Ana Martins Marques - As casas pertencem aos vizinhos

 


As casas pertencem aos vizinhos

os países aos estrangeiros

os filhos são das mulheres

que não quiseram filhos

as viagens são daqueles

que nunca deixaram a sua aldeia

como as fotografias por direito pertencem

aos que não saíram na fotografia


— é dos solitários, o amor.


      O poema constrói-se a partir de associações paradoxais sobre a ideia de pertença. As casas, os países, os filhos, as viagens e as fotografias parecem pertencer precisamente a quem deles está afastado. Esta inversão cria uma reflexão sobre o desejo, a ausência e a distância entre possuir e experimentar. A repetição da estrutura sintática dá ritmo e reforça o efeito de estranheza. No verso final, a solidão surge como condição paradoxal do amor, revelando que aquilo que se deseja pode pertencer sobretudo a quem dele está privado. A pintura é de Edvard Munch, Two Human Beings (The Lonely Ones).


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