Ernesto Pérez Vallejo - Muitas vezes / Muchas veces

 

Muitas vezes ainda nos doem

aqueles comboios que passaram ao largo.

E queixamo-nos da sorte, em silêncio.

Outras, já dentro do vagão,

maldizemos o relógio

por termos chegado a tempo aos carris.


Nós, que não sabemos ser felizes,

só precisamos

é de um culpado.


  Tradução de A.M.


  Original:


Muchas veces todavía nos duelen

aquellos trenes que pasaron de largo.

Y nos quejamos en silencio de nuestra suerte.

Otras ya en el interior del vagón

maldecimos al reloj

por haber llegado a tiempo a sus raíles.


Los que no sabemos ser felices,

lo único que necesitamos

es un culpable.


      O poema aborda a dor provocada pelas oportunidades perdidas e pelas escolhas da vida. A metáfora dos comboios representa caminhos que se afastam ou que, pelo contrário, são seguidos no momento certo, mas também podem trazer arrependimento. O sujeito poético revela uma insatisfação persistente, marcada pela dificuldade em aceitar a própria existência. No final, surge uma conclusão irónica e amarga: quem não consegue ser feliz procura um culpado para justificar as suas frustrações, evitando assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas.


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