Golgona Anghel - Não gosto de contar



Não gosto de contar os desastres em detalhe

mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.


Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,

condecorar o medo,

cortar-me a mão com que limpo as feridas

de uma civilização em queda.


Posso perfeitamente

ir afiando o gume da esperança

com a flor branca de um cancro.


Sou, em definitivo, este comediante de rua

que serve a desconhecidos,

em copos pequenos,

a medida certa da sua agonia.

Descobre sonhos

onde outros só encontram coelhos.

Hoje, por exemplo, quando tirou as luvas,

viu que lhe faltavam os dedos.


      O poema explora a dificuldade de transformar a experiência em narrativa. O poema revela uma voz poética desconfiada da linguagem, como se contar significasse simplificar ou trair aquilo que foi vivido. Entre a memória, o silêncio e a fragmentação, constrói-se uma reflexão sobre os limites da palavra.


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