Maria do Rosário Pedreira - Dorme, meu amor



Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou

há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —


a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos


agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,


meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,

de guarda aos pesadelos — a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.


   A tela é Le Lit de Toulouse-Lautrec


      O poema transforma o amor num refúgio contra o medo, a morte e a solidão. A voz poética assume um papel protetor, oferecendo segurança através da presença e da palavra. As imagens sombrias, como fantasmas e sombras, contrastam com o tom terno da repetição de “dorme, meu amor”. O poema sugere que o amor não elimina o sofrimento, mas ajuda a enfrentá-lo. Assim, a noite torna-se espaço de cuidado, resistência e esperança humana.


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