Hoje
falais outra língua,
ó
lírios despenteados à chuva,
prendeis-me
convosco,
como
se eu me visse num espelho.
Mas
tenho de vos deixar,
puxam-me
logo agora
que
eu acabo de me encontrar
-
pequenina, pura -
no
meio das vossas corolas.
Vou
fechar os olhos
-
não me apaguem a imagem -
e
vou-me sem vos olhar outra vez.
Ai,
quando vos voltar a ver
saberei
eu perceber a vossa linguagem
que
por um instante rasgou minha treva,
ó
lírios despenteados pela chuva?
Tradução de A.M.
Original:
Hoy
habláis otra lengua,
lirios
que os despeináis bajo la lluvia.
Me
apresáis con vosotros
igual
que si me viera en un espejo.
Y
tengo que dejaros.
Tiran
de mí precisamente ahora
que
acabo de encontrarme
-pequeña,
pura-
entre
vuestras corolas.
Voy
a cerrar los ojos,
-no
deshagan la imagen.
Y me
iré sin miraros otra vez.
Ay!
Cuando vuelva a veros
¿sabré
ya comprender este lenguaje vuestro
que
un minuto ha rasgado mi tiniebla
oh
lirios despeinados por la lluvia?
O poema explora o instante fugaz da revelação interior. A
imagem do clarão sugere uma iluminação súbita, breve mas transformadora, capaz
de romper a rotina e expor emoções escondidas. Olhar os lírios! O contraste entre luz e sombra
reforça a tensão entre conhecimento e incerteza, característica central da
escrita de Martín Gaite e da condição humana contemporânea.

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