Enrique García-Máiquez - Leitura num colégio / Lectura en un colegio

 


Mais vale que não saibam para que

serve a poesia, se é que ainda alguém a lê.

Não lhes digas,

cala-te,

que não saibam

que não é neutra a sua beleza, que torna

insuportáveis a crueldade, a idiotia e o ruído

e por isso nos faz solidários.


Ainda a lêem, alguns.

Se te perguntarem

o que é ou para quê, tartamudeia,

faz-te desentendido e sorri.

Depois, quando tiverem a alma em carne viva

e houverem chorado muito, recordarão

que tu podias mas não os preveniste,

e hão-de agradecer-te.


  Tradução de A.M.


  Original:


Más vale que no sepan para qué

sirve leer poesía, si algunos aún la leen.

No les expliques,

calla,

que no sepan

que su belleza no es neutral, que hace

insoportables la crueldade, la idiotez y el ruido

y por eso nos vuelve solitarios.


Algunos aún la leen.

Si te preguntan

qué es o para qué, tartamudea,

contesta imprecisiones, y sonríe.

Más tarde, cuando tengan el alma en carne viva

y hayan llorado mucho, recordarán que tú

pudiste hacerlo y no les previniste,

y te darán las gracias.


      No poema, a poesia surge como uma força transformadora e discreta. O sujeito poético aconselha que não se revele aos jovens o verdadeiro poder da poesia: a capacidade de tornar intoleráveis a crueldade, a estupidez e o ruído do mundo. Através de um tom irónico e cúmplice, sugere que a compreensão dessa força só chegará com a experiência da dor e da maturidade. O poema valoriza a leitura poética como uma forma de despertar moral e emocional, capaz de enriquecer profundamente a vida humana.


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