Neste
bairro onde miam gatas há dez mil de gente
Fácil:
contem-se
todas as cabeças uma por uma
uma
de cada vez Façam-se perguntas
Registem-se
as respostas Por exemplo: ao
perguntar-se
Se
ganham menos do que é necessário p’ra viver
façam
uma cruz Mas
façam a mesma cruz
caso
digam o contrário Se tiverem um rádio
vejam
o
rádio e façam uma cruz no rádio
Se
tiverem uma bicicleta cruz na bicicleta
Cruz
nos aparelhos de TV Cruz nos frigoríficos
Cruz
se a barraca for deles Cruz se for alugada
Cruz
na idade que têm Cruz se são solteiros
ou casados
Cruzes
em resumo em tudo o que é máquina
Máquinas
de costura por exemplo Vejam
se
as rodas andam Cruz Cruz Cruz Cruz
Cruz
no número de filhos Não há nada que não conte
Depois de tudo passado a pente fino
contado classificado codificado computorizado
é preciso calcular a média Dividir o que há
por
todos para que ninguém se queixe de injustiça
Os
nomes não interessam Os nomes não têm
significado
Velho
ou doente não se deixe ninguém de fora
Sendo
assim até uma doente estéril ficará com
alguns
filhos Se a maioria passa fome
calcule-se
a fome média Estamos ou não na democracia ocidental?
Todos têm de tê-la igual Não haverá
desempregados
porque todos mas todos terão uma
fracçãozinha
de emprego para sustentar uma fracçãozinha
de
família numa fracçãozinha de barraca Nada
pois
de
sangueiras ódios ressentimentos Sobretudo nada de
provocações
à Guarda nem de atacar o Quartel do
Carmo
ou o palácio onde tanto se esforçam os doutores-deputados
Este
é o conselho das pessoas sábias Está
aliás na
Constituição
que ó diabo é preciso emendar para que
se
prescreva inalienável o
direito a fracções mais pequenas
Assim
é que será bem plural e ocidental a democracia em Portugal.
O poema constitui uma reflexão crítica sobre a identidade política e cultural de Portugal após a ditadura. Com ironia e densidade simbólica, o poeta questiona os limites da democracia, denunciando contradições entre os ideais de liberdade e a realidade social. O título, deliberadamente extenso, sugere uma visão satírica dos discursos oficiais. A linguagem incisiva e o tom desencantado convidam o leitor a pensar criticamente sobre o exercício do poder e a participação cívica.

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