Francisco Caro - Poética do cuidado / Poética del cuidado

 


Que a palavra limpe as feridas,

seja bastão seguro para algumas pernas fracas,

lente para aqueles olhos a que a névoa tira a vista,

altifalante de gargantas sem sino,

lenço dessas lágrimas que não esperam chegar ao mar,

e colher que não hesita diante de bocas fechadas

que se negam para a vida.

 

E que o homem que leve às costas

a mochila com as lentes e bastões,

altifalantes, lenços e colheres,

de seus silêncios faça escola de segredos

e trono de humildade.

 

  Tradução de A.M.


  Original:


Que la palabra limpie heridas,

sea bastón seguro para unas piernas débiles,

lente para esos ojos a quien la niebla oculta su horizonte,

altavoz de gargantas sin campana,

pañuelo de esas lágrimas que no esperan volver a ver el mar,

y cuchara que nunca titubea ante bocas cerradas 

negándose a la vida.

 

Y que el hombre que cargue a sus espaldas

su mochila repleta de bastones y lentes,

altavoces, pañuelos y cucharas,

haga de sus silencios escuela de secretos

y trono de humildad.


      O poema valoriza o cuidado como atitude essencial perante a vida, os outros e o mundo. A linguagem, aparentemente simples e contida, transforma gestos quotidianos em expressões de atenção, proximidade e responsabilidade. O sujeito poético sugere que cuidar implica reconhecer a fragilidade e a importância de cada existência. O poema contrapõe, assim, a indiferença à disponibilidade para acolher e proteger.


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