Sylvia Plath's grave



"Even amidst fierce flames the golden lotus can be planted"

"Mesmo no meio da força das chamas podemos plantar uma flor de lotus".

      De acordo com afirmações de Ted Hughes na época (1963), o epitáfio de Sylvia Plath teria sido retirado das escrituras hindus Bhagavid-Gita e, durante muito tempo, os estudiosos da obra da poetisa americana aceitaram esta origem do texto. Recentemente, descobriu-se que aquelas palavras não estavam no livro sagrado e logo uma multidão de gente de letras procurou o verso, como se de um diamante se tratasse.
      Afinal, a citação vem de um livro escrito no século XVI, com o título 'Monkey' e escrito por Wu Ch'Eng-En. Numa das páginas iniciais, Patriarch ensina a Monkey o valor da graça de uma vida longa:

"To spare and tend the vital powers, this and nothing else is sum and total of all magic, secret and profane. All is comprised in these three, spirit, breath and soul; guard them closely, screen them well; let there be no leak. Store them within the frame; that is all that can be learnt, and all that can be taught. I would have you mark the tortoise and snake, locked in tight embrace. Locked in tight embrace, the vital powers are strong; even in the midst of fierce flames the Golden Lotus may be planted, the five elements compounded and transposed, and put to new use. When that is done, be which you please, Buddha or Immortal"

Elizabeth Jennings -


         

Bocejo, e já tarde pela noite, para lá da minha janela
vejo as estrelas mas não as observo, de facto,
e ouço os comboios embora os não escute claramente;
Dentro de mim cirando de forma a que me possa
manter acordada, mas não estou de todo ali.
Uma parte de mim está com o escuro da paisagem.

Quanto há de mim naquilo que penso ou sinto?
Que parte do olhar se mantém pelas estrelas?
Será que controlo aquilo que contemplo
e será o meu olhar responsável por isso?
Afasto a ideia do meu espírito, que é um quarto
interior cuja parede vejo, mas de forma incompleta.

Tudo aquilo que eu amo é como a noite, lá fora,
tão bom de ver que me parece possível
com um simples gesto trazê-lo até mim
para dentro da cabeça ou coração, apesar do pensar
me separar, a mim, do objecto. E agora na cama, quando
me viro, o mundo parece virar-se para o outro lado.


      A incompletude deve servir o mistério, enquanto uma certa espiritualidade inteligente descobre ou renova os pequenos milagres do quotidiano. 

A.M.Pires Cabral - Flor da esteva



Mal toquei na flor da esteva,
logo ela se desfez,
frágil como névoas de Verão.

A corola branca
desconjuntou-se em pétalas dispersas
como flocos de neve fora de tempo
pousando com cautela sobre a terra.

Passou assim a haver
no campo um astro a menos.

Mas passou a haver também
um odor a esteva nos meus dedos.

Ficou ela por ela.


 Os gestos do mês de maio.

Eugénio de Andrade - Sobre o caminho

Nada 

nem o branco fogo do trigo 
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros 
te dirão a palavra 

Não interrogues não perguntes 
entre a razão e a turbulência da neve 
não há diferença 

Não colecciones dejectos o teu destino és tu 

Despe-te 
não há outro caminho 

in, Véspera da Água

Albert Edelfelt - La Laitière


Albert Edelfelt - La Laitière

      Sei de metáforas: luz, água, fogo, terra, céu, lobo, vento, mão, leite. Da última, são-me importantes contos sobre alguém que distribui leite, pinturas onde se transporta ou derrama leite, onde se mostra o seio. Como primeiro alimento, o leite traduz o simbolismo de abundância, fertilidade e imortalidade; misticamente também expressa um aspecto de conhecimento e caminho de iniciação. Na Grécia e em Roma tinha o simbolismo de apaziguador dos deuses subterrâneos, aos quais se dava leite nas cerimonias de sacrifícios. Aos deuses de cima, dava-se vinho.

John Donne


No Man is an Island by John Donne Folio Society:

Nenhum homem é uma ilha,
inteiro em si mesmo.
Cada um faz parte do continente,
pequena parte de um todo.
Se um pouco da terra for banhada pelo mar,
a Europa não o será menos.
Como tudo aquilo que é teu
será também do teu amigo.
A morte de um único homem
diminui-me, porque estou ligado
a toda a humanidade.
Por isso, não mandes perguntar
por quem o sino dobra,
que ele, também, dobra por ti.


 Palavras eternas, onde Ernest Hemingway se inspirou.

Bob Dylan - 75anos




      Bob Dylan disse recentemente, que "Gostava de ser lembrado como alguém que tentou amar alguém". É mais uma lição. Talvez as suas canções não sejam mais do que essa tentativa, tão humana, de afectuar a existência. Quando o vento sopra, ele ensinou a discernir entre - o que é brisa e o que é furacão. Depois, há que soltar os pássaros na altura certa.

Winslow Homer - Girl in a Hammock



Quando era criança já procurava as janelas
para poder fugir ao espreitar.
Desde então, quando entro em algum lugar,
presto atenção ao sítio onde deixo o casaco
e onde está a porta de saída.
Liberdade, para mim, quer dizer fuga.
Há muitas portas no mundo.
Até o sexo, em caso de emergência,
pode ser, apesar de muitas estarem a fechar
e, para fugir, brevemente só irão ficar
apenas as janelas da infância.
De par em par abertas para poder saltar.

  Joan Margarit escreveu estes versos no livro Discurso do Método. Relevantes os versos "Liberdade, para mim, quer dizer fuga" e "só irão ficar as janelas da infância de par em par para poder saltar". O receio de viver neste tempo.

A escolha de Lara



     Quando Deus ordenou "Dessa árvore não comerás" enganou-se. É dever do homem participar na Criação e mesmo que Mefistófeles em troca de conhecimento queira comprar a alma a Fausto, o ser humano deve continuar. Uma das minhas filhas, a Lara, está a terminar o curso superior de guitarra clássica da Universidade de Aveiro. É obra! Neste mundo competitivo, cheio de corrupção, exploração e injustiça, a Lara optou pela beleza. Parabéns.

Luc Dietrich - A Felicidade dos Tristes

  


     Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, muito pálida, e mesmo quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol. Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir. Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se. Aliás, só há felicidade nos tristes. Os homens dizem: «Uma vida de cão.» Julgam que os animais são humilhados e infelizes. Mas eu tinha observado com atenção os animais e sabia que os homens se enganavam porque uma formiga nunca pára para suspirar, dizendo que a vida não vale a pena ser vivida, e não há um burro que diga: «Como me envergonho de ser burro.» E no que respeita às plantas, tanto orgulho têm por ser o que são, que nunca dizem nada a ninguém. Os animais só são infelizes quando magoam uma pata. Eu quando me magoo não me sinto infeliz. Mesmo quando era pequeno e caía, desatava a rir-me e gritava: «Dei um tombo!», ou chamava alguém para anunciar: «Tenho sangue a correr!» Nós, nós somos infelizes por não andarmos nada contentes com o que somos, e também por não sabermos o que gostaríamos de ser.

      Luc Dietrich nasceu em 1913, em Dijon, e morreu em 1944. "A Felicidade dos Tristes", com que esteve à beira de ganhar o Prémio Goncourt em 1935, é a sua obra mais conhecida. Neste trecho, à boa maneira europeia, ele faz a apologia da tristeza. 

John Dowland - Come Again



Come again:
Sweet love doth now invite,
Thy graces that refrain.
To do me due delight.
To see, to hear, to touch, to kiss, to die,
With thee again in sweetest sympathy.

Come again
That I may cease to mourn,
Through thy unkind disdain:
For now left and forlorn
I sit, I sigh, I weep, I faint, I die,
In deadly pain and endless misery.

All the day
The sun that lends me shine,
By frowns do cause me pine,
And feeds me with delay,
Her smiles my springs, that makes my joys to grow.
Her frowns the Winters of my woe:

All the night
My sleeps are full of dreams,
My eyes are full of steams.
My heart takes no delight.
To see the fruits and joys that some do find.
And mark the storms are me assign'd

Out alas,
My faith is ever true,
Yet will she never rue,
Nor yield me any grace:
Her eyes of fire, her heart of flint is made.
Whom tears, nor truth may once invade.

Gentle love
Draw forth thy wounding dart,
Thou canst not pierce her heart;
For I that do approve,
By sighs and d tears more hot than are thy shafts.
Did tempt while she for triumph laughs.

     A voz de Dame (O feminino de Sir) Emma Kirkby conjuga de forma mais que perfeita o sopraro limpo com o British accent. Acompanhada por instrumentos da época de Dowland esses dois aspetos tornam-se silentes. Os versos de amor são dos mais bonitos de sempre.

Archibald MacLeish - Ars Poetica


Um poema devia ser palpável e mudo
Como um fruto redondo,

Calado
Como velhos medalhões ao toque do polegar,

Silencioso como a pedra gasta na moldura
Das janelas onde o musgo rompeu -

Um poema devia ser sem palavras
Como o voo das aves

*

Um poema devia estar imóvel no tempo
Assim como a lua vai subindo,

Deixando, tal como a lua desprende ramo a ramo
As árvores entrelaçadas pela noite,

Como a lua deixa para trás as folhas
De Inverno, memória por memória, na alma -

Um poema devia estar imóvel no tempo
Assim como a lua vai subindo

*

Um poema devia ser igual
À inverdade

Por toda a história do sofrimento
Uma porta vazia à entrada, uma folha de ácer

Por amor
O inclinar das ervas e duas luzes sobre o mar -

Um poema não devia querer
Dizer, mas simplesmente ser.

      Archibald Macleish é um poeta americano muito ovacionado pelos seus gentios. Nascido em Ilinois, em 1892, defende aqui a natureza da poesia. Recebeu o prémio Pulitzer três vezes pela obra poética e dramática.

Alain Bosquet - Grandes Armazéns




Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de chuva,
em tempo de flores,
nas Galerias Lafayette ou Galerias Barbès:
"Mamã, compra-me, por favor, um poema."
Ela era doce, ela era demasiado prática
e comprava-me romances,
os Jules Verne,
os Maupassant e os Dickens.
Quando era criança, dizia à minha mãe,
em tempo de amor,
em tempo de medo,
no Monoprix ou na Félix Potin:
"Mamã, compra-me, por favor, o invisível."
Ela era boa, ela era previdente
e comprava-me coisas:
camisolas, trotinetes,
kodaks, bicicletas.
Acabei por me calar e por escrever poemas.
Há muito tempo que a minha mãe morreu,
Jules Verne envelheceu
e as minhas bicicletas já não têm rodas.
Em tempo de cansaço,
em tempo de raiva,
vou ao Supermercado,
beber um conhaque sem gosto.
Quando, mais tarde, for uma criança
num mundo melhor,
direi à minha mãe:
"Mamã, compra-me, por favor, o silêncio."

    Depois de tanto, o silêncio exigido.

Ana Moura - Tens Os Olhos De Deus



"Embarca em mim,
Que o tempo é curto
Lá vem a noite
Faz-te mais perto.
Amarra assim 
O vento ao corpo,
Embarca em mim
Que o tempo é curto.
Embarca em mim."


        Não me lembro de uma canção de amor, assim, desde a "Estrela de Tarde" de Ary dos Santos e Fernando Tordo. O refrão "Embarca em mim, que o tempo é curto" chega a ser pungente para a necessidade humana de evitar a solidão.

Henry Purcell - We the spirits of the air





We the spirits of the air
that of human things take care,
out of pity now descend
to forewarn what woes attend.

Greatness clogg'd with scorn decays,
With the slave no empire stays.

Cease to languish then in vain,
since never to be loved again.


 Os doces de Emma Kirkby

João Cabral de Melo Neto

   

     «As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente confessando-se na base do eu estou triste.»

Ernesto Lara Filho - Poema da manhã



Os nossos filhos
Negra
hão-de trazer as ambições estampadas
nos olhos claros.

Os nossos filhos
Negra
hão-de trazer a vida à flor da pele escura.

Os nossos filhos
Negra
hão-de gargalhar o seu desprezo pelas Universidades da Europa
e hão-de rir-se dos que ficarem atrás nas classificações.

Os nossos filhos
Negra
hão-de ser belos
hão-de trazer nas veias o sangue mais puro e mais vermelho
das raças de Angola
e os seus peitos
hão-de chegar primeiro nas competições desportivas
da América, da Europa e do Mundo.

Os nossos filhos
Negra
serão os construtores, os engenheiros, os médicos, os cientistas do Mundo que vem

Eles pisarão quem se lhes atravessar na frente
Eles hão-de fazer soar os "Boogie-woogies" de Armstrong e Peters
nas "boites" de Paris, Londres, Moscovo e Nova Iorque
e não mais terão lugares secundários nas bichas de autocarros de Joanesburgo.

E principalmente
Negra
eles serão
Os nossos filhos.

    O racismo é desumano. Terá a raça negra razões para escrever textos como este? Bem cedo, o tempo tudo apagará.

Ivan Trush - Sunset in the Forest


    Ivan Trush é um pintor impressionista, ucraniano, do século XIX. Na tela, a luz vai morrendo devagarinho sem nunca vermos a escuridão, porque há um outro foco de luz no primeiro plano. Essa luz não sabemos de onde vem. 

Jorge Palma - A Gente Vai Continuar




Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca

Que sabe quanto vale um beijo.

    O género de canção informal "Tira a mão do queixo não penses mais nisso" retirada dos diálogos do quotidiano. Jorge Palma é mestre em misturar o banal com o sério, nunca abdicando do compromisso a que se propôs. A arte também precisa do quotidiano.

Ferdinand du Puigaudeau




O esquecimento é a mais longa ferida para sarar.

Rui Polónio Sampaio - Deixem uma flor



Deixem a flor
que nasceu esquecida
no chão
da minha vida

Deixem a flor
no seu grito abandonado
como um apelo de amor
frustrado

Quando tudo acabar
deixem a flor
sobre as ruinas
daquilo que ficar


in, Poemas

    Pouco se sabe sobre Rui Polónio Sampaio, apenas se diz que morreu há algum tempo atrás, no Porto. Era um homem integro, simples, culto e bom. "Deixa o país mais pobre" disse Manuel António Pina.

O pintor Jorge Afonso



Anunciação - Retábulo da Igreja da Madre de Deus


Adoração dos Pastores



Adoração dos Magos Ascenção


 Aparição de Cristo a Nossa Senhor


Pentecostes


Assunção da Virgem

      Grande pintor português do séc. XVI, foi nomeado pintor régio, por D. Manuel I, em 1508., sendo essa nomeação confirmada por D. João III, em 1529. Sabe-se que tinha oficina junto ao Mosteiro de São Domingos, em Lisboa, onde teve como discípulos o sobrinho Garcia Fernandes, o genro Gregório Lopes, Cristóvão de Figueiredo, Gaspar Vaz e, durante algum tempo, Vasco Fernandes. Foi presumivelmente o autor dos painéis da charola da Igreja do Convento de Cristo, em Tomar; e do grande retábulo da Igreja Matriz da Madre de Deus (hoje no Museu Nacional de Arte Antiga).

    in, Bibliografia Fernando de Pamplona

Arquivo do blogue