Para A.

Match your nature with nature.
The goal of life is to match your heartbeat to the beat of the universe, to match your nature with Nature.

Joseph Campbell 

Jurga Martin



Jurga Martin -6
 

 
    Jurga Martin é lituana, nasceu em Utena, 1977. As suas esculturas oferecem algo que faz sentir a serenidade da argila humana como matéria prima.

O teremim



    O teremim é um instrumento musical estranho por não existir qualquer contacto físico entre o músico e o instrumento. O seu nome vem do seu inventor, o russo Léon Theremin, que patenteou o seu dispositivo em 1928. O músico posiciona-se de frente para o instrumento e move as mãos perto das antenas de metal. A distância entre uma das antenas determina a frequência (pitch), e entre a outra controla a amplitude (volume). Na maioria das vezes, a mão direita controla a frequência e a esquerda controla o volume, embora esta disposição seja invertida por alguns artistas. Este tema dos The Beatles ilustra a funcionalidade.

Sandra Santana

    Rupturas dissimuladas sob uma carinha sorridente

Sempre detecto um gesto
de incredulidade
quando conversamos sobre os frágeis mecanismos
ocultos sob uma aparência infantil.

Como você não crê neles, derrubou-o
e me encarou triunfante
ao ver a superfície intacta apesar do impacto.

Imagine o que senti ao erguê-lo
e escutar esta peça solta no seu interior.


    Rupturas disimuladas tras una carita sonriente

Siempre detecto un gesto
de incredulidad
cuando te hablo acerca de los frágiles mecanismos 
ocultos tras una apariencia infantil.

Como no crees en ellos, lo dejaste
caer y me miraste victorioso
al ver su superficie intacta a pesar del impacto.

Imagina lo que sentí al recogerlo
y escuchar esa pieza suelta en su interior.

Daniel Faria

Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena

Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos

Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem

É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade

Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la.


    Quando um pássaro, uma pedra e um homem caem.

Ponch Hawkes - The watch that Lucy gave to Beci


    Sei que tens dúvidas como todos nós, Beci. Fecha o livro. Deus aparecer-nos-á mais logo, entre a uma e as duas da madrugada.
  
     Tempo de folga para Godot.

maria alberta menéres - queria dizer-te

Queria dizer-te que não sei
que há qualquer coisa
talvez desperdiçada  talvez não
Tu sentiste-a  disseste que era como
qualquer uma outra coisa que
esqueci
A tarde era  talvez já fosse tarde
e a noite não vinha
─ como sempre
Queria dizer-te mas não sei se agora
me saberás ouvir

    O verso "- como sempre"

Lotte Laserstein

bofransson:

Lotte Laserstein 1898‑1993. Nude Study

No amor não há morte.

Adolphe Breton - Returning from the Fields Jules


    Talvez o homem regresse à beleza dos campos com esta crise, talvez as pessoas voltem a cultivar as terras em pousio e se cansem dos vazios do progresso, talvez redescubram o som dos pássaros, os diferentes brilhos das searas, o nome das flores que não se vendem na florista e respirar a vida com os pés na terra.

Czeslaw Milosz - Amor

Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,
Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,
Para ti és apenas uma coisa entre muitas.
E aquele que assim vê, cura o seu coração,
Sem o saber, de vários males -
Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.

Depois ele quer usar-se e às coisas,
De modo que permaneçam no brilho da maturidade.
Não importa se ele sabe o que serve:
Aquele que serve melhor nem sempre compreende.

Issa Kobayashi

Em vão o menino tentava
Segurar uma gota de orvalho
Entre o polegar e o indicador

Eugénio de Andrade - XI

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.


in, As Mãos e Os Frutos

Johannes Ockeghem



Os iconoclastas ignoravam que as imagens sacras eram a Bíblia dos iletrados. A TV da época.

Manuel António Pina - Coisas que não há que há

Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...

Anna Akhmátova


Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
a vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


    A transfiguração é de Pakayla Biehn.

Angela de Campos - Narciso

a água cala
e lisa pára o múltiplo reflexo
por segundos
abre um sono de prata
em pedra e gota
a imagem se esquece
na pétala que decepa
olho por olho


  Poetisa carioca, nascida em 1960.

Are mou Rindinedha



Aremu rindineddha
plea talassa se guaddhi
ce a putt' e ste 'ce ftazzi 
ma to kallo cerro.

Vasta to petton apsro 
mavre vasta tes ale 
stavri kulor de mare 
ce i kuta en'diu nifti.

Kaimmeno mbro sti talassa 
evo se kanono 
lio ngherni lio kalei
lio nghizzi to nero.

Ma su tipo mu lei 
ja possa sse roto 
lio ngherni lio kalei 
lio nghizzi to nero.


    Um canto greco-salentino que numa tradução livre diz: Quem sabe andorinha por que águas andaste até chegares a esta primavera tão bonita? Eu vejo-te chegar junto ao mar com o teu peito branco, as tuas asas negras, a cauda aberta em duas e quem sabe onde terás o teu ninho? Vejo-te voar e descer junto à água e tenho muitas perguntas, mas tu és silencio.

Ernesto Arrisueño


A recompensa.

Rodrigo Tomé

todo o dia nasço
e perco um pouco
do que ontem fui
e ganho um pouco
do que hoje sou

toda noite morro
e perco um pouco
do que hoje sou
e ganho um pouco
do que amanhã [serei]

como água de rio
que vira tecido de nuvem
como tecido de nuvem
que vira água de chuva
como água de chuva
que volta a ser água de rio

como a vida
que desagua sem fim

Para A.


It’s us.

My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damasked, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress when she walks treads on the ground.
     And yet, by heaven, I think my love as rare
     As any she belied with false compare.

     Como escreveu Shakespeare no soneto 130, os olhos, os lábios, os seios, o cabelo, o rosto e o caminhar do meu amor não são perfeitos, mas são únicos para mim.

Danielle Richard


A contemplação.


A dúvida.

    A pintora nasceu na cidade de Quebeque, no Canadá. Numa entrevista, "A beleza" dizia ela, "é uma palavra da qual há cada vez mais gente a ter medo". A perda de intimidade gerou o medo.

Saul Dias - A palavra

Só conheço, talvez, uma palavra.
Só quero dizer uma palavra.
A vida inteira para dizer uma palavra!
Felizes os que chegam a dizer uma palavra.

Juan Ramón Jiménez

- Não era ninguém. A água. - Ninguém?
Pois não é ninguém a água? - Não
há ninguém. É a flor. - Não há ninguém?
Mas não é ninguém a flor?

- Não há ninguém. Era o vento. - Ninguém?
Não é o vento ninguém? - Não
há ninguém. Ilusão. - Não há ninguém?
Não é ninguém a ilusão?

Touch Wood mobile phone



    Quando a natureza jejua a luz nem sempre se renova. Era o que acontecia no interior desta floresta, até que Johann Sebastian Bach resolveu aceitar a proposta de uma empresa japonesa de telemóveis e, em movimento contrário ao que lhe é habitual, resolveu descer o monte.

Louise G. - História de amor




Encontrei uma flor num muro. parecia um fóssil
No tecto da casa havia outra flor que por vezes parecia um rosto.
deformava-se com a ajuda da luz e da persistência.
Quando insistimos em olhar as imagens,
o desejo de fazer coincidir o olhar com o tempo,
não consegue o lugar de encontro,
entre demasiado e intensidade.
Apesar de todo o cuidado, os tectos e as paredes mudam.
Não se podem usar palavras com suficiente exactidão
para definir as paisagens que se servem sem julgamento.
Tudo o que existe fora deste lugar indica pela forma concêntrica
que estamos geograficamente na intersecção dos ossos.
E a carne que nos é servida é a do nosso coração.
Ocorre por vezes a eternidade, a desnecessária explicação da vida.
A morte densa e azul, feita de corpos físicos,
aproxima-se da representação de uma alma táctil,
expressão traduzida a vermelho de um corpo opaco e pesado.
Este deserto onde o ar é quase irrespirável
sobrevive através de tudo o que anuncia a morte.
O sol está no chão e o o céu gravado em estrelas fósseis.

Jorge Sousa Braga - O guarda-rios

É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós.

Henry Gerbault

Every night...

    Sonhei que abri a Arca da Aliança e junto às tábuas da lei, à vara de Aarão e ao vaso do maná encontrei esta pintura de Henry Gerbault.

Helge Artelius


Vale a pena sair do mundo.

Miguel Torga - Perfil



Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos tão naturais
À minha condição,
Que quando, por exceção,
Os não pratico
É que me mortifico.

Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.


    Tudo é demasiado.

Víctor Erice - El Sur


    As feridas da Guerra Civil de Espanha estão presentes no filme como causa invisível de dramas familiares, nessa devastadora doença emocional que foi a sua herança. Estrella confessa «Cresci mais ou menos como toda a gente: habituando-me a estar sozinha e a não pensar em demasia na felicidade».

Carlos Drummond de Andrade - Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas dos teus amigos.

Pouco importa que venha a velhice, que é a velhice?
Os teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, acham bárbaro o espectáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

    É assim o inferno.

Jacques Prévert - Pour faire le portrait d’un oiseau




Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

Tradução de Eugénio de Andrade


    O manual.

The Beatles - Because



    Há quem encontre semelhanças entre Because e o madrigal Il bianco e dolce cigno de Jacob Arcadelt do séc XVI. Será que a história da inversão dos acordes de Sonata ao Luar contada por John Lennon vai mais além? A música dos The Beatles é do seu tempo, bebe no passado e muito no futuro.

As três irmãs


A tela é de Leopold Kowalski e lembra o retorno da primavera.

A invenção do ruído


A tela é de Jan van Bylert

    "A vida antiga foi apenas silêncio. Foi só no século XIX, com a invenção das máquinas, que nasceu o ruído. Hoje em dia, o ruído domina soberanamente a sensibilidade dos homens. Durante vários séculos, a vida decorria em silêncio ou em surdina. Os ruídos mais recorrentes não eram intensos, nem prolongados, nem variados. De facto, a natureza é normalmente silenciosa, excepto as tempestades, os furacões, as avalanches, as cascatas e alguns movimentos telúricos excepcionais. É por isso que os primeiros sons que o homem extraiu de uma cana furada ou de uma corda estendida o maravilharam profundamente."

Luigi Russolo

    Do blogue A Vida Secreta das Palavras

Bolek Budzyn


    O carnaval, do latim 'carna vale', significa 'adeus à carne' e é uma tradição que acentua a necessidade humana de purificação depois do excesso.

Fernando Echevarría - O melro reuniu a claridade

O melro reuniu a claridade.
Trouxe-a ao cântico. Trouxe
com ela a suspensão dos arrabaldes
que descobriam esse ponto onde
o conforto pungia, recôndito, nas árvores,
não o cântico já, mas a sua fonte.
Havia, porém, a frase.
Ou, se quiserem, esse tema que houve
de, limpamente, modular-se
por um exterior de brilho. Porque
a modulação requinta e abre
o exercício de uma nova ordem:
a de um ouvido que se erige a análise,
sem, por isso, perder o horizonte
do ainda a ouvir. E a elevar-se
a uma altura cada vez mais longe,
com o melro a construir a base
de quanto a pauta em júbilo recolhe.


   Saber acolher a luz da palavra.

Helene Grimaud - Living with Wolves



    Apaixonada e intensa, Hélène Grimaud defende que, "por vezes, a música é tão bela que dói. Não tenho dúvidas disso, mas essa é a magia dela. A música torna-nos mais sensíveis e, de repente, estamos a viver como se cada célula do nosso corpo se abrisse aos sentimentos", considerou. Um dia juntou à vida três dezenas de lobos, tendo fundado, em 1999, um Centro de Conservação da espécie, em South Salém, Nova Iorque.

Ruth 1:16-17


‘But Ruth said,
“Do not press me to leave you
or to turn back from following you!
Where you go, I will go;
Where you lodge, I will lodge;
Your people shall be my people and your God my God.
Where you die, I will die
There I will be buried.
May the Lord do thus and so to me
And more as well
If even death parts me from you!”’

    O valor da lealdade

Bénédicte Houart

são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia


    As flores são flores.

Samuel Beckett - First love

She asked if I would like her to sing something. I replied no, I would like her to say something. I thought she would say she had nothing to say, it would have been like her, and so was agreeably surprised when she said she had a room, most agreeably surprised, though I suspected as much. Who has not a room? Ah I hear the clamour. I have two rooms, she said. Just how many rooms do you have? I said. She said she had two rooms and a kitchen. The premises were expanding steadily, given time she would remember a bathroom. Is it two rooms I heard you say? I said. Yes, she said. Adjacent? I said. At last conversation worthy of the name. Separated by the kitchen, she said. I asked her why she had not told me before. I must have been beside myself, at this period. I did not feel easy when I was with her, but at least free to think of something else than her, of the old trusty things, and so little by little, as down steps towards a deep, of nothing. And I knew that away from her I would forfeit this freedom.

    Nota: Uma obra que se baseia nas relações entre o tempo e os seus auxiliares hábito e memória. O autor propõe o Nada.

Maria Franziska von Trapp 1914-2014

     
 

 
      Maria Franziska von Trapp era a Louisa no filme 'Música no Coração' e permanecia como a última sobrevivente dos sete cantores originais da família. Era a segunda filha do capitão Georg von Trapp e da sua primeira mulher Agathe Whitehead von Trapp, cujos sete filhos serviram de inspiração para a família do musical da Broadway de 1959 e do filme de 1965.
      "Música no Coração" era baseado no livro de 1949 da segunda mulher do capitão von Trapp, também chamada Maria, que morreu em 1987. Contava a história de como uma mulher austríaca casou com um viúvo com sete filhos e lhes ensinou música. A família escapou da Áustria Nazi, em 1939.

Regresso

greeneyes55:
Buenos Aires Argentina 1972 
Photo: Elliott Erwitt 
 
      Ao fim de décadas de falácias voltamos ao local das perguntas.

Maria João Worm

Como um cão de três patas e de uma orelha inteira
escrevo a descrição do que não foi pago e assento a contabilidade
do que a ser a inteira parte se vendeu.
Algures na vida, eu tenho a certeza, digo-me que fui feliz.
Que por entre um salto
desviou-se o tempo.

    Deixe lá, a morte cura tudo.

José Luís Peixoto

 

Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.

in, Gaveta de Papéis


    Os velhos monólogos.

Filipa Leal

 
Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.

The Byrds

"Deus pôs diante de ti o fogo e a água
e estenderás a mão para o que desejares.
Diante do homem estão a vida e a morte
e o que ele escolher, isso lhe será dado.
Porque é grande a sabedoria do Senhor."

    Bem-Sirá 15, 16-21
 


Manuel António Pina - As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fossemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.


    O sol não parece o mesmo sol mas uma pérola de ostra.

Alejandra Pizarnik

13
 
explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me

Judith Durham - The Olive Tree




Tell me white dove where will I find the olive tree?
For just one branch I'd search my whole life through
I've heard them say a greener land is waiting there
Where people wake and find their dreams come true.

High flying dove please lead me and I'll follow you
Above the clouds beyond the stormy sea
I long to share a world of sweet contentment there
In that bright land where grows the olive tree.
-
    A saudade do grupo The Seekers e de Judith Durham, num poema-monólogo escrito por Charlie Chaplin.

Hans Magnus Enzensberger - Hábitos

Quantas vezes Platão assoou o nariz,
e São Tomás de Aquino
tirou os sapatos,
quantas vezes Einstein escovou os dentes,
e Kafka ligou e desligou a luz,
antes de enfim chegarem
ao que lhes cabia fazer?

Semanas sem fim, feitas as contas,
levamos
a abotoar e desabotoar camisas,
procurar os óculos
ou, tomada a decisão,
novamente descartá-la.

Como são efémeras as nossas opiniões
e as nossas obras, em comparação
com aquilo que nos é comum:
cozinhar, lavar a roupa, subir escadas –
repetições de pouco relevo,
pacíficas, corriqueiras
e mais indispensáveis que qualquer chef d'oeuvre

Tradução de Samuel Titan

    Hans Magnus Enzensberger nasceu em 1929, na Alemanha. O poema relembra que somos todos parentes chegados na logística e, que este aspecto sendo aparentemente menor, é essencial.

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