Andrei Tarkovsky



    O cavalo surge no filme Andrey Rublyov, deste realizador, que nos dá a conhecer aspectos da Rússia do séc. XVI. 

Ricardo Reis - Outono

Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
        Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa —
O amarelo actual que as folhas vivem
        E as torna diferentes.

        A olhar as rugas de Lídia.

Yvette K. Centeno

conta-me
torna-me
amarga

faz-me saber
mais
do que sei.


 Saber, apenas em sabedoria.

Cantos de trabalho - Tocadora de Roda


    Michel Giacometti gravou este canto no lugar de Dornelas, Pampilhosa da Serra, Coimbra, em 1972. Mais ou menos por essa altura dizia José Afonso "A música que faço é de segunda ou terceira, de primeira faz o povo." O video é um documento.

Nicholas Wilson


    Enfim, um ser vivo com os mesmos problemas: de tempo e de destino ominoso. Não olha em frente, tenta perceber se tem ajuda.

Li Shang-yin (812-858)

O vento do Este solta um lamento, a chuva fina cai:
Para além da lagoa de lírios-d'água, o barulho de um trovão distante.
Um sapo dourado corrói o cadeado. Abre-o, queima o incenso.
Um tigre de jade puxa a corda. Fugindo do poço, escapando.
A filha de Chia espreitou pela cortina quando o empregado Han era jovem,
A deusa do rio deixou a almofada para o grande príncipe de Wei.
Nunca deixem o vosso coração aberto com as flores da primavera:
Um dedo de amor é um dedo de cinzas.

   Escrever, assim, no séc IX.

Saigyō Hōshi - Aquele que se afasta a si mesmo

Aquele que se afasta a si mesmo - 
terá ele verdadeiramente
atingido o afastamento?
O verdadeiro solitário é aquele
Que nada afasta de si.

  Poeta japonês que viveu entre 1118-1190.

Leonard Cohen - Did I Ever Love You

            

Did I ever love you
Did I ever need you
Did I ever fight you
Did I ever want you
Did I ever leave you
Was I ever able
Or are we still leaning
Across the old table

Was it ever settled
Was it ever over
And is it still raining
Back in November
The lemon trees blossom
The almond trees wither
Was I ever someone
Who could love you forever

    Talvez devido ao rigor de ensinar Língua Inglesa a adolescentes, eu corrigiria o aluno que escrevesse o texto. Obriga a gramática que não se abandone o ponto de interrogação. Só que, como dizia um amigo, "Aos 80 anos sabemos tudo." e provavelmente L. Cohen já não se interroga como antigamente. Não lhe é relevante.

    Deixei cair os olhos em "Or are we still leaning across the old table" que me sugeriu o altar de Abraão. Depois, a amargura do verso "The lemon trees blossom". Deixemos os limoeiros florir.

J. M. Fonollosa

«Foram quatro, sim, quatro e uma faca.
Já a lua morrera um dia antes.

Seguraram-lhe os braços pelas costas
e a roupa deparou com o sabor do campo.
Eram doces as suas pernas. Como o vinho.

Oito olhos muitas vezes se alternaram.
Parca foi sua defesa. Eram quatro, os homens.
Pude soltá-la passado um bocado.
Comigo pôs-me o braço ao pescoço.

Fomos quatro, sim, quatro e uma faca
que naquela noite no cinto me surgiu.
Morreu sem daquele meu abraço se soltar.

Não sei onde isto foi. Não me recordo.
Eu costumava ir a muitos sítios.»

O direito e o avesso dos amores entre o bem e o mal.

O portrait de Dorothy Wilding



    Dorothy Wilding foi nomeada a "Official Royal Photographer for the 1937 Coronation" e imortalizou-se com as fotos que tirou a membros da família real inglesa. Esta tornou-se ícone nos selos da Commonwealth entre 1952 e 1967. A sua auto-biografia In Pursuit of Perfection, publicada em 1958, é um tratado sobre a arte de criar beleza com uma máquina fotográfica.

Nuno Dempster

O bosque de pinheiros mansos
tranquiliza-me em tardes quentes,
quando as monótonas
cigarras são a luz do sol que fere
e a sombra é um odor a bálsamo.

Aí me refugio, recupero o silêncio
e imagino que bebo
água da fonte, as mãos em concha.

    A revelação.

Destino

"Tenho a suspeita de que
a espécie humana – a única –
está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará:
iluminada, solitária, infinita,
perfeitamente imóvel,
armada de volumes preciosos,
inútil, incorruptível, secreta.”


    Jorge Luís Borges

A maior ambição na vida


Testemunhar o milagre em cada dia.


No momento da tua renúncia 
estende sobre a vida os teus olhos 
e tu verás o que vias: mas tu verás melhor... 
e tudo que era efémero se desfez. 
E ficaste só tu, que és eterno.

Cecília Meireles

Wislawa Szymborska - Correntes

Um dia sufocante, a casota de um cão e o cão acorrentado.
Uns passos mais à frente um pequeno bebedouro cheio de água.
Porém a corrente é demasiado curta e o cão não chega lá.
Acrescentemos à imagem mais um detalhe:
as nossas muito mais compridas
e menos visíveis correntes
graças às quais podemos passar tranquilamente ao largo.


in, Do trapézio, sem rede

    E a água lá está.

Alain Bosquet - O tormento de Deus

Deus disse: "Se tal vos repugna,
não acrediteis em mim,
mas ficaria feliz
se encontrásseis algum encanto
num ou noutro ser da minha lavra:
o búzio, onde dorme a música,
o plátano, que cresce para lá das estrelas,
o mar, que diz cem vezes: "Eu sou o mar."

Sinto-me muito humilde:
"o meu universo não é mais belo
do que um poema perdido."


    O Deus simples.

On a knife-edge





    A Saltire é parte da Union Jack desde há 307 anos e não ficará bem no canto superior esquerdo do pano, como acontece nas bandeiras da Commonwealth. Os escoceses deram whisky ao Loch Ness.

    A rosa do mundo não é para mim.
    Da minha parte eu quero
    Apenas a pequena rosa branca da Escócia

    Que cheira cortante e doce - e parte o coração.

    Poema do poeta escocês Hugh MacDiarmid

Is 55, 1-3

Prophets
Os Profetas de Fra Angelico

    Eis o que diz o Senhor:

«Todos vós que tendes sede, vinde à nascente das águas.
Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei.
Vinde e comprai, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite.
Porque gastais o vosso dinheiro naquilo que não alimenta
e o vosso trabalho naquilo que não sacia?
Ouvi-Me com atenção e comereis o que é bom;
saboreareis manjares suculentos. 
Prestai-Me ouvidos e vinde a Mim;
escutai-Me e vivereis.
Firmarei convosco uma aliança eterna,
com as graças prometidas a David.»

    in, Livro de Isaías

Château de Villandry







    O jardim francês, oposto ao jardim inglês, é considerado o mais rígido e formal de todos os jardins, e traduz-se em formas geométricas de simetria perfeita. Criado no século XVII, durante o reinado de Luís XIV, o estilo demonstra o domínio racional do homem sobre a natureza numa opressão matemática.

Maureen Hyde - O Outono


    Não deixes o cuidado de governar teu coração a essas ternuras, pai e mãe do outono, a quem emprestam o plácido andar e a sua afável agonia. Os olhos são precoces em rugas. O sofrimento conhece poucas palavras. Opta por deitar-te sem fardo: sonharás com o dia seguinte e o leito ser-te-á leve. Sonharás que a tua casa já não tem vidraças. Estás impaciente por unir-te ao vento, ao vento que numa só noite percorre um ano. Outros cantarão a incorporação melodiosa, a carne que personifica apenas a feitiçaria da ampulheta. Condenarás a gratidão que se repete. Mais tarde hão-de identificar-te com qualquer gigante desagregado, senhor do impossível.
     Contudo.
    Não fizeste mais do que acrescentar o peso da tua noite. Regressaste à pesca nas muralhas, à canícula sem verão. Estás furioso com o teu amor no centro de uma inteligência que enlouquece. Sonhas com a casa perfeita que jamais verás erguer. Para quando a colheita do abismo? Mas tu vazaste os olhos do leão. Julgaste ver passar a beleza sobre alfazema negra...
Que foi que te levantou outra vez um pouco mais alto sem te convencer?
    Nenhum cerco é puro.

    René Char
    tradução de Eugénio de Andrade

William Wordsworth

Pintura de Brulloff Karl

E, entretanto, conheci uma jovem
que, cheia de espontaneidade, escapou a tal dependência,
porque o seu olhar não era senhor do seu coração,
nem sequer deixava perturbar o seu espírito
pelas leis prescritas por um gosto apenas passivo
ou arrojadas e áridas subtilezas; mas, sensata como as mulheres
que são favorecidas pelo seu especial modo de ser,
ela acolhia o que chegava até ela e nada mais desejava:
o que quer que lhe oferecia a paisagem para ela era
o melhor, e vivia com isso harmoniosamente
devido à sua benigna simplicidade
e a uma perfeita felicidade espiritual
vinda de diversas sensações que eram
como irmãs, sendo cada uma delas uma nova alegria.
Os pássaros nos ramos e os cordeiros nos prados,
se a tivessem conhecido, tê-la-iam amado; parecia-me
que a sua própria presença exalava doçura,
que as flores ou as árvores e mesmo as colinas silenciosas
e tudo para onde olhasse devia adivinhar
quais os seus sentimentos para cada uma delas
e para todas as criaturas. É com um tal ser que Deus
se deleita, porque os seus simples pensamentos
são a piedade, e a sua vida é a gratidão.

    Tradução de Maria de Lourdes Guimarães

And yet I knew a maid,
A young enthusiast, who escaped these bonds;
Her eye was not the mistress of her heart;
Far less did rules prescribed by passive taste,
Or barren intermeddling subtleties,
Perplex her mind; but, wise as women are
When genial circumstance hath favoured them,
She welcomed what was given, and craved no more;
Whate'er the scene presented to her view
That was the best, to that she was attuned
By her benign simplicity of life,
And through a perfect happiness of soul,
Whose variegated feelings were in this
Sisters, that they were each some new delight.
Birds in the bower, and lambs in the green field,
Could they have known her, would have loved; methought
Her very presence such a sweetness breathed,
That flowers, and trees, and even the silent hills,
And everything she looked on, should have had
An intimation how she bore herself                        
Towards them and to all creatures. God delights
In such a being; for, her common thoughts
Are piety, her life is gratitude.

    Valerá ainda a pena celebrar Eva antes de pecar?

Piano Trio No. 1 Schubert - andante con moto


    A intimidade de tocar bem e escutar bem continua perdida. Os espectáculos em grandes salas, quase sempre, só conduzem a música até aos sentidos. Não transcende. Quando acontece é o milagre.

A personificação do rio Nilo



    A escultura foi encontrada em 1530, foi restaurada no pontificado de Clemente XVI e fazia par com outra obra, o rio Tibre (hoje no Louvre). Mede dois metros de altura, três de comprimento e representa o rio Nilo como divindade em forma de um velho de barbas, que se apoia sobre uma esfinge e sustem uma cornucópia como símbolo da fertilidade das águas. As dezasseis crianças que brincam em seu redor simbolizam as subidas do volume das águas nas inundações anuais. Encontra-se no Museu do Vaticano e estudos calculam que foi realizada 2 séculos depois de Cristo.

Melozzo da Forlì


    Os anjos do pintor renascentista Melozzo da Forli são dos mais belos da história da arte. É o Renascimento com luz. Neste exemplo, o anjo abre uma janela no céu e toca alaúde certificando-se com o olhar de que o som chega cá abaixo. Por alguma razão se certifica. 

Golgona Anghel - Agora que nada mais importa

O desinteresse acumula-se à minha volta
como as camadas seculares
no tronco de uma sequóia.
Fico imune a queixinhas.
Lavo sozinho a minha roupa.
A minha língua está a ganhar uma espessura lenhosa.
No lugar do grito,
uma greta.
Mãos nos bolsos,
bico calado.
Evito vitrinas e espelhos.
Tenho medo que a verdade
me possa desfigurar o rosto.

in, Como uma flor de plástico na montra de um talho.

A aldeia de Conques











    A aldeia medieval de Conques, em Marcillac, é uma povoação construída ao redor da abadia de Saint Foy e é considerada uma das aldeias mais belas de França. O lugar existe desde 819 d.c, quando a área de floresta era desabitada e tornou-se um local de oração e meditação. Este espaço de silêncio verde foi escolhido por um eremita chamado Dadon, que mais tarde fundou uma comunidade de monges beneditinos. Ali fazem paragem os peregrinos a caminho de Compostela.

Serão os humanos que verão a morte do Sol?


    «Gostaria de alargar a consciência das pessoas quanto ao tremendo período de tempo que temos pela frente – para o nosso planeta e para a própria vida. A maior parte das pessoas instruídas tem consciência de que somos o resultado de quase quatro biliões de anos da selecção de Darwin, mas muitos têm tendência a pensar que somos de algum modo o culminar da evolução. O nosso Sol, porém, ainda não chegou a metade do seu período de vida. Não serão os humanos que verão a morte do Sol, daqui a seis biliões de anos. As criaturas que existirão nessa altura serão tão diferentes de nós como nós somos das bactérias ou das amibas.»

    Martin Rees, astrónomo e professor de Cosmologia e Astrofísica em Cambridge. A tela é do pintor americano, de Virginia, Dan Earle.

As coisas tornam-se visíveis

Sempre. Dormiram, acordaram, esgotaram-se. Vivem na escuridão, no vácuo. Têm mãos. Respiram sombriamente sobre as mãos.
Depois param.
Então criam a festa. As forças irrompem do fundo; fazem vacilar o fino e o precário equilíbrio da terra. Para lá da lei abolida, as coisas tornam-se visíveis, com uma intensidade, uma transparência anterior: sinais, vozes, tudo. Como se o mundo inteiro curasse uma ressaca no corpo de cada um, e essa lípida desordem deixasse o coração escorrido.
É a festa dos homens.

Herberto Helder in, Passos em Volta

Lilla Pete - Bach Es-dur Sonata


     Beijar a música como um passarinho e voar.

Vitorino Nemésio - O Pão e a culpa

Desde que me conheço sei o pão
E o corto em companhia.
Por ele me bate o coração,
E em sua dobra quente
Grelava outrora a alegria
De mim e de muita gente.

Uma hastilha de seiva começava-o
Como um fio de luz,
E a eira rasa dava-o
Tal como a rosa de alva a cor produz.

Vinha a nós como o Reino vem na prece,
Sendo feita a vontade ao Lavrador:
Assim numa alma limpa amadurece
A semente de amor.

Era o pão. Chão de pão,
Dizia-se ‑ e era logo;
Caía o gesto à terra, a espiga balouçava,
O tempo, devagar, corria-lhe a sua mão,
E com um pouco de pinho e outro de fogo
A vida clara estava
Naquela combinação.

Hoje, que é pão ainda, e à noite nosso,
Vai-se a cortar, falta-lhe talvez polpa.
Se não parto na mesa o pão que posso
É minha a culpa.

Eu sei o pão de cada dia e trago-o:
Ontem, como amanhã, já hoje mo dão;
Mas, vago, a meio da dentada, trago-o,
E não, não é bem o mesmo, ou então não posso…

Ou pelo menos não é todo nosso
Este que levo à boca, o nosso pão.

    O sentimento comunitário da partilha, o mistério das coisas simples, o ontem e o hoje, o pão como perda e salvação.

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