Charles Bukowski

Vá para o Tibete.
Monte em cima de um camelo.
Leia a bíblia.
Pinte os seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
Dê a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta, barbeie-se com uma navalha
E entalhe o seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba às árvores à noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro d’água e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate o seu cachorro.
Concorra à câmara municipal.
Viva num barril.
Abra a cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.

Mas não escreva poesia.

O problema

 
"A maior desgraça de um país pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos."

    Mia Couto

José Miguel Silva

Cai um sino do pinheiro de natal.
Por muito menos se foge de casa
de seus pais. Agachados sob o leque
das hortênsias, descobrimos que as lágrimas
são fáceis de engolir. Sem saber,
já chegamos ao escuro.
Só nos falta pôr o til na palavra solidão.

    Depois dos abrigos.

Eugène Guillevic

Tem qualquer coisa a ver
Com a noção de Deus,

Água que já não és água,
Poder desprovido de mãos e de instrumentos,

Peso sem emprego
Para quem o tempo não existe.

    Esta é a secção 4 de um conjunto de fragmentos a que o escritor deu o titulo de Carnac.

Ida de Pawel Pawlikowski




    Um filme que saltou de uma ostra. O ser humano é apresentado como alguém que muda os valores e o rumo quando é confrontado com a sua verdadeira identidade. A acção tem lugar na Polónia do inicio dos anos 60. Anna, com apenas 18 anos, está decidida a tornar-se freira no convento onde foi acolhida na infância, após ficar órfã. Todavia, antes de os seus votos se tornarem perpétuos, e apesar de reconhecer a sua inegável fé e dedicação, a Madre Superiora aconselha-a a sair do convento e procurar uma parente, irmã da sua mãe, antiga juíza, que é a única sobrevivente da família.
    Quando a conhece, Anna fica a saber que o seu verdadeiro nome é Ida e que os seus progenitores morreram no extermínio nazi. Determinada a enfrentar o passado, parte junta com a tia em direcção à aldeia onde nasceram. Nesse lugar, Ida terá de escolher entre a sua origem judia e a religião cristã que a salvou da ocupação nazi.
    São 80 minutos de iniciação adolescente à tomada de consciência de um ser humano mais completo. Nem sempre nos completamos só com Deus, também nos completamos com o homem.

Lily & Madeleine - In The Middle



    A taxa de natalidade e morte das canções é elevadíssima. Nestes anos 10, os paradigmas de poesia, arranjos e interpretação de Brel, Dylan, Simon ou Cohen raramente são igualados e poucas permanecem. Existe mais a exposição de canções do que a arte que dignifica as canções. 'In the middle', composto por estas duas irmãs de Indianapolis, é exemplo de superação.

David Mourão-Ferreira

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.

Alberto Caeiro - O Mestre ingénuo

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta, 
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos, 
Acho-te graça por nunca te ter visto antes, 
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança, 
Nem aqui vinhas. 
Brinca na poeira, brinca! 
Aprecio a tua presença só com os olhos. 
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira ver que conhecê-la, 
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez, 
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar. 
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas. 
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão, 
Sabes que te cabe na mão. 
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior? 
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.

Ansel Adams



    A natureza é deslumbrante na sua perfeição e imperfeição.

Mt 13, 24-30



Naquele tempo,
Jesus disse às multidões mais esta parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um homem
que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo,
semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e começou a espigar,
apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe:
'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?
Donde vem então o joio?’.
Ele respondeu-lhes: 'Foi um inimigo que fez isso'.
Disseram-lhe os servos:
'Queres que vamos arrancar o joio?'.
'Não! – disse ele – 
não suceda que, ao arrancardes o joio,
arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa
e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar;
e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro'».

    Não podemos evitar o mal.

Lipka - Rokiczanka


    A música popular polaca tão cheia de alegria, cor e luz estremece-nos a memória. Hoje, ao assistir em Tondela a um concerto de Karolina Cicha, senti a beleza da nova geração deste povo tão sofrido.

Rosa Maria Martelo - Lírios

Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada
outras mãos que não as minhas haverá para o recolher
outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar a ausência.
Depois, nem isso.
Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos
como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.
Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.
Ou quase assim.

Dispo agora toda esta roupa e escrevo
— sem frio nem perda nem desastre —
a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

lírios crescem no acaso vivo da relva
uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.


    Depois de nós.

Jozef Israel - Mother and child by the sea


O lavar do berço.

Rubem Alves

    "Amor é isto: a dialéctica entre a inteligência do encontro e a dor da separação. Quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se possui, jamais. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E, quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro."

    Esperar até à morte. Depois não sabemos.

Søren Ulrik Thomsen

Há um barco com as luzes apagadas
um livro aberto
na página do silêncio.
Não há atalho que leve ao mundo
na manhã cedo
enquanto cai a chuva
há um homem,
que sou eu,
na cozinha gelada.
Mas não um caminho
que saia do mundo.

    Deixemos que Deus nos explique tudo.

Misha Mengelberg - 1967


    O pianista de jazz Misha Mengelberg nasceu em Kiev, Ucrânia, mas desde criança que vive na Holanda. Foi ele que filmou este momento para nos relembrar que a música não sabe música. É música.

Alberto Caeiro - Estas verdades

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas.
E antes de ditas pensadas.
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias
Na negação oposta de afirmarem qualquer cousa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim.


    O ser é, não tem oposto.

Carl Vilhelm Holsoe








    Ler em intimidade é uma luta contra a implosão da nossa época. É um processo lento, é uma contra-cultura, é a reconstrução de um sentido.

Filinto Elísio - Epigrama

Prometeu, quando fez o homem primeiro,
Macho e fêmea, dous corpos fez, pegados:
Porém Jove um composto assim inteiro
Partiu em dois terníssimos bocados.
Daqui nos vem andarmos sempre ao cheiro
Dos membros, que nos foram arrancados.
— Ei-la — (nos diz o Coração) — É aquela —
Mas vamos a prová-la, e nunca é ela.

    Nunca mais nos unimos.

Iluminura

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    A iluminura é um tipo de pintura decorativa, frequentemente requerida para ornamentar o início dos capítulos de códices e de pergaminhos medievais. Neste exemplo, o fluxo luminoso centra-se na personificação da alma espiritual que protege o coração humano nas mãos.

Alberto Pimenta

sabendo   que,  no   momento   de   defecar,  a
ave   ia   a  voar   a  50  metros  de   altura
do  solo   e   à   velocidade   de   30 km.  po
r  hora,  acrescendo   que   o   vento,  no  mo
mento   da   expulsão   das    fezes,   soprava
na   direcção  do  voo   da   ave  a  25 km.  p
or  hora,  e   sabendo   ainda  que   as   feze
s,  no   momento   da   expulsão,   pesavam  12
gramas,  calcule    a   distância   a   que  as
fezes   caíram   em   relação   ao   ponto   da
terra   situado     na   vertical   do    ponto
em   que    a    ave    abriu     a     cloaca.

    Época de exames.

Émile Bernard - Madeleine au Bois d'Amour


    A irmã do pintor, Madeleine Bernard, por quem Paul Gauguin se apaixonou, está deitada junto ao rio Aven que corre para lá das árvores. Entre a horizontalidade em contraste com a geometria das árvores e do rio, ela ouve as vozes interiores da natureza.

Carlos Lopes Pires- "Perda"

Havia uma dor
a crescer no centro do coração.
Não era bem uma dor. Era mais
como uma pedra pesada
e dura
a bater no fundo.
Também não era no centro. Nem
no coração. Era na vida toda,
e era como o trilar dos grilos
nas noites de infância:

vidros que se quebram
à passagem das coisas.

Perdi o nome.

in, Guarda-me contigo entre as papoilas

    A identidade, hoje.

Francis Danby


    Francis Danby, 1793-1861, é um pintor irlandês da escola romântica de Dublin. Na tela, o dramatismo da floresta e da luz consolam a natureza humana entre o pano do pecado e falsas cartas de amor. Não é bem um rio de água.

Pablo Neruda

XVIII

Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.
Não, não se desfia a rede dos anos: não há rede.
Não caem gota a gota de um rio: não há rio.
O sonho não divide a vida em duas metades,
nem a acção, nem o silêncio, nem a virtude:
a vida foi como uma pedra, um só movimento,
uma única fogueira que reverberou na folhagem,
uma flecha, uma só, lenta ou activa, um metal
que subiu e desceu queimando-se nos teus ossos.


    A vida é uma só, mas é "entre".

Rosa Maria Martelo - Branco

Interessa-me o inconcreto branquejar
da roupa no estendal (o branco, não)
mais do que o peso da água, ver
que o nada não se vê na água a evaporar

na luz do tecido em contraluz interessa-me
o vazio suspenso do vazio
quando a roupa enforma ao vento e sobe
no arame, interessa o risco que sustém a louca nave,
os voos desabitados e a pequena hora de ninguém.

    urgência em desmaterializar.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Os espelhos

Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo


    Eles reacendem-se nas noites de janeiro.

The King's Singers



Come sirrah Jack ho, 
fill some Tobacco, 
bring a wire and some fire, 
haste away, quick I say, 
do not stay shun delay, 
for I drank none good today. 

I swear that this Tobacco 
it's perfect Trinidado 
by the very Mass never was 
better gear than is here 
by the rood, for the blood 
it is very good 'tis very good.



    Esta composição, sobre os novos prazeres nas public houses inglesas do séc XVI, é de Thomas Weelkes e surge em "The King's Singers, Madrigal History Tour, The England". O tema é sobre o tabaco trazido para a Europa pelos espanhóis no início do século XVI e que se tornou muito popular. Antes era usado apenas pelos nativos americanos. 
    Era mascado, ou aspirado sob a forma de rapé. Em 1561, Jean Nicot (de onde deriva o nome nicotina), embaixador francês em Portugal, aspirava o rapé moído e percebeu que ele lhe aliviava as suas enxaquecas. A fama desse alivio generalizou-se por toda a Europa.
   O corsário Sir Francis Drake foi o responsável pela introdução do tabaco em Inglaterra em 1585, mas o uso do cachimbo só se generalizou graças a outro navegador, sir Walter Raleigh.

Mary Bell Eastlake - 1864-1951

Mary Bell Eastlake (1864-1951)Conto de fadas

    Ler com os olhos ou com os ouvidos diferencia a intensidade do impacto na leitura interior. A primavera da vida e a outra enquadram um olhar de inverno.

Madeleine Jeanne Lemaire - 1845-1928

Madeleine Jeanne Lemaire (1845 – 1928, French)girl-with-dog

    A ternura partilhada entre a história contada pelo livro, a solidariedade do fiel, a luz do rosto, a antiga ferida e a ligadura apertada. Iniciações da infância ainda longe da cruz.

Jillena Rose - Taos

No deserto é mais fácil encontrar ossos
do que flores, por isso pinto-os:
belos e claros crânios de cavalos e vacas.

Quando me estendo sob as estrelas
na parte traseira do carro, com os coiotes a uivar
nos pinhais, é fácil sentir como estes ossos
são tão tal e qual os meus: eis a minha pélvis
tão parecida com a pélvis que encontrei hoje
polida pelo sol e pela areia. A mesma
cavidade onde o quadril deveria encaixar, a mesma

curva branca de osso debaixo da minha carne,
o mesmo berço de vida, sereno e silencioso em mim.


    A honestidade do verso "sereno e silencioso em mim" em vez do tradicional evitar ver o destino humano face a face.

Mia Couto - O Poeta

O poeta não gosta de palavras
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.
 
    Talvez a física quântica permita um dia escrever versos com raios de luz. O espectro em vez do tinteiro.

Francisco de Lacerda






1. Em cima do alto monte
2. Se quereis rosa ser rosa
3. Nem de chorar sou senhora
4. Quero cantar, ser alegre
5. Mal me queres, bem-me-queres
6. A alegria dos meus olhos
7. Tenho tantas saudades
8. Não morreu nem acabou

1. Eu sou sombra, tu és sol
2. Os meus olhos não são olhos
3. É ter arte não falar
4. Os meus olhos nos teus olhos
5. Amar mas saber amar
6. Este mundo é uma vinha

 
    Francisco de Lacerda, 1869-1934, foi um notável compositor, maestro, conferencista e pianista açoriano. As suas Trovas para voz e piano, um conjunto de 36 peças, são obras notáveis que procuram reflectir a linguagem musical popular portuguesa e açoriana em registo lírico.

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