Qualquer
lugar onde tenha havido trigo
guarda
sempre dele algum sinal
que
não deixa esquecer a antiga seara
—
aquela que ondulava aos ventos de Maio,
igual
a um rebanho verde subindo encosta acima,
sem
pastor nem cães para o guiar.
(Quem
precisa de guias quando é Maio?)
Talvez
se trate de uma questão de cheiro.
Ou
de algum outro sentido
que
ainda está por identificar.
Ou
de uma espécie ignorada de memória
que
se agarra ao lugar e nele persiste.
Seja
o que for,
anda
ainda no ar a presença de espigas
mesmo
quando o desuso as expulsou
e
ervas bravias lhes tomaram o lugar
— e
por isso tanto nos magoa
toda
a terra de que lavoura alguma
já não extrai o pão.
Na verdade afastámo-nos demasiado da terra. No tempo dos meus avós só se comprava arroz e bacalhau. A terra dava trezentos almudes de vinhos, oitenta arrobas de batatas, matávamos dois porcos por ano, havia leite de ovelha, queijo, feijão, grão, cenouras, ervilhas, favas. Trigo, muito trigo para o pão do forno e para as galinhas que davam ovos. Passadas 2 gerações compramos tudo.

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