Desse Verão quero só recordar
o olhar cúmplice
da vizinha que apanhava sol
despida e sorriu com agrado
ao dar conta de que eu a contemplava,
e esse instante fugaz, irrepetível,
de total quietude, em que o mundo ficou
deserto de si mesmo e era um vidro
transparente e a seguir de novo compacto.
O Verão não será outra coisa,
quero dizer, esse Verão, e se alguém me vier
com as mil bagatelas inefáveis
que compõem os dias e
as noites,
eu direi apenas: - Não me lembro.
Tradução de A.M.
Original:
Sólo quiero recordar de este verano
la mirada cómplice
de una vecina que tomaba el sol
desnuda y sonrió complacida
al darse cuenta de que la contemplaba,
y aquel instante fugaz, irrepetible,
de total quietud, en que el mundo quedó
desierto de sí mismo y era un cristal
transparente y de nuevo compacto.
El verano no será otra cosa,
este verano, quiero decir, y si alguien me habla
de aquellas mil bagatelas inefables
que componen los días y las noches,
diré tranquilamente: - No me acuerdo.
O poema valoriza
os pequenos elementos do quotidiano como portadores de memória, identidade e
afeto. A atenção ao detalhe transforma o banal em símbolo da existência,
sugerindo que a verdadeira riqueza reside naquilo que frequentemente ignoramos.
O poema celebra, assim, a dignidade do quotidiano e a intimidade da memória.

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