Adoro
essa paixão absurda que tens por Hitchcock,
o ar
despenteado com que chegas a casa e me dizes:
outra
vez sopa de nabos; adoro a impaciência com
que
me arrancas aos diálogos com o nada, quando
me
contas os teus feitos na república do frio; adoro
a
tua insónia, os teus escrúpulos morais, a tua esponja
de
banho, o teu espírito lavado por agudos desenganos;
outrossim
acompanhar-te nas perguntas sublinhadas
pelo
tempo, e o teu corpo possuído pela mágica
da
música amorosa, quando dança seminu à minha
frente
e eu só penso: que bem feito está o mundo.
O poema explora o quotidiano através de uma linguagem
aparentemente simples, mas carregada de ironia e reflexão. O gesto doméstico
sugerido pelo título ganha uma dimensão simbólica, revelando como os atos
banais podem expor tensões, hábitos e contradições da existência. O poeta
observa o mundo com lucidez crítica, recusando idealizações e valorizando o
detalhe concreto. A contenção verbal, aliada ao humor subtil, transforma uma
situação comum numa oportunidade de questionar comportamentos e relações
humanas.

Sem comentários:
Enviar um comentário