Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia o que me
presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam naquele lugar
esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma rapadura do
mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava do rio igual aos
outros.
A mãe prometeu que no aniversário do meu irmão
Ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera ao meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore do meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore deu flores
lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava piraputanga.
Era verdade, mas o que nos unia demais eram os banhos nus no
rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!
O poema (tão belo!) valoriza a imaginação infantil e a relação íntima com
a natureza. O "ganhar um rio" simboliza liberdade, riqueza subjetiva e
criatividade, em contraste com valores materiais. O rio torna-se extensão do
menino, sugerindo pertença e fusão com o mundo natural, característica marcante
da obra do autor.
Sem comentários:
Enviar um comentário