Carmen Martín Gaite - Clarão / Destello

 


Hoje falais outra língua,

ó lírios despenteados à chuva,

prendeis-me convosco,

como se eu me visse num espelho.

Mas tenho de vos deixar,

puxam-me logo agora

que eu acabo de me encontrar

- pequenina, pura -

no meio das vossas corolas.

Vou fechar os olhos

- não me apaguem a imagem -

e vou-me sem vos olhar outra vez.

Ai, quando vos voltar a ver

saberei eu perceber a vossa linguagem

que por um instante rasgou minha treva,

ó lírios despenteados pela chuva?


 Tradução de A.M.


  Original:


Hoy habláis otra lengua,

lirios que os despeináis bajo la lluvia.

Me apresáis con vosotros

igual que si me viera en un espejo.

Y tengo que dejaros.

Tiran de mí precisamente ahora

que acabo de encontrarme

-pequeña, pura-

entre vuestras corolas.

Voy a cerrar los ojos,

-no deshagan la imagen.

Y me iré sin miraros otra vez.

Ay! Cuando vuelva a veros

¿sabré ya comprender este lenguaje vuestro

que un minuto ha rasgado mi tiniebla

oh lirios despeinados por la lluvia?


      O poema explora o instante fugaz da revelação interior. A imagem do clarão sugere uma iluminação súbita, breve mas transformadora, capaz de romper a rotina e expor emoções escondidas. Olhar os lírios! O contraste entre luz e sombra reforça a tensão entre conhecimento e incerteza, característica central da escrita de Martín Gaite e da condição humana contemporânea.


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