Diogo Vaz Pinto - Guardei o recibo

 


Guardei o recibo, que não serve para nada.

Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6,35

- pediste uma água mineral, um café

e uma sandes de ovo (em que não tocaste);

pagámos caro por estarmos ali os dois,

na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira

só para dizer uma palavra. Tudo

processado por computador, IVA incluído.

Uma operação que teve início precisamente

às 04.55 da madrugada. Agora

temos muito tempo para nos contentarmos

por já não termos que disputar as contas,

tu pagas os teus cafés, e eu sem ti

passo bem sem café.

 

      A pulp poetry moderna, da qual Leonard Cohen aconselhava há alguns anos atrás na canção Field Commander Cohen: "Leave it all and like a man, come back to nothing special, such as waiting rooms and ticket lines, silver bullet suicides, and messianic ocean tides, and racial roller-coaster rides and other forms of boredom advertised as poetry." Se a poesia de cordel criar beleza, mesmo por pouco tempo, que viva até morrer.


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