José Saramago - Cria a natureza

 


      Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável brutidade.

      Entre mortos e aleijados, considera, não faltará quem escape para garantir os resultados da gerência, modo ambivalente e portanto equívoco de substantivar o gerir e o gerar, com aquela confortável margem de imprecisão que produz as mutações do que se diz, do que se faz e do que se é.

      Não marca a natureza coutadas, mas aproveita delas.

      E se depois das ceifas os mil formigueiros da seara não têm celeiro igual, os ganhos e perdas vão todos à grande contabilidade do planeta e nenhuma formiga fica sem a sua estatística parte de alimento.

      Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções: quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros.

      A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade.

      É tudo muito fácil, muito claro e muito justo, porque, de memória de formiga ou elefante, ninguém tal contestou no grande reino dos animais.

 

      in, Levantado do Chão, 1980


      Neste excerto de Levantado do Chão, José Saramago apresenta uma reflexão sobre a natureza como uma força imparcial, que privilegia a continuidade da vida acima do destino dos indivíduos. Através da metáfora das formigas, evidencia que a morte faz parte do equilíbrio natural, sendo encarada sem compaixão ou julgamento. O narrador utiliza ironia e linguagem filosófica para questionar a ideia de justiça natural, sugerindo uma crítica indireta às desigualdades e à forma como a sociedade encara a sobrevivência.


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