Ana Paula Tavares - Devia olhar o rei



Devia olhar o rei,

mas foi o escravo que chegou

para me semear o corpo de erva rasteira


Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei,

mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo

Penteei-me para o rei,

mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo


O escravo era novo

tinha um corpo perfeito

as mãos feitas para a taça dos meus seios


Devia olhar o rei,

mas baixei a cabeça doce, terna

diante do escravo.


      No poema, o sujeito poético reflete sobre o poder, a hierarquia e a condição feminina. A expressão "devia" sugere obrigação social, revelando expectativas impostas à mulher. A figura do rei simboliza autoridade e domínio, enquanto o olhar representa consciência e questionamento. O poema contrapõe submissão e resistência, valorizando a voz feminina.


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