Maria do Rosário Pedreira - Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia

 


          

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou

há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —


a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos


agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,


meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,

de guarda aos pesadelos — a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.


    in, O canto no vento dos ciprestes, 2001


      No poema, Maria do Rosário Pedreira constrói uma atmosfera íntima e melancólica, onde o fim do dia simboliza também a passagem do tempo e a fragilidade da vida. O eu lírico procura consolar, sugerindo refúgio no amor e no descanso. Há uma tensão entre a dureza do mundo exterior e a ternura do espaço privado, valorizando o afeto como forma de resistência.


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