Não
gosto de contar os desastres em detalhe
mas,
se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou
bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar
o medo,
cortar-me
a mão com que limpo as feridas
de
uma civilização em queda.
Posso
perfeitamente
ir
afiando o gume da esperança
com
a flor branca de um cancro.
Sou,
em definitivo, este comediante de rua
que
serve a desconhecidos,
em
copos pequenos,
a
medida certa da sua agonia.
Descobre
sonhos
onde
outros só encontram coelhos.
Hoje,
por exemplo, quando tirou as luvas,
viu
que lhe faltavam os dedos.
O poema explora a dificuldade de transformar a experiência em
narrativa. O poema revela uma voz poética desconfiada da linguagem, como se
contar significasse simplificar ou trair aquilo que foi vivido. Entre a
memória, o silêncio e a fragmentação, constrói-se uma reflexão sobre os limites
da palavra.

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