Golgona Anghel - Não gosto de contar os desastres em detalhe

Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.

Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.

Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.

Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje, por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.


    Golgona Anghel nasceu na Roménia, em 1979, mas vive há anos em Portugal. Este poema, onde a persona parece ser um jornalista de tablóide, é um sinal do seu dom poético.

Ana Paula Inácio - Partir com os barcos

Partir com os barcos
e ferir os dedos
ao puxar das redes.
Mas o sangue, que se confundirá nas malhas, não será
ainda tão significativo como aquele que verterá o peixe
ao cair nelas.


in, As Vinhas de meu pai

William McTaggart




A luz na natureza, nos pastores e nos rebanhos da pintura escocesa.

Alberto Pimenta

    Estimados compatriotas:

    Acerca do filho-da-puta, como acerca de muitas outras coisas, correm neste país as mais variadas lendas. Há até quem seja de opinião de que o filho-da-puta a bem-dizer nunca existiu, dado que ele é apenas um modo de mal-dizer. Nada, porém, mais falso. É certo que o filho-da-puta às vezes não passa de um modo de dizer, mas não bastará a simples existência, particular e pública, de tão variados retratos seus, para arrumar com as dúvidas acerca da sua existência real? Pois quem teria imaginação suficiente para inventar tantas e tais variedades de filho-da-puta, caso ele não existisse? Não! O filho-da-puta existe. Em todos os lugares, excepto no dicionário. No dicionário existem variados filhos, entre eles o filho-família, o filhastro e o filhote, mas não existe o filho-da-puta. Em compensação, o filho-da-puta existe em todos os outros lugares. Claro que há lugares que ele de preferência ocupa e onde por conseguinte é mais frequente encontrá-lo; no entanto, exceptuando, como ficou dito, o dicionário, não há lugar onde, procurando bem, não se encontre pelo menos um filho-da-puta.

    in, Discurso Sobre o Filho-da-Puta

Anton Bruckner's Ave Maria


    Os momentos da anunciação e da visitação sagrados por Anton Bruckner. Em Nazaré, na basílica da Anunciação, diante do altar, há uma placa de mármore que os peregrinos beijam com emoção e onde está escrito: "Aqui, de uma virgem fez-se carne o Verbo".

José Tolentino Mendonça




Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate


in, A noite abre os meus olhos


    O nosso projecto de santidade compara-se a uma cesta de fruta, nuns está mais cheia, noutros mais vazia. Depois há a qualidade da fruta, nuns está mais verde, noutros mais madura. No caso deste padre madeirense, Deus está contente.

Paulo da Costa Domingos


O Verão partiu
E nunca devia ter vindo.
Quente foi o sol
Mas não pode ser só isto.

Tudo veio para partir,
Em minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.

Nenhum mal se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À clara luz tudo arde
Mas não pode ser só isto.

A vida me prende
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.

Nem uma folha se consumiu
Nem uma vara quebrada...
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto.


in, Companhia das Ilhas

  Porquê "nunca devia ter vindo"? Não podemos recusar a vida. O olhar da deusa de Botticelli reforça a esperança.

Paul Kuczynski - Pintura para pensar




Pensar, sentir e agir bem, sem confronto, podem tornar-se milagre.

Cecília Meireles - Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

  A riqueza de um descuido amargo.

José Tolentino Mendonça

Silêncio:
encontrámos na encosta
flores ainda sem nome

Quadrilha - Os homens mais velhos do bar

           

                      
         
Os homens mais velhos do bar fazem lembrar os sinais do entardecer
Como um dia que já passou mas que deixou tanta coisa por fazer
Os homens mais velhos do bar entre cigarros e copos sem graça
Vêem as gaiatas passar a noite é que já nunca passa.

Os homens mais velhos do bar contam histórias quando o outono vem
Andaram por longe eu sei lá e há coisas que não vão contar a ninguém
Os homens mais velhos do bar sabem que a vida já não lhes diz que sim
Para os outros o bar está a fechar mas para eles o mar não tem fim.

   Senta-te aqui à minha frente 
   Tenho uma história p'ra te contar
   Ficava triste se tu não tivesses 
   Vontade de aqui ficar
   Vou-te falar de um lobo sozinho 
   Que se apaixonou p'la lua cheia
   E ainda tem um lugar vago 
   Na cama que a lua não quis.

Os homens mais velhos do bar sabem que as nuvens são como a solidão
que às vezes parecem partir mas voltam sempre lá para o fim do verão
Aos homens mais velhos do bar é a noite quem lhes afaga a mão
Companheira que não tem destino mas que acaba sempre por ter razão.

O tempo é um doido a correr a manhã está longe e não quer voltar
Há muito que assim passou a ser p'ra quem pensa que assim vai passar
E há tantos que não querem saber dos homens mais velhos do bar
É que são mais os que se afogam num copo do que aqueles que se afogam no mar.

   Gente que ao contrário da água, do ar e da terra, envelhece.

Quadrilha - Até quando Deus quiser

          

Tanta dor que não se acalma, neste mar que nos prendeu
Mágoa que nos cerca a alma, sinais que o tempo esqueceu
Quantos barcos já ficaram nos caprichos do mar alto
Quantas saudades deixaram nos caminhos do basalto
E anda a gente a perguntar sem ninguém para responder
Até quando isto há-de ser, isto há-de ser?

   Até quando Deus quiser
   Até o mar se acalmar
   Até as razões do vento, 
   nos deixarem navegar
   Até quando Deus quiser
   Até o medo acabar
   Até que as paixões do tempo
   Adormeçam com o mar
   Até quando Deus quiser.

Sempre que o Inverno volta o mar chega-se mais perto
Alguns dizem que é revolta, outros não sabem ao certo
Faz quebrar a nossa sorte, faz tremer a nossa vida
Cada vez bate mais forte, não tem hora nem medida
E anda a gente a perguntar sem ninguém para responder
Até quando isto há-de ser, isto há-de ser?

Tanta dor que não se acalma neste mar que nos prendeu
Mágoa que nos cerca a alma, sinais que o tempo, esqueceu
Quantos barcos já ficaram nos caprichos do mar alto
Quantas saudades deixaram nos caminhos do basalto
E anda a gente a perguntar sem ninguém para responder
Até quando isto há-de ser, isto há-de ser? 

    Ainda há canções que dignificam a canção. Neste tema de Sebastião Antunes é vincada a relação dos portugueses com o mar, nesta espera de descobrirmos as Índias do nosso tempo.

Bill Brauer








Bill Brauer é um pintor nova iorquino que nos dá a conhecer nas telas, o mistério, a natureza e a ambição da mulher moderna.

José Tolentino Mendonça - Final

O silêncio é a partilha
do furtivo
lume

Laura Wittner

Disseste alguma coisa
e eu entendi mal.
Rimo-nos ambos,
eu do que entendi
e tu de que eu festejasse
com tal coisa que disseras.
Como na infância,
fomos felizes por engano.

Um verso de Hélène Monette

Senhor, o amor é uma coisa que mete medo.

Yannis Ritsos - Regresso


Vulto que regressa do rio Mississippi, em St. Louis Friday

As estátuas foram as primeiras a partir. Depois
foi a vez das árvores, dos homens, dos animais. O local
tornou-se deserto. Não havia senão vento.
Jornais e lixo corriam pelas ruas.
À noite, as lâmpadas acendiam-se sozinhas.
Um homem chegou, deitou um olhar em redor,
tirou uma chave, enterrou-a no chão
como se a devolvesse a qualquer mão subterrânea
ou plantasse uma árvore. Depois ergueu-se, subiu
a escadaria de mármore e demoradamente olhou a cidade.
Uma a uma, com parcimónia, as estátuas regressaram.

    Traduzido por Eugénio de Andrade

Mário de Sá-Carneiro

«É no ar que ondeia tudo! É lá que tudo existe!...»   Mário de Sá-Carneiro, “Manucure” in ORPHEU 3, Lisboa, Março de 1915
Não, tudo é mais.

Edwin Howland Blashfield - Spring Scattering Stars

silenceforthesoul:

Edwin Howland Blashfield (1848-1936)

E a primavera espalha a luz do céu.

    "Primavera, Primavera, és linda como haver morte" dizia o poeta Alberto Lacerda.

O Carteiro de Pablo Neruda



- O que tenho a dizer-lhe é muito grave para falar sentada.
- De que se trata, senhora?
- Desde há uns meses anda a rondar a minha taberna esse tal Mario Jiménez. Este senhor foi insolente com a minha filha de apenas dezasseis anos.
- O que lhe disse?
A viúva cuspiu entre dentes:
- Metáforas.
O poeta engoliu em seco.
- E?
- É que com as metáforas, pois, Don Pablo, tem a minha filha mais quente que uma bomba!
- É inverno, Dona Rosa.
- A minha pobre Beatriz está a consumir-se toda por esse carteiro. Um homem cujo único capital são os fungos no meio dos dedos dos pés arrastados.
Mas se os seus pés lhe fervem de micróbios, a sua boca tem a frescura de uma alface e é trapaceira como uma alga. E o mais grave, Don Pablo, é que as metáforas para seduzir a minha menina ele foi copiá-las descaradamente aos seus livros.
- Não!
- Sim! Começou inocentemente a falar de um sorriso que era uma mariposa. Mas depois já lhe disse que o peito dela era um fogo de duas chamas!
- E a imagem usada, você crê que foi visual ou táctil? - inquiriu o vate.
- Táctil - respondeu a viúva. - Agora proibi-a de sair de casa até que o senhor Jiménez desampare a loja. Vai achar cruel que eu a isole desta maneira, mas fique sabendo que lhe apanhei todo sujo este poema dentro do soutien.
- Chamuscado dentro do soutien?
A mulher sacou de uma indubitável folha de papel de contas marca Torre do seu próprio regaço, e exibiu-a qual acta judicial, sublinhando o vocábulo nua com sagacidade detectivesca:

   «Nua és tão simples como uma das tuas mãos,
   lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
   tens linhas de lua, caminhos de maçã,
   nua és fina como é fino o trigo nu.
   Nua és azul como a noite em Cuba,
   tens trepadeiras e estrelas no cabelo.
   Nua és enorme e amarela
   como o verão numa igreja de ouro.»

Amarrotando o texto com repulsa, sepultou-o de volta no avental, e concluiu:
- Quer dizer, senhor Neruda, que o carteiro já viu a minha filha em pêlo!
O poeta lamentou nesse momento haver abraçado a doutrina materialista da interpretação do universo, pois teve urgência de pedir misericórdia ao Senhor.
Encolhido, arriscou um comentário sem a habilidade desses advogados que, como Charles Laughton, convenciam até um morto de que ainda não era cadáver.
- Eu diria, senhora Dona Rosa, que do poema não se conclui necessariamente o facto.
A viúva perscrutou o poeta com um desprezo infinito:
- Há dezassete anos que a conheço, mais nove meses que andei com ela neste ventre. O poema não mente, Don Pablo: exactamente assim, como diz o poema, é a minha menina quando está nua.
«Deus meu» rogou o poeta, sem que lhe saíssem as palavras.
- Eu imploro-lhe a si - expôs a mulher, - em quem ele se inspira e confia, que ordene a esse tal Mario Jiménez, carteiro e plagiário, que se abstenha a partir de hoje e para toda a vida de ver a minha filha. E diga-lhe que se assim não fizer, eu mesma, pessoalmente me encarrego de lhe arrancar os olhos, como a esse outro carteirito que também era fresco, o tal Miguel Strogoff.
Apesar de a viúva já se ter retirado, de certa maneira as suas partículas ficaram vibráteis no ar. O vate disse «até logo», pôs o gorro, e puxou a cortina atrás da qual se ocultava o carteiro.
- Mario Jiménez - disse sem olhar para ele, - estás pálido como um saco de farinha.
[…]
- Poeta e camarada - disse decidido. - Meteu-me neste sarilho, agora tire-me dele. Ofereceu-me os seus livros, ensinou-me a usar a língua para mais alguma coisa do que para colar selos. A culpa é sua de eu me ter apaixonado.
- Não, senhor! Uma coisa é eu ter-te oferecido uns livros meus, e outra bem diferente é autorizar-te a plagiá-los. Além disso, ofereceste-lhe o poema que eu escrevi para a Matilde.
- A poesia não é de quem a escreve, mas sim de quem a usa!
- Alegra-me muito essa frase tão democrática, mas não levemos a democracia ao extremo de submeter a votação dentro da família quem é o pai.

Antonio Skármeta in, El Cartero de Neruda (Ardiente paciencia)

Dylan Thomas - Do not go gentle into that good night

Antonino Leto (1844-1913) - La grotta azzurra

Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

  Tradução: Fernando Guimarães

Do not go gentle into that good night,
old age should burn and rave at close of day;
rage,rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
do not go gentle into that good night.

good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night,
rage, rage against the dying of the light.

    Para a luz não morrer o homem tem de conjugar conhecimento, amor e fé. O conhecimento sozinho não chega para salvar ninguém. A tela é do pintor italiano Antonino Leto.

José Mateos - Notícias do dilúvio II

Baron Arild Rosenkrantz - Divine Light, c.1950 on Flickr.

Desde que a razão governa em todos
os domínios da alma,

a névoa e a velhice cobrem o mundo,
são farrapos os sonhos e há vermes
no pão da vida.

Com escombros do céu construímos as nossas casas.
Baptizamos os filhos
numa nascente de cinza, e porque
já nada nos distrai,

só as drogas preenchem os minutos
do nosso aborrecimento.

                        Avançamos 
para a destruição?

                   Vejo sinais
funestos, vejo os últimos
archotes deste sonho,
                      e que 
difícil de cantar é a alegria.

  A razão existe e vive para a matéria. A tela é de Baron Arild Rosenkrantz e tem o título de Divine Light.

Maria Gabriela Llansol - Poema para Emily Dickinson

Há um barco que espera por um barco,
Um recado para este mensageiro
Um tão grande recado,
Que se ignora onde o barco foi lançado ao mar.
Na tempestade que surgiu,
Só o leme do barco destroçado veio dar ao poema.

    A completude perdida.

The Lonesome Death of Hattie Carroll



William Zanzinger killed poor Hattie Carroll
With a cane that he twirled around his diamond ring finger
At a Baltimore hotel society gath'rin'
And the cops were called in and his weapon took from him
As they rode him in custody down to the station
And booked William Zanzinger for first-degree murder.


   But you who philosophize disgrace 

   and criticize all fears
   Take the rag away from your face
   Now ain't the time for your tears.

William Zanzinger who at twenty-four years
Owns a tobacco farm of six hundred acres
With rich wealthy parents who provide and protect him
And high office relations in the politics of Maryland
Reacted to his deed with a shrug of his shoulders
And swear words and sneering and his tongue it was snarling
In a matter of minutes on bail was out walking.

Hattie Carroll was a maid in the kitchen
She was fifty-one years old and gave birth to ten children
Who carried the dishes and took out the garbage
And never sat once at the head of the table
And didn't even talk to the people at the table
Who just cleaned up all the food from the table
And emptied the ashtrays on a whole other level
Got killed by a blow, lay slain by a cane
That sailed through the air and came down through the room
Doomed and determined to destroy all the gentle
And she never done nothing to William Zanzinger.

In the courtroom of honor, the judge pounded his gavel
To show that all's equal and that the courts are on the level
And that the strings in the books ain't pulled and persuaded
And that even the nobles get properly handled
Once that the cops have chased after and caught 'em
And that ladder of law has no top and no bottom
Stared at the person who killed for no reason
Who just happened to be feelin' that way witout warnin'
And he spoke through his cloak, most deep and distinguished
And handed out strongly, for penalty and repentance
William Zanzinger with a six-month sentence.


    Na folk americana é tradição escrever canções que narram noticias sobre factos reais, sobretudo algumas que aparecem em páginas de jornal e que são polémicas. O cantor torna-se o repórter que faz as habituais perguntas de “o quê?”, “quem?”, “como?”, “quando?”, “onde?” e “por quê?”. Bob Dylan era mestre nessa arte e esta canção é, disso, exemplo. William Zanzinger, um jovem branco, judeu rico das explorações de tabaco em Baltimore, matou uma barmaid negra, de nome Hattie Carroll. A justiça americana agiu em conformidade com a lei branca. O resto está nos versos da canção. O obrigado à jovem que faz a cover.

Hans Faverey - Até ao último momento, talvez.

deixar baloiçar
um homem. Uma mulher

em que se pensa, em que o homem pensa,

até ao último momento, talvez.
Devemos então fechar os olhos
para ver como, mar calmo,
e vista clara, o barco uma vez
após outra, cada vez mais penetrante,
alcança o mesmo promontório.

in, Uma Migalha na Saia do Universo

Ali, junto ao final do sentido.

August Wilhelm Leu



Pintor alemão, da escola romântica, que se deslumbrou pelas paisagens da Noruega e da Suiça.

Roberto Juarroz


Cada poema faz esquecer o anterior,
apaga a história de todos os poemas,
apaga a sua própria história
e até apaga a história do homem
para ganhar um rosto de palavras
que o abismo não apague.

Também cada palavra do poema
faz esquecer a anterior,
desfilia-se por um momento
do tronco multiforme da linguagem
e reencontra-se depois com as outras palavras
para cumprir o rito imprescindível
de inaugurar outra linguagem.

E também cada silêncio do poema
faz esquecer o anterior,
entra na grande amnésia do poema
e vai envolvendo palavra por palavra,
até sair depois e envolver o poema
como uma capa protectora
que o preserva dos outros dizeres.

Nada disto é estranho.
No fundo,
também cada homem faz esquecer o anterior,
faz esquecer todos os homens.

Não, reúne a plenitude anterior.

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