Carlos Salem - Testamento de dúvidas



O que será destes meus escritos, tão alheios,

no dia em que eu já cá não esteja para os nomear?

Quem apanhará do chão os versos

quando se desfolhar o tempo que me cabe?


Farão contas os meus herdeiros de alguns improváveis benefícios,

ou negarão qualquer relação com este batoteiro de poemas

que quis só meter a mão e a palavra por baixo das saias da vida

(e conseguiu às vezes)?


Disputarão os meus amores a provocação de uma estrofe,

esquecendo que amar não é mais do que repetir-se a si mesmo?

Organizarão um congresso de despeitas e perdões

com o peito ao vento e copos e pernas ao alto?

Lamentarão ter concedido os seus favores a um autor

mais interessado no mistério de certas virilhas

do que no futuro dos mercados?


Não chegarei a sabê-lo, felizmente.

Por isso escrevo.

Por isso amo.


Tradução A.M.


      No poema, o sujeito poético constrói um legado assente na incerteza, recusando verdades absolutas. A dúvida surge como forma de liberdade intelectual e emocional, revelando uma visão existencial marcada pela ironia e pela lucidez. O tom intimista aproxima o leitor das fragilidades humanas, enquanto a linguagem simples intensifica a profundidade reflexiva. 


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