Cecília Meireles - Viagem

 


Meus olhos eram mesmo água,

— te juro —

mexendo um brilho vidrado,

verde-claro, verde-escuro.


Fiz barquinhos de brinquedo,

— te juro —

fui botando todos eles

naquele rio tão puro.


Veio vindo a ventania,

— te juro —

as águas mudam seu brilho,

quando o tempo anda inseguro.


Quando as águas escurecem,

— te juro —

todos os barcos se perdem,

entre o passado e o futuro.


São dois rios os meus olhos,

— te juro —

noite e dia correm, correm,

mas não acho o que procuro.


      O poema apresenta uma reflexão lírica sobre o percurso interior e espiritual do ser humano. A viagem sugerida não é apenas física, mas simbólica, marcada pela busca de sentido, pela solidão e pela transitoriedade da vida. Com linguagem musical, delicada e introspetiva, o eu lírico percorre paisagens que refletem estados da alma. O tempo surge como elemento fluido, e a existência revela-se efémera.


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