Leonardo Almeida Filho - Tutano

 


                                  Para António Damásio

 

Há coisas que pedem silêncio

o mesmo silêncio das pedras no fundo do rio

dos peixes nos igarapés, da aranha no paiol vazio

a mudez das rochas e dos musgos.

 

Há coisas que devem permanecer caladas, intocadas

Entaladas na garganta como o choro que se engole

Dissimulado, amargo.

 

Há coisas que pedem para serem engasgadas

para ficarem dentro da gente como tutano

pulsando por se mostrarem vivas

estigmas

não mais que isso.

 

Há segredos que devem morrer sagrados

ocultos, enterrados, como fossem fósseis

no sítio arqueológico da alma

sob olhares quase-mortos

e cheios de tristeza e desencanto

sem dor, lamento ou pranto.

 

Há coisas que exigem silêncio

mas é sobre essas coisas que o poeta berra

que os poemas uivam

que os versos gritam

para quem as quiser ouvir

e se ensurdecer.


      Porque o amor, Sr. Leonardo, é maior que a verdade.

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