Nunca
fui mais para ti do que um pedaço
de
mármore, em que esculpiste o meu corpo,
um
corpo de mulher branco e belo,
onde
nunca viste mais do que pedra
e o
orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca
imaginaste como eu te amava
e
que estremecia quando, suave,
me
moldavas os seios e os ombros,
ou
me alisavas os músculos e o ventre.
Hoje
estou num parque, onde sofro
os
rigores do frio no Inverno
e
ardo no Verão de tal modo
que
nem mesmo os pardais me vêm
pousar
nas mãos porque escaldam.
De
tudo, porém, o que me dói mais
é
baixar a cabeça e reparar na placa:
"Nu
de mulher", como muitas outras.
Nem
de me dar um nome te lembraste.
Tradução
de A.M.
Original:
Para
ti nunca fui más que un pedazo
de
mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,
un
cuerpo de mujer blanco y hermoso,
en
el que nunca viste más que piedra
y el
orgullo, eso sí, de tu trabajo.
Jamás
imaginaste que te amaba
y
que me estremecía cuando, dulce,
moldeabas
mis senos y mis hombros,
o
alisabas mis muslos y mi vientre.
Hoy
estoy en un parque, donde sufro
los
rigores del frío en el invierno,
y en
verano me abraso de tal modo
que
ni siquiera los gorriones vienen
a
posarse en mis manos porque queman.
Pero,
de todo, lo que más me duele
es
bajar la cabeza y ver la placa:
"Desnudo
de mujer", como otras muchas.
Ni
de ponerme un nombre te acordaste.
No poema, a voz poética é a de uma estátua feminina que ganha consciência e revela a sua dor. O escultor admirou apenas a beleza da obra e o mérito do seu trabalho, ignorando os sentimentos e a individualidade da figura representada. A crítica centra-se na objetificação da mulher, reduzida a um corpo anónimo. O verso final, ao lamentar a ausência de um nome, simboliza a perda de identidade e de reconhecimento humano.

Sem comentários:
Enviar um comentário