Golgona Anghel - Devia escrever coisas mais divertidas"



Devia escrever coisas mais divertidas,

entreter as massas.

Evitar, ao menos, cenas tristes,

mudar de roupa uma vez por mês.

Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo,

dos seus humores.

Entrar na biopolítica, usar os seus métodos.

Engravidar uma ideia alegre.

Enfim, nada contra os suicidas de carreira

e os demais performers do além.

Não é que não me apeteça largar-te

num elétrico sem travões.

Deixar-te num país estrangeiro,

sem dinheiro e sem memória.

Não se iludam, ainda sei baixar as calças.

Fazer o truque.

Mas se o meu psiquiatra ler isto,

vai achar que o tratamento

já não funciona.


      O poema utiliza o humor negro, o sarcasmo e o tom confessional para ironizar as exigências do mercado literário e da sociedade contemporânea (marcada pelo imperativo da positividade, do bem-estar obrigatório e da biopolítica). O Eu Lírico confronta a expectativa de que a poesia deve entreter e ser "alegre" ou leve, contrapondo-a à realidade crua dos afetos, dos humores do corpo e do descontentamento existencial.


Sem comentários:

Arquivo do blogue