Cortei-me
num dedo a cozinhar,
depois
esfolei outro a abrir uma garrafa,
hoje
arranhei a perna com um pico da mesinha.
Aí,
pus-me séria
e
convoquei todos os objectos de casa,
para
lhes dizer que me custa muito,
que
morro de pena,
que
tenho o coração numa chaga,
que
sou assim uma ferida a sangrar de tristeza,
que
até respirar me dói por ele me não amar
como
eu o amo.
Enfim,
que não precisam, disse-lhes ainda,
de
mo recordar também eles
cada
dia.
Tradução A.M.
Original:
Me hice un tajo en un dedo cuando cocinaba.
Luego
me despellejé otro dedo al abrir una botella.
Hoy
me he raspado la pierna con el pico de la mesita.
Así
que me he puesto seria:
he
reunido en asamblea a todos los objetos de mi casa
y
les he dicho que ya sé
que
me muero de la pena,
que
tengo el corazón en carne viva,
que
ya sé
que
no soy más que una herida que sangra tristeza,
que
hasta respirar me duele porque él no me ama
como
le amo yo;
en
fin: que no hace ninguna falta, les he dicho,
que
me lo recuerden también ellos
cada
día.
É a segunda vez que publico estes versos. Eu sei porquê, mas
não digo. O poema transforma pequenos incidentes domésticos numa poderosa
metáfora da dor emocional. Os cortes, arranhões e feridas quotidianas refletem
um coração devastado pela perda amorosa, tornando os objetos da casa
testemunhas silenciosas do sofrimento. Com ironia subtil e linguagem simples, a
poeta revela como a tristeza invade os gestos mais banais da vida.

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