O
que será destes meus escritos, tão alheios,
no
dia em que eu já cá não esteja para os nomear?
Quem
apanhará do chão os versos
quando
se desfolhar o tempo que me cabe?
Farão
contas os meus herdeiros de alguns improváveis benefícios,
ou
negarão qualquer relação com este batoteiro de poemas
que
quis só meter a mão e a palavra por baixo das saias da vida
(e
conseguiu às vezes)?
Disputarão os meus amores a provocação de uma estrofe,
esquecendo
que amar não é mais do que repetir-se a si mesmo?
Organizarão
um congresso de despeitas e perdões
com
o peito ao vento e copos e pernas ao alto?
Lamentarão
ter concedido os seus favores a um autor
mais
interessado no mistério de certas virilhas
do
que no futuro dos mercados?
Não
chegarei a sabê-lo, felizmente.
Por
isso escrevo.
Por
isso amo.
Tradução A.M.
No poema, o sujeito poético constrói um legado assente na incerteza, recusando verdades absolutas. A dúvida surge como forma de liberdade intelectual e emocional, revelando uma visão existencial marcada pela ironia e pela lucidez. O tom intimista aproxima o leitor das fragilidades humanas, enquanto a linguagem simples intensifica a profundidade reflexiva.

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