Nesse sentido, ela acreditava que sendo a terra a grande casa
lá em cima haveria, com certeza, electrificação
e que à noite alguém apagava as lâmpadas celestes
como o seu pai apagava as de casa
para que a embalasse a escuridão.
Na escola, chamavam-na frequentemente de burra.
Com a sua crina amiantada até às espáduas
e os dentes do tamanho de ferraduras
encovados entre uma grossa pasta de labello rosa,
ela não se sentia burra porque não se sentia nada.
Hoje relembro Hélia, menos cruelmente do que então,
criança que cegou da cabeça a brincar ao sol
irritada quando o grande tecto deixava passar a água
ou as cortinas (de puro algodão) encobriam o candeeiro
da sala de estar (que de tão bonito devia ter custado um
dinheirão).
Imagino-a hoje gastando a fortuna em alguidares
espalhando-os pelo mundo fora à hora das tempestades
com uma dedicação tão inexcedível quanto a candura
afixada no seu rosto de dona de casa espacial.
Há pessoas, assim, que cegam a brincar ao sol. Na vida, essas, têm um lugar especial no coração. Ana Salomé é o pseudónimo de Ana Catarina Rocha, que nasceu em Lisboa a 29 de Setembro de 1982, estudou canto na Casa do Artista, em Braga fez parte do Cais de Veludo - uma banda de circuitos independentes. Terminada a licenciatura em Estudos Portugueses, pela Universidade do Minho, deu aulas de Português para Estrangeiros como Leitora. Fez mestrado sobre a obra O Anjo Mudo, de Al Berto. É doutoranda em Estudos Culturais e é responsável pela revista de poesia do CLEPUL, Golpe d'asa. A sua escrita é penetrante.

Sem comentários:
Enviar um comentário