Devia
escrever coisas mais divertidas,
entreter
as massas.
Evitar,
ao menos, cenas tristes,
mudar
de roupa uma vez por mês.
Podia,
decerto, afastar-me, sair do corpo,
dos
seus humores.
Entrar
na biopolítica, usar os seus métodos.
Engravidar
uma ideia alegre.
Enfim,
nada contra os suicidas de carreira
e os
demais performers do além.
Não
é que não me apeteça largar-te
num
elétrico sem travões.
Deixar-te
num país estrangeiro,
sem
dinheiro e sem memória.
Não
se iludam, ainda sei baixar as calças.
Fazer
o truque.
Mas
se o meu psiquiatra ler isto,
vai
achar que o tratamento
já
não funciona.
O poema utiliza o humor negro, o sarcasmo e o tom
confessional para ironizar as exigências do mercado literário e da sociedade
contemporânea (marcada pelo imperativo da positividade, do bem-estar
obrigatório e da biopolítica). O Eu Lírico confronta a expectativa de que a
poesia deve entreter e ser "alegre" ou leve, contrapondo-a à
realidade crua dos afetos, dos humores do corpo e do descontentamento
existencial.

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