Antonio Deltoro - Domingo

 


Sinto-me só como um dedo a que faltasse a mão.

O domingo é um híbrido, um animal

com pés de sábado e cabeça de segunda,

terra de ninguém que respira tédio, comidas familiares.

É um jogo de cartas onde não se arrisca,

música em surdina, pausa.

O domingo é anacrónico, corre devagar, por medo do abismo,

do infarto de segunda, do inferno:

ao domingo os audazes jogam mais do que a semana.

O domingo é um dia por decreto, um falso dia.

O domingo amanhece tarde e anoitece cedo,

é um crepúsculo precoce, entre paredes,

 

pesado.


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