Miquel Martí i Pol - Coisas / Cosas

 


Desse Verão quero só recordar

o olhar cúmplice

da vizinha que apanhava sol

despida e sorriu com agrado

ao dar conta de que eu a contemplava,

e esse instante fugaz, irrepetível,

de total quietude, em que o mundo ficou

deserto de si mesmo e era um vidro

transparente e a seguir de novo compacto.

O Verão não será outra coisa,

quero dizer, esse Verão, e se alguém me vier

com as mil bagatelas inefáveis

que compõem os dias e  as noites,

eu direi apenas: - Não me lembro.

 

  Tradução de A.M.

 

  Original:

 

Sólo quiero recordar de este verano

la mirada cómplice

de una vecina que tomaba el sol

desnuda y sonrió complacida

al darse cuenta de que la contemplaba,

y aquel instante fugaz, irrepetible,

de total quietud, en que el mundo quedó

desierto de sí mismo y era un cristal

transparente y de nuevo compacto.

El verano no será otra cosa,

este verano, quiero decir, y si alguien me habla

de aquellas mil bagatelas inefables

que componen los días y las noches,

diré tranquilamente: - No me acuerdo.

 

      O poema valoriza os pequenos elementos do quotidiano como portadores de memória, identidade e afeto. A atenção ao detalhe transforma o banal em símbolo da existência, sugerindo que a verdadeira riqueza reside naquilo que frequentemente ignoramos. O poema celebra, assim, a dignidade do quotidiano e a intimidade da memória.


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