Cysko Muñoz - La Palabra precisa

 


Depois de lhe mandar mais de cem poemas

ela escreve-me e diz-me que não são aqueles os poemas que quer

que não são as certas, as palavras, nem são exatas.


Diz-me que a palavra exata nasce no vale

escala montanhas, eleva-se

e o seu eco chega até ao mar.


Que a palavra exata desce às praias

sobe marés, alcança os barcos e condu-los a porto

desata os nós, amordaça sereias

e os piratas rindo não param de brindar.


Que a palavra exata se ergue aos céus

apanha furacões, acalma tormentas

mas segue a chuva a descer até ao chão.

Que a palavra exata rega os campos

alimenta a terra e adoça os frutos.


Que a palavra exata no coração dos homens

é a luz que prende e aquece as almas,

que é o antídoto da certa solidão,

que abriga os corpos, que eleva o poema, que seca a lágrima

e põe a pedra à vista para se não tropeçar.


Que a palavra exata é o canteiro de espargos onde jaz o meu pai.

Que a palavra exata são as cinzas dele adubando o bosque.

Que a palavra exata mantém a lembrança e aviva a chama

e faz-me novamente menino brincando a seus pés.


Que a palavra exata nos dá a mão e nos leva.

Que com carícias nos prende e nos tira os medos,

que nos alenta para o caminho

e nos reconcilia para olharmos para trás.


Escreve-me e diz-me que os poemas que lhe envio

não são aqueles que ela quer.

Que não são os certos os versos que não a fazem voar.

Que ela ama apenas a palavra exata.


E eu arranco os cabelos, levanto o asfalto

incendeio colégios, desnudo ruas e praças

arraso os parques, estripo o passado

em busca de versos que a façam estremecer.


E eu atravesso a insónia à procura da chave.

E eu endoideço à caça da palavra exata

que lhe faça saber que ninguém a amará nunca

como eu comecei a amá-la já.


(Trad. A.M.)


      O poema explora a busca rigorosa da expressão exata, revelando a tensão entre amor e linguagem. Sabemos bem que ambos são imperfeitos, mas exigem tudo a quem ama e a quem escreve.  

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