Para o meu pai



      Quando os sonhos não vão longe, correm até à infância e voltam brancos, por grandes alamedas de tristeza e de bruma, a alturas que o olhar não toca, lá onde tu estás e eu não chego. Queria acariciar os teus cabelos mortos, deixar cair entre os nossos espaços o tempo cheio de espaços antes da escuridão acabar de roer a forma da tua sombra.
      Quando há uma cama demasiado larga às cinco e dez da manhã: lágrimas, as lágrimas, lágrimas - lágrimas. Quando se ouvem passos e não são os teus passos, quando o silêncio não é a pausa da tua respiração, quando não há essa força e esse fogo, essa paz do corpo que torna invulnerável - oh, é muito simples: o pensamento pára
tem que parar
pára
      Quando as urtigas nascem por toda a parte, queimam, quando os pântanos alastram e as areias movediças, e a tua mão não está lá, a mão cujos dedos eu conhecia como se conhece um filho, a mão-rocha e a mão-mulher, a mão-sol, a mão-filipêndula batida pelo vento, mas enfrentando-o - é-se como o veado que agoniza em silêncio.
      O que vem depois, vem como o sangue depois de um corte fundo, não pára, mas falta-nos metade das nossas veias, metade dos nossos nervos, metade da nossa pele esfolada, metade do nosso coração gelado. Estou meio cego, perdi metade da minha idade. Falta a sombra dos teus cabelos, a raiz dos teus dentes, o meu abismo debaixo de água.

      Ernesto Sampaio  in, Fernanda

      Se fosse vivo, o meu pai faria hoje 100 anos. 

Bilbury





      Bilbury é um povoado inglês antigo, do tempo dos romanos, com uma extensa fila de casas de tecelões construídas em pedra no século XIV. Nele, o progresso conviveu com a natureza de modo a completarem-se, sobretudo no célebre Arlington Row com a sua fila de casas junto ao rio Coln. Situa-se a duas horas de Londres. 

Genesis - Firth Of Fifth




The path is clear
Though no eyes can see
The course laid down long before.
And so with gods and men
The sheep remain inside their pen,
Though many times they've seen the way to leave.

He rides majestic
Past homes of men
Who care not or gaze with joy,
To see reflected there
The trees, the sky, the lily fair,
The scene of death is lying just below.

The mountain cuts off the town from view,
Like a cancer growth is removed by skill.
Let it be revealed.
A waterfall, his madrigal.
An inland sea, his symphony.

Undinal songs
Urge the sailors on
Till lured by sirens cry.

Now as the river dissolves in sea,
So neptune has claimed another soul.
And so with gods and men
The sheep remain inside their pen,
Until the shepherd leads his flock away.

The sands of time were eroded by
The river of constant change.



      A faixa é uma obra prima do género rock progressivo, dos Genesis da era Peter Gabriel, de 1973, incluída no álbum "Selling England by the Pound". O título Firth of Fifth vem de um estuário localizado na costa oeste da Escócia - próximo de Edimburgo - com o nome Firth of Forth, que literalmente pode ser traduzido por 'Estuário do rio Forth'. Todavia, como Forth tem a mesma pronúncia de fourth (o número ordinal 'quarto') o título poderá ser traduzido por 'O Estuário do rio Quinto'.
      Os versos do poema descrevem um rio desde a nascente até à foz. Aí, os velhos marinheiros ouvem o canto das sereias e sujeitam-se aos perigos iminentes. Os deuses, por sua vez, subjugam os rebanhos nas margens, mas os pastores sabem como libertá-los. Será a foz a morte ou a vida?
      A melodia começa com a parte em piano clássico por Tony Banks (autor do tema) com mudanças de ritmo complexas: dois por quatro, quatro por quatro, treze por dezasseis, volta a dois por quatro, de novo treze por dezasseis, seguido de quinze por dezasseis. A progressão de acordes entre o órgão e a guitarra, o solo de flauta, o instrumental 'synth-driven' que retoma o tema de abertura do piano, o solo de guitarra que reinterpreta a melodia da flauta, a voz de Gabriel e a fechar, de novo, o piano de Banks, fazem do trecho um dos melhores que a industria da música gravou. 
      A animação com tradução é retirada de "Mermaid" de Aleksandr Petrov.

Ricardo Silvestrin - Jura

Juro dizer a meia-verdade
a meia-mentira
o centauro por inteiro

nada mais que a sedução da sereia
o passo em falso, verdadeiro
na beira de um desfiladeiro

juro com a mão direita
sobre a bíblia
e a mão esquerda abanando

em nome de Deus, de Zeus
de Oxalá ou da besta

juro que os que quiserem
somente a verdade
vão perder o melhor da festa.


      É necessário ter grande cuidado a olhar, a ouvir, a sentir, a ler, a discutir, a comprar e sobretudo a agir, porque posso ser enganado. É cada vez mais difícil educar um filho.

Sebastian Cosor



      Edvard Munch pintou em 1893 uma das obras-prima do expressionismo "O Grito", que representa o desespero e a angústia existencial. Apesar de todos os disfarces desenvolvidos sobretudo pela religião, pela filosofia e pela poesia esse desespero e angustia continuam. Em 2014 um realizador de animação romeno de nome Sebastian Cosor resolveu transformar "O Grito" numa animação. Para tal, recorreu a uma das canções mais famosas dos Pink Floyd "The Great Gig in The Sky", do álbum "The Dark Side of The Moon" de 1973. Sebastian criou um diálogo ficcionado de dois homens sobre a morte, até que surge a figura que grita ao som do canto lírico etéreo da cantora Clare Torry, colaboradora no disco dos Pink Floyd. O resultado é interessante.


Fay Hield - Raggle Taggle Gypsy



Gypsy Davey came through the woods
A-singing so loud and merry
The green hills all around him rang
And he won the heart of a lady
How old are you my pretty fair miss
How old are you my lady?
She answered him down by the riverside
I’ll be sixteen next Sunday.

Come go with me my pretty fair miss
Come go with me my lady
I’ll take you over the country wide
You never shall want for money
So she kicked off her high heeled shoes
All made with bows and feathers
She pulled on her low flat shoes
And they rode off together.

Raggle taggle gypsy gypsy
Raggle taggle gypsy Davey.

It was late at night when the squire came home
Inquiring for his lady
The servants all around him said
She’s gone with Black Jack Davey
Go saddle for me my milk white stead
The black ones not so speedy
He rode all night to the broad daylight
And overtook his lady.

How can you leave your house and land
Your feather bed and baby?
How can you leave your husband man
To go with Black Jack Davey?
Very well can I leave my feather bed
I’m sorry to leave my baby
Much better can I leave my husband man
To go with Black Jack Davey.

I won’t come back my darling dear
I won’t come back my honey
I wouldn’t give a kiss from Davey’s lips
For you nor all your money
So she pulled off her milk white glove
All made of Spanish leather
She’s gave to him her lily white hand
And bid farewell for ever.

She soon ran through her silken gown
Her velvet shoes and stockings
The gold ring from her finger’s gone
And she was left with nothing
Oh once I had a house and land
A feather bed and baby
But now I lie on the cold clay ground
With a gypsy dancing round me.

      Esta é uma das canções infantis escocesas mais famosas. Nela se descreve a história de amor entre uma menina rica e um cigano bonito. Ela, cansada do luxo e do tédio que o luxo sempre traz, resolve fugir de casa com Gypsy Davey para ser livre e feliz. O pai vai no encalço para a trazer a filha de volta, mas ela recusa. Afinal, a vida em riqueza é vã comparada com o desafio da aventura. A Carter Family, Woody Guthery, Bob Dylan também cantaram o tema com algumas alterações no texto e na melodia.

Tirili - Zirkus Renz



      Die Gruppe „Tirili“ spielt seit 2013 zusammen. Karin Schurm ergänzt Martina Stöbich und mich mit ihrer Bass-Ocarina, und so wurde aus dem Ocarina-Duo ein Ocarina-Trio. Drei Ocarinas können fröhlich „trällern“, nicht zuletzt auch dadurch, dass wir gerne höchst virtuos und schnell aufspielen. Daher hat sich auch der Name „Tirili“ ergeben. Unterstützt und vervollständigt werden wir mit Florian Kasberger an der Ziach und Regina Augustin an der Gitarre.

      A ocarina tem origem na cultura maia e o exemplar mais antigo tem 12.000 anos. Feita de porcelana, terracota, madeira ou pedra foi aperfeiçoada nas culturas italiana e alemã. Este grupo da Wirtshausmusik recente é disso exemplo. Karin Schurm e Martina Stöbich confirmam a beleza do instrumento.

Eugénio de Andrade - O Silêncio



Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 

e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora, 

quando azuis irrompem 
os teus olhos 

e procuram 
nos meus navegação segura, 

é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas, 

pelo silêncio fascinadas. 

in, Obscuro Domínio


       A fragilidade da ternura, do sono e das palavras em contraste com a segurança dos afectos no olhar.

Mario Antonio Gómez Vargas



Os limites.


O livro de Homero.


A participação.


O sonho.


A ilha.


A solidão.


A viagem.


O conhecimento.


A situação actual.

      Mario Antonio Gómez Vargas, pintor chileno, nasceu em 1968, em Concepción. Acabou a licenciatura em Artes na Universidade Católica de Santiago e enquadra-se no movimento neofigurativo do Chile e na "corriente artística latinoamericana del Realismo Mágico". As telas põem em relevo as limitações humanas, a fragilidade do progresso e as consequências.

The Kiss of the oceans



      Um postal de 1923 que celebrava a construção do canal do Panamá. A França começou a sua construção em 1802, mas teve que parar devido a problemas de engenharia e pela alta taxa de mortalidade de trabalhadores por doenças tropicais. Os Estados Unidos assumiram o projecto em 1904 e levaram uma década para concluir o canal, que foi inaugurado oficialmente em 15 de agosto de 1914. 
      Um dos maiores e mais difíceis projectos de engenharia já realizados, o Canal do Panamá reduziu muito o tempo de viagem para se cruzar os oceanos Atlântico e Pacífico de navio, o que permitiu evitar a longa e perigosa rota do cabo Horn, no extremo sul da América do Sul, através da passagem de Drake ou do estreito de Magalhães. O tempo aproximado para cruzar o canal varia entre 20 e 30 horas, já que o seu comprimento é de 77,1 km.

       Notas da Wikipédia

Nizzar Qabbani

Neste tempo de espigas de trigo armadas
de pássaros armados
de cultura armada
e de religião armada
não se pode comprar pão
sem encontrar uma arma no interior
não se pode colher uma rosa do campo
sem que os seus espinhos nos arranhem o rosto
não se pode comprar um livro
que não vá explodir entre os nossos dedos.


      É o que dá transformar uma espiga, um pássaro, uma religião, uma rosa ou um livro num produto para vender.

Alberto Caeiro - XVI


Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente
E eu não sabia nada do que de mim faziam...
Mas eu não sou um carro, sou diferente
Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam.

in, O Guardador de rebanhos

      Uma coisa é só coisa mesmo que chie. Confesso que gosto mais do mistério de ser gente, Sr. Alberto. 

Prazeres



A construção moderna da auto-estima.

Tom Waits - A Christmas Card From a Hooker in Minneapolis



      Tom Waits interpreta sempre bem uma "barroom piano melody". Esta narra um postal de natal enviado por uma prostituta que vive em Minneapolis, a um homem de nome Charley. Engravidou, diminuiu as doses de heroína e whisky e esse homem, que toca trombone na rua em frente, diz que a ama e que vai ajudar a educar a criança como se fosse seu filho. Como prova deu-lhe um anel que era da mãe e levou-a a dançar aos sábados à noite. Esta história de natal talvez não seja verdadeira como tantas outras, mas mostra um pouco o underground da América urbana e decadente.

Familie Rehm - Ein Kind ist uns geboren




Ein Kind ist uns geboren,
das Gott und Mensch euch!
Er öffnet Herz und Ohren,
ihr Christen, freuet euch!
Zu Bethlehem im Stalle
kehrt unser Heiland ein,
er kommt zum Trost für alle,
geliebet will er sein.

Die Hirten hör’n das Singen
der frohen Engelschar.
Gekrönte Fürsten bringen
Gold, Weihrauch, Myrrhen dar.
Sie legen Herz und Krone
zu Jesu Füßen hin,
sie seh’n in Davids Sohne
Gott selbst und preisen ihn.

Erfüll’ mit deinen Gnaden,
Herr Jesu, dieses Haus!
Tod, Krankheit, Seelenschaden,
Brand, Unglück treib’ hinaus!
Laß hier den Frieden grünen,
verbanne Zank und Streit,
daß wir dir fröhlich dienen
jetzt und in Ewigkeit!


      Os cantos silentes alemães com o Menino, o frio, a luz, o silêncio, os magos, os sinais, a esperança e a fé.

The Yule Goat


      A Yule Goat, ou a cabra de Yule, é uma tradição do norte da Europa, dos países escandinavos. A figura de origem popular e é feita de restos de palha ainda com grão. Tem a função de vigiar as tradições de inverno, confirmando se estão a cumprir-se integralmente. Acompanha a gestão do consumo, a distribuição de lenha e de roupas, o enfeite das árvores de Natal, os cantares de porta em porta, as receitas de cozinha, os postais de boas-festas. E, no tempo das sementeiras o grão volta a lançar-se à terra e cresce para o ano seguinte.
      Com uma cabra, assim, desejo a todos um bom ano.

Glória in excélsis Deo




Glória in excélsis Deo
et in terra pax homínibus bonæ voluntátis.
Laudámus te,
benedícimus te,
adorámus te,
glorificámus te,
grátias ágimus tibi propter magnam glóriam tuam,
Dómine Deus, Rex cæléstis,
Deus Pater omnípotens.
Dómine Fili unigénite, Jesu Christe,
Dómine Deus, Agnus Dei, Fílius Patris,
qui tollis peccáta mundi, miserére nobis;
qui tollis peccáta mundi, súscipe deprecatiónem nostram.
Qui sedes ad déxteram Patris, miserére nobis.
Quóniam tu solus Sanctus, tu solus Dóminus, tu solus Altíssimus,
Jesu Christe, cum Sancto Spíritu: in glória Dei Patris. Amen.

      Este texto foi composto em grego e era um dos inúmeros psalmi idiotici que se escreveram nos séculos II e III, de composição nova, diferente dos poemas do Saltério hebraico. Antes mesmo que São Jerónimo empreendesse a tradução da Bíblia para a língua latina, o texto já tinha sido traduzido para esse mesmo idioma. Depois, quando foi introduzido na Missa em Rito Romano, era exclusivo da celebração litúrgica do Natal. A extensão do uso deu-se lentamente, passando a ser usado nos Domingos, em algumas festas, mas sempre só pelos bispos; posteriormente, foi concedido aos padres usar o Glória, embora apenas no dia de sua ordenação e na Páscoa. Finalmente tornou-se universal.

Tempo de Natal

      A Palavra fez-se carne e neste menino concentraram-se todo o espaço, todo o tempo, toda a matéria e todo o espírito. Em cada estrela do céu está escrita a esperança de que a nossa vida tem um sentido Maior. 

Manuel António Pina




À infância só se chega partindo de muito longe. A infância é aí, onde partes, não onde chegas. Olha para trás. Que vês? Nada. A memória é a única coisa que verdadeiramente te pertence, mas lembras-te de um estranho. Como poderias, há muitos anos, saber que eras apenas a lembrança de um estranho:

tu?

Lembras-te do carrinho de pau? Lembras-te do poço? O que havia debaixo da cama? O que estava escondido atrás dos cortinados?

Palavras é tudo o que tens. O carrinho de pau: palavras. O cão: palavras. O medo: palavras. Alguma vez tiveste outra coisa?

Natalia Litvinova



Lavo o chão de gatas. Passo o trapo molhado.
Traço o meu humilde caminho.
Lá fora dá-se o milagre da comunidade:
um coro de crianças canta, os homens ceifam o trigo,
as mulheres banham-se no rio.
Encosto-me ao espelho, a solidão excita.
Um destes dia esta casa será derrubada e as ervas
cobrirão as ruínas.
O meu homem fugiu vendo vir o perigo.
Na poesia encontro a oração para suportar
cada corte abrupto.

      Natalia Litvinova nasceu em 1986, Gomel, Bielorrússia. Com os pais fugiu do país natal e vive hoje na Argentina desde a idade dos dez anos. De rosto bonito, os seus poemas têm palavras perturbadas.

Bob Dylan Nobel Prize Speech


      Good evening, everyone. I extend my warmest greetings to the members of the Swedish Academy and to all of the other distinguished guests in attendance tonight.

      I'm sorry I can't be with you in person, but please know that I am most definitely with you in spirit and honored to be receiving such a prestigious prize. Being awarded the Nobel Prize for Literature is something I never could have imagined or seen coming. From an early age, I've been familiar with and reading and absorbing the works of those who were deemed worthy of such a distinction: KiplingShawThomas MannPearl BuckAlbert CamusHemingway. These giants of literature whose works are taught in the schoolroom, housed in libraries around the world and spoken of in reverent tones have always made a deep impression. That I now join the names on such a list is truly beyond words.
      I don't know if these men and women ever thought of the Nobel honor for themselves, but I suppose that anyone writing a book, or a poem, or a play anywhere in the world might harbor that secret dream deep down inside. It's probably buried so deep that they don't even know it's there.
      If someone had ever told me that I had the slightest chance of winning the Nobel Prize, I would have to think that I'd have about the same odds as standing on the moon. In fact, during the year I was born and for a few years after, there wasn't anyone in the world who was considered good enough to win this Nobel Prize. So, I recognize that I am in very rare company, to say the least.
      I was out on the road when I received this surprising news, and it took me more than a few minutes to properly process it. I began to think about William Shakespeare, the great literary figure. I would reckon he thought of himself as a dramatist. The thought that he was writing literature couldn't have entered his head. His words were written for the stage. Meant to be spoken not read. When he was writing Hamlet, I'm sure he was thinking about a lot of different things: "Who're the right actors for these roles?" "How should this be staged?" "Do I really want to set this in Denmark?" His creative vision and ambitions were no doubt at the forefront of his mind, but there were also more mundane matters to consider and deal with. "Is the financing in place?" "Are there enough good seats for my patrons?" "Where am I going to get a human skull?" I would bet that the farthest thing from Shakespeare's mind was the question "Is this literature?"
      When I started writing songs as a teenager, and even as I started to achieve some renown for my abilities, my aspirations for these songs only went so far. I thought they could be heard in coffee houses or bars, maybe later in places like Carnegie Hall, the London Palladium. If I was really dreaming big, maybe I could imagine getting to make a record and then hearing my songs on the radio. That was really the big prize in my mind. Making records and hearing your songs on the radio meant that you were reaching a big audience and that you might get to keep doing what you had set out to do.
      Well, I've been doing what I set out to do for a long time, now. I've made dozens of records and played thousands of concerts all around the world. But it's my songs that are at the vital center of almost everything I do. They seemed to have found a place in the lives of many people throughout many different cultures and I'm grateful for that.
      But there's one thing I must say. As a performer I've played for 50,000 people and I've played for 50 people and I can tell you that it is harder to play for 50 people. 50,000 people have a singular persona, not so with 50. Each person has an individual, separate identity, a world unto themselves. They can perceive things more clearly. Your honesty and how it relates to the depth of your talent is tried. The fact that the Nobel committee is so small is not lost on me.
      But, like Shakespeare, I too am often occupied with the pursuit of my creative endeavors and dealing with all aspects of life's mundane matters. "Who are the best musicians for these songs?" "Am I recording in the right studio?" "Is this song in the right key?" Some things never change, even in 400 years.
      Not once have I ever had the time to ask myself, "Are my songs literature?"
      So, I do thank the Swedish Academy, both for taking the time to consider that very question, and, ultimately, for providing such a wonderful answer.
      My best wishes to you all,
      Bob Dylan
     Banquet speech by Bob Dylan given by the United States Ambassador to Sweden Azita Raji, at the Nobel Banquet, 10 December 2016.

Konstandinos Kavafis



Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventuras, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poseídon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se a emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o selvagem Poseídon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,
para que aprendas e aprendas com os letrados.

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já hás-de compreender o que significam Ítacas.


      Quando era jovem diziam-me que o importante era partir e não chegar, mas com a idade já aportei em alguns cais. Cheguei sereno. 

Andrea Kowch







      "I’ve always been drawn to and intrigued by stories that are a bit twisted; the ones containing strange characters and a prevailing sense of impending danger. Perhaps that’s why my paintings often carry a similar feeling. There’s always an aspect of something unknown about to happen. The story is never fully revealed, it simply continues on, each painting serving as the next page or chapter." 
      A citação ajuda-nos a entender a natureza das telas desta pintora americana, nascida em Detroit, Michigan, 1986. Há elementos ominosos relativos a um estado de coisas que não conhecemos bem. O mistério tem feridas e uma ameaça que não se sabe de onde vem mas que está prestes a acontecer. Telas com pus.

Arquivo do blogue