José Miguel Silva - A caminho do fogão

 


Adoro essa paixão absurda que tens por Hitchcock,

o ar despenteado com que chegas a casa e me dizes:

outra vez sopa de nabos; adoro a impaciência com

que me arrancas aos diálogos com o nada, quando

me contas os teus feitos na república do frio; adoro

a tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja

de banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;

outrossim acompanhar-te nas perguntas sublinhadas

pelo tempo, e o teu corpo possuído pela mágica

da música amorosa, quando dança seminu à minha

frente e eu só penso: que bem feito está o mundo.


      O poema explora o quotidiano através de uma linguagem aparentemente simples, mas carregada de ironia e reflexão. O gesto doméstico sugerido pelo título ganha uma dimensão simbólica, revelando como os atos banais podem expor tensões, hábitos e contradições da existência. O poeta observa o mundo com lucidez crítica, recusando idealizações e valorizando o detalhe concreto. A contenção verbal, aliada ao humor subtil, transforma uma situação comum numa oportunidade de questionar comportamentos e relações humanas.


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