"Baldia" é uma canção que nasce do encontro entre o Coro dos Anjos (o coro do bairro dos Anjos de Lisboa, que tem vindo a revigorar o cancioneiro popular português) e as Cantadeiras do Campo do Gerês (grupo tradicional de canto polifónico que preserva o cancioneiro geresiano). Mais do que uma cantiga, "Baldia" é uma prática coletiva de memória, cuidado e relação com a terra.
A canção parte de frases escritas pelas Cantadeiras,
inspiradas nas memórias, vivências e no papel histórico que as mulheres da
comunidade geresiana desempenhavam na gestão dos bens comuns que sustentam a
vida. Esses textos foram posteriormente reorganizados e transformados em música
num processo coletivo, com contributos centrais de Mafalda Corvacho (letra),
Helena Leonardo (melodia) e Edgar Valente (arranjos), culminando numa criação
que assume o baldio como prática artística e política.
Ai!
Se
ao menos um dia o povo sentisse
Que a
gente herda terra e a terra herda gente
Se
ao menos pudesse ser assim baldia
Espalhada
em rosas em dura teonia
Espalhada
p’la rua, sem medo nem vão
Em
cada pessoa a sentir-me chão.
Ir viver assim, baldia baldia
Se
ao menos um dia, baldia baldia
Ir viver assim se ao menos um dia.
Não
sou mãe de ninguém, mas sou tia de todos
Tempero
o comer, ai!, com o sal dos choros
Vou
venho e ocupo, semeio e faço feito
Zeladora
guardo os meus nas covas do meu peito
Hei-de
ser por mim, quero a vida verdadeira
Sou
de todos de ninguém, da terra por inteira.
Ir viver assim, baldia baldia
Se
ao menos um dia, baldia baldia
Ir viver assim se ao menos um dia.
Ir viver assim, baldia baldia
Se
ao menos um dia já bem me valia
Ir viver assim, baldia baldia
A
menos que um dia me seque a alegria.
Ai!
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