Abelardo Linares - O café de espelhos / El Café con espejos

 


Era um café e estávamos na conversa,

um estranho café de cadeiras gigantescas

com umas mesas muito pequenas.

Em volta rostos vagos

ou, mais exatamente, alguns homens sem rosto;

e daí que eu não estranhasse aquele silêncio todo

no meio de espelhos infinitos.

Não me consigo lembrar de que falava,

mas sim da minha alegria, da vivacidade dos gestos,

por certo exagerada.

Ele deixava-me falar, indiferente

àquela paixão toda das minhas palavras.

De repente, diz-me com voz rouca:

'E tu que vais fazer, agora que estás morto?'

A princípio não consegui compreender,

de tão estúpido aquilo, tão falto de sentido,

e virei a cabeça. Nos espelhos,

quis olhar para a minha cara, mas era a de meu pai

que estava a ver: 'Afinal deste-te conta?'

'De quê?', perguntei?

'De que és um sonho, meu filho'.


  Tradução de A.M.


  Original:


Era un café y estábamos charlando.

Un extraño café de gigantescas sillas

con unos veladores diminutos.

A nuestro alrededor rostros borrosos

o, más exactamente, unos hombres sin rostro;

y así no me extrañó todo el silencio

de aquel local de espejos infinitos.

No puedo recordar de qué charlaba,

pero sí mi alegría y la viveza,

sin duda exagerada, de mis gestos.

Él me dejaba hablar, indiferente

a toda la pasión que había en mis palabras.

De repente me dijo con voz bronca:

"¿Y tú qué harás ahora que estás muerto?".

Al principio no supe comprenderle,

tan estúpido aquello, tan falto de sentido,

y volví la cabeza. En los espejos

quise mirar mi rostro, pero era el de mi padre

el que veía en ellos. "¿Al fin te has dado

       cuenta?".

"¿De qué?", le pregunté. "De que

       eres un sueño,

hijo mío".


      Neste poema, o espaço onírico transforma-se numa metáfora da identidade e da consciência. O café, povoado por figuras sem rosto e espelhos infinitos, cria uma atmosfera inquietante que culmina na revelação da morte e da natureza ilusória do sujeito. A imagem final, em que o eu vê o rosto do pai e descobre ser um sonho, explora a fragilidade da memória, da individualidade e da existência, com forte dimensão simbólica e filosófica. A tela é de Charles Ginner, 'The Café Royal', 1911.


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