José Miguel Silva - Lamento de Calipso

 


Primeiro foi o bule,

de seguida foi a asa.

Que mais irás quebrar.


Não sei o que fazer com o teu sim,

o teu não, o teu

passa-me o açúcar.


A distância dos teus olhos, não a sei

abreviar, o latido dos teus sonhos

não me deixa adormecer.


Gostava de te amar um pouco menos,

de voltar ao meu rebanho

de feridas e sopores,


regressar ao rijo barro dos domingos

em que não te conhecia,

ao supor das tardes,


quando ainda não sabia

da dureza do cimento

nem dos modos de quebrar e ser quebrado.


  in, Ulisses já não mora aqui


      O poema revisita o mito clássico para refletir sobre desejo, abandono e desencanto. A voz de Calipso humaniza-se, revelando vulnerabilidade perante a partida inevitável de Ulisses. O contraste entre imortalidade e amor efémero evidencia a solidão e a inutilidade do poder divino. Com linguagem irónica e contemporânea, o poeta questiona ideais heroicos e românticos, transformando o mito numa meditação amarga sobre perda, memória e limites do amor diante da liberdade humana e destino inexorável.


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