Dougie MacLean - Caledonia




I don't know if you can see the changes that have come over me
In these last few days I've been afraid that I might drift away
So I've been telling old stories, singing songs that make me think about where I came from
And that's the reason why I seem so far away today.

But let me tell you that I love you, that I think about you all the time
Caledonia you're calling me and now I'm going home
But if I should become a stranger you know that it would make me more than sad
Caledonia's been everything I've ever had.

I have moved and I've kept on moving, proved the points that I needed proving
Lost the friends that I needed losing, found others on the way
I have kissed the ladies and left them crying, stolen dreams, yes there's no denying
I have travelled hard, sometimes with conscience flying somewhere with the wind.

Now I'm sitting here before the fire, the empty room, the forest choir
The flames that couldn't get any higher, well they've withered, now they've gone
But I'm steady thinking, my way is clear and I know what I will do tomorrow
When the hands have shaken and the kisses flow, well I will disappear.

      Os Escoceses e o seu amor de sangue pelo lugar. 

David Budbill - Os três objectivos


O primeiro objectivo é ver a coisa em si,
nela e por ela,vê-la simples e claramente
pelo que ela é.
                    Nenhum simbolismo, por favor.

O segundo objectivo é ver cada coisa em particular
como una, uma só, entre todas as outras
dez mil coisas.
                 Deste ponto de vista, algum vinho ajuda imenso.

O terceiro objectivo é vincular o primeiro e o segundo objectivos,
ver o universal e o particular
em simultâneo.
                     Quanto a este, chama-me quando o alcançares.

Danijel Dragojevic - Os dias


Eu deveria ler a Bíblia.
Grande, negra, ela olha-me de uma estante.
Eu deveria lê-la, mas tenho medo
de tantas palavras, pensamentos, nomes, histórias,
de tantos avisos, saberes, intenções,
de uma voz remota de uma gravidade cinzenta.
Eu deveria ler, tenho medo de não ler,
tenho medo deste medo.
Eu deveria ler, mas não faço mais do que voltar
a cabeça e abrir a janela.
Que faria o homem se não tivesse uma janela?

      Talvez começar por ler os livros mais belos. O de Rute, por exemplo.

Lucy Wainwright Roche - Wild Mountain Thyme




Oh the summertime is coming
And the trees are sweetly blooming
And the wild mountain thyme
Blooms around the purple heather.

Will you go, laddie, go?
And we\'ll all go together
To pull wild mountain thyme
All around the purple heather
Will you go, laddie, go?

I will build my love a bower
By yon clear and crystal fountain
And on it I will place
All the flowers of the mountain.

If my true love will not go
I will surely find another
To pull wild mountain thyme
All around the purple heather.

    An old Scottish folk song. 

Robert Campin



Campin’s art is indebted to that of manuscript illumination.

Ismail Kadare - Horários de comboios


Gosto da companhia desses horários dos comboios nas pequenas estações
Enquanto espero na plataforma húmida e contemplo a infinitude dos carris.
O uivo distante de uma locomotiva. O quê, o quê?
(Ninguém compreende a nebulosa linguagem das máquinas
a vapor)

Comboios de passageiros. Cisternas. Vagões cheios de minério
Passam sem cessar.
Assim passam os dias da tua vida pela estação do teu ser,
Cheios de vozes, ruídos, sinais
E do pesado minério da memória.

Christine M. Krishnasami


ao lado de uma pedra com três
mil anos duas
papoilas de hoje

Forugh Farrokhzad - Oferenda


Eu falo da profundidade da noite,
da escuridão abissal.

Se vieres a minha casa, amor,
traz-me luz.
E uma janela para que eu possa ver
a felicidade daquela rua repleta.

Pink Floyd - Grantchester Meadows



      Grantchester Meadows is a Roger Waters song, originally performed solo on the 'Ummagumma' album, that celebrates the English countryside, as in other compositions such as 'Time'. This special group performance, taped for the BBC, with acoustic guitars and vocals from Roger Waters and David Gilmour, plus additional piano from Richard Wright and taped songbirds, successfully evokes a summer’s day in Grantchester, a small village close to Cambridge, England. Grantchester’s famous former residents include the Edwardian poet Rupert Brooke, who moved there and subsequently wrote a poem of homesickness entitled 'The Old Vicarage, Grantchester'. Taken from 'The Early Years 1965 – 1972'.

Bardhyl Londo - Crónica de um caso amoroso


Na segunda conhecemo-nos. Dissemos os nossos nomes
um ao outro.
Na terça tornámo-nos amigos. Sorrimos.
Na quarta fizemos amor. Perdemo-nos.
Na quinta tivemos uma discussão. Ficámos tristes.
Na sexta revimos os nossos últimos dias como se fossem um filme.
No sábado procurámos maneiras de nos reencontrarmos.
No domingo redescobrimos o nosso amor, como Colombo.

E depois era segunda outra vez.

Anna Auzina - Pequeno-almoço nas nuvens


às vezes é tão bom
até podíamos ter mais filhos
cães gatos hamsters
peixes tropicais bisavós passadas da cabeça
duas ou três tendas
esquis um computador
vários monitores
basta carregar tudo isso e seguir

um pequeno-almoço na erva
melhor ainda nas nuvens
é preciso comprar equipamento de piquenique

e bons ganchos
para que a corda nos possa içar
de modo seguro até ao céu
nas nuvens grelharemos salsichas
como fazemos habitualmente
e depois fotografar-me-ás
nua no céu

quando já estiverem todos a dormir nas nuvens
filhos
cães gatos hamsters
peixes tropicais bisavós malucas de todo

Spencer Tunick












      Spencer Tunick trabalha com conjuntos de pessoas nuas e tira fotografias extraordinárias em todo o mundo. O fotógrafo explora a percepção social do corpo nu, ao remover a tampa externa das pessoas, destacando as suas diferenças naturais. Os corpos nus estão em constante diálogo com o espaço público, com o qual interagem de acordo com a sua "necessidade". Nunca tinha entendido o modo como Tunick fez as fotos sobre um dos canais de Amesterdão. O vídeo revela-nos como foi.




      Autor de um trabalho polémico, Spencer Tunick tem encontrado pessoas dispostas a colaborar com a sua arte. No México, Israel, Venezuela, Índia, Portugal, França e Brasil, o fotógrafo encontrou sempre uma multidão de voluntários. No México, por exemplo, foram 18 mil inscritos para participar no projecto. Um dado curioso, pediu às senhoras para não vestirem cuecas ou soutien na noite anterior para não se notarem as marcas na pele. Seja o que for é belo.

Karine Polwart - Sorry




When your time on the mountain is over
And you fall to the earth like a leaf
It won't be enough these days to say sorry
Sorry won't pay for this grief.

Chorus:
You may lay down your guilt on the altar
Nail your remorse to the cross
But it's not enough these days to say sorry
Sorry won't pay for this loss.

And if the blood on your hands turns to water
And the night in your soul turns to day
It won't be enough this time to say sorry
Sorry won't wash it all away.

When you're through with the spells you've been spinning
And your hopes and your dreams have all died
It won't be enough these days to say sorry
Sorry won't turn back the tide.

And if you should desist from deceiving
And if you should confess to the crime
It won't be enough these days to say sorry
No, no, sorry won't save you this time.

      Karine Polwart was born on 23 December 1970. She is a Scottish singer-songwriter, who writes and performs music with a strong folk and roots feel. Her songs dealing with a variety of issues from alcoholism to genocide.

Dick Allen - The Accompanist



I’ve always worried about you—the man or woman
at the piano bench,
night after night receiving only such applause
as the singer allows: a warm hand please,
for my accompanist.   At concerts,
as I watch your fingers on the keys,
and how swiftly, how excellently
you turn sheet music pages,
track the singer’s notes, cover the singer’s flaws,
I worry about whole lifetimes,
most lifetimes
lived in the shadows of reflected fame;
but then the singer’s voice dies
and there are just your last piano notes,
not resentful at all,
carrying us to the end, into those heartfelt cheers
that spring up in little patches from a thrilled audience
like sudden wildflowers bobbing in a rain
of steady clapping.   And I’m on my feet, also,
clapping and cheering for the singer, yes,
but, I think, partially likewise for you
half-turned toward us, balanced on your black bench,
modest, utterly well-rehearsed,
still playing the part you’ve made yours.

    O acompanhante

Sempre me preocupei contigo - o homem ou a mulher
sentados ao piano,
noite após noite recebendo apenas alguns aplausos
consentidos pelo cantor: uma salva de palmas, por favor,
para o meu acompanhante. Nos concertos,
enquanto vejo os teus dedos sobre as teclas,
e com que rapidez, com que excelência
mudas as páginas da pauta,
segues as notas do cantor, cobres as fífias do cantor,
preocupo-me com todas as vidas,
a maior parte das vidas
vividas na sombra de alguma celebridade impositiva;
mas depois a voz do cantor morre
e passam a existir apenas as tuas últimas notas ao piano,
de modo nenhum ressentidas,
encaminhando-nos para o fim, para essa sincera alegria
que brota em pequenas quantidades de uma audiência comovida
como súbitas flores silvestres oscilando sob uma chuva
de fortes aplausos. E eu ergo-me também,
aplaudindo o cantor, é certo, mas
julgo que aclamando-te também a ti
meio virado para nós, em equilíbrio no teu banco preto,
modesto, perfeitamente ensaiado,
continuando a tocar a parte que tornaste tua.

    Tradução Do trapézio, sem rede

Cristina Troufa









A mulher dissolvida. A pintora é portuguesa e vive no Porto.

Cecilia Woloch - Crianças vagarosas em jogo


Todas as crianças ligeiras foram para dentro, chamadas
pelas mães «despachem-se - lavem - as - mãos - queridos
o - jantar - está - a - arrefecer, ai - quando - o - vosso - pai - chegar - a - casa»
e só as crianças vagarosas ficam nos relvados, abrindo
caminhos por entre os pirilampos, produzindo sons doces e breves com as suas bocas, «óóós»
que brilham e se apagam e brilham. E as suas mães vagarosas e tremeluzentes,
pálidas na penumbra, observam-nas a rodopiar no ar suave,
observam-nas
a ziguezaguear, os braços bem abertos, pensando, «Estes são os meus filhos», pensando,
«Onde está o jantar deles? Para onde foi o pai deles?»

Cecilia Woloch - A picareta


Eu vi-o girar a picareta ao sol
transformando os degraus de cimento em grandes bocados de pedra,
e as pedras em poeira,
e a poeira em terra outra vez.
Devo ter estado muito tempo sentada no intervalo da vedação do comboio
só a observá-lo.
O corpo do meu pai brilhando com o suor,
os seus braços levantando voo como asas negras sobre a cabeça.
Ele estava a converter o quintal numa espécie de terraço
partindo o pequeno declive em duas superfícies planas.
Eu tomei como segura a sua força
apesar de a achar também assustadora.
Vi como ele impelia a picareta de encontro ao ar
e como a atirava com toda a força para baixo,
e assim mudava a forma do mundo,
e mudava de novo a forma do mundo.

Teresa Borges do Canto - fotografia



      Deixo a secretária limpa para ti. Guardo todos os livros que entretanto se acumularam, alguns lidos, outros começados, outros intactos. Coloco papéis sobre - os papéis -, e tenho de avançar quinze dias no calendário. Encontro um poema escrito numa folha das finanças, anotações várias, frases ininteligíveis, uma receita (de culinária). No verso de um papel com a contagem da electricidade está o título de uma música, mas também pode ser o contrário. Lembro-me que tenho de pagar as quotas, depois de limpar o pó à cédula profissional. Este podia ter sido um dia qualquer, não fosse o dia da tua morte. Por isso te trouxe esta rosa do jardim.

Вместе Мы с Вами Верили - Simon Khorolskiy



We may not sing the same earthly words 
but our spirits sing the same heavenly language.

Besnik Mustafaj - Poema profético


Se, em vez de Cristo e de Maomé,
a Bíblia e o Corão
falassem do destino trágico de Tristão e Isolda,
amantes exemplares,
mortais neste pequeno planeta,
seria muito mais difícil negar
o conceito de divino.

Angel Erro - LXXV


Chegará um dia
em que todos admirarão
a tua obra, com maíúsculas,
A Tua Obra, que hoje desprezam
- ou que ousam até ignorar -,
e se arrependerão
por te terem conhecido tarde demais.

Assim suportas a vida.
Ou suportas assim a morte?

George Wilson



      A feiticeira da primavera, pintada por um pré rafaelita que nunca pertenceu à irmandade, está cansada. O verão está a chegar.

Rui A. - Se eu pudesse


Se eu pudesse dispunha-me
num tabuleiro de poder ser
- mesa de alquimista sem truques de magia
nem excessiva severidade

Limpava os ossos desbastava as cartilagens
deixava de lado a pequenez e a presunção
e algumas indignidades cometidas
nem todas sobre mim

E se algo sobrasse de efectivamente promissor
enviava-me urgente à tua excelência
em carta não registada e sem aviso
de recepção

Para que só me chamasses
se quisesses.

Tch'an - Os sábios não poupam


      Os sábios não poupam o seu corpo, nem os seus bens, e nunca se cansam de ser generosos. São independentes e sem apegos. Não se deixam enganar pelas aparências e, praticando as seis perfeições (a dádiva, a moralidade, a paciência, a energia, a meditação e a sabedoria), não as usam em seu proveito.

      in Os melhores contos Zen, trad. Miranda das Neves

Outra forma de beleza















A beleza da nova Babilónia.

Sidónio Muralha - O Jardineiro Míope

O jardineiro míope levanta-se às cinco horas e vai dar alpista às flores
a seguir rega os pássaros
e enquanto vai regando vai dizendo:
"Que bem cantam as minhas papoulas!"
Um dia a Liga das Senhoras mais Bondosas do Mundo
teve um gesto malvado
e ofereceu óculos ao jardineiro míope
que ajustou implacavelmente as imagens
perdeu toda a poesia
e viu tudo de maneira tão clara
que teve a ideia escura de pedir um emprego de funcionário público
enquanto a presidente da Liga
da Liga mais Bondosa
mais bondosa do mundo
subia para o céu
e se sentava à mão direita de Deus Padre
que lhe enfiou uma bofetada divina
que todos nós ouvimos em forma de trovão.

      O poeta não precisa de óculos nos olhos, tolice! Precisa apenas de dom, técnicas e talento para dignificar a beleza.

Leonard Cohen - Escrita


Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
a escreverem isto mesmo.

    Tradução, Jorge Sousa Braga e Carlos Tê

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