O poema 10 da "Biografia do Orvalho", de Manoel de Barros

 


10


A menina apareceu grávida de um gavião.

Veio falou para a mãe: O gavião me desmoçou.

A mãe disse: Você vai parir uma árvore para

a gente comer goiaba nela.

E comeram goiaba.

Naquele tempo de dantes não havia limites

para ser.

Se a gente encostava em ser ave ganhava o

poder de alçar.

Se a gente falasse a partir de um córrego

a gente pegava murmúrios.

Não havia comportamento de estar.

Urubus conversavam sobre auroras.

Pessoas viravam árvore.

Pedras viravam rouxinóis.

Depois veio a ordem das coisas e as pedras

têm que rolar seu destino de pedra para o resto

dos tempos.

Só as palavras não foram castigadas com

a ordem natural das coisas.

As palavras continuam com os seus deslimites.


      O poema celebra a imaginação como força capaz de ultrapassar os limites da realidade. A transformação de pessoas em árvores e de pedras em rouxinóis revela um mundo onde tudo é possível. A expressão «deslimites» sintetiza essa liberdade criadora, contraposta à «ordem natural das coisas», que impõe destinos fixos. A linguagem poética resiste a essa imposição, preservando a capacidade de reinventar o mundo. Assim, a poesia torna-se um espaço de liberdade absoluta, onde a imaginação permanece inesgotável.


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