Afonso Portinha - A Cotovia | Part. Isabel Silvestre



Bala Grande, se me ouves, diz-me o que aconteceu

Se quem cantava foi embora, ou se quem cantava morreu

O fogo que te queimou renovou-te para melhor

Mas o que mais se renovou parece que foi p’ra pior.


  Eu ouvi a cotovia

  cantar naquela ramada

  Cotovia foste embora, ou tua voz foi calada

  diante de tanta tristeza a morte é quase nada.


Vilarinho sobe aos altos vai ao encontro do céu

Procura velhos caminhos onde a vida se perdeu

Vê o iteiro do vintém ou o alto da sacristia

Foi lá que o sol se escondeu fez-se noite ao meio-dia

Oh, alto das cabeçadas que tamanha solidão

O frio que vem da Estrela congelou-te o coração.


Até o cruzeiro do Alto símbolo que o amor construiu

O musgo cobriu-lhe as faces e todo o amor já partiu

A Mouta e a caparreira velhas parecem melhor,

Se um dia o fogo queimar não renoveis p’ra pior

Olhai as terras a monte que um dia foram de pão

Que os velhinhos cultivavam com o amor do coração.


      "Uma canção popular "desenhada" pelo meu tio Silvestre Gomes, que reflete a tristeza dele ao perceber que, após muitos anos de ausência da sua terra natal, Vilarinho, esta já não tinha o amor daqueles que cultivavam as terras, ou os cantares que davam cor às serras".


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