Floribunda, minha querida, vim desligar-te das máquinas.
Tens aqui duas bolachas e um sumo para o caminho.
Não havia de pêra como tu querias,
se bem que lá em cima (ou em baixo, conforme)
pouco importa.
Ouvi dizer que sobre a alma tens um calhau e
sobre o calhau um balde de tinta
que te pinta de pobre e te julga inútil.
Sempre foste um mau negócio.
Permaneces igual.
Estragaste o autoclismo cá do sítio
como estragavas os meus dias de folga.
Mas nada te toca.
Moldas em vão estas cruzes de espera.
Na apatia dos crepúsculos,
o Inverno inventa a tua última palavra.
Escuta.
É por ti que os grilos cantam
e a noite se prepara para regressar
no
interior das gavetas.
O poema de Golgona Anghel, confronta o leitor com uma relação
marcada pela fragilidade, pela doença e pela proximidade da perda. A expressão
«desligar-te das máquinas» adquire um forte valor simbólico, sugerindo
simultaneamente despedida, compaixão e libertação. O tratamento íntimo de «minha querida» contrasta com
a dimensão técnica das «máquinas», revelando a tensão entre humanidade,
sofrimento e inevitabilidade.

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