Depois de lhe mandar mais de cem poemas
ela escreve-me e diz-me que não são aqueles os poemas que
quer
que não são as certas, as palavras, nem são exatas.
Diz-me que a palavra exata nasce no vale
escala montanhas, eleva-se
e o seu eco chega até ao mar.
Que a palavra exata desce às praias
sobe marés, alcança os barcos e condu-los a porto
desata os nós, amordaça sereias
e os piratas rindo não param de brindar.
Que a palavra exata se ergue aos céus
apanha furacões, acalma tormentas
mas segue a chuva a descer até ao chão.
Que a palavra exata rega os campos
alimenta a terra e adoça os frutos.
Que a palavra exata no coração dos homens
é a luz que prende e aquece as almas,
que é o antídoto da certa solidão,
que abriga os corpos, que eleva o poema, que seca a lágrima
e põe a pedra à vista para se não tropeçar.
Que a palavra exata é o canteiro de espargos onde jaz o meu
pai.
Que a palavra exata são as cinzas dele adubando o bosque.
Que a palavra exata mantém a lembrança e aviva a chama
e faz-me novamente menino brincando a seus pés.
Que a palavra exata nos dá a mão e nos leva.
Que com carícias nos prende e nos tira os medos,
que nos alenta para o caminho
e nos reconcilia para olharmos para trás.
Escreve-me e diz-me que os poemas que lhe envio
não são aqueles que ela quer.
Que não são os certos os versos que não a fazem voar.
Que ela ama apenas a palavra exata.
E eu arranco os cabelos, levanto o asfalto
incendeio colégios, desnudo ruas e praças
arraso os parques, estripo o passado
em busca de versos que a façam estremecer.
E eu atravesso a insónia à procura da chave.
E eu endoideço à caça da palavra exata
que lhe faça saber que ninguém a amará nunca
como eu comecei a amá-la já.
(Trad. A.M.)
O poema explora a busca rigorosa da expressão exata,
revelando a tensão entre amor e linguagem. Sabemos bem que ambos são imperfeitos,
mas exigem tudo a quem ama e a quem escreve.

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