Gioconda Belli - Luciérnagas (Pirilampos)

 


Ao fim da tarde

quando a luz amortece

e o jardim mergulha nas últimas ondas

de oiro do dia

chega-me o bulício das crianças

à caça de pirilampos.


Correndo na relva

espalham-se nos arbustos,

gritam de excitação, deslumbrados,

e fazem roda em torno da pequena

a mostrar a concha acesa

das mãos cintilando.


Humano ofício antigo

este de querer agarrar a luz.


Lembras-te da última vez em que julgámos

poder iluminar a noite?


O tempo tirou-nos o fulgor.

Mas a escuridão

continua cheia de pirilampos.


      No poema, a poeta usa a imagem frágil e luminosa dos vagalumes como metáfora da resistência e da esperança em contextos de opressão. A luz intermitente simboliza pequenos gestos de liberdade, amor e dignidade que persistem mesmo na escuridão histórica e política. O tom é delicado, mas profundamente político, afirmando que a transformação não nasce apenas de grandes atos, mas de múltiplas pequenas luzes coletivas.


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