Eugénio de Andrade

 


Há um lugar na mesa onde a luz

abdicou do seu ofício.

Já foi do sol

e do trigo esse lugar - agora

por mais que escutes, não voltarás

a ouvir a voz de quem,

há muitos anos, era a delicadeza

da terra a falar: "Não sujes

a toalha"; "Não comes a maçã?"

Também já não há quem se debruce

na janela para sentir

o corpo atravessado pela manhã.

Talvez só um ou outro verso

consiga juntar no seu ritmo

luz, voz, maçã.


Sem comentários:

Arquivo do blogue