Dorme,
meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este
dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha
os olhos agora e sossega — o pior já passou
há
muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia
os passos do medo. Dorme, meu amor —
a
morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e
pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres.
Mas nada temas: as suas asas de sombra
não
hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é
ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora
e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da
casa que o jardim devorou andam perdidos
nas
brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu
amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada
temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei
a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de
guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que
conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
A tela é Le Lit de Toulouse-Lautrec
O poema transforma o amor num refúgio contra o medo, a morte
e a solidão. A voz poética assume um papel protetor, oferecendo segurança
através da presença e da palavra. As imagens sombrias, como fantasmas e
sombras, contrastam com o tom terno da repetição de “dorme, meu amor”. O poema
sugere que o amor não elimina o sofrimento, mas ajuda a enfrentá-lo. Assim, a
noite torna-se espaço de cuidado, resistência e esperança humana.
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