Alexandre Pinheiro Torres - A Democracia Plural Portuguesa Ocidental

 


Neste bairro onde miam gatas há dez mil de gente   Fácil:

contem-se todas as cabeças    uma por uma

uma de cada vez       Façam-se perguntas

Registem-se as respostas     Por exemplo: ao perguntar-se


Se ganham menos do que é necessário p’ra viver

façam uma cruz    Mas façam a mesma cruz

caso digam o contrário   Se tiverem um rádio vejam

o rádio e façam uma cruz no rádio


Se tiverem uma bicicleta cruz na bicicleta

Cruz nos aparelhos de TV     Cruz nos frigoríficos

Cruz se a barraca for deles      Cruz se for alugada

Cruz na idade que têm   Cruz se são solteiros ou casados


Cruzes em resumo em tudo o que é máquina

Máquinas de costura por exemplo  Vejam

se as rodas andam   Cruz   Cruz    Cruz   Cruz

Cruz no número de filhos     Não há nada que não conte


Depois de tudo passado a pente fino   

contado classificado    codificado   computorizado

é preciso calcular a média   Dividir o que há

por todos para que ninguém se queixe de injustiça


Os nomes não interessam   Os nomes não têm significado

Velho ou doente não se deixe ninguém de fora

Sendo assim até uma doente estéril ficará com

alguns filhos    Se a maioria passa fome calcule-se


a fome média    Estamos ou não na democracia  ocidental?   

Todos têm de tê-la igual     Não haverá

desempregados porque todos    mas todos   terão uma

fracçãozinha de emprego para sustentar uma fracçãozinha


de família numa fracçãozinha de barraca    Nada pois

de sangueiras   ódios   ressentimentos    Sobretudo nada de

provocações à Guarda nem de atacar o Quartel do

Carmo ou o palácio onde tanto se esforçam os doutores-deputados


Este é o conselho das pessoas sábias    Está aliás na

Constituição que    ó diabo    é preciso emendar para que

se prescreva   inalienável   o direito a fracções mais pequenas

Assim é que será bem plural e ocidental a democracia em Portugal.


      O poema constitui uma reflexão crítica sobre a identidade política e cultural de Portugal após a ditadura. Com ironia e densidade simbólica, o poeta questiona os limites da democracia, denunciando contradições entre os ideais de liberdade e a realidade social. O título, deliberadamente extenso, sugere uma visão satírica dos discursos oficiais. A linguagem incisiva e o tom desencantado convidam o leitor a pensar criticamente sobre o exercício do poder e a participação cívica.


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