José María Fonollosa - Rambla de Canaletes 2



Sou insignificante. Não sou alto

nem bem-posto. Não sou rico. Nem a saúde

sequer despertará inveja a ninguém.


Por isso quando estou com estranhos,

falo muitíssimo bem de mim mesmo,

dos meus grandes projectos, da minha enorme

capacidade – 'Heis-de ver' – ao realizá-los.


Edifico em praças e jardins

- mentalmente, entenda-se – altos pedestais.

- 'Ora vêde – diria – Aquele busto ali

é meu. E meu nome está aquí, ora lêde'

 – E digo 'Amigo', 'Tu', essas coisas.


Creio, todavia, que não engano ninguém,

já que ou se calam ou me respondem

na mesma moeda.


Insisto, contudo, pois não sou

tal como vejo os outros:

ricos, bem-postos, altos e saudáveis…

Ou, porventura, não são, e apenas fingem?


      O poema apresenta uma visão crua e desencantada da experiência urbana. Fonollosa retrata a Rambla como um espaço de solidão, de desejo frustrado e anonimato, onde o sujeito lírico observa sem participar. A linguagem direta, quase brutal, denuncia a mercantilização dos corpos e a indiferença social, convertendo a cidade num cenário de derrota íntima contínua.


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