Primeiro
foi o bule,
de
seguida foi a asa.
Que
mais irás quebrar.
Não
sei o que fazer com o teu sim,
o
teu não, o teu
passa-me
o açúcar.
A
distância dos teus olhos, não a sei
abreviar,
o latido dos teus sonhos
não
me deixa adormecer.
Gostava
de te amar um pouco menos,
de
voltar ao meu rebanho
de
feridas e sopores,
regressar
ao rijo barro dos domingos
em
que não te conhecia,
ao
supor das tardes,
quando
ainda não sabia
da
dureza do cimento
nem
dos modos de quebrar e ser quebrado.
in, Ulisses já não mora aqui
O poema revisita o mito clássico para refletir sobre desejo,
abandono e desencanto. A voz de Calipso humaniza-se, revelando vulnerabilidade
perante a partida inevitável de Ulisses. O contraste entre imortalidade e amor
efémero evidencia a solidão e a inutilidade do poder divino. Com linguagem
irónica e contemporânea, o poeta questiona ideais heroicos e românticos,
transformando o mito numa meditação amarga sobre perda, memória e limites do
amor diante da liberdade humana e destino inexorável.

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