Ana Blandiana - Humildade

 


Nada posso fazer para que o dia

não tenha vinte e quatro horas.

Apenas posso dizer:

perdoa-me pela duração do dia.

Também não posso impedir

o voo das borboletas a partir das larvas.

Apenas posso implorar o teu perdão,

pelo voo das borboletas, pelas larvas,

perdoa-me pelas flores que se transformam em frutos

e os frutos em sementes e as sementes em árvores.

Perdoa-me pelos mananciais

que se convertem em rios e os rios

em mares e os mares em oceanos.

Perdoa-me pelos amores

que se transformam em recém-nascidos

e os recém-nascidos em solidões

e as solidões em amores...

Nada posso impedir.

Tudo segue o seu destino e nunca me pergunta nada.

Nem o último grão de areia, nem sequer o meu sangue.

Apenas posso dizer: perdoa-me.

 

      A culpa é nossa quando não temos culpa nenhuma? Se o destino existe, não existe responsabilidade. Será que perante Deus, o homem participa menos do que deve na criação? Não entendo o poema.


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