Sharon Sprung





Limites

Judith Herzberg




A noite deixou-me outra vez transtornada
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza que significavam alguma coisa,
mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.
Andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.

Nunca ninguém tem a certeza de nada,
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.

Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.

      Não há certezas, há um rumor de possibilidades. Como dizia um religioso "Não há nada pior do que um facto." e a vida vida seguindo entre as margens.

Procol Harum - De um tom mais claro que a palidez




 We skipped the light fandango
 turned cartwheels 'cross the floor
 I was feeling kinda seasick
 but the crowd called out for more.

 The room was humming harder
 as the ceiling flew away
 When we called out for another drink
 the waiter brought a tray.

 And so it was that later
 as the miller told his tale
 that her face, at first just ghostly,
 turned a whiter shade of pale.

 She said, 'There is no reason
 and the truth is plain to see.'
 But I wandered through my playing cards
 would not let her be.

 One of sixteen vestal virgins
 who were leaving for the coast
 and although my eyes were open
 they might have just as well've been closed.

 And so it was that later
 as the miller told his tale
 that her face, at first just ghostly,
 turned a whiter shade of pale.

      Gary Booker afirmou recentemente que o tema desta canção - muito difícil de traduzir - é a sedução de uma rapariga bêbada num bar. Tal qual como a geração de 60 visitou a vida.  

Silva - Milhões de Vozes




Tem milhões de vozes
Todo mundo a comentar
Um milhão de vezes
Ninguém tenta escutar.

Eu não me arrebento
Deixo o mar arrebentar
Todo movimento
Uma hora para.

Tanta implicância
Que só quer se amplificar
Tanta ignorância
Ansiando se mostrar.

Nessa concorrência
Eu prefiro me calar
Sei que essa doença
Uma hora sara.

Eu estou com as estrelas do céu
Eu estou com a mudez do sol
Silencío no seio do som
O que não me impede de cantar
E me deixa leve p'ra respirar
Ar.

      O texto foi escrito por Arnaldo Antunes e lembra o momento actual do Brasil, onde o presidente Bolsonaro defende menos direitos para os trabalhadores e pelo menos duas armas por cidadão.

Ana Pérez Cañamares - Andar sobre as águas

Aquela que eu era afogou-se
no mar
das infinitas possibilidades.

Não me afecta. A vida começou
quando apostei e perdi.

Nesse momento a água retesa-se
e converte-se em caminho.

António Reis

É na piedade
dizem
que tudo nasce

eu prefiro
o amor

onde ela cabe

e morre.

Yelena Dyumin











      Yelena is currently living in Australia but she was born in Russia. She defines her work this way "My art creates a deep emotional connection between objects and human beings via my inspirational ability to illustrate the exceptional beauty of everyday life. Art is the way I express myself to the world. It gives me freedom to stretch my imagination miles from where I actually am. It’s a wonderful experience to lose yourself in creative thoughts by diving into this artistic world. My vast repertoire of artistic techniques conveys this message in so many forms, where the result is simply unforgettable."

Alberto Caeiro

Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.

Eugénio de Andrade - Ainda sobre a pureza

             Não gostaria de insistir, mas a beleza dos jovens que se amam é melancólica. Eles não sabem ainda que o desejo da morte é o mais perverso, que só uma coisa os tornaria puros: roubar o fogo e incendiar a cidade.

António Franco Alexandre

Seguramos o fósforo, e o infinito cresce
entre os astros pacientes, invisíveis, a
mancha do electrão por sobre a chapa.
Não conhecemos Deus, a inexistência. Não
procuramos, alta, a vibração
do tempo. Seguramos o fósforo
e a luz é frágil, parca,
necessária.

Pete Seeger - I Don't Want Your Millions Mister




I don't want your millions, Mister
I don't want your diamond ring
All I want is the right to live, Mister
Give me back my job again.

Now, I don't want your Rolls-Royce, Mister
I don't want your pleasure yacht
All I want is just food for my babies
Give to me my old job back.

We worked to build this country, Mister
While you enjoyed a life of ease
You've stolen all that we built, Mister
Now our children starve and freeze.

So, I don't want your millions, Mister
I don't want your diamond ring
All I want is the right to live, Mister
Give me back my job again.

Think me dumb if you wish, Mister
Call me green, or blue, or red
This one thing I sure know, Mister
My hungry babies must be fed.

Take the two old parties, Mister
No difference in them I can see
But with a Farmer-Labor Party
We could set the people free.

      "I Don't Want Your Millions Mister" was written by Jim Garland in the 30's, while working as a union organizer for the National Miners Union. He based the melody of the song on an old Carter Family tune "East Virginia Blues". Since then, things haven't changed much.

Mário Quintana - Era um caminho


Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem mais sabia aonde ia
Era um caminho
velhinho,
perdido...
Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.
O caminho agonizava, morria
sozinho
Eu vi...
Porque são os passos que fazem os caminhos!

Albano Martins


Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

in, Castália e Outros Poemas

Mariana Kalacheva











Telas de uma pintora Búlgara.

Luís Filipe Parrado - O vaso


Vi como retiraste do vaso a terra,
e da terra as raízes da planta desconhecida.
Depois, com a tesoura de ferro,
cortaste o caule no ponto
certo. Em seguida, renovaste
a terra no vaso,
enterraste nela de novo a planta
que ressurgiu, surdamente,
na manhã de primavera
que sempre finda.
Agora, desvia um pouco o olhar,
repara em mim agora: vês as raízes,
o caule dobrado, a flor, o nome?
Por que não me cortas os braços, as mãos,
os pés, o tronco, e espalhas tudo
aos bocados pela terra?
Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.

      A poda é feita pelos outros quando nos ajudam a ser mas ai de quem não use a sua própria tesoura.

Jacob Iglesias - Os rostos todos do dia


No espelho do banho
olha-me em cada manhã o rosto de alguém
tentando mostrar-se seguro.
Pela rua
encontro rostos como advertências,
lembrando-me aquilo
em que não quero tornar-me,
aquilo em que hei-de tornar-me
mais tarde ou mais cedo. E às vezes um rosto
que olho sabendo que esse instante
é o mais perto que jamais estarei
de um corpo distinto do dela,
aquela cujo rosto apaga
os rostos todos do dia.

Eduardo Galeano - Fogos


Cada pessoa brilha com luz própria
no meio das outras.
Não há dois fogos iguais.
Há fogos grandes e pequenos
e fogos de todas as cores.
Há gente de fogo sereno, que nem dá conta do vento,
e gente de fogo louco, que enche de chispas o ar.
Alguns fogos, fogos tontos,
nem alumiam nem queimam,
mas ardem na vida com tanta força
que nem se podem olhar sem pestanejar,
e quem se chega, acende-se.

King’s College Choir - O Holy Night





      It’s my favourite carol. The words and lyrics of 'O Holy Night' were written by Placide Cappeau de Roquemaure in 1847. Cappeau was a wine seller by trade but was asked by the parish priest to write a poem for Christmas. He obliged and wrote the beautiful words of the hymn. He then realised that it should have music to accompany the words and he approached his friend Adolphe Charles Adams(1803-1856). He agreed and the music for the poem was therefore composed by Adolphe Charles Adams. Adolphe had attended the Paris conservatoire and forged a brilliant career as a composer. It was translated into English by John Sullivan Dwight (1812-1893).

Tempo de e para uma certa paz



      O Natal é uma proposta sacra renovada a cada ano. Não nos chega por lei, por decreto, regra ou dever. Dizem por aí que é poesia. Seja o que for, este Menino vem aliviar de uma certa maneira a nossa solidão, num tempo em que se mata a palavra e por consequência os afectos. Nunca as famílias foram tão pouco família. Um final de feira. Um bom Natal, para quem puder.

Gonzalo Fragui - As mulheres e a guerra


O mais que se pode pedir
a uma mulher bela
é um olhar

O resto toma-se de assalto.

Tradução de A.M.

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