembrado pelo resto da vida.
      Ao mesmo tempo, como todas as coisas são novas, enxergas apenas a beleza delas, e ficas mais feliz por estar vivo.»

      Paulo Coelho in, O Diário de um Mago

Fotografar



"Fotografar é colocar na mesma linha a cabeça, o olho e o coração."

Henri Cartier-Bresson

Man With a Movie Camera

   340 realizadores e críticos de cinema escolheram os 10 melhores documentários da História do Cinema, tendo como ponto de partida que um documentário é um filme não-ficcional que se caracteriza pelo compromisso da exploração da realidade. Contudo, dessa afirmação não se deve deduzir que ele represente a realidade «tal como ela é». O documentário, assim como o cinema de ficção, é uma representação parcial e subjectiva da realidade.

    Eis a lista:

10- "Grey Gardens" - Albert e David Maysles, Muffie Meyer (1975)
9 - "Dont Look Back" - D.A. Pennebaker (1967)
8 - "The Gleaners and I" - Agnès Varda (2000)
7 - "Nanook of the North" - Robert Flaherty (1922)
6 - "Chronicle of a Summer" - Jean Rouch e Edgar Morin (1961)
5 - "The Thin Blue Line" - Errol Morris (1989)
4 - "Night and Fog" - Alain Resnais (1955)
3 - "Sans Soleil" - Chris Marker (1982)
2 - "Shoah" - Claude Lanzmann (1985)
1 - "Man With a Movie Camera" - Dziga Vertov (1929)


   Naturalmente discutível, esta seleção é uma oportunidade de ver ou rever, por exemplo "Man With a Movie Camera" do realizador Dziga Vertov, acrescida da extraordinária banda sonora do trio Alloy Orchestra especializado em musicar filmes mudos.





   Não há enredo nem actores, apenas o dia a dia nas antigas cidades soviéticas de Kiev, Kharkov, Moscovo e Odessa. Do amanhecer ao anoitecer, o povo das repúblicas soviéticas surge nas suas rotinas diárias em contacto com o progresso, na altura o mais recente.

Michael Alfano - Questioning Mind



      Este trabalho escultório tem em segundo plano a cidade de Boston e interroga-nos sobre as consequências históricas da chegada dos imigrantes puritanos que desembarcaram nesta Baía de Massachusetts, o Boston Tea Party, a conquista da independência americana e a liberdade.  

Nuno Júdice - Anunciação


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Esperas que o anjo pouse, e te abrace
com o seu tédio de asas. Entregas-lhe
os teus lábios abertos como a flor
saciada de água. Abres-lhe o teu corpo,

para que ele pouse no copo dos teus
seios, e beba o licor da primavera.
«Quem és tu?» perguntas-lhe, «anjo
ou demónio?» E não te responde;

segura-te a mão; puxa-te para o
canto. Vais atrás dele, sem saber se
há regresso. Pedes-lhe que não olhe

para trás, que se esqueça do mundo.
E ambos se afastam, sem dar resposta,
como tivessem decidido, e o soubessem.

in, O Breve sentimento do eterno

      Lidar com os anjos e os demónios sem dizer nunca "te renego", "credo, cruzes" ou "eis aqui o escravo do Senhor". Eles são parte de nós e resta aprender a estar na sua companhia, mesmo que breve.

Tuna de Medicina da Universidade de Coimbra - Balada de Despedida



      Houve uma época em que as tunas universitárias abandonaram a genuinidade da tradição musical portuguesa e, de modo descarado, copiaram a tradição de universidades espanholas como a de Salamanca. Alinhavam as capas com as guitarras, bandolins, braguesas, concertinas e todos certinhos criavam um ambiente sonoro bafiento e conservador pálido. Neste video, a participação da Tuna de Medicina da Universidade de Coimbra no XVIII Tágides, em 2010, prova que as coisas estavam a mudar para muito melhor. Afinal, se "a mulher gorda não me convém" é bom que a esqueçamos.

Artur do Cruzeiro Seixas

Um dia o céu
veio pelo molhe até aos meus pés
e verde era o teu cabelo
como então ali
à noite o mar.

Uma vez era uma vez
a história
construía-se na areia
para sempre
com levíssimos
pés de mármore.


      Não se pode construir a nossa história na areia para sempre, resta a saudade do céu, do teu cabelo e à noite o mar. Adeus.

gil t. sousa

quando a maré se afasta
é possível escrever tudo

outra vez

Fleet Foxes - White Winter Hymnal



I was following the, I was following the,
I was following the, I was following the...

I was following the pack, all swallowed in their coats
With scarves of red tied 'round their throats
To keep their little heads from falling in the snow,
and I turned 'round and there you go
And Michael, you would fall and turn the white snow red
as strawberries in the summertime.

      Nesta canção, a perda da inocência acontece descrita num grupo de crianças que corre alegre na neve do inverno, uma delas cai e faz sangue 'vermelho como morangos no tempo do verão'. A metáfora da perda de virgindade está descrita "as strawberries in the summertime". O video alarga o contexto semântico desses versos e aponta para uma participação adulta activa e positiva na natureza e no progresso. 

Flemish painting of the XIX th century



Johannes  Bartholomäus  Duntze


Everhardus Koster


Fredrik Marinus Kruseman


Johnan Bernard Klombeck


      "For over 90 years, there has been a concerted and relentless effort to disparage, denigrate and obliterate the reputations, names, and brilliance of the academic artistic masters of the late 19th Century. Fueled by a cooperative press, the ruling powers have held the global art establishment in an iron grip. Equally, there was a successful effort to remove from our institutions of higher learning all the methods, techniques and knowledge of how to train skilled artists. Five centuries of critical data was nearly thrown into the trash. It is incredible how close Modernist theory, backed by an enormous network of powerful and influential art dealers, came to acquiring complete control over thousands of museums, university art departments and journalistic art criticism"

      in, The Art Renewal Center

Aos 59 anos

Porque a verdade é esta: se tu levas a vida
a sério, a morte vence-te com a maior das limpezas

Se a levas a brincar, ela vence-te à mesma
porém sem glória: o que é vencer um brincalhão?

       Rui Caeiro 


      O autor do blogue faz hoje 59 anos e escolheu este poema para asseverar a si mesmo que está embaraçado nas duas maneiras. Houve tempos difíceis em que usou as máscaras do entertainment: as anedotas, o futebol, os shoppings, a musica pop, a profissão, a família, as religiões e outros tipos de feiras às quais ainda recorre pontualmente. Depois, com a idade, entregou-se à solidão, ao povo, a entender o Homem e Deus, por opção.

Ramón Irigoyen - Ars poetica

Un poema si no es una pedrada
-y en la sien-
es un fiambre de palabras muertas
si no es una pedrada que partiendo
de una honda certera
se incrusta en una sien
y ya hay un muerto.

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Um poema se não for uma pedrada
– e na testa –
é um molho de palavras mortas
se não for uma pedrada atirada
por uma funda certeira
enfia-se numa testa
e já temos um morto.


   Tradução de Albino M.

      Ramón Irigoyen nasceu em Pamplona, em 1942, e o poema sabe a ímpeto de touro em dia de San Fermín.  

Antonio Gamoneda



Estou nu diante da água imóvel. Deixei a minha roupa
no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino:

chegar à margem e ter medo da quietude da água.


      O medo e as dúvidas são reguladores de situações importantes na vida, no entanto devem ser integrados no contexto global da serenidade.

Hermann Hesse




- Quando alguém procura, acontece facilmente só ver a coisa que procura, ser incapaz de encontrar seja o que for, de absorver seja o que for, porque só pensa naquilo que procura, porque tem um objectivo e porque está obcecado por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo, mas encontrar significa ser livre, ser receptivo, não ter uma só meta.

- Tive um pensamento que igualmente suporás ser uma brincadeira ou uma tolice: em toda a verdade o oposto é igualmente verdade. Uma verdade só pode ser exprimida e envolta em palavras se for parcial...falta-lhe a totalidade, a unidade.

- O mundo não é imperfeito nem evolui lentamente por um caminho que conduz à perfeição; é perfeito em todos os seus momentos...

- Parece-me que tudo quanto existe é bom... tudo é necessário, tudo necessita apenas da minha concordância; assim, tudo estará bem em mim e nada me poderá prejudicar.

 In, Siddhartha

     O mapa das epifanias.

António Aleixo - Na terra acho, na terra deixo



      Quando a cultura popular era simples e humilde, eis que aparecia alguém que a tornava menos primitiva e artesanal. Pensada, filosofada, politizada não se descaracterizava porque como dizia Florbela Espanca, ser poeta era ser mais alto.    

Leonard Cohen - You Want It Darker




If you are the dealer I'm out of the game If you are the healer I'm broken and lame If thine is the glory then mine must be the shame
You want it darker, we kill the flame
Magnified and sanctified Be Thy Holy Name
Vilified and crucified in the human frame A million candles burning for the help that never came
You want it darker, Hineni Hineni
I'm ready, my Lord.
There's a lover in the story but the story's still the same
There’s an lullaby for suffering and a paradox to blame But it’s written in the scriptures and it’s not some idle claim
You want it darker, we kill the flame
They’re lining up the prisoners now the guards are taking aim I struggled with some demons they were middle-class and tame
Didn’t know I had permission to murder and to maim
You want it darker, Hineni Hineni I'm ready, my Lord.

      Com a produção de Adam Cohen, filho do cantor, com vozes do coro da sinagoga que Cohen frequenta com regularidade, aqui temos mais um hino baseado na liturgia hebraica que nos diz "You want it darker, we kill the flame" ou seja "Se queres que sejamos trevas, nós pomos um fim ao fogo". Consolida a hipótese ao cantar "A million candles burning for the help that never came" ou seja "Um milhão de velas acesas por uma ajuda que nunca chega". Ser judeu faz parte da identidade do cantor e não há nada que se possa fazer.

José Luís Peixoto - Encantamento

"há uma palavra mágica que se diz, essa palavra 
é sempre diferente, montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar, a voz, um olhar.

essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde 
não se disse uma palavra. brilho,        , montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.

há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor."


in, Uma Casa na Escuridão

Why it's good to be Leonard Cohen



      Certa vez Leonard Cohen confidenciou aos jornalistas a propósito de um certo feminismo o seguinte "Se elas quiserem comandar que comandem, eu rendo-me!" Numa outra altura disse que só por ter escrito algumas canções sobre o mistério feminino "They become naked in their different ways and they say "Look at me, Leonard, look at me one last time." Neste video as pretendentes são uma actriz alemã e a cantora israelita Esther Ofarim a quem o cantor canadiano confessa "I can't make it with everybody!". Tempos muito generosos.

Tonino Guerra



Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raizes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente 
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.


in, O Mel

      Os livros falam quando os partilhamos com quem os ama. 

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