Carolina Adormecida - Gaiteiros de Bravães



À varanda, a Carolina

Espreita o vale que a viu crescer

Pode ser a mesma colina

Mas não é o mesmo viver

Medram casas, mingam* pessoas

Estão sem fumo as chaminés

Moram em Franças e Lisboas

Outras Carolinas e Zés.


Diz que no seu tempo é que era

Era a Era da alegria

Não lembra a fome que tivera

Nem o trabalho que a feria

Corre o rio do esquecimento

Jaz a velha barca no fundo

Vai vendendo o seu pensamento

A quem a desliga do mundo.


Vai crescendo o mato na eira

Já ninguém a chama ao portão

Trocou o banco da lareira

Pelo sofá da televisão

Arde a mata e o arvoredo

Já não chora a carpideira

Passa o dia a passar o dedo

No ecrã que traz na algibeira.


No terreiro já nasce a erva

No carreiro só passa o cão

No sofá, a Deusa Minerva

Dorme de algoritmo na mão

Vai gostando de quem lhe mente

Assistindo ao que está a dar

Vai culpando quem é diferente

Evocando São Salazar.


Vai crescendo o mato na eira...


Dorme dorme Carolina que o messias logo vem

Foi lavar botas cardadas à ribeirinha de além.


Acorda Carolina! A liberdade não espera!

Toca o corno, corre o entrudo, sem ti não há primavera!


      "Em Bravães, freguesia do concelho de Ponte da Barca, a história continua a escrever-se com o som do sino, o cheiro do alecrim e a vontade firme de manter vivas as tradições. A romaria de São Gregório, a bênção dos instrumentos musicais, as gaitas de foles e os ensaios improvisados no átrio da antiga escola fazem parte de um calendário afetivo onde fé, cultura e comunidade se cruzam. Entre os que sempre cá estiveram e os que escolheram ficar, há um lugar que se renova sem se esquecer de quem é."


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