Gioconda Belli - Culpas obsoletas

 


Como será, pergunto eu,

não sentir continuamente que devíamos

ocupar vários espaços ao mesmo tempo?

Não pensar, enquanto nos deitamos com um livro,

que devíamos estar a fazer outra coisa?

Assumir, como os homens fazem,

a importância do tempo

que dedicamos ao nosso enriquecimento.


Nós, mulheres,

sentimos sempre

que estamos a roubar o tempo a alguém.

Que talvez nesse preciso instante

alguém nos reclama e

não pode contar connosco.

Precisamos de muito treino

para não nos apagarmos, constantemente,

para não nos minimizarmos.


Ah! Mulheres, companheiras!

Quando é que nos convenceremos

de que aquele gesto

de oferecer a maçã a Adão

foi muito sábio?


Tradução de A.M.


Original:


Cómo será, me pregunto,

no sentir incesantemente

que uno debería ocupar varios espacios al mismo tiempo?

No pensar, mientras se tumba uno con un libro,

que se debería estar haciendo otra cosa.

Asumir, como hacen los hombres,

la importancia del tiempo

que dedicamos al propio enriquecimiento.


Las mujeres

tenazmente sentimos

que le estamos robando tiempo a alguien.

Que quizás en ese preciso instante

se nos requiere

y no se cuenta con nosotras.

Precisamos

todo un entrenamiento

para no borrarnos, minimizarnos,

constantemente.


¡Ah! ¡Mujeres, compañeras mías!

¿Cuándo nos convenceremos

de que fue sabio el gesto

de extenderle a Adán

la manzana?


      O poema denuncia a culpa persistente que muitas mulheres sentem ao dedicar tempo a si próprias. A autora critica as expectativas sociais que impõem disponibilidade constante e desvalorizam o crescimento pessoal feminino. A referência final à maçã de Eva reinterpreta o mito bíblico como símbolo de emancipação e conhecimento. Assim, o poema desafia estereótipos de género e apela à libertação das culpas impostas pela tradição patriarcal.


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