A Álvaro de Campos a
dedicação intensa de todos os meus avatares.
Foi escrito durante
os três dias e as três noites que
durou a revolução de 14 de Maio de 1915.
Ergo-Me Pederasta
apupado d'imbecis,
Divinizo-Me Meretriz,
ex-líbris do Pecado,
e odeio tudo o que
não Me é por Me rirem o Eu!
Satanizo-Me Tara na
Vara de Moisés!
O castigo das
serpentes é-Me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu
Cantar!
Sou Vermêlho-Niagara
dos sexos escancarados nos chicotes
dos cossácos!
Sou
Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula!
Sou Génio de
Zaratrusta em Taças de Maré-Alta!
Sou Raiva de Medusa e
Danação do Sol!
Ladram-Me a Vida por
vivê-La
e só Me deram Uma!
Hão-de lati-La por
sina!
Agora quero vivê-La!
Hei-de Poeta cantá-La
em Gala sonora e dina
Hei-de Glória
desanuviá-La!
Hei-de Guindaste
içá-La Esfinge
da Vala pedestre onde
Me querem rir!
Hei-de trovão-clarim
levá-La Luz
às Almas-Noites do
Jardim das Lágrimas!
Hei-de bombo rufá-La
pompa de Pompeia
nos Funerais de Mim!
Hei-de Alfange-Mahoma
cantar Sodoma na Voz
de Nero!
Hei-de ser Fuas sem
Virgem do Milagre,
hei-de ser galope
opiado e doido, opiado e doido...
Hei-d' Átila, hei-de
Nero, hei-de Eu,
cantar Atila, cantar
Nero, cantar Eu!
Sou Narciso do Meu
Ódio!
- O Meu ódio é
Lanterna de Diógenes,
é cegueira de
Diógenes,
é cegueira da
Lanterna!
(O Meu Ódio tem
tronos d' Herodes,
histerismos de
Cleópatra, perversões de Catarina!)
O Meu ódio é Dilúvio
Universal sem Arcas de Noé, só
Dilúvio Universal!
e mais Universal
ainda:
Sempre a crescer,
sempre a subir...
até apagar o Sol!
Sou trono de
Abandono, mal-fadado,
nas iras dos Bárbaros
meus Avós.
Oiço ainda da
Berlinda d'Eu ser sina
gemidos vencidos de
fracos,
ruídos famintos de
saque,
ais distantes de
Maldição eterna em Voz antiga!
Sou ruínas rasas,
inocentes
como as asas de
rapinas afogadas.
Sou relíquias de
mártires impotentes
sequestradas em
antros do Vício.
Sou clausura de Santa
professa,
Mãe exilada do Mal,
Hóstia d'Angústia no Claustro,
freira demente e
donzela,
virtude sozinha da
cela
em penitência do
sexo!
Sou rasto espezinhado
d'Invasores
que cruzaram o meu
sangue, desvirgando-o.
Sou a Raiva atávica
dos Távoras,
o sangue bastardo de
Nero,
o ódio do último
instante
do Condenado
inocente!
A podenga do Limbo
mordeu raivosa
as pernas nuas da
minh'Alma sem baptismo...
Ah! que eu sinto,
claramente,
que nasci de uma
praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas
sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a
penar!
Tu, que te dizes
Homem!
Tu, que te alfaiatas
em modas
e fazes cartazes dos
fatos que vestes
p'ra que se não vejam
as nódoas de baixo!
Tu, qu'inventaste as
Ciências e as Filosofias,
as Políticas, as
Artes e as Leis,
e outros
quebra-cabeças de sala
e outros dramas de
grande espectáculo
Tu, que aperfeiçoas
sabiamente a arte de matar.
Tu, que descobriste o
cabo da Boa-Esperança
e o Caminho Marítimo
da índia
e as duas Grandes
Américas,
e que levaste a
chatice a estas Terras
e que trouxeste de lá
mais gente p'raqui
e qu'inda por cima
cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a
chatice e o balão,
e que farto de te
chateares no chão
te foste chatear no
ar,
e qu'inda foste
inventar submarinos
p'ra te chateares
também por debaixo d'água,
Tu, que tens a mania
das Invenções e das Descobertas
e que nunca
descobriste que eras bruto,
e que nunca
inventaste a maneira de o não seres
Tu consegues ser cada
vez mais besta
e a este progresso
chamas Civilização!
Vai vivendo a
bestialidade na Noite dos meus olhos,
vai inchando a tua
ambição-toiro
'té que a barriga te
rebente rã.
Serei Vitória um dia
-Hegemonia de Mim!
e tu nem derrota, nem
morto, nem nada.
O Século-dos-Séculos
virá um dia
e a burguesia será
escravatura
se for capaz de sair
de Cavalgadura!
Hei-de, entretanto,
gastar a garganta
a insultar-te, ó
besta!
Hei-de morder-te a
ponta do rabo
e por-te as mãos no
chão, no seu lugar!
Ahi!
Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos!
Quadrilheiros
contrabandistas da Imbecilidade!
Ahi! Espelho-aleijão
do Sentimento,
macaco-intruja do
Alma-realejo!
Ahi! macrelle da
Ignorância!
Silenceur do
Génio-Tempestade!
Spleen da Indigestão!
Ahi! meia-tigela,
travão das Ascensões!
Ahi! povo judeu dos
Cristos mais que Cristo!
Ó burguesia! Ó ideal
com i pequeno
Ó ideal ricócó dos
Mendes e Possidonios
Ó cofre d'indigentes
Cuja personalidade é
a moral de todos!
Ó geral da
mediocridade!
Ó claque ignóbil do
Vulgar, protagonista do normal!
Ó Catitismo das
lindezas d'estalo!
Ahi! lucro do fácil,
cartilha-cabotina dos
limitados, dos restringidos!
Ai! dique-impecilho
do Canal da Luz!
Ó coito d'impotentes
a corar ao sol no
riacho da Estupidez!
Ahi! Zero-barómetro
da Convicção!
bitola dos chega, dos
basta, dos não quero mais!
Ahi! Plebeísmo
Aristocratizado no preço do panamá!
erudição de calça de
xadrez!
competência de
relógio d'oiro
e correntes com
suores do Brasil,
e berloques de cornos
de búfalo!
E eu vivo aqui
desterrado e Job
da Vida-gémea d'Eu
ser feliz!
E eu vivo aqui
sepultado vivo
na Verdade de nunca
ser Eu!
Sou apenas o Mendigo
de Mim-Próprio,
órfão da Virgem do
meu sentir.
E como queres que eu
faça fortuna
se Deus, por
escárnio, me deu Inteligência,
e não tenho sequer,
irmãs bonitas
nem uma mãe que se
venda para mim?
(Pesam quilos no Meu
querer
as salas de espera de
Mim.
Tu chegas sempre
primeiro...
Eu volto sempre
amanhã...
Agora vou esperar que
morras.
Mas tu és tantos que
não morres...
Vou deixar d'esp'rar
que morras
- Vou deixar
d'esp'rar por mim!)
Ah! que eu sinto,
claramente, que nasci
de uma praga de
ciúmes!
Eu sou as sete pragas
sobre o Nilo
e a alma dos Bórgias
a penar!
E tu, também,
vieille-roche, castelo medieval
fechado por dentro
das tuas ruínas!
Fiel epitáfio das
crónicas aduladoras!
E tu também ó sangue
azul antigo
que já nasceste co'a
biografia feita!
Ó pajem loiro das
cortesias-avozinhas!
Ó pergaminho
amarelo-múmia
das grandes galas
brancas das paradas
e das Vitórias dos
torneios-lotarias
com donzelas-glórias!
Ó resto de cetros,
fumo de cinzas!
Ó lavas frias do
Vulcão pirotécnico
com chuvas d'oiros e
cabeleiras prateadas!
Ó estilhacos
heráldicos de Vitrais
despegados lentamente
sobre o tanque do silêncio!
Ó Cedro secular
debruçado no muro da
Quinta sobre a estrada
a estorvar o caminho
da Mala-posta!
E vós também, ó
Gentes de Pensamento,
ó Personalidades, ó
Homens!
Artistas de todas as
partes, cristãos sem pátria,
Cristos vencidos por
serem só Um!
E vós, ó Génios da
Expressão,
e vós também, ó
Génios sem Voz!
ó além-infinito sem
regressos, sem nostalgias,
Espectadores
gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos!
Profetas clandestinos
do Naufrágio de
Vossos Destinos!
E vós também,
teóricos-irmãos-gémeos
do meu sentir
internacional!
Ó escravos da
Independência!
Vós que não tendes
prémios
por se ter passado a
vez de os ganhardes,
e famintos e covardes
entreteis a fome em
revoltas do Mau-Génio
no boémia da bomba e
da pólvora!
E tu também, ó Beleza
Canalha
Co'a sensibilidade
manchada de vinho!
Ó lírio bravo da
Floresta-Ardida
à meia-porta da tua
Miséria!
Ó Fado da Má-Sina
com ilustrações a giz
e letra da Maldição!
Ó fera vadia das
vielas açaimada na Lei!
Ó xale e lenço a
resguardar a tísica!
Ó franzinas do fanico
co'a sífilis ao colo
por essas esquinas!
Ó nu d'aluguer
na meia-luz dos
cortinados corridos!
Ó oratório da
meretriz a mendigar gorjetas
p'rá sua Senhora da
Boa-Sorte!
Ó gentes tatuadas do
calão!
carro vendado da
Penitenciária!
E tu também, ó
Humilde, ó Simples!
enjaulados na vossa
ignorância!
Ó pé descalço a
calejar o cérebro!
Ó músculos da saúde
de ter fechada a casa de pensar!
Ó alguidar de açorda
fria
na ceia-fadiga da
dor-candeia!
Ó esteiras duras pra
dormir e fazer filhos!
Ó carretas da Voz do
Operário
com gente de preto a
pé e filarmónica atrás!
Ó campas rasas,
engrinaldadas,
com chapões de ferro
e balões de vidro!
Ó bota rota de
mendigo abandonada no pó do caminho!
Ó
metamorfose-selvagem das feras da cidade!
Ó geração de bons
ladrões crucificados na Estupidez!
Ó sanfona-saloia do
fandango dos campinos!
Ó pampilho das
Lezírias inundadas de Cidade!
ó trouxa d'aba larga
da minha lavadeira,
Ó rodopio azul da
saia azul de Loures!
E vós varinas que
sabeis a sal
as Naus da Fenícia
ainda não voltaram?!
E vós também, ó moças
da Província
que trazeis o verde
dos campos
no vermelho das faces
pintadas!
E tu também, ó mau
gosto
co'a saia de baixo a
ver-se
e a falta d'educação!
Ó oiro de pechisbeque
(esperteza dos ciganos)
a luzir no vermelho
verdadeiro da blusa de chita!
Ó tédio do domingo
com botas novas
e música n'Avenida!
Ó santa Virgindade
a garantir a falta de
lindeza!
Ó bilhete postal
ilustrado
com aparições de
beijos ao lado!
E vós ó gentes que
tendes patrões,
autómatos do dono a
funcionar barato!
Ó criadas novas
chegadas de fora p'ra todo o serviço!
Ó costureiras
mirradas,
emaranhadas na vossa
dor!
Ó reles caixeiros,
pederastas do balcão,
a quem o patrão exige
modos lisonjeiros
e maneiras agradáveis
pròs fregueses!
Ó Arsenal fadista de
ganga azul e coco socialista!
Ó saídas pôr-do-sol
das Fábricas d'Agonia!
E vós também, ó toda
a gente, que todos tendes patrões!
E vós também,
nojentos da Política
que explorais eleitos
o Patriotismo!
Macrots da Pátria que
vos pariu ingénuos
e vos amortalha
infames!
E vós também,
pindéricos jornalistas
que fazeis cócegas e
outras coisas
à opinião pública!
E tu também roberto
fardado:
Futrica-te espantalho
engalonado,
apoia-te das patas de
barro,
Larga a espada de
matar
e põe o penacho no
rabo!
Ralha-te mercenário,
asceta da Crueldade!
Espuma-te no chumbo
da tua Valentia!
Agoniza-te Rilhafoles
armado!
Desuniversidadiza-te
da doutorança da chacina,
da ciencia da
matança!
Groom fardado da
Negra,
pária da Velha!
Encaveira-te nas
esporas luzidias de seres fera!
Despe-te da farda,
desenfia-te da
Impostura, e põe-te nu, ao léu
que ficas
desempregado!
Acouraça-te de senso,
vomita de vez o
morticínio,
enche o pote de
raciocínio,
aprende a ler
corações,
que há muito mais que
fazer
do que fazer
revoluções!
Ruína com tuas
próprias peças-colossos
as tuas próprias
peças colossais,
que de 42 a 1 é
meio-caminho andado!
Rebusca no seres
selvagem
no teu cofre do
extermínio
o teu calibre máximo!
Põe de parte a
guilhotina,
dá férias ao garrote!
Não dês língua aos
teus canhões,
nem ecos às pistolas,
nem vozes às
espingardas!
– São coisas fora de
moda!
Põe-te a fazer uma
bomba
que seja uma bomba
tamanha
que tenha dez raios
da Terra.
Põe-lhe dentro a
Europa inteira,
os dois pólos e as
Américas,
a Palestina, a
Grécia, o mapa
e, por favor,
Portugal!
Acaba de vez com este
planeta,
faze-te Deus do Mundo
em dar-lhe fim!
(Há tanta coisa que
fazer, Meu Deus!
e esta gente
distraída em guerras!)
Eu creio na
transmigração das almas
por isto de Eu viver
aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro
o mal que fiz
durante o Meu avatar
de burguês.
Oh! Se eu soubesse
que o Inferno
não era como os
padres mo diziam:
uma fornalha de nunca
se morrer...
mas sim um Jardim da
Europa
à beira-mar
plantado...
Eu teria tido
certamente mais juízo,
teria sido até o
mártir São Sebastião!
E inda há quem faça
propaganda disto:
a pátria onde Camões
morreu de fome
e onde todos enchem a
barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo
se passasse
numa Terra de
mulheres bonitas!
Mas as mulheres
portuguesas
são a minha
impotência!
E tu, meu rotundo e
pançudo-sanguessugo,
meu desacreditado
burguês apinocado
da rua dos
bacalhoeiros do meu ódio
co'a Felicidade em
casa a servir aos dias!
Tu tens em teu favor
a glória fácil
igual à de outros
tantos teus pedaços
que andam
desajuntados neste Mundo,
desde a invenção do
mau cheiro,
a estorvar o asseio
geral.
Quanto mais penso em
ti, mais tenho Fé e creio
que Deus perdeu de
vista o Adão de barro
e com pena fez outro
de bosta de boi
por lhe faltar o
barro e a inspiração!
E enquanto este Adão
dormia
os ratos roeram-lhe
os miolos,
e das caganitas
nasceu a Eva burguesa!
Tu arreganhas os
dentes quando te falam d'Orpheu
e pões-te a rir, como
os pretos, sem saber porquê.
E chamas-me doido a
Mim
que sei e sinto o que
Eu escrevi!
Tu que dizes que não
percebes;
rir-te-has de não
perceberes?
Olha Hugo! Olha Zola,
Cervantes e Camões,
e outros que não são
nada por te cantarem a ti!
Olha Nietzche! Wilde!
Olha Rimbaub e Dowson!
Cesário, Antero e
outros tantos mundos!
Beethoven, Wagner e
outros tantos génios
que não fizeram nada,
que deixaram este
mundo tal qual!
Olha os grandes o que
são estragados por ti!
O teu máximo é ser
besta e ter bigodes.
A questão é estar
instalado.
Se te livras de
burguês e sobes a talento, a génio,
a seres alguém,
o Bem que tu fizeres
é um décimo de seres fera!
E de que serve o
livro e a ciência
se a experiência da
vida
é que faz compreender
a ciência e o livro?
Antes não ter
ciências!
Antes não ter livros!
Antes não ter Vida!
Eu queria cuspir-te a
cara e os bigodes,
quando te vejo
apalermado p'las esquinas
a dizeres piadas às
meninas,
e a gostares das
mulheres que não prestam
e a fazer-lhes a
corte
e a apalpar-lhes o
rabo,
esse tão cantado belo
cu
que creio ser melhor
o teu ideal
que a própria mulher
do cu grande!
E casaste-te com Ela,
porque o teu ideal
veio pegado a Ela,
e agora à brocha
limpas a calva em pinga
à coca de cunhas p'ró
Cunha examinador
do teu décimo nono
filho
dezanove vezes parvo!
(É o caso mais
exemplar de Constância e fidelidade
a tua história sexual
co'a Felisberta,
desde o teu
primogénito tanso
'té ao décimo nono
idiota.)
'Té no matrimónio te
maldigo, infame cobridor!
Espécie de verme das
lamas dos pântanos
que de tanto se
encharcar em gozos
o seu corpo se
atrofiou
e o sexo elefantizado
foi todo o seu corpo!
Em toda a parte tu és
o admirador
e em toda a parte a
tua ignorância
tem a cumplicidade da
incompetência
dos que te falam 'té
dos lugares sagrados.
Sim! Eu sei que tu és
juiz
e qu'inda ontem
prometeste a tua amante,
despedindo-a num
beijo de impotente,
a condenação dos réus
que tivesses
se Ela faltasse à
matinée da Boa-Hora!
Pulha! E és tu que do
púlpito
d'essa barriga d'Água
da Curia
dás a ensinança de
trote
aos teus dezanove
filhos?!
Cocheiros, contai:
dezanove!!!
Zute!
bruto-parvo-nada
que Me roubaste tudo:
'té Me roubaste a
Vida
e não Me deixaste
nada!
nem Me deixaste a
Morte!
Zute!
poeira-pingo-micróbio
que gemes
pequeníssimos gemidos gigantes
grávido de uma dor
profeta colossal.
Zute!
elefante-berloque parasita do não presta!
Zute!
bugiganga-celulóide-bagatela!
Zute, besta!
Zute, bácoro!!
Zute, merda!!!
Em toda a parte o teu
papel é admirar,
mas (caso inf'liz)
nunca acertas numa
admiração feliz.
Lês os jornais e
admiras tudo do princípio ao fim
e se por desgraça vem
um dia sem jornais,
tens de ficar em casa
nos chinelos
porque nesse dia,
felizmente,
não tens opinião pra
levares à rua.
Mas nos outros dias
lá estás a discutir.
É que a Natureza é
compensadora:
quem não tem dinheiro
p'ra ir ao Coliseu
deve ter cá fora
razões p'ra se rir.
Só te oiço dizer dos
outros
a inveja de seres
como eles.
Nem ao menos, pobre
fadista,
a veleidade de seres
mais bruto?
Até os teus desejos
são avaros
como as tuas unhas
sujas e ratadas.
Ó meu gordo
pelintrão,
água-morna suja, broa
do outro v'rao!
Os homens são na
proporção dos seus desejos
e é por isso que eu
tenho a Concepção do Infinito...
Não te cora ser
grande o teu avô
e tu apenas o seu
neto, e tu apenas o seu esperma?
Não te dói Adão mais
que tu?
Não te envergonha o
teres antes de ti
outros muito maiores
que tu?
Jamais eu quereria
vir a ser um dia
o que o maior de
todos já o tivesse sido
eu quero sempre muito
mais
e mais ainda muito
pr'além-demais-Infinito...
Tu não sabes, meu
bruto, que nós vivemos tão pouco
que ficamos sempre a
meio-caminho do Desejo?
Em toda a parte o
bicho se propaga,
em toda a parte o
nada tem estalagem.
O meu suplício não é
somente de seres meu patrício
ou o de ver-te meu
semelhante,
tu, mesmo
estrangeiro, és besta bastante.
Foi assim que te
encontrei na Rússia
como vegetas aqui e
por toda a parte,
e em todos os ofícios
e em todas as idades.
Lá suportei-te muito!
Lá falavas russo
e eu só sabia o
francês.
Mas na França, em
Paris - a grande capital,
apesar de
fortificada,
foi assolada por esta
espécie animal.
E andam p'los cafés
como as pessoas
e vestem-se na moda
como elas,
e de tal maneira
domésticos
que até vão às
mulheres
e até vão aos
domésticos.
Felizmente que na
minha pátria,
a minha verdadeira
mãe, a minha santa Irlanda,
apenas vivi uns anos
d'Infância,
apenas me acodem
longinquamente
as festas ensuoradas
do priest da minha aldeia,
apenas ressuscitam
sumidamente
as asfixias da
tísica-mater,
apenas soam como
revoltas
as pistolas do
suicídio de meu pai,
apenas sinto
infantilmente
no leito de uma morta
o gelo de umas unhas
verdes,
um frio que não é do
Norte,
um beijo grande como
a vida de um tísico a morrer.
Ó Deus! Tu que m'os
levaste é que sabias
o ódio que eu lhes
teria
se não tivessem
ficado por ali!
Mas antes, mil vezes
antes, aturar os burgueses da My
Ireland
que estes desta Terra
que parece a pátria
deles!
Ó Horror! Os
burgueses de Portugal
têm de pior que os
outros
o serem portugueses!
A Terra vive desde
que um dia
deixou de ser bola do
ar
p'ra ser solar de
burgueses.
Houve homens de
talento, génios e imperadores.
Precisaram-se de
ditadores,
que foram sempre os
maiores.
Cansou-se o mundo a
estudar
e os sábios morreram
velhos
fartos de procurar
remédios,
e nunca acharam o
remédio de parar.
E inda eu hoje vivo
no século XX
a ver desfilar
burgueses
trezentas e sessenta
e cinco vezes ao ano,
e a saber que um dia
são vinte e quatro
horas de chatice
e cada hora sessenta
minutos de tédio
e cada minuto
sessenta segundos de spleen!
Ora bolas para os
sábios e pensadores!
Ora bolas para todas
as épocas e todas as idades!
Bolas pròs homens de
todos os tempos,
e prà intrujice da
Civilização e da Cultura!
Eu invejo-te a ti, ó
coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu
sentir a beleza de um almoço pontual
e a f'licidade de um
jantar cedinho
co'as bestas da
família.
Eu queria gostar das
revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas
mais que as boas
e enche-se o tempo
mais!
Eu queria, como tu,
sentir o bem-estar
que te dá a
bestialidade!
Eu queria, como tu,
viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de
seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu,
não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar
como tu!
Eu queria que a vida
fosse tão divinal
como tu a supões,
como tu a vives!
Eu invejo-te, ó
pedaço de cortiça
a boiar à tona
d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que
fundo que é o Mar!
Olha para ti!
Se te não vês,
concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro
o alfinete
que espetaste na
dobra do casaco,
e depois não percas o
sítio,
porque estás decerto
ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para
não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças!
Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda
qu'inda agora começaste!
Enioa-te no teu nojo,
mastodonte!
Indigesta-te na palha
dessa tua civilização!
Desbesunta te dessa
vermência!
Destapa a tua
decência, o teu imoral pudor!
Albarda te em senso!
Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro
amarelo e podre!
Do lazareto de seres
burro!
Desatrela-te do
cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da
vista!
Desilustra-te,
descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser
animal que besta!
Deixa antes crescer
os cornos que outros adornos da
Civilização!
Queria-te antes
antropófago porque comias os teus
– talvez o mundo
fosse Mundo
e não a retrete que
é!
Ahi! excremento do
Mal, avergonha-te
no infinitamente
pequeno de ti com o teu papagaio:
Ele fala como tu e
diz coisas que tu dizes
e se não sabe mais é
por tua culpa, meu mandrião!
E tu, se não fossem
os teus pais,
davas guinchos, meu
saguim!
- Tu és o papagaio de
teus pais!
Mas há mais, muito
mais
que a tua
ignorância-miopia te cega.
Empresto-te a minha
Inteligência.
Vê agora e não
desmaies ainda!
Então eu não tinha
razão?
P'ra que me chamavas
doido
quando eu m'enjoava
de ti?
Ah! Já tens medo?!
Porque te rias da
vida
e ias ensuorar as
vrilhas nos fauteuils das revistas
co'as pernas fogo de
vistas
das coristas de
petróleo?
Porque davas palmas
aos compéres e actorecos
pelintras e fantoches
antes do palco, no
palco e depois do palco?
Ora dize-Me com
franqueza:
Era por eles terem
piada?
Então era por a não
terem
Ah! Era p'ra tu teres
piada, meu bruto?!
Porque mandaste de
castigo os teus filhos p'r'ás Belas-Artes
quando ficaram mal na
instrução primária?
Porque é que dizes a
toda a gente que o teu filho idiota
estuda p'ra poeta?
Porque te casaste com
a tua mulher
se dormes mais vezes
co'a tua criada?
Porque bateste no teu
filho quando a mestra
te contou as
indecências na aula?
Não te lembras das
que tu fizeste
com a própria mestra
de moral?
Ou queres tu ser
decente,
tu, que tens dezanove
filhos?!
Porque choraste tanto
quando te desonraram a filha?
Porque lhe quiseste
matar o amante?
Não achas isto
natural? Não achas isto interessante?
Porque não choraste
também pelo amante?...
Deixa! Deixa! Eu não
te quero morto com medo de ti-próprio!
Eu quero-te vivo,
muito vivo, a sofrer!
Não te despetes do
alfinete!
Eu abro a janela pra
não cheirar mal!
Galopa a tua
bestialidade
na memória que eu
faço dos teus coices,
cavalga o teu
insecticismo na tua sela de D. Duarte!
Arreia-te de
Bom-Senso um segundo! peço-te de joelhos.
Encabresta-te de
Humanidade
e eu passo-te uma
zoologia para as mãos
p'ra te inscreveres
na divisão dos Mamíferos.
Mas anda primeiro ao
Jardim Zoológico!
Vem ver os
chimpanzés! Acorpanzila-te neles se te ousas!
Sagra-te de cu-azul a
ver se eles te querem!
Lá porque aprendeste
a andar de mãos no ar
não quer dizer que
sejas mais chimpanzé que eles!
Larga a cidade
masturbadora, febril,
rabo decepado de
lagartixa,
labirinto cego de
toupeiras,
raça de ignóbeis
míopes, tísicos, tarados,
anémicos, cancerosos
e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infâmia das
ruas e dos boulevards
esse vaivém cínico de
bandidos mudos
esse mexer esponjoso
de carne viva
Esse ser-lesma
nojento e macabro
Esse S ziguezague de
chicote auto-fustigante
Esse ar expirado e
espiritista...
Esse Inferno de Dante
por cantar
Esse ruído de sol
prostituído, impotente e velho
Esse silêncio
pneumónico
de lua enxovalhada
sem vir a lavadeira!
Larga a cidade e
foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da
família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge
dela, larga tudo!
Nem te prendas com
lágrimas, que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás
- vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro,
deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo
primeiro, ouviste?
Larga tudo!
– Os outros, os
sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti
também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para
o campo
e larga o campo
também, larga tudo!
– Põe-te a nascer
outra vez!
Não queiras ter pai
nem mãe,
não queiras ter
outros nem Inteligência!
A Inteligência é o
meu cancro
eu sinto-A na cabeça
com falta de ar!
A Inteligência é a
febre da Humanidade
e ninguém a sabe
regular!
E já há Inteligência
a mais pode parar por aqui!
Depois põe-te a viver
sem cabeça,
vê só o que os olhos
virem,
cheira os cheiros da
Terra
come o que a Terra
der,
bebe dos rios e dos
mares,
- põe-te na Natureza!
Ouve a Terra,
escuta-A.
A Natureza à vontade
só sabe rir e cantar!
Depois, põe-te a coca
dos que nascem
e não os deixes
nascer.
Vai depois pla noite
nas sombras
e rouba a toda a
gente a Inteligência
e raspa-lhos a cabeça
por dentro
co'as tuas unhas e
cacos de garrafa,
bem raspado, sem
deixar nada,
e vai depois depressa
muito depressa
sem que o sol te veja
deitar tudo no mar
onde haja tubarões!
Larga tudo e a ti
também!
Mas tu nem vives nem
deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo,
cartola d'espanta-pardais!
Mas hás-de pagar-Me a
febre-rodopio
novelo emaranhado da
minha dor!
Mas hás-de pagar-Me a
febre-calafrio
abismo-descida de Eu
não querer descer!
Hás-de pagar-Me o
Absinto e a Morfina
Hei-de ser cigana da
tua sina
Hei-de ser a bruxa do
teu remorso
Hei-de desforra-dor
cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de
Goya
e no cavalo de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei-de feiticeira a
galope na vassoura
largar-te os meus
lagartos e a Peçonha!
Hei-de Vara Magica
encantar-te Arte de Ganir
Hei-de reconstruir em
ti a escravatura negra!
Hei-de despir-te a
pele a pouco e pouco
e depois na
carne-viva deitar fel,
e depois na
carne-viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros.
Hei-de gozar em ti as
poses diabólicas
dos teatrais venenos
trágicos do persa Zoroastro!
Hei-de rasgar-te as
virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas
canelas mirradas
o negro pendão dos
piratas!
Hei-de corvo marinho
beber-te os olhos vesgos!
Hei-de bóia do
Destino ser em brasa
e tua náufrago das
galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto
ainda, muito mais:
Hei-de ser a mulher
que tu gostes,
hei-de ser Ela sem te
dar atenção!
Ah! que eu sinto
claramente que nasci
de uma praga de
ciúmes.
Eu sou as sete pragas
sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias
a penar!...
de José Almada
Negreiros
poeta sensacionista
e Narciso do Egipto.
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