Carlos Marzal


Por mais que aborreças a melodia
da vida quotidiana, chata e nevoenta, que te serena;
por mais lobo sem dentes no teu credo;
por mais saber, experiência e paz de espírito;
por mais ordem que ponhas a decorar as paredes,
por mais idade que a idade te dê,
por mais vidas que os livros te ofereçam,
- e acrescenta a esta lista aquilo que quiseres,
há um poço selvagem no fundo de ti mesmo,
um lugar teu como a tua morte,
de pedra e de noite, de fogo e de lágrimas.
Nas suas águas duvidosas 
repousa desde sempre o que não dorme,
um lugar remoto  onde se forjam
abominações e sonhos,
crimes e traição.
É o poço do que és capaz,
onde dormem répteis e há um fulgor
e uma profunda espera.
No teu rosto também, tu és esse poço.

Já sei que o sabias. Por isso,
aceita, brinda e bebe.

David Mourão-Ferreira - Labirinto ou não foi nada


Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua ...
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

Eugénio de Andrade - À beira de água


Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

in, Os Sulcos da Sede

The Boswell Sisters - If I had a million dollars




If I had a million dollars, I know just what I would do:
I'd tie a string around the world and bring all of it to you.
Those little things you pray for, whatever they may be,
I'd have enough to pay for them all C.O.D.
If I spent the million dollars, I know I would never care
Because as long as you were mine, I'd still be a millionaire.
That's why I'm always dreaming, dreaming of what I would do
If I had a million dollars for you.

Rita Olivais - Demissão


Hoje
pela primeira vez
envelheci.
Hoje
pela primeira vez senti
que já não era a primeira vez.
Hoje
pela primeira vez
a criança morreu-me nos braços
e a canção na garganta.
Hoje
pela primeira vez ambicionei
estabilidade e fixação de planta.
Hoje
pela primeira vez
criei laços com a minha estátua.

Alberto Pimenta - Civilidade


não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima o espirro

não soluce madame
reprima o soluço

não cante madame
reprima o canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.

in, Ascensão de Dez Gostos à Boca

Jungho Lee






 






Pintor coreano, de Seul.

Adília Lopes


Só gosto das pessoas boas
quero lá saber que sejam inteligentes, artistas, sexy
sei lá o quê
se não são boas pessoas
não prestam.

Florbela Espanca



      Pena é não haver um manicómio para corações, 
que para cabeças há muitos.

Octavio Paz - Silêncio


























Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios se emudecem.

      O uso do silêncio purga.

Eugénio de Andrade - Nada


nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu

Despe-te
não há outro caminho

in, Véspera da Água

David Piper & Cibelle - The Girl with the Pre-Fabricated Heart




Oh Venus was born out of sea-foam
Oh Venus was born out of brine
But the goddess today if she is grade A
Is assembled upon the assembly line

(How divine! Rise and shine!)
Upon the assembly line!

Now Julie was born as it’s proper
Her every proportion was planned
She was poured from a mold exquisite and cold
And she grew up untouched by human hand

(Oh how grand! See her stand!)
Untouched by human hands!

Her chromium nerves and her platinum brain
Were chastely encased in cellophane
And to top off this daughter of science and art
She was equipped with a prefabricated heart

She prepares for life!

Shall I be auburn or dark or fair?
Shall I unbind my nylon hair?
Would love make skies look clearer?
Or should I serenade my mirror?

A hero would always admire me
He’d pamper and pet and inspire me
Why else were my charms made so drastic?
Why else were my arms made so plastic?

What else was my heart electroplated for?
Oh, send me the mate it was prefabricated for

Then just like the movies, a mail-order male
Was sent by the gods direct from Yale
He was handsome with biceps of stainless steel
Plus which he was rich, and his love for her was real

By fate he was guided to knock at her door
‘Twas love at first sight for evermore
They were made for each other, exclusively planned
So he bent his knee and he asked her for her hand

Her bridal gown was a synthetic weave of coal tar, milk, and wood
Spun under atomic pressure in a four-billion-dollar machine

I’ll offer you sterilised flowers
Expensive and scentless and rare
There’ll be pedigree birds singing songs without words
As they fly through the air-conditioned air

Your fanciful dreams I’ll interpret for you
Your hidden desires I will bring into view
All the wheels in your brain I will polish and shine
To prove they can move in harmony with mine

Oh, nature and art will not win her
So ply her with diamonds and pearls
For bracelets and rings are practical things
That appeal to the mind of a healthy girl

Oh, nature and art will not win her
Oh ply her with diamonds and pearls
For bracelets and rings are practical things
That appeal to the mind of a healthy girl

– Julie, at last you’re mine
– I guess
– I’ve always dreamed of this moment divine
– It will be nice, unless
– Oh, darling, let us seal our marital bliss
With a glorious technicolour kiss
– I suppose so
– You express every ideal I’ve ever had
You’re as evocative as a full-page ad
Tell me that you care
– You’re mussing my hair
– Oh, darling
– Watch my new clothes
– Beloved
– Oh, well, I suppose
– Angel
– Don’t make such a fuss
– Treasure
– Oh you’re so impetuous!
– Dearest! Sweetest! Queen!
– Oh, this is ridiculous!
Sisters, come to my aid!

Her Amazon sisters were passing that way
They rushed to her aid and they saved the day
The swine! He has frightened her out of her wits
The brute! We should shoot him and tear him into bits

Wheels started turning inside her head
So from his ardent arms she fled
Girls of wax can’t use devotion
They might melt if they felt an emotion

She left him bereft and wifeless
And he fell to the ground, quite lifeless

But she rides on into the dawn
On and on as her wheels revolve
A riddle whose answer none can solve
Who sends all her dreams to the laundry
Who prefers to live in a quandary
Her loneliness she must insist on
She’s Isolde without a Tristan
Her groom who for doom was slated
Dissolved into tears and disintegrated

And so she rides on through the evening
As pure as she was at the start
For there’s no man alive who could ever survive
A girl with a prefabricated heart
A love-proof, unbreakable heart.

      This moment is part of the film Dreams That Money Can Buy, 1947 written, produced, and directed by the surrealist artist and dada film-theorist Hans Richter. Collaborators included Max Ernst, Marcel Duchamp, Man Ray and Alexander Calder. The film won the Award for the Best Original Contribution to the Progress of Cinematography at the 1947 Venice Film Festival.

Natália Correia - Anaíta


III

Pontualmente uma árvore de ouro
nasce onde o sémen do homem
e o curso de água feminino
se fundem e as sombras se somem.

Verdura dos olhos de Anaíta
por nossas carícias semeada
que passeios de tílias nas cidades
para a pureza do encontro guarda.

Anaíta que a raiz do homem
na terra da mulher prepara
e as extremidades do mundo
num ramo de amor ata.

Anaíta que as árvores conhecem
por seu nome próprio de mirtos
e como risos as aves voam
seu fresco bater de cílios.

Matrona que à cabeça traz
a abismada bilha nos espaços
pomo celeste que se destila
no alambique dos afagos.

Anca do mundo requebrada
estrela que guarda em seu lenço
os beijos com que sopramos
a nossa bolha de silêncio.

Ouvido que o crescer dos abetos
no bosque da cópula escuta.
Mulher! oh rito de Anaíta
mistério de ser virgem e puta.

in, Mátria

      A construção de uma mitologia feminina onde constam a mulher-anjo e a mulher-demónio. A virgem do céu e a puta do inferno. A Eva antes da maçã e depois da maçã.  

Jorge Luís Borges


O reflexo de teu rosto já é outro
no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão.
A numerosa nuvem que se desfez no poente
é nossa imagem.

Jean-Baptiste Carpeaux (1827-1875) - Ugolino e os seus filhos











      O Conde Ugolino era, junto com o seu neto Nino dei Visconti, um dos líderes que exerciam autoridade sobre a cidade de Pisa. Ugolino estava insatisfeito em ter que dividir o poder com Nino, então, traiu-o e aliou-se ao arcebispo Ruggieri. Quando a traição foi conhecida ele foi julgado e condenado a morrer à fome com os filhos. Dante descreve os pormenores na Divina Comédia.

Francisco José Viegas - Sabedoria


gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto

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