Berta Piñán - Estações / Estaciones

 


Saio sozinha, a caminhar pela neve,

como quem se esquecesse de viver

por instantes – depois do amor –

ainda tu dormes.

São os derradeiros frios

e eu já sinto, sob a pele tão branca

deste inverno a terminar,

raízes e mais raízes, bolbos

e sementes, multidões famintas

de sol por baixo da terra.


Caminho sozinha sobre a pele tão branca

deste final de inverno

e em cada passo

adianto, sem querer, a primavera.


  Tradução de A.M.


  Original:


Salgo sola a caminar sobre la nieve.

Como quien se hubiera olvidado de vivir

por un instante -después del amor,

tú aún duermes.

Son los últimos fríos y

ya siento, bajo la piel tan blanca

de este invierno que acaba,

generaciones de raíces, bulbos

y semillas, multitudes hambrientas

de sol bajo la tierra.


Camino sola sobre la piel tan blanca

de este final de invierno

y en cada paso

adelanto, sin querer,

la primavera.


      No poema, Berta Piñán utiliza a sucessão das estações do ano como metáfora das transformações da vida e da memória. O tempo natural acompanha as mudanças interiores, revelando perdas, renascimentos e a permanência das recordações. O ciclo das estações sugere que tudo muda sem deixar de conservar vestígios do passado, afirmando uma esperança discreta perante a passagem inevitável do tempo.


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