Eternamente Exausto - Vinicius de Moraes | Júlia Sonati

 


      A conclusão central do poema "Ausência" de Vinícius de Moraes é um profundo paradoxo sobre a natureza do amor: a verdadeira posse não reside na presença física ou na união carnal, mas sim na capacidade de idealização e na aceitação da ausência. O eu lírico, sentindo-se "eternamente exausto" e incapaz de oferecer um amor convencional sem contaminá-lo com as suas mágoas passadas, opta pela renúncia. Ele eleva o sentimento a um plano estético e espiritual, onde a pessoa amada se torna uma fonte de "fé" e inspiração que ameniza sua existência marcada.


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada

Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.

Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


      No desfecho, a solidão não é vista como uma derrota, mas como uma condição necessária para uma forma superior de união. Ao abrir mão da realidade compartilhada e aceitar que a amada viverá outros amores, o poeta absorve a essência dela através do universo — o mar, os céus e as estrelas. Essa abstração permite que ele a "possua mais do que ninguém", pois transforma a voz ausente na voz presente e eternamente serenizada da sua própria alma, garantindo que o amor sobreviva e se eternize precisamente porque não foi consumado.

      José Meireles


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