Ruy Belo - A Rapariga de Cambridge

 


Queria conhecer intimamente conhecer

a rapariga anónima estendida no relvado

ao sol distante de um colégio de Cambridge

Perdida na distância nem sei bem

se é uma mulher se rapariga

mais uma das amadas raparigas

Sei apenas que lê não sei o quê

e é simples objeto recortado

na margem verde intensamente verde

após a água mansa que reflete os edifícios

Urgente é conhecer aquela que só veio num postal

mandado por alguém que certamente não sabia

o que essa rapariga ao sol para mim significaria

Ela devia saber um português profundíssimo

ou talvez as coisas que eu tinha para lhe dizer

as conseguisse de repente dizer num inglês

que fosse a melhor parte de mim

Definitivamente todo este dia-a-dia

contra o qual esmago a minha melhor lança

como que um sobressalto passaria

O meu reino pela rapariga de Cambridge

Se eu a conhecesse mas no momento da fotografia

sentindo agora o que à distância sinto

pode dizer-se que seria feliz

Só assim o seria finalmente

há uma força obscura que mo diz.


  in, Homem de Palavra(s), 1969


      O poema nasce da contemplação de uma fotografia que desperta no sujeito poético um intenso desejo de conhecer uma jovem anónima e distante. A rapariga transforma-se numa figura idealizada, símbolo de uma felicidade possível, mas inalcançável. A distância alimenta a imaginação e permite projetar nela sonhos, palavras e uma vida diferente. A fotografia funciona como instante suspenso, capaz de interromper a rotina e o desgaste quotidiano.


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