Berna Wang - Pequenos acidentes domésticos / Pequeños accidentes caseros

 


Cortei-me num dedo a cozinhar,

depois esfolei outro a abrir uma garrafa,

hoje arranhei a perna com um pico da mesinha.

Aí, pus-me séria

e convoquei todos os objectos de casa,

para lhes dizer que me custa muito,

que morro de pena,

que tenho o coração numa chaga,

que sou assim uma ferida a sangrar de tristeza,

que até respirar me dói por ele me não amar

como eu o amo.

Enfim, que não precisam, disse-lhes ainda,

de mo recordar também eles

cada dia.

 

  Tradução A.M.


  Original:


Me  hice un tajo en un dedo cuando cocinaba.

Luego me despellejé otro dedo al abrir una botella.

Hoy me he raspado la pierna con el pico de la mesita.

Así que me he puesto seria:

he reunido en asamblea a todos los objetos de mi casa

y les he dicho que ya sé

que me muero de la pena,

que tengo el corazón en carne viva,

que ya sé

que no soy más que una herida que sangra tristeza,

que hasta respirar me duele porque él no me ama

como le amo yo;

en fin: que no hace ninguna falta, les he dicho,

que me lo recuerden también ellos

cada día.


      É a segunda vez que publico estes versos. Eu sei porquê, mas não digo. O poema transforma pequenos incidentes domésticos numa poderosa metáfora da dor emocional. Os cortes, arranhões e feridas quotidianas refletem um coração devastado pela perda amorosa, tornando os objetos da casa testemunhas silenciosas do sofrimento. Com ironia subtil e linguagem simples, a poeta revela como a tristeza invade os gestos mais banais da vida.


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