A.M.Pires Cabral - Seara

 


Qualquer lugar onde tenha havido trigo

guarda sempre dele algum sinal

que não deixa esquecer a antiga seara

— aquela que ondulava aos ventos de Maio,

igual a um rebanho verde subindo encosta acima,

sem pastor nem cães para o guiar.

(Quem precisa de guias quando é Maio?)

Talvez se trate de uma questão de cheiro.

Ou de algum outro sentido

que ainda está por identificar.

Ou de uma espécie ignorada de memória

que se agarra ao lugar e nele persiste.

Seja o que for,

anda ainda no ar a presença de espigas

mesmo quando o desuso as expulsou

e ervas bravias lhes tomaram o lugar

— e por isso tanto nos magoa

toda a terra de que lavoura alguma

já não extrai o pão.


      Na verdade afastámo-nos demasiado da terra. No tempo dos meus avós só se comprava arroz e bacalhau. A terra dava trezentos almudes de vinhos, oitenta arrobas de batatas, matávamos dois porcos por ano, havia leite de ovelha, queijo, feijão, grão, cenouras, ervilhas, favas. Trigo, muito trigo para o pão do forno e para as galinhas que davam ovos. Passadas 2 gerações compramos tudo.

 

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