Fernando Guimarães - As cerejeiras de Kudan

 


Falemos acerca das cerejeiras de Kudan, no Japão.

É uma colina onde estão os corpos dos que morreram.

Nela há muito que crescem as cerejeiras. Todos os anos,

com a passagem das estações, vêmo-las em flor.

Talvez na sua seiva passe o espírito dos que apenas receberam

o silêncio que se segue aos combates. 

Eram soldados; tinham por isso de matar. Obedeciam a ordens.

A morte era para eles uma cerimónia e se depois partiram para Kudan 

é porque a vida já não lhes pertencia.

Outrora ao amadurecerem as cerejas, principiavam a colhê-las,

mas compreenderam que as iam depois perder. 

O tempo passou por ali mais depressa. Agora que idade têm?


in, Das Mesmas Fontes


      No poema, a beleza das flores no pomar de Kudan contrasta com a memória trágica da guerra. As cerejeiras, que renascem em cada primavera, simbolizam a continuidade da natureza perante a morte dos soldados. A obediência às ordens militares revela a perda de liberdade individual, enquanto a juventude é interrompida. A pergunta final sobre a idade dos mortos reforça a passagem do tempo e a impossibilidade de recuperar essas vidas.


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