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A
menina apareceu grávida de um gavião.
Veio
falou para a mãe: O gavião me desmoçou.
A
mãe disse: Você vai parir uma árvore para
a
gente comer goiaba nela.
E
comeram goiaba.
Naquele
tempo de dantes não havia limites
para
ser.
Se a
gente encostava em ser ave ganhava o
poder
de alçar.
Se a
gente falasse a partir de um córrego
a
gente pegava murmúrios.
Não
havia comportamento de estar.
Urubus
conversavam sobre auroras.
Pessoas
viravam árvore.
Pedras
viravam rouxinóis.
Depois
veio a ordem das coisas e as pedras
têm
que rolar seu destino de pedra para o resto
dos
tempos.
Só
as palavras não foram castigadas com
a
ordem natural das coisas.
As
palavras continuam com os seus deslimites.
O poema celebra a imaginação como força capaz de ultrapassar
os limites da realidade. A transformação de pessoas em árvores e de pedras em
rouxinóis revela um mundo onde tudo é possível. A expressão «deslimites»
sintetiza essa liberdade criadora, contraposta à «ordem natural das coisas»,
que impõe destinos fixos. A linguagem poética resiste a essa imposição,
preservando a capacidade de reinventar o mundo. Assim, a poesia torna-se um
espaço de liberdade absoluta, onde a imaginação permanece inesgotável.

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