Para António Damásio
Há coisas que pedem silêncio
o mesmo silêncio das pedras no fundo do rio
dos peixes nos igarapés, da aranha no paiol vazio
a mudez das rochas e dos musgos.
Há coisas que devem permanecer caladas, intocadas
Entaladas na garganta como o choro que se engole
Dissimulado, amargo.
Há coisas que pedem para serem engasgadas
para ficarem dentro da gente como tutano
pulsando por se mostrarem vivas
estigmas
não mais que isso.
Há segredos que devem morrer sagrados
ocultos, enterrados, como fossem fósseis
no sítio arqueológico da alma
sob olhares quase-mortos
e cheios de tristeza e desencanto
sem dor, lamento ou pranto.
Há coisas que exigem silêncio
mas é sobre essas coisas que o poeta berra
que os poemas uivam
que os versos gritam
para quem as quiser ouvir
e se ensurdecer.
Porque o amor, Sr. Leonardo, é maior que a verdade.

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