Olav H. Hauge - Serrei a macieira ao pé da janela

 


Serrei a macieira ao pé da janela.

Por um lado, tapava a vista,

a sala de estar ficava pálida no Verão,

por outro lado, os grossistas já

não queriam aquela qualidade de maçã.

Pensei no que diria

meu pai, ele gostava

daquela macieira.

Ainda assim, serrei-a.


Está muito luminoso, posso

ver para lá do fiorde

ou observar

mais vizinhos,

a casa está agora à vista

de todos, mostra

mais de si mesma.


Não quero admiti-lo, mas sinto falta da macieira.

As coisas não são o que eram. Dava um bom abrigo

e boa sombra, o sol espreitava através dos ramos

em direcção à mesa, e à noite eu costumava deitar-me

a ouvir as folhas ao vento. E as maçãs –

de sabor mais apimentado, na Primavera, não há.

Dói sempre que olho o cepo: quando

enfraquecer, irei desfazê-lo em lenha.

 

  Tradução de Henrique Manuel Bento Fialho.


      O poema de Olav H. Hauge, explora a relação entre o ser humano e a natureza, marcada por ambivalência e reflexão. Ao cortar a macieira, o eu lírico elimina algo belo e vivo, sugerindo arrependimento ou consciência tardia. A árvore simboliza crescimento, memória e ligação ao mundo natural. O gesto de a destruir pode representar necessidade prática, mas também perda irreversível. O poema, simples e direto, revela a tensão entre ação e contemplação, destacando a fragilidade das escolhas humanas e o impacto emocional de intervir na natureza.


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