Sophia de Mello Breyner Andresen - Eis-me

 


Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face


Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio


Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente


  in, "Livro Sexto"


      A voz do poema apresenta-se numa atitude de disponibilidade, presença e procura de verdade. O título, breve e afirmativo, traduz uma declaração de existência e entrega perante o mundo. A poesia surge como forma de encontro, revelando a tensão entre a fragilidade humana e o desejo de plenitude, justiça e harmonia com o universo.


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