Abelardo Linares - Uma estranha certeza / Una extraña certeza

 


Durante muitos anos, muita vez

me lembrei de ti, ou da tua imagem,

para ser mais exacto, pois daquilo

que em tempos amámos fica-nos só

(tal como de um livro) uma muito vaga

impressão geral e um que outro pormenor.

E muita vez também me perguntei,

procurando na névoa da lembrança

não sei se uma resposta, o que deixaste tu

em mim que seja ainda meu,

e se não foi o amor, o meu amor por ti

e não tu própria, o que me importa ainda

e o que procuro eu ainda ao recordar-te.

Se a nossa vida arde, somos nós chama

ou antes aquilo que se queima e é cinza?

Nessa desmesura que é o tempo

acham sua razão o amor e o esquecimento,

mas não a sua medida. Ao recordar-te,

compreendo-o tão bem, que pouco importa

saber ou não saber, mas tão só

sentir que foste parte de mim mesmo,

que estás dentro de mim, como os meus sonhos,

que são e não são eu, mas em mim nascem,

que já nunca de mim te apagarás,

e que, queira eu ou não queira o esquecimento,

hás-de ir vivendo sempre com a minha vida.

Que estranha sensação, essa certeza.


  Tradução de A.M.


  Original:


Durante muchos años, a menudo

me he acordado de ti, o de tu imagen,

para ser más exacto, pues de aquello

que amamos una vez sólo nos queda

(al igual que de un libro) una muy vaga

impresión general y alguna anécdota.

Y a menudo también me he preguntado,

buscando entre la niebla del recuerdo

no sé si una respuesta, qué dejaste

en mí que sea mío todavía

y si no fue el amor, mi amor por ti

y no tú misma, aquello que aún me importa

y lo que busco aún al recordarte.

Si arde nuestra vida, ¿somos llama

o aquello que se quema y es ceniza?

En esa desmesura que es el tiempo

encuentran su razón amor y olvido,

pero no su medida. Al recordarte,

lo comprendo tan bien, que importa poco

saber o no saber, sino tan sólo

sentir que fuiste parte de mí mismo,

que dentro de mí estás, como mis sueños,

que son y no son yo, pero en mí nacen,

que ya nunca de mí podrás borrarte

y que, quiera o no quiera yo el olvido,

has de seguir viviendo con mi vida.

Qué extraña sensación esa certeza.


      O poema explora a persistência da memória amorosa perante a erosão do tempo. O sujeito poético questiona se o que permanece é a pessoa amada ou o próprio sentimento vivido, concluindo que ambos se fundem na identidade. A oposição entre chama e cinza simboliza transformação e perda. Com linguagem sóbria, meditativa e intimista, o poema revela que certas presenças sobrevivem ao esquecimento, tornando-se parte indelével do ser.


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