Ana Blandiana - Sem saber / Sin saber

 


Evidentemente não sou

como esses fiandeiros de palavras

que fazem as roupas e as corridas de agulha,

as glórias, os orgulhos,

apesar de me mover no meio deles

e eles me olharem as palavras como se fossem malhas

– "Que bem posta que vais!", dizem-me,

– "Que bem que te fica o poema!"

sem saber

que os poemas não são o meu vestido,

mas o esqueleto

extraído com dor

e posto por cima da carne como uma carapaça,

tal como as tartarugas,

que assim sobrevivem

séculos

longos e infelizes.


  Tradução de A.M.


  Original:


Por supuesto que no me parezco

A ninguno de esos tejedores de palabras

Que tejen trajes y carreras,

Vanidades, orgullos,

Aunque me mueva entre ellos

Y ellos miren mis palabras como si fueran jerséis

"¡Qué bien vistes!", —me dicen,

"¡Qué bien te va el poema!",

 Sin saber

Que los poemas no son mi vestimenta

Sino mis huesos

Extraídos dolorosamente

Y colocados sobre mi carne como un caparazón

A imitación de las tortugas

Que sobreviven así

Durante largos e infelices

Siglos.


      O poema refuta a poesia cosmética e artificial dos "fiandeiros de palavras". Distanciando-se de quem usa o verso para construir vaidades e carreiras, a autora defende que a escrita autêntica não é um adorno ou vestuário social. Pelo contrário, o poema surge como o seu próprio esqueleto exposto, extraído através da dor. Utilizando a metáfora da carapaça da tartaruga, Blandiana apresenta a criação poética como um mecanismo doloroso, mas vital.


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